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A-24

"A minha vida em Moscovo"

por A-24, em 07.10.10
Autorizado a comer no refeitório do Kremlin, Álvaro Cunhal, o «marxista de cristal», teve um tratamento de VIP na capital soviética - desde os 500 rublos mensais até ao apartamento no n" 5 da Vorobyovskaya Shossé. Uma visita guiada ao passado, no dia em que o velho líder completa 81 anos

Paula Serra / VISÃO nº 86 10 Nov. 1994
«Sobre o pedido da direcção do PCP: satisfazer o pedido do secretário-geral do PCP, camarada Álvaro Cunhal, e encarregar o Comité Executivo do Soviete de Moscovo de pôr à disposição da Direcção de Manutenção do Comité Central do PCUS, na zona de Vorobyovskaya Shossé, no primeiro trimestre de 1965, um apartamento de quatro assoalhadas. Encarregar a Direcção de Manutenção do PCUS de mobilar o apartamento de A. Cunhal. Extracto do protocolo n.° 107 da reunião do Secretariado de 7 de Dezembro de 1964.» Com este texto, elaborado pelo Secretariado do Comité Central do PCUS (Partido Comunista da União Soviética) e lavrado em documento oficial, o secretário-geral do PCP, Álvaro Cunhal, então no exílio, instalava-se numa zona residencial moscovita, no sudoeste da cidade, a 20 minutos do Kremlin. Próximo da antiga residência do dirigente histórico dos comunistas portugueses ergue-se o Estádio Luzhniki, um dos mais importantes de Moscovo.
É uma zona tranquila mas impessoal, de blocos habitacionais bem ordenados, enquadrados por arruamentos arborizados.
Quando viveu no apartamento situado no prédio n.° 5 da Vorobyovskaya Shossé — bem situado nesta espécie de «Telheiras russa» — Cunhal não chegou a conhecer a estátua gigante do primeiro cosmonauta, Yuri Gagarine, que hoje domina o local.
A abertura à investigação do Centro de . Conservação de Documentação Histórica do PCUS — relativa ao período entre 1953 e 1991 — permite à VISÃO revelar pormenores inéditos da passagem de Cunhal pela capital russa e aspectos desconhecidos, até, da maioria dos seus camaradas de partido. Graças a um tratamento concedido apenas a raros dirigentes do movimento comunista internacional, o líder português gozou, durante a sua permanência, nos anos 60, na antiga União Soviética, de privilégios postos somente à disposição dos mais destacados membros do Comité Central do PCUS. A investigação efectuada em Moscovo permite-nos perceber melhor o estatuto de excepção concedido a Cunhal, o seu prestígio junto dos dirigentes soviéticos e o lugar dominante de Portugal entre as preocupações da URSS.

Mesada

Álvaro Cunhal, que completa hoje, 10 de Novembro, 81 anos, estava já em Moscovo em 1961, logo após a espectacular fuga do forte de Peniche, mas não permanecia muito tempo no mesmo lugar.
Nesse tempo deslocava-se com frequência à Roménia e à Checoslováquia. Nos últimos anos da clandestinidade, o dirigente comunista viveu também em Paris, tendo regressado a Portugal a 30 de Abril de 1974, cinco dias após a Revolução dos Cravos.
Por decisão do Secretariado do Comité Central do PCUS, Álvaro Cunhal já recebia mensalidades de 500 rublos em 1961, o equivalente, na altura, a pelo menos quatro salários médios. Na mesma época, Francisco Miguel e Margarida Tengarrinha, também membros do Comité Central do PCP, e seus camaradas de exílio, auferiam 180 e 130 rublos, respectivamente.
Num protocolo datado de 14 de Setembro daquele ano, o vice-chefe da Secção Internacional do Comité Central do PCUS, V. Terechkin, comunica ao Comité Central o pedido de Álvaro Cunhal no sentido de se instalar na URSS com a sua mulher e a filha, Ana.
Dois dias depois, outro documento autoriza o líder comunista português a frequentar o refeitório do Kremlin — cuja entrada estava reservada a membros do Bureau Político do-Comité Central do PCUS. Neste restaurante era servida, sobretudo, alimentação dietética, o que não desagradava à frugalidade do secretário-geral do PCP.
Todos estes documentos constam do já referido arquivo do Centro de Conservação de Documentação Histórica do PCUS relativo ao período entre 1953 e 1991. A sua progressiva abertura está, ainda que lentamente, a permitir uma melhor compreensão de alguns dos factos mais relevantes do século XX, em que está a trabalhar o investigador português José Muhazes, residente em Moscovo há 17 anos.

