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A-24

A história de amor entre um skinhead e uma menina de Cascais

por A-24, em 30.05.14
via Observador

Os acordes da música gótica num bar alternativo do Cais do Sodré, Lisboa, deixaram de incomodar Mário Machado assim que a viu. No centro da pista de dança, uma mulher alta, cabelo comprido ruivo e minissaia, ao estilo psychobilly. O coração disparou. “Aquela paixão que dá logo”, recorda. Disse-o aos amigos e aproximaram-se dela. “Meu Deus! Fiquei cheia de medo. Estava rodeada de skinheads”, conta Susana ao Observador. Ele, confessa, aproveitou-se desse medo para ganhar-lhe a confiança. Dez anos depois, a relação improvável entre um neonazi e uma filiada no Partido Socialista resiste.

Estão sentados lado a lado numa esplanada em Lisboa. Aproveitam cada minuto da última saída precária da prisão de Alcoentre, onde Mário Machado cumpre pena de 10 anos de cadeia em quatro processos, por crimes de discriminação racial, posse de arma ilegal, agressões, difamação. Ao Observador, intercalam entre os dois episódios de uma história de sorrisos, lágrimas, polícias, prisões e um filho. Quando discordam, trocam carinhos e beijos na testa. Perdoam-se. “Ela é muito ciumenta”. “Não sou nada, eu é que tive de apagar os amigos rapazes do Facebook”, responde-lhe. Ele acaba por baixar a guarda: “costuma dizer-se que por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher”. A mulher de quem fala chama-se Susana Machado, tem 34 anos e é licenciada em Matemática Aplicada. Não diz onde trabalha para preservar a sua identidade.
Susana estava a estudar na universidade quando foi abordada por Mário, três anos mais velho, na pista de dança do então bar gótico “Disorder”. O medo do cabeça-rapada tatuado com cruzes suásticas e vestido de negro deu lugar à curiosidade. Nos dias seguintes, deu por ela a voltar ali na esperança de reencontrá-lo. Ele fez o mesmo. Era dia de Natal quando trocaram o primeiro beijo. Ela, filha de uma família de esquerda e criada em Cascais, desconhecia sequer que o homem por quem estava a apaixonar-se tinha já cumprido pena de prisão – por envolvimento num crime racial no Bairro Alto, em Lisboa. “Eu falava-lhe dos países por onde tinha viajado, só não dizia o que tinha ido lá fazer”, conta Mário. Quando ela soube “era tarde demais”. “Estávamos demasiado envolvidos”, diz ele. Já passaram dez anos.

