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A-24

As origens da nacionalidade

por A-24, em 19.08.13
crónica de Alberto Gonçalves no DN
 
Lembram-se de Raquel Varela, a personalidade celebrizada numa emissão do Prós e Contras após ter sofrido um banho de economia básica a cargo de um adolescente? Ao que parece, os 15 minutos de fama terminaram, pelo que a senhora regressou à obscuridade do blogue subsidiário do PCP (5dias.wordpress.com) onde desabafa para consolo de cerca de duzentos e trinta devotos. O lado mau é os delírios da dr.ª Raquel estarem limitados a tão poucos. O lado óptimo é os delírios continuarem intactos e impermeáveis à realidade.

Ainda há dias, a dr.ª Raquel amanhou um pequeno texto sobre o que parece constituir o seu assunto de eleição: a juventude. O ponto de partida nem é abstruso de todo, já que a dr.ª Raquel acha os jovens (no caso entre os 16 e os 25 anos) do nosso tempo “incultos, ignorantes”, que vegetam “em frente ao computador” e vivem “no estado animal de comer, dormir e ler dois parágrafos no Facebook”.
Abstrusa e, convenhamos, hilariante é a alternativa proposta. Uma pessoa normal consideraria que a mocidade actual genericamente carece de um ensino mais exigente, de um módico de autonomia, de noções de responsabilidade, de ambições profissionais, de expectativas adequadas ao mundo contemporâneo e de alguma curiosidade face ao mesmo. A dr.ª Raquel não. Para ela, o que faz falta aos jovens é seguirem o exemplo que a dr.ª Raquel supõe ser o dos respectivos antepassados e provocarem baderna pública. Um só parágrafo representa todo um programa (de humor): “Ser empreendedor era começar por tirarem um curso de memória histórica de organização com os pais, outro de política e cultura com os avós, e virem para a rua e tornar esta política ingovernável.”
Quando terminarem de rir, convirá notar que a dr.ª Raquel se esqueceu, talvez deliberadamente, dos jovens cujos progenitores não possuem no currículo a militância comunista ou em grupelhos afins e preferiram menos totalitárias. Mas isso é irrelevante: desde que os restantes saiam de casa aos berros ou decididos a partir o que os rodeia, a dr.ª Raquel ficará realizada e o País resolvido – pelo menos na opinião dela, que se confessa estudiosa dos movimentos sociais.
Trata-se, evidentemente, de um problema de deformação profissional. Se a dr.ª Raquel fosse ornitóloga, incentivaria a juventude a empoleirar-se nos galhos das árvores. Sendo especialista em revoluções, não descansa enquanto não assistir a uma, sobretudo das que derrubam democracias. Esperemos que tenha azar: antes vegetais que criminosos.