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A-24

Barcelona e o fim de um reinado

por A-24, em 25.04.12
Fernando Torres recebe a bola no meio-campo e corre isolado para a baliza, passa por Valdés e marca o golo que confirma o Chelsea na final. Há uns meses esta frase dava uma boa anedota. Chelsea a eliminar o Barcelona nas meias-finais da Liga dos Campeões? Impossível. Torres a pôr a cereja no topo do bolo? Inventem outra, que essa não pega. Mas tudo isto é verdade. A equipa das revoluções de balneário contra o treinador ultrapassou a equipa do respeito total pelas ideias do mestre. E ainda vingou a meia-final de 2009.
A máquina do tempo pegou em parte do Inter de 2010 e trouxe-o de volta a Camp Nou. Nela veio um cartão vermelho, que há dois anos foi para Motta (aos 28’) e desta vez acabou à vista de Terry (37’, por agressão a Alexis). Em ambos os casos seria à partida uma condenação a um fracasso que não se confirmou. Em 2010, José Mourinho transformou Samuel Eto’o e Diego Milito em escravos da defesa. Di Matteo fez o mesmo com Drogba, que passou mais de metade do jogo a fazer de lateral esquerdo e direito. O Chelsea perdeu Terry, mas também ficou sem Cahill (lesionado, aos 12’). Sem centrais no banco, o treinador improvisou: Ivanovic e Bosingwa no meio, Ramires à direita.
Parecia impossível resistir. O Barcelona já tinha marcado um golo, na primeira vez que a defesa dos blues ficou descompensada. Cuenca cruzou atrasado e Busquets apareceu a rematar (35’). Oito minutos depois já havia 2-0: Messi assistiu Iniesta e o médio fez o mais fácil, desviar de Cech. Depois apareceu a primeira surpresa, quando Ramires – o lateral – puxou da arte para fazer um chapéu a Valdés. Pela segunda vez na eliminatória, o Barcelona sofria um golo nos descontos da primeira parte. O mesmo é dizer que a equipa de Guardiola tinha 45 minutos para marcar o que faltava: mais um golo.
Não foi isso que aconteceu. Como o Inter, em 2010, o Chelsea cerrou os dentes e lutou com dez jogadores encostados à área. Quando a defesa cedia estava lá Petr Cech para defender. Quando Cech não conseguia fazer mais nada estava lá o poste. Logo no início da segunda parte, Drogba fez falta sobre Fàbregas. O penálti resolvia todos os problemas, mas criou um ainda maior. Messi, que em oito jogos não marcou um golo ao Chelsea, atirou à barra. Falhou a melhor oportunidade para apurar o Barça e perdeu a alegria que lhe restava. Ficou com um ar perdido, derrotado. Aos 83 minutos rematou à entrada da área e viu a bola bater na base do poste, depois de um ligeiríssimo desvio de Cech.
Sem alternativas ao argentino – falta um David Villa, um Eto’o para partilhar a responsabilidade dos golos – os catalães esgotaram as ideias. Tinha sido assim no sábado, com o Real Madrid, também em Camp Nou. Mas o pior estava para vir. O golpe fatal, outra vez nos descontos, através de um dos homens mais odiados do futebol. Torres entrou para jogar numa espécie de médio-defensivo e acabou por receber a bola a meio-campo só com Valdés pela frente.
O golo deu o empate no jogo, a vitória certa na eliminatória. Significou uma reviravolta no mundo do futebol. Messi, o adorado, fracassou. Torres, o detestado, triunfou. E festejou como quem pede desculpa por uma maldade. Roman Abramovich é perito em gastar fortunas com treinadores, que colecciona como brinquedos. Mas na verdade o Chelsea chega à final da Liga dos Campeões nas duas épocas em que mudou de técnico principal: em 2007/08 passou de José Mourinho e Avram Grant; agora foi de André Villas-Boas a Di Matteo. Em Munique não vai ter Terry, Ramires, Meireles nem Ivanovic – todos castigados.
Das 55 equipas que já defrontou na era Guardiola, o Barcelona só não ganhou ao Chelsea. Agora vive o pior momento desde que Pep é treinador. Em quatro dias perdeu a Liga e a Liga dos Campeões. E no fim da época ainda pode ficar sem o treinador. O futebol está a mudar.
Jornal I