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A-24

Ao Sul (sobre a Sicília)

por A-24, em 19.09.12
Chamam-lhe o celeiro de Itália. A terra, vulcânica e generosa, oferece um extenso catálogo de produtos agrícolas, desde os mui celebrados citrinos, produto base da agricultura da Sicília (62% da produção italiana está na Sicília), aos pistácios, usados, como um toque de graça oriental, na assombrosa gastronomia siciliana. O mar, não tendo a riqueza do Atlântico, também não é avaro. O clima só peca por ser excessivamente quente no Verão e o turismo responde em massa a um sol ubíquo que convida à indolência. Então, por que razão é a Sicília tão pobre? Não vou avançar sentenças finais. Mas os 26000 guardas-florestais, número lançado recentemente pelo NY Times, talvez sejam um princípio de explicação plausível, tal como os jardineiros sem jardim da Grécia e todos os empregos nacionalizados de Portugal e de Espanha que mais tarde ou mais cedo serão alvo da atenção internacional. E se este exército de guardas já parece absurdo para uma ilha do tamanho do Alentejo, com mais surpresa o vemos se conhecermos a paisagem da ilha. Goethe já o havia notado há cerca de 230 anos, quando cruzou o território, desde Palermo até Messina, e quem chega à Catânia num avião pode confirmar (pelo menos no lado oriental da ilha): grande parte da Sicília foi desflorestada para a agricultura. Se um cenário com 26000 guardas-florestais é trágico, um cenário com 26000 guardas-florestais e sem árvores já é do domínio da comédia. Juntemos-lhe um universo mediterrânico a apontar o dedo e a responsabilizar Merkel, o neoliberalismo, e o conde Drácula pela decadência da sua dolce vita, e temos aquilo a que se chama uma bela palhaçada.

Carlos M. Fernandes in O Insurgente