Marxista de cristal
A importância de Álvaro Cunhal entre os dirigentes comunistas europeus é reforçada a partir de 1964, ano em que o ideólogo e dirigente do PCUS — e um dos mais relevantes conspiradores contra Nikita Khruchtchev, Mikhail Suslov, destaca a capacidade do líder português. Ao reparar na sua «personalidade brilhante», pureza de convicções e fino trato, chama-lhe «marxista de cristal».
A hierarquia da Nomenklatura comunista mandava que, enquanto viviam em Moscovo ou quando se deslocavam à URSS, tanto Álvaro Cunhal como outros líderes comunistas estrangeiros (caso do brasileiro Luiz Carlos Prestes ou do chileno LUÍS Corvalán) tivessem um tratamento VIP: enquanto a Cunhal era atribuído, por exemplo, um apartamento de quatro assoalhadas, o seu camarada Francisco Miguel, que também passou parte da clandestinidade em Moscovo, só teve direito àquilo a que hoje se chamaria um T-0.
Gendrik Borovik, antigo jornalista da agência Novosti, que esteve em Portugal em Maio de 1974, recorda Álvaro Cunhal, como «um moscovita». «Vivi no mesmo edifício na Vorobyovskaya Shossé, num apartamento perto do de Álvaro. Costumava encontrá-lo no elevador, acompanhado da mulher, de uma criança e da secretária.
Mas nunca falávamos. Eu admirava-o muito. Para mim. Cunhal era um herói como "Che" Guevara. Sabia da sua fuga da prisão em Portugal, um feito espectacular.
Mas ele era muito reservado e só falei com ele quando estive no vosso país, logo a seguir à Revolução. Nessa altura, perguntei-Ihe se se lembrava de mim. Ele respondeu-me afirmativamente, mas penso que quis apenas ser simpático», conta-nos Borovik, que entretanto trocou o jornalismo pela literatura.

Amílcar CabralNas suas estadas em Moscovo, Cunhal não se limitou a utilizar os alojamentos colocados à sua disposição pelo PCUS. Na capital soviética, o secretário-geral do PCP passou também algumas curtas temporadas em hotéis reservados a dirigentes comunistas — entre eles o Presidente e o Arbat. Quem passou igualmente pelo Arbat foi Amflcar Cabral, o líder do PAIGC assassinado 1973, na Guiné-Bissau. Oleg Ignátiev, antigo jornalista da Pravda, e seu correspondente em Portugal entre 1979 e 1984, foi amigo do dirigente africano e recorda alguns momentos do convívio com Amílcar Cabral em Moscovo. E lembra-se também de Cunhal. «Vi-o algumas vezes, nessa altura, no Hotel Arbat, quando ia falar com Amílcar», diz.«Cunhal era muito reservado, e apesar de o admirar muito nunca conversei com ele.» Sempre a mesma reserva, o ar de mistério, a aura de inacessibilidade: a personagem confunde-se com os seus feitos. Para trás fica a vida pessoal de um homem de carne e osso. Álvaro Cunhal não respondeu ao pedido da VISÃO para falar sobre os tempos do exílio.

