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A-24

Aliança impossível de EUA com a Rússia no combate ao Estado Islâmico

por A-24, em 28.09.14
José Milhazes


É difícil esperar qualquer coordenação de acções entre a Rússia e a NATO face a um problema mundial, a não ser que a Terra seja invadida por extraterrestres. E mesmo assim...
Não obstante os terroristas do Estado Islâmico do Iraque e do Levante terem também ameaçado a Rússia e o próprio Presidente Putin, este não se apressa a juntar-se à coligação internacional que luta contra o ISIS, pois parece recear que o objectivo dos Estados Unidos e seus aliados seja derrubar o regime sírio de Bashar Assad à sombra do combate aos jihadistas.
Numa conversa telefónica com o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, o Presidente russo defende que, nas operações contra o ISIS na Síria, se “deve respeitar o Direito Internacional” e os bombardeamentos aéreos nesse país só deverão realizar-se com “o consentimento do governo sírio”.
Tendo em conta que Washington e os seus aliados deram ouvidos a Putin quando este evitou a invasão da Síria a troco da entrega das armas químicas por Damasco à comunidade internacional, poder-se-ia pensar que também desta vez será possível chegar a um acordo, mas tal não deverá acontecer. Isto porque, ao espezinhar o Direito Internacional na Ucrânia com a anexação da Crimeia e o apoio aos separatistas do leste do país, o Kremlin perdeu o direito de dar lições de moral aos outros, se é que já não tinha perdido esse direito quando da guerra na Tchechénia ou da invasão da Geórgia.
E, pelos vistos, os EUA e os seus aliados irão resolver os problemas da Síria e do ISIS à sua maneira, enquanto a Rússia irá continuar a sua política no país vizinho, embora com mais êxito. O conflito entre Kiev e os separatistas pró-russos está a caminho do congelamento, o que permitirá a consolidação dos poderes nas regiões separatistas e a criação de uma situação como a que existe na Transdnistria em relação à Moldávia. Isto se Putin não avançar ainda para a conquista de corredores para ligar a Rússia à Transdnístria e à Crimeia.
Face a esta situação é difícil esperar uma coordenação de acções entre a Rússia e a NATO face a qualquer problema mundial, a não ser que a Terra seja invadida por extraterrestres. E mesmo assim…

Doze perguntas e respostas sobre os portugueses na Jihad

por A-24, em 26.09.14
Via Totalitarismo Universalista

«1. Quantos portugueses lutam atualmente na Síria e no Iraque?

Estão referenciados pelos serviços de informações entre 10 a 15 cidadãos nacionais, a combater na Síria e no Iraque. 

2. Quem são estes jihadistas?
Têm entre 19 e 28 anos, instruídos, muitos com frequência universitária. Há licenciados em Gestão, futebolistas, engenheiros de sistemas, estudantes de desporto... A maioria nasceu e cresceu em Portugal e emigrou há poucos anos para outros países da Europa. Em Abril, o Sistema de Informações da República Portuguesa (SIRP) confirmava que alguns "detinham um estatuto de residência temporária noutros países europeus, embora apresentem conexões sociais e familiares ao território nacional". Há também vários casos de lusodescendentes, em França e na Holanda.

3. São todos muçulmanos?
Sim, mas convertidos na adolescência ou já adultos. A maioria nasceu e cresceu no seio de famílias cristãs, muitos serão até baptizados.

4. Combatem todos nas fileiras do Estado Islâmico (EI)?
Todos os casos identificados lutam pelo EI. A única mulher, Ângela ou Umm , não participa na luta armada - faz a sua Jihad na Internet e é casada com Fábio , do EI.

5. De que locais são originários?
Há grupos distintos e casos isolados. Dois irmãos (um dos quais se chama Celso), de 26 e 30 anos, e Fábio (Abdu), de 22, cresceram em duas localidades diferentes da Linha de Sintra, nos arredores de Lisboa. Conheceram-se em Londres, em Leyton, para onde emigraram com uma década de distância. Ao 'grupo londrino' juntou-se ainda um cidadão algarvio, de 28 anos. Terão ido todos juntos para a Síria. Ângela, filha de pais alentejanos, cresceu na Holanda, nos arredores de Utrecht, e daí fugiu em Agosto para casar com Fábio. Micael, lusodescendente de pais transmontanos, trocou os subúrbios de Paris pela Síria - com ele foi também Santos, outro filho de emigrantes portugueses em França.

6. Onde se radicalizaram?
Tornaram-se muçulmanos e radicalizaram-se fora de Portugal: em Inglaterra, Holanda e França. Há também indivíduos referenciados no Luxemburgo, pelo apoio público e promoção continuada à luta do Estado Islâmico. Na maioria dos casos, os processos de conversão ao Islão e posterior apoio à Jihad foram muitos rápidos - entre um a três anos. Pelo menos quatro dos portugueses que lutam atualmente na Síria foram aliciados para a guerra santa no bairro de Leyton, nos arredores de Londres, onde existe uma mesquita referenciada como radical pelas autoridades britânicas. 

