Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A-24

México - Manual de sobrevivência numa cidade em pé de guerra

por A-24, em 27.02.10
Maria (nome fictício) tem 48 anos, é portuguesa e mãe de três filhas, duas das quais vivem consigo. Saiu de Portugal há dez anos. Para viver em Ciudad Juarez, no México. A cidade mais perigosa do mundo, que foi fundada faz hoje 350 anos.
[Em 2008, a organização não-governamental mexicana Conselho de Cidadãos para a Segurança Pública fez as contas e chegou à triste conclusão de que a cidade mais perigosa do mundo, excluindo as zonas de guerra, ficava dentro das fronteiras do seu país. Mas, com uma taxa de 130 homicídios por 100.000 habitantes, quem disse que Ciudad Juarez não está em guerra?
Este ano, os números pioraram. Até 21 de Agosto passado, segundo contas divulgadas pelo jornal El Diário, tinham sido registados 1362 homicídios dolosos (voluntários e premeditados) em Ciudad Juarez - qualquer coisa como 159 por 100.000 habitantes, numa cidade com quase 1,5 milhões de pessoas. Há muito que a vida nesta fronteira (a texana El Paso fica mesmo ali ao lado) está amordaçada pela violência.
Centenas de mulheres têm sido mortas desde os anos 90 sem que as autoridades consigam explicar grande parte dos crimes. Mas a explosão deu-se nos últimos anos, quando os cartéis da droga entraram em guerra aberta pelo controlo do tráfico na região. Os habitantes habituaram-se a ouvir, diariamente, relatos de atrocidades e infâmias, raptos e assaltos, decapitações e execuções em massa. E a ver os mortos exibidos na via pública, com comentários jactanciosos escritos pelos assassinos...
Milhares de militares juntaram-se às forças policiais para tentar controlar a espiral de violência, alimentada pelos milhões do tráfico de droga e pelas armas que chegam em catadupa do outro lado da fronteira. O Governo mexicano considerou que o envio de uma força de paz das Nações Unidas para Ciudad Juarez é um cenário sem sentido e vários responsáveis locais já chegaram a dizer que a situação estava a melhorar. Não é isso o que dizem os números. Nem o que as pessoas sentem, como se depreende do testemunho de Maria, portuguesa.]Vim viver para o México há dez anos. Vivia em Setúbal e trabalhava numa fábrica de coberturas para bancos de automóveis entre Palmela e a Quinta do Anjo, perto da Autoeuropa. A empresa tinha capital mexicano e foi numa visita de alguns dos responsáveis vindos do México que conheci o que viria a ser o meu actual marido. Eu estava em processo de divórcio. Ao fim de uns 14/15 meses, ele regressou ao seu país e eu decidi ir com ele.
Hoje, ele trabalha na mesma empresa, mas num cargo superior, em contacto directo com a administração. Viemos viver para Ciudad Juarez, onde há muita pobreza, muita violência - contra mulheres, crianças -, muita fome. Isto está mesmo muito feio, muito difícil. Parece uma autêntica guerra.
O México tem 35 estados e este, o de Chihuahua, é o maior. Vem muita gente de outros locais, porque é uma cidade industrial, com grandes parques de empresas, aqui só não trabalha quem não quer... Nos anos 2000 começou a haver mais violência, roubos, violações. Quando cheguei, trazia comigo a minha filha, então com 11 anos, e ela começou logo na escola particular. Foi difícil, porque teve de se adaptar, teve de fazer um esforço, uma vez que era estrangeira. Mas, por outro lado, aqui o nível académico é mais baixo, a qualidade do ensino não se compara à portuguesa. Por isso, ela estava bem preparada.
Foi sempre muito boa aluna. Esteve cá até aos 15 anos, fez o secundário, sempre com 18, 19, 20 valores, seguiu para outra escola. Sabe falar quatro ou cinco línguas. Mas nessa alturafoi quando começaram as violações e os sequestros e eu tinha muito medo... O pai estava em Setúbal, queria que ela voltasse. E eu disse que sim, se fosse essa a vontade dela. Está agora com 22 anos, casou com um rapaz brasileiro e teve um bebé há pouco tempo. Vive em Setúbal, na mesma rua onde eu morava. Ainda não tem emprego, o sonho dela é entrar para a polícia.
Eu adaptei-me a Ciudad Juarez em dois ou três anos. Foi difícil: as ruas, as casas, os centros comerciais... tudo é diferente. Também adoeci nesse período e o apoio do meu marido foi fundamental. Começámos por viver em casa da mãe do meu marido, mas eu não estava adaptada. E tinha medo.
Medo, muito medo
Agora vivo num bairro (aqui chamam-lhe colonia) novo e o quarteirão (quadra) onde habito é muito tranquilo. Mas duas ou três quadras para cima ou para baixo na avenida onde fica a minha casa já há muita violência. Parece mentira, mas umas 12, 15, 20 pessoas são executadas todos os dias. Tudo por causa do mercado da droga. Os traficantes de rua são vítimas da luta entre os grandes barões para controlar o mercado.
