Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A-24

Análise: Suecos descobrem o "medo do outro"

por A-24, em 22.09.11
Foi a vez da Suécia. A onda xenófoba que inunda a Europa, de Leste a Oeste, atingiu o país-modelo da Escandinávia, laboratório do "Estado social europeu". Nas eleições de domingo, o partido Democratas Suecos (SD) alcançou 5,7 por cento dos votos e entrou pela primeira vez no Parlamento.
Dirigido por Jimmie Akesson, de 31 anos, o SD centrou a campanha na denúncia da imigração como factor de risco para a identidade nacional e fonte de criminalidade. Depois de ter tentado dar alguma respeitabilidade ao partido, acabou a mobilizar o núcleo duro dos militantes apresentando o islão como "a maior ameaça estrangeira à Suécia desde a II Guerra Mundial". O diário sueco Dagens Nyehter desenha o retrato-robot do seu eleitor: "Jovem, masculino, trabalhador manual, residente no Sul do país, onde a pressão estrangeira é mais forte. Muita desta gente votava social-democrata até estas eleições. Hoje, descobre o medo do outro."

Síndrome de Estocolmo


Estas eleições têm um duplo significado: a irrupção xenófoba e aquilo que a Economist definiu como "a estranha morte da social-democracia sueca".
O Partido Social-Democrata, que após 1932 governou a Suécia durante 65 anos, teve a pior votação desde 1914, com 30,8 por cento dos votos. É ainda o maior partido, mas dá sinais de declínio e falta de ideias. "Os sociais-democratas deixaram de simbolizar o modelo sueco. Perderam a magia e já não sabem como escrever a história do modelo", diz à AFP o politólogo Stig-Björn Ljunggren. Quando os analistas definem estas eleições como "o fim de uma época", assinalam sobretudo o ocaso da social-democracia sueca, com evidentes reflexos na social-democracia europeia.
A coligação do centro-direita, Aliança para a Suécia, do primeiro-ministro Fredrik Reinfeldt, ficou nos 49 por cento, o que significará a perda da maioria absoluta. Mas, faltando contar os votos por correspondência, nenhum cenário pode ser excluído.
Reinfeldt manter-se-á no poder. Se tiver de formar um Governo minoritário, fará recair sobre a oposição o ónus da estabilidade, impondo-lhe acordos pontuais. "Com um partido xenófobo no Parlamento, é necessário ser aberto a negociações transideológicas", escreve em editorial o Dagens Nyheter.
Não se repetirá em Estocolmo o exemplo dinamarquês, em que um executivo minoritário da direita liberal é sustentado pela extrema-direita xenófoba, que passou a condicionar a agenda governamental.
Mas a perspectiva de estabilidade política não reduz o impacto da ascensão do SD, qualificada como "um terramoto". Bem pelo contrário, pois, no caso sueco, não há o álibi da crise económica. Ainda há um ano em recessão, como efeito da crise internacional, é hoje a economia que mais fortemente cresce na Europa Ocidental.
Eleito em 2006, o Governo Reinfeldt lançou uma reforma eficaz do "Estado social". Reduziu algumas prestações consideradas excessivas e impôs um maior controlo dos abusos, assegurando a sustentabilidade do modelo de protecção social, que continua a ser um dos mais generosos e eficazes do mundo. Reduziu a a pressão fiscal sobre os trabalhadores. Fez algumas privatizações. O PIB deverá crescer 4,5 por cento este ano e o desemprego, na casa dos oito por cento, começa a diminuir.
O factor imigração parece jogar em estado puro. Os estrangeiros representam hoje 14 por cento da população total, número-recorde na Europa. A imigração decorre mais do asilo do que de razões económicas. Na cidade industrial de Södertälge - a da Scania e da Astra-Zeneca - onde o SD teve uma das maiores votações, os estrangeiros representam 44 por cento dos habitantes. Houve sucessivas vagas: primeiro turcos e sírios, depois bósnios, a seguir iraquianos, afegãos ou somalis, ao sabor das crises e guerras.
No caso dos refugiados, o Estado assegura um subsídio, alojamento e protecção social. Uma parte da opinião pública acusa os imigrantes de não se integrarem e ameaçarem a prosperidade sueca.
Esta atitude não é um fenómeno novo na Suécia. Em 1991, com uma percentagem muito mais baixa de imigrantes, o fantasma do "estrangeiro" permitiu o sucesso efémero de um partido xenófobo, a Nova Democracia.