7. Tinham experiência militar?
Não. Alguns eram praticantes (ou mesmo atletas federados) de artes marciais, como o judo, Muay Thai ou Jiu Jitsu, mas sem passado militar. A maioria nunca tinha pegado numa arma. Pelos relatos feitos ao Expresso, depois de chegarem à Síria todos passaram alguns meses em campos de treino terrorista antes de irem para a frente de combate.

8. Estão todos na Síria ou também no Iraque?
A maioria vive em Raqqa, a 'capital' informal do Estado Islâmico, ou na província de Aleppo, zonas do norte da Síria, controladas pelos radicais. Na semana passada, pelo menos um dos portugueses esteve a combater no Iraque, em Mossul, tendo entretanto regressado à Síria.

9. Como chegaram à Síria?
Apanharam um voo até à Turquia. E daí, com apoio de redes organizadas ao serviço do Estado Islâmico, foram de carro até à Síria, a maioria até Alepo ou Raqqa.

10. Quantos portugueses já morreram?
Está confirmada a morte de um lusodescendente, filho de um casal de portugueses que emigrara há longos anos de Tondela para Toulouse. Abu Osama Al-Faransi - o nome árabe que adotou após a conversão - morreu no Iraque, num ataque suicida a 22 de maio deste ano. Levou um carro armadilhado até às imediações de um complexo militar do exército iraquiano, em Umm Al-Amad, nos arredores de Bagdade, e aí acionou o dispositivo: morreu ele e dezenas de civis e militares. Há alguns meses, outro jihadista português, algarvio, ficou ferido com gravidade nas pernas - continua na Síria mas não regressou aos combates.

11. Podem ser presos caso decidam regressar a Portugal ou à Europa?
Um dos maiores receios dos países ocidentais é o do regresso a casa de muitos dos seus jovens cidadãos que estão a combater nas fileiras do Estado Islâmico, na Síria e no Iraque. Mas, ao contrário de outros países - onde a polícia pode apreender passaportes ou simplesmente proibir de viajar cidadãos suspeitos, no âmbito da legislação antiterrorista -, em Portugal isso não é legal. Em 2013, um destes jihadistas esteve em Portugal, antes de regressar novamente ao Médio Oriente. O mesmo já se terá passado este ano com um outro combatente. As autoridades nacionais seguem com atenção o rasto destes jovens radicais, mas não têm argumento legal para os deter, para proibir o regresso a Portugal ou impedir que viajem de novo para a Síria ou para o Iraque. Ou seja, quando as autoridades portuguesas identificam algum potencial jihadista, a única coisa que podem fazer é abordá-lo e tentar dissuadi-lo de viajar para os campos de batalha, explicando os riscos que correm, bem como os problemas que podem vir a ter no futuro. O Expresso sabe que isso tem acontecido nos últimos meses.

12. Estão referenciados outros portugueses, a viver na Europa mas que apoiam e promovem a Jihad?

Sim. No Luxemburgo, por exemplo, vive um lusodescendente de 28 anos, convertido numa mesquita de argelina. Surge no Facebook de barba longa e traje muçulmano a apelar ao coração dos jovens islâmicos para as batalhas que se travam na Síria. Ângela, a 'noiva portuguesa da jihad', também estava apenas referenciada por promoção da guerra santa e acabou por viajar da Holanda para a Síria. Várias fontes adiantam que há cada vez mais portugueses interessados nos vídeos difundidos pelo Estado Islâmico e que tem havido um aumento significativo na consulta a sites e blogues de propaganda e recrutamento. As autoridades portuguesas estão a acompanhar esta tendência "na medida dos meios disponíveis".»

Comentário do blogueiro: uma pessoa normal ficaria preocupada ao constatar que os jihadistas "tugas" podem entrar e sair do nosso país quando bem lhes apetecer, sem que as autoridades possam fazer nada. E ficaria ainda mais preocupada ao descobrir que cada vez mais jovens "tugas" se sentem atraídos pela "guerra santa" em nome do Islão. Mas não se preocupem, osnazionaliztaz cá do burgo (não confundir com nacionalistas) asseguram-nos que o Islão não interessa para nada, o que é mesmo importante é combater o "cancro sionista"! Por isso, se houver um atentado terrorista em Portugal e morrerem uns quantos portugueses, a culpa é dos judeus... aliás, se não houvesse judeus os muçulmanos nem sequer estariam na Europa! A sério, é o que os sapientíssimos nazionaliztaz nos asseguram, portanto, o melhor é mesmo acreditarmos neles, porque eles são sobre-humanos e vêem coisas que o comum mortal não vê...