Mário era já pai de dois filhos e dava pela primeira vez uma entrevista à comunicação social sem mostrar a cara. Corria 2005. À frente do movimento de extrema-direita, Frente Nacional, fundador da Hammerskins Portugal e sob mira da GNR por promover encontros neonazis, começava a ganhar protagonismo. “Não concebia o discurso daqueles que diziam ‘pretos’. Achava horrível e ignorante, ainda assim ia com ele para todo o lado, mesmo não concordando”, afirma Susana. A determinação de Mário impressionava-a. “Estávamos sentados no sofá quando apareceu na televisão a história da comunidade cigana em Coruche. Ele disse: temos que lá ir”. E reuniu de imediato um batalhão para o seguir.
A partir daqui começou a dar a cara por manifestações. E apareceu na televisão empunhando uma shotgun, em 2006. Foi a primeira de várias detenções que se seguiram. “Tive muitos problemas com a minha família e com os meus amigos. Mas quando conhecem o Mário, percebem que ele não é o homem que aparece na comunicação social. Ele é super educado e um romântico”.
As diferenças ideológicas foram-se atenuando à medida que o registo criminal de Mário Machado crescia. O facto de Susana ter-se tornado a “chefe de família” lá de casa também limou algumas arestas. Mas não foi fácil. Para Mário, a sua “mulher não devia trabalhar”. Para Susana, “feminista”, seria impensável. “Eu gosto de lhe dar esta sensação de domínio”, atira Mário. “Sensação?”, interroga Susana. “Em casa conversamos”. Trocam sorrisos e carícias. Mais do que contas, Susana tem sido fundamental na vida de Mário.
Quando ele foi libertado da prisão preventiva, em 2008, decidiram ter um filho. E é por ele, e pelo trabalho, que Susana prefere resguardar-se e não dar a cara. “O meu filho já sofre imenso por ter o pai preso e não quero que se saiba que ele é o filho do Mário Machado. As crianças conseguem ser muito cruéis”. Já estava grávida quando Machado foi novamente detido. Desta vez por crimes de sequestro e coação. “Tive uma gravidez de risco e ele estava preso quando o meu filho nasceu”. Numa visita no estabelecimento prisional da PJ, Mário e Susana decidiram casar. “Tive que registar o meu filho na companhia do advogado dele!”, lembra. Mário foi depois transferido para a prisão de alta segurança do Monsanto. A cerimónia foi lá. A 22 de fevereiro de 2011.
Naquele dia ela arranjou-se como se fosse casar-se numa igreja, o seu sonho. E foi sozinha até à cadeia. À sua espera Mário, de fato macaco de recluso, dois guardas, uma técnica e a conservadora do registo civil. “A educadora prisional pediu para assistir. Disse-me que estava linda”, recorda Susana, emocionada. Os noivos uniram as mãos. E começou. “Reparei que a senhora do Governo Civil tratava sempre a minha mulher no masculino. O nubente, o filho de …” lembra Mário. Até que a interpelou e perguntou-lhe porquê. “Explicou-me que desde a aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo, o Governo Civil decidira não fazer distinção de géneros”. Mário não queria acreditar. “Até num momento destes se põe em causa a minha ideologia”. Susana apertou-lhe a mão em jeito de sinal. “Não, no dia do meu casamento não quero discursos políticos!”. Ele acedeu, e cedeu.
A cerimónia durou 45 minutos. Mário regressou, depois, à cela onde estava encarcerado 23 horas por dia. “Só tivemos contacto físico seis ou oito meses depois. A prisão parecia um filme americano. Havia um vidro a separar-nos e nem podíamos tocar um no outro”, diz Susana. “Não podia receber os meus filhos. O sistema devia permitir que os filhos vissem os pais. Pelo menos um abraço”, defende Mário. As limitações dos encontros, duas vezes por semana, levaram Susana a escrever para vários serviços da justiça, em Lisboa e em Estrasburgo, a implorar que transferissem o marido de prisão. “Eu estava preso no mesmo sítio onde havia terroristas e homicidas”, diz Mário. “Nestes anos acumulei tanta coisa que há dois meses sofri um aneurisma cerebral, do qual estou a recuperar”, conta Susana. Ele faz-lhe uma festa na cabeça.
Fechado na cadeia de Monsanto, Mário Machado perdeu 22 quilos. E a mulher incentivou-o a estudar para ocupar o tempo. “Já estou no último ano do curso de Direito da Universidade Autónoma”. Até nisso a mulher tem sido fundamental. É ela quem vai à universidade buscar livros e sebentas, faz-lhe cópias e entrega tudo na prisão. As propinas, a educação dos filhos, as despesas da casa. Todas estas contas têm a ajuda dos pais de Susana e de Mário. “Eu também poupei dinheiro quando andei a fazer aquelas habilidades…”, diz Mário sem especificar. Supõem-se que fale dos crimes pelos quais esteve preso – em que marcava encontro com traficantes de droga para lhes extorquir dinheiro. “Não quero saber se ele cometeu crimes. Eu sei quem é o Mário. Um excelente marido e um excelente pai. Sou completamente contra crimes, fui criada assim, mas ele é um ser humano”.
Na última saída precária em que estiveram juntos, pelo 25 Abril, Mário levou-a, e aos três filhos, para um hotel. O mesmo onde houve o encontro de preparação do novo partido nacionalista que ele quer criar. “Agora acredito mais. Há pessoas muito sérias, de todas as idades e profissões, por trás. Não tem nada a ver com o grupo de miúdos de antes”, diz Susana. “Amor, eu que pago as quotas para votar no Partido Socialista, vou votar em ti!”, diz-lhe. Ele dá uma gargalhada.