É uma verdadeira guerra: há decapitações, cortam mãos, penduram os mortos das pontes, deixam cartazes com ameaças. Agora andam a incendiar stands de automóveis, bares e outro comércio - as milícias exigem uma quota, um pagamento mensal, e quem não paga arde. Quando vou ao centro comercial, procuro sempre ter o meu marido comigo. Há muitos casos de carjacking nos parques de estacionamento.
Tenho duas filhas que já nasceram aqui. Tanto eu como as meninas já fomos ameaçadas várias vezes - já tive de trocar de número de telefone três vezes, porque vêem o meu nome na lista e percebem que é estrangeiro... Pensam logo: "É estrangeira, tem dinheiro."
As meninas também já foram ameaçadas na escola. É claro que lá têm ordens para não as deixarem sair com ninguém a não ser comigo. As pessoas aqui são muito morenas e as minhas filhas são branquinhas, louras...
Logo na clínica, quando nasceram, ficámos cheios de medo que as roubassem. Se vamos ao passeio para elas andarem de bicicleta, nunca lhes tiramos os olhos de cima; se as convidam para festas, só vão se eu ou o pai pudermos acompanhá-las. Tenho medo, tenho muito medo.
A nossa casa tem um pequeno quintal atrás e à frente. Uma vez o meu marido estacionou o carro junto à porta da sala, no quintal, mas mesmo assim roubaram-no sem nós darmos por nada. Na manhã seguinte, quando se levantou por volta das 4h30 (aqui começa-se muito cedo, o horário de trabalho é das 6h00 às 15h30), o carro já não estava lá. É terrível.
Todos os dias há notícias horríveis. Há dias [25 de Novembro], um comando armado assassinou quatro pessoas numa avenida principal. Dantes procuravam o alvo quando estava sozinho, agora já matam também a família.
A fronteira com os EUA, a cidade de El Paso, no Texas, é mesmo aqui. E daí todo este tráfico de droga, imigrantes ilegais, armas. Vêm muitas armas dos Estados Unidos para o México. Há muitos mexicanos (e de outros países) a tentarem passar a fronteira. Os que conseguem são os que têm familiares do lado de lá. Há muito controlo, os americanos são muito racistas. Mas as pessoas boas daqui são muito trabalhadoras.
Voltar a Portugal
Existem aqui três corpos de polícia. Mas há muita corrupção. E agora a cidade está sitiada por militares. Aqui na nossa rua passam muitas patrulhas - eu ensinei as minhas filhas a não terem medo das autoridades, eles estão ali para nos ajudarem. A mim todos me ajudam, as pessoas gostam de mim, tratam-me bem e são receptivas, as autoridades, nos hospitais, etc... Eu digo que isso é por ser estrangeira, eles são racistas com os próprios mexicanos.
Há também patrulhas pelo ar. Helicópteros que passam à noite, com radar, habituamo-nos a eles. Eu vou pouco a El Paso, às vezes para comprar bacalhau (só lá é que se encontra...), saio pouco. Felizmente posso trabalhar em casa, mas agora nem vamos jantar fora, temos medo. Quando estamos dentro do carro, parados nos semáforos, estamos sempre alerta. É nesses locais que se juntam os traficantes e, se houver tiroteio, os inocentes também morrem...
Eu tenho uma casa boa, mas trabalho muito para a ter, o meu marido trabalha muito, faz horas extra. Só que por aqui há muitas casas onde vivem uma dúzia de pessoas ou mais. Há muitas meninas que engravidam aos dez, 12 anos; há bairros horríveis. E também há bairros ricos, com belas moradias, mas aí é onde se registam mais sequestros... As pessoas vivem fechadas atrás de muros, portões, alarmes.
A cidade está a crescer muito depressa. Tem museus, cinemas, escolas. Mas não é nada como no nosso país, os materiais das casas não têm nada a ver. Muitos recebem dinheiro de um fundo para construírem as casas, mas depois começam a não conseguir pagar as prestações e ficam na rua. E há aqui muita gente que não luta, baixa os braços e vai pelo mais fácil... Eu estou sempre disposta a lutar, sei que, se sair daqui um dia, terei de começar tudo de novo. Outra vez.
A última vez que fui a Portugal foi há quatro anos, para o funeral da minha mãe. O meu pai continua a viver no Poceirão, que é a terra onde nasci, e tenho muita vontade de voltar, desta vez com as meninas. É muito caro, mais de 4500 euros, irmos as três a Portugal, mas quero ver se vou no próximo ano. O meu pai diz tantas vezes que ainda morre sem conhecer as netas...
Por Luís Francisco (Público) A partir de uma conversa telefónica com Maria (nome fictício que o P2 optou por utilizar)