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A-24

Ainda o Marquês de Sade

por A-24, em 04.08.11
Várias pessoas, alguma intelectualidade de esquerda incluída, admiram o Marquês de Sade. Provavelmente, ou não conhecem a história toda, ou não se deram ao trabalho de analisar as reais implicações das ‘propostas’ por ele apresentadas.
Nascido em 1740, ainda no período do Antigo Regime, viveu na França da Revolução (1789); assistiu ao período do Terror, ao consulado napoleónico e ainda à restauração do Império. Foi preso pela primeira vez em 1767; mais tarde, entre 1778 e 1789, conheceu um longo encarceramento. Acabou por morrer em 1814, internado num asilo. As acusações que sob ele impenderam foram sobretudo ligadas a crimes de natureza sexual, mas também a rapto, escrita pornográfica e ainda ao não pagamento de dívidas. As suas vítimas mais frequentes, empregadas domésticas, prostitutas e atrizes, eram ‘subornadas’ ou de alguma maneira atraídas com promessas de recompensas futuras.

O facto de ter pago um preço muito alto pelo tipo de vida que escolheu e de ter denunciado com veemência a hipocrisia dos costumes - para ele, a virtude não tem nada de admirável porque não passa de uma fachada, é pura hipocrisia - conferiu-lhe uma aura de herói e de incompreendido.
Ademais, Sade não reduz a sexualidade à reprodução o que também soa bem às mentalidades mais desempoeiradas e permitiu a Simone de Beauvoir chamar a tenção para o facto de que para ele: «a sexualidade não é uma questão biológica mas um facto social».

A sua insistência nos mandatos da natureza, na força dos instintos e a denúncia da repressão à vida sexual a pretexto de propósitos civilizacionais prenunciam Freud. Sade critica na civilização a repressão do instinto sexual que considera perniciosa para o ser humano e por isso advoga a liberdade, ou como se dizia na altura o libertinismo, como compensação para contrabalançar essa opressão; defende a luta contra a repressão do instinto; proibir para ele é sempre um ato que, estando sob suspeição, não é natural.
Até aqui tudo muito bonito mas, bem, há sempre um mas e neste caso ele é francamente adversativo. Embora Sade tenha justificado os seus escritos e a sua vida em nome da liberdade, se lermos o que escreveu, verificamos que a liberdade de que ele fala é a do homem que exerce o seu poder discricionário, e mesmo torcionário, sobre a mulher. Afinal, cooptando o conceito de liberdade, ele acabou por se transformar num representante do sistema patriarcal que foi sempre opressor das mulheres; as suas detenções apenas ocorreram porque ele levou demasiado longe o modelo e retirou a cortina de hipocrisia que era fundamental à subsistência do sistema. É que mesmo a opressão, para ser suportável, não pode revestir a brutalidade que o Marquês reverenciava.

Numa perspetiva mais ampla, podemos reconhecer que a liberdade que Sade defendia só podia existir a expensas da liberdade dos outros, era a opressão dos outros. Sade insurgia-se frequentemente contra a universalidade dos princípios éticos abstratos que, em sua opinião, abafam o indivíduo e não lhe permitem realizar-se. Mas Simone de Beauvoir, na análise que nos deixou, mostra que é precisamente em nome do indivíduo que se pode criticar Sade, porque o indivíduo que se afirma, afirma-se sobre outros indivíduos aos quais pode provocar reais danos, não pode pois fazê-lo de qualquer maneira, sem admitir para si mesmo certos limites.
(Fonte)