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A-24

A liberdade

por A-24, em 16.07.13
in Portugal Contemporâneo

"... as mulheres são incapazes de formar consensos". Desde que escrevi aqui esta frase, há três ou quatro dias atrás, que ela me ficou a bailar no espírito. "As mulheres não vão gostar, mas paciência, é a verdade", pensei mais tarde.
Como é que eu sei que é a verdade? Nem precisei de sair de casa, ao longo dos últimos vinte ou trinta anos, para saber que essa é a verdade. Nem mãe e filha, que já um dia estiveram ligadas pelo cordão umbilical, conseguem formar consensos. Estão sempre a discordar e, por vezes, a discutir. Essa mãe e essa filha, dir-se-à. Não. Essa mãe e cada uma das filhas. Deus deu-me duas para eu ter a confirmação. E as observações que depois fiz fora da família, deixaram-me sem nenhuma dúvida a este respeito. As mulheres são incapazes de formar consensos.
Ao mesmo tempo ocorria-me de forma persistente ao espírito uma observação do Paul Johnson num livro que o Joaquim me ofereceu ("Jesus", Lisboa: Aletheia, 2011), e que transcrevo a seguir, referente ao episódio da prisão de Cristo (p. 153):
"O leitor não consegue deixar de perguntar a si próprio o que teria acontecido se fossem as mulheres que ali estivessem naquele momento; com efeito, não conseguimos imaginar Nossa Senhora a abandonar o Filho, nem Maria Madalena, nem a enérgica Marta: teria com certeza havido uma cena de feroz resistência com o sangue a correr a jorros".
Mas não estava nenhuma mulher presente, só estavam homens, alguns seus discípulos e todos se comportaram, verdade seja dita, como verdadeiros cobardes.
Incapacidade de formar consensos e a privação da liberdade de Cristo na ausência das mulheres, haveria aqui alguma relação? Sim, acabei por concluír. A incapacidade para formar consensos, a capacidade para discordar ou contestar permanentemente, e em todas as circunstâncias - que é uma característica, em primeiro lugar, feminina - é a fonte da liberdade.
Uma sociedade de cultura feminina nunca será uma sociedade totalitária, uma sociedade capaz de impôr uma modo de vida único a todos sem excepção, porque haverá sempre alguém que discorda, e frequentemente existirão muitos a discordar. Uma sociedade de cultura feminina nunca será capaz de formar um grupo suficientemente maioritário com capacidade para oprimir um grupo minoritário, porque no primeiro haverá sempre alguém que discorda, muitos mesmo vão discordar, e são estes que vão pôr a mão por baixo ao segundo.
Na Alemanha dos anos trinta formou-se um largo consenso para esmagar os judeus. Seria impossível numa sociedade de cultura feminina. Nos EUA aconteceu o mesmo recentemente em relação aos iraquianos, com os resultados que se conhecem. Seria impossível numa sociedade de cultura feminina.
A liberdade é um valor feminino, resulta da capacidade extraordinária que as mulheres possuem, e que os homens não possuem em grau sequer aproximável, para discordar de tudo e de todos e para contestar sem fim. A liberdade, a verdadeira liberdade, só existe em sociedades de cultura feminina. E por isso a liberdade é sempre representada por uma figura de mulher. A outra, a liberdade masculina, essa é a liberdade para os mais fortes oprimirem os mais fracos. É esta também a liberdade típica dos regimes políticos de democracia partidária, que são uma invenção dos países de cultura masculina: a maioria dita, e fá-lo com toda a liberdade; a minoria aguenta, e fá-lo sem liberdade nenhuma.