Mário SoaresEntre a documentação sobre o PCP a que tivemos acesso nos arquivos do PCUS figura ainda um documento sobre a «cooperação», na clandestinidade, entre comunistas e socialistas. Um extracto do protocolo n.° 48 do Secretariado do Comité Central, datado de 14 de Julho de 1972, fala de Mário Soares. Em causa, um pedido de Cunhal para que Soares fosse recebido em Moscovo. As recomendações são explícitas:«l ° — Satisfazer o pedido do Secretário Geral do PCP, cam. A. Cunhal, sobre o convite, em Setembro de 1972, para a deslocação à União Soviética, por um período de três semanas, do líder dos socialistas portugueses, M. Soares.A recepção e estada de Mário Soares ficam a cargo da União das Associações de Amizade e de Laços Culturais com os países estrangeiros.«2º — Encarregar o Ministério das Finanças da URSS de, juntamente com a União das Associações, encontrar fontes para cobrir as despesas com a recepção e a estada, bem como para cobrir as despesas relacionadas com a viagem de M. Soares Paris—Moscovo—Paris. Encarregar o Ministério da Aviação Civil da URSS de transportar M. Soares de Paris para Moscovo, com pagamento em rublos soviéticos.» O texto é assinado por um membro do Secretariado do Comité Central do PCUS.A viagem fora combinada entre Soares e Cunhal, pouco tempo antes, num encontro em Praga. A visita foi acompanhada por Augusto Abelaira, Oscar Lopes e Alexandre Babo. Estiveram em Moscovo e em Leninegrado (São Petersburgo), depois de uma memorável viagem de comboio que Soares recorda num dos seus livros.

JuventudeDescendente de uma família da burguesia rural, Álvaro Barreirinhas Cunhal nasceu a 10 de Novembro de 1913, na freguesia da Sé Nova, em Coimbra. Aos 4 anos passaria a viver em Seia, terra do pai — Avelino Cunhal, advogado — para se mudar definitivamente para Lisboa em 1924. Ainda antes de deixar aquela localidade serrana. Cunhal foi baptizado, a 5 de Maio de 1919, na Igreja de Nossa Senhora da Assunção, tendo como madrinha Nossa Senhora e como padrinho o seu irmão mais velho, António José.As suas actividades políticas começam na faculdade de Direito de Lisboa, onde entrou apenas com 17 anos, em 1930. Torna-se membro da direcção da Associação Académica (1932) e do Senado Universitário (1934). Por essa altura, já Álvaro Cunhal participava nas clandestinas Liga dos Amigos da URSS, Socorro Vermelho Internacional, Liga Contra a Guerra e Contra o Fascismo e Grupos de Defesa Académica. A sua filiação no PCP ocorre também no momento em que entra para a Faculdade. Cunhal terá entrado para a organização através de Cansado Gonçalves, amigo de Avelino Cunhal.Em meados dos anos 30, muitos dirigentes comunistas são presos pela Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE), primeira designação da PIDE/DGS. Álvaro Cunhal terá tido o seu primeiro nome de guerra em 1934, sendo então destacado por Bento Gonçalves para organizar a Federação das Juventudes Comunistas. Em 1936 é eleito para o Secretariado da organização, deslocando-se pela primeira vez à União Soviética. Com ele, seguem Domingues dos Santos e Florindo de Oliveira. No mesmo ano, Francisco Paula de Oliveira (Pavel) sobe ao Secretariado do Partido, de onde seria expulso em 1939.

PrisõesSegundo a sua biografia oficial — publicada em 1954 pelo PCP — Álvaro Cunhal terá passado definitivamente à clandestinidade em 1935. Esta versão é, porém, contrariada se tivermos em conta que, no início dos anos 40, o líder dos comunistas assinava artigos no jornal O Diabo e leccionava no Colégio Moderno, de João Soares, pai de Mário Soares. O mais verosímil é que Cunhal tenha passado à clandestinidade em 40 ou 41.Depois de uma passagem de alguns meses por Espanha, em 1936 — o ano em que estala"a guerra civil no país vizinho —, o dirigente comunista é preso em Portugal, a 20 de Julho de 1937. E então acusado de distribuir propaganda na rua. Encarcerado no Aljube, será transferido passados dois meses para Peniche. Julgado em Tribunal Especial, Cunhal é libertado cerca de um ano depois e obrigado a fazer o serviço militar na Companhia Disciplinar de Penamacor. Após uma greve de fome, acaba por ser dispensado por uma Junta Médica, em Dezembro de 1939.Uma série de prisões nas hostes do PCP, nos finais desse ano, levam uma nova fornada de dirigentes às cúpulas do Partido.Em 1939, Cunhal é eleito para o Secretariado juntamente com o médico Ludgero Pinto Basto e Francisco Miguel. O Secretariado e o Comité Central decidem nomear Cunhal secretário-geral do PCP, cargo até então ocupado por Bento Gonçalves, preso na época no Tarrafal. Mas Álvaro Cunhal não aceita ocupar o lugar do «mítico» dirigente comunista. Ainda não tinha chegado a sua hora.

