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A-24

A Europa está como o Japão em 1860

por A-24, em 07.08.12
Dividida em potentados locais sobre os quais não tem poderes suficientes, levada pouco a sério no resto do mundo, a UE faz lembrar o Japão de 1860, antes da sua modernização, garante um jornalista sueco. Mas erigir-se em verdadeira potência política pode revelar-se contraproducente.
Ola Wong
Shogun Tokugawa
Nos anos 1860, entre os cronistas encartados do New York Tribune incluía-se um certo Karl Marx. Este escreveu que o Japão era "o último país verdadeiramente feudal, com toda a irracionalidade e a repartição [de poderes] próprias". Hoje, a União Europeia faz lembrar esse Japão de outrora, com Angela Merkel no papel do shogun.
Na época, o Japão era um mosaico de províncias feudais dirigidas por senhores locais, os daimyos, subordinados ao comandante supremo das forças armadas, o shogun. A administração do shogunato chamava-se bakufu. Havia um imperador na cidade de Quioto, mas os seus poderes eram ainda mais limitados do que os do atual presidente da UE, Herman Van Rompuy.
Os daimyos governavam os seus domínios como bem lhes apetecia, tinham moeda própria, sistema tributário próprio e exército próprio. Ignoravam frequentemente os decretos do bakufu (Bruxelas) e, quando o bakufu enviava inspetores, os daimyos (os gregos) enganavam-nos. A província de Satsuma chegou mesmo a montar aldeias fictícias, pondo os seus samurais a desempenhar o papel de camponeses. A elite japonesa passava muito tempo em Edo (Tóquio/Bruxelas), onde todo o produto das suas receitas fiscais era tragado pelas despesas de representação. Karl Marx traduzia assim o desdém da época pelo Japão: um país atrasado, cuja organização política era demasiado fragmentada para lhe permitir resolver os seus problemas.
A frustração da impotência
Mas, alguns anos mais tarde, o Japão passou a ser um dos países mais centralizados do mundo. Os japoneses esmagaram os russos – um feito não realizável por qualquer um – durante a guerra de 1905 e criaram empresas como a Mitsubishi. Que aconteceu? A resposta a uma crise, que assumiu a forma de uma globalização. O comodoro norte-americano Perry e as suas canhoneiras obrigaram o Japão a abrir-se ao comércio com o Ocidente [em 1854].
Hoje, é a Europa que está em crise. Os países do Sul não souberam adaptar as suas economias a um mundo no qual é preciso ter em conta a China industrializada. E encontram-se prisioneiros de uma moeda que lhes permitiu contrair empréstimos baratos mas que também fez aumentar o custo das suas mercadorias. A única coisa que parece ter hipóteses de salvar o euro é uma união política. Os think-tanks e os burocratas de Bruxelas sentem uma frustração semelhante à do Japão de outrora, que ninguém levava a sério. A frustração da impotência.
A situação requer uma versão europeia da restauração de Meiji: centralizar as atribuições e retirar aos Estados-Membros os poderes de decisão em matéria económica. Um cenário possível seria um reforço considerável dos poderes oficiais de Bruxelas (o imperador), enquanto um grupo de tecnocratas e políticos mexiam os cordelinhos nos bastidores. Uma democracia de fachada.
Um fator de paz? 
Bruxelas deveria em seguida disciplinar as províncias que ainda têm à volta do pescoço um nó corrediço do euro. A UE vende o projeto europeu como um projeto pacificador, desenvolvendo –erradamente – uma fixação no último cataclismo, até ao presente, no nosso caso a II Guerra Mundial. Acontece que alguns outros conflitos nasceram de movimentos de protesto locais contra decretos do poder central. É o caso da Guerra dos Trinta Anos [1618-1648].
A elite japonesa era animada por um sentimento nacional e tinha a mesma casa imperial há mais de 1.000 anos. Mas, apesar disso, foi preciso uma guerra civil, uma guerra e a introdução de um sistema escolar nacionalista, para o povo japonês se tornar verdadeiramente japonês (essa era terminou com o bombardeamento de Hiroshima). Entre nós, é preciso recuar até ao Império Romano para encontrarmos uma Europa unida.
Em resumo: a crise do euro impõe um Estado europeu, mas este tem poucas hipóteses de sobreviver. E também não será necessariamente um fator de paz. Antes pelo contrário.
Press Europe