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A-24

A rica tradição islâmica da tolerância

por A-24, em 20.12.12
"Foi em 711 que atravessaram o estreito de Gibraltar, desembarcaram na catolicíssima Península Ibérica, se apoderaram de Portugal e de Espanha onde, não obstante os Pelayo e os Cid Campeador e os vários soberanos empenhados na Reconquista, permaneceram por mais de oito séculos. E quem acredita no mito da 'convivência pacífica' que, segundo os colaboracionistas, caracterizava as relações entre conquistados e conquistadores, faria bem se relesse as histórias dos conventos e dos mosteiros incendiados, das igrejas profanadas, das monjas estupradas, das mulheres cristãs ou judias raptadas para serem fechadas nos haréns. Faria bem se reflectisse nas crucifixões de Córdova, nos enforcamentos de Granada, nas decapitações de Toledo e de Barcelona, de Sevilha e de Zamora. (As de Sevilha, ordenadas por Mutamid, o rei que ornamentava os jardins do palácio com as cabeças cortadas. As de Zamora, por Almançor, o vizir definido como o-mecenas-dos-filósofos, o maior-líder-que-a-Espanha-Islâmica-jamais-produziu.) Jesus! Bastava invocar o nome de Jesus ou Nossa Senhora para ser imediatamente justiçado. Mais exactamente, crucificado ou decapitado ou enforcado. E, às vezes, enfiado num pau. Quem tocasse os sinos, idem. Se vestisse de verde, a cor do islão, idem. E, à passagem de um muçulmano, os cães-infiéis deviam afastar-se e inclinar-se. Se o muçulmano os agredia ou os insultava, não podiam revoltar-se. Quanto ao pormenor de os cães infiéis não serem obrigados a converter-se ao islão, sabes ao que se devia? Ao facto de os convertidos não terem de pagar impostos. Mas os cães-infiéis, sim.
Em 721, passaram da Espanha à não menos católica França. Guiados por Abd al-Rahman, o governador da Andaluzia, ultrapassaram os Pirenéus, tomaram Narbonne. Aí massacraram toda a população masculina, escravizaram todas as mulheres e todas as crianças e, depois, prosseguiram para Carcassone. De Carcassone passaram a Nîmes, onde chacinaram monjas e frades. De Nîmes passaram a Lião e a Dijão, onde arrasaram todas as igrejas." 

Oriana Fallaci, A força da Razão,trad. de António Maia da Rocha, Difel, 2004