Peniche-MoscovoEm Maio de 1940, Cunhal volta a passar pela prisão durante três meses. É levado da cadeia à Faculdade para fazer o exame final de Direito. O júri é constituído por Paulo Cunha e Cavaleiro Ferreira, mais tarde ministros de Salazar, e por Marcelo Caetano, o delfim do ditador.O líder comunista formou-se com distinção, defendendo a sua tese sobre «A Realidade Social do Aborto».O PCP vive tempos de brasa. Acusado de infiltrações, o Partido fora expulso, em 1939, da Internacional Comunista (IC), que Estaline acabará por dissolver quatro anos depois. Só em 1948 Cunhal regressará a Moscovo — através de canais estabelecidos com os comunistas jugoslavos de Tito — para a reunião do Kominform (Bureau de Informação do Movimento Comunista Internacional). Até 1945, o partido teve de resolver desavenças internas que opunham dois comités centrais.No PCP continua-se a viver no temor das denúncias e das desavenças. Piteira Santos é expulso em 1949, ano em que Cunhal é de novo preso, agora no Luso, com Militão Ribeiro e Sofia Ferreira. O secretário-geral do PCP ficaria sob clausura 11 anos. Tempo para esboçar os célebres desenhos do cárcere, que revelam um traço decidido e sensível. Terá tido tempo, também, para uma incursão na literatura, havendo quem garanta que o romance Até Amanhã Camaradas, assinado sob o pseudónimo de Manuel Tiago, é da sua autoria.A fuga de Peniche, em 1960, foi uma das mais espectaculares evasões das cadeias portuguesas. No dia 3 de Janeiro, contando com a ajuda de um soldado da GNR, Cunhal, Carlos Costa, Francisco Martins Rodrigues, Francisco Miguel e mais seis camaradas deixam o forte de Peniche descendo o muro da prisão por uma corda feita de lençóis. Pouco tempo depois estava em Moscovo, onde, em 13 anos de exílio, passou diversas temporadas. Em Março de 1961 fora eleito secretário-geral do PCP.PerfeitoVadin Zagladin, vice-chefe da secção internacional do Comité Central do PCUS entre 1967 e 1975, 1.° vice-chefe da mesma secção entre 1975 e 1988 e conselheiro do antigo presidente da URSS, Mikhail Gorbachov, para assuntos internacionais, tem uma ideia muito precisa de Cunhal: «Honesto, está muito arreigado às suas convicções, o que pode tomar-se um defeito. Mas é um homem com um grande carisma.» Zagladin teve o primeiro encontro com o dirigente comunista português em 1967. Segundo afirma, «no PCP a última palavra cabia sempre a Cunhal, e os próprios camaradas diziam que não podiam tomar quaisquer decisões ou iniciativas sem consultarem o camarada secretário-geral.» Em 1973, Cunhal pediu ao PCUS para patrocinar a realização de uma reunião do Comité Central do PCP na capital soviética, em meados de 1974. Isto, no entender de Zagladin, significava que, nessa altura, o PCP não esperava a eclosão de um golpe militar em Abril desse ano.

Em Até Amanhã Camaradas, ricos e pobres são personagens com fraquezas e defeitos. O único perfeito e imaculado é o dirigente do Comité Central. Será essa uma história de ficção?.

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