Patriarca sobre os jovens jihadistas. "A juventude é idade propícia a não aderir a nada ou a aderir totalmente a algo"

por A-24, em 23.09.14
Expresso

O cardeal patriarca de Lisboa lembrou esta quarta-feira, no Funchal, os perigos que rondam os jovens ocidentais, alguns dos quais abraçaram o jihadismo e combatem na Síria e no Iraque. Numa sociedade onde existe uma "real falta de causas" e onde se oferece apenas "coisas de consumo imediato", este "tipo de oferta tão primária como faz o jihadismo pode seduzir alguns", diz ao Expresso Manuel Clemente, à margem do congresso internacional que assinala os 500 anos da Diocese do Funchal. 

"A adolescência e a juventude são idades muito propícias a não aderir a nada ou a aderir totalmente a alguma coisa. São idades de definição, de sentido de vida. Se na nossa sociedade, agora falando na Europa, não damos aos adolescentes e aos jovens mais do que coisas de consumo imediato, é natural que alguns deles procurem de outra maneira escoamento para essa disponibilidade para o todo, para o grande rasgo."

Sem causas capazes de motivar os jovens e a sua disponibilidade para a entrega, é natural, diz Manuel Clemente, que alguns se deixem seduzir "por este tipo de oferta tão primária como faz o jihadismo". Em sociedades como as europeias, "a real falta de causas para cativar os jovens pode ser perigosa".
Manuel Clemente
Há muitos jovens ocidentais, incluindo portugueses, que integram as fileiras do Estado Islâmico - são convertidos ao Islão, radicalizados e depois combatem pelos jihadistas. Estado Islâmico esse que o patriarca de Lisboa define como algo "além das barreiras do admissível" e que urge ser parado.
"É algo que passa as barreiras do admissível e, por isso, como diz o Papa Francisco, tem que ser detido. É absolutamente intolerável - põe em causa os princípios básicos da nossa civilização e o que está expresso na declaração dos direitos do Homem de 1948."
Apesar de defender uma medidas urgentes por parte da comunidade internacional, Manuel Clemente, que é também professor de História das Civilizações na Universidade Católica, não acredita que se esteja perante um choque de civilizações, embora admita que existem diferenças entre as sociedades ocidentais e os países islâmicos.
"As sociedades ocidentais fizeram um caminho lento, mas que não pode ter recuo, no sentido da cidadania, da responsabilidade individual, da liberdade de cada um. Isso fez com que, mesmo sem se desligar de sentimentos comuns - religiosos ou outros -, se preservasse e, bem, a liberdade e a responsabilidade individual. Nem todas as sociedades fizeram este caminho - há sociedades onde não há muito espaço para o respeito pela liberdade própria e alheia."
Apesar de ser uma questão a ter em conta, o cardeal lembra que, no Islão, nem todos são radicais, até porque as primeiras vítimas do Estado Islâmico são muçulmanos. "Isto sempre aconteceu. Estamos a falar do Islão, mas podíamos falar de outras religiões. No caso do Islão, e desde o século VII e VIII, houve populações muçulmanas que viveram intensamente a sua crença religiosa e que tiveram contactos pacíficos com outras comunidades, cristãs inclusivamente, mas também sofreram com movimentos radicais de que este agora é um péssimo exemplo."

Ler mais: 

Quando os "bons" também decapitam

por A-24, em 22.09.14
Ricardo Costa

Há duas semanas o Channel 4 britânico emitiu uma grande reportagem (Nigeria's Hidden War: Channel 4 Dispatches) que teve muito pouca repercussão em Inglaterra e no resto do mundo. Entre muitas atrocidades e situações extremas, a reportagem televisiva mostrava um grupo de soldados nigerianos a cortar a garganta a vários jovens numa aparente ação de retaliação pela decapitação de militares nigerianos por parte do Boko Haram, o grupo terrorista que professa o radicalismo islâmico e que espalha o terror na Nigéria, o país mais populoso de África e o maior produtor de petróleo do continente. 

O Boko Haram não é desconhecido no ocidente, sobretudo desde que decidiu raptar em série centenas de raparigas, pelo simples facto de irem à escola. As atrocidades do Boko Haram são imensas e atraem com facilidade a nossa atenção. Mas a verdade é que muitas ações de retaliação do exército nigeriano não têm qualquer repercussão entre nós, como esta reportagem do Channel 4 demonstrou, ao não ter tido qualquer efeito público. Aliás, a Amnistia Internacional tem tentado em vão chamar a atenção internacional para a "guerra suja" que devasta a Nigéria, mas só as brutalidades do Boko Haram é que são alvo de atenção.
Porque é que ações "idênticas" nos chocam ou nos são relativamente indiferentes? A questão é muito complexa e exige uma resposta filosófica ou moral, que não arrisco dar. Mas todos sabemos que as coisas são assim. No Expresso, por exemplo, sempre demos enorme atenção nas páginas do Internacional aos avanços e às loucuras do Boko Haram e pouco escrevemos sobre a resposta do exército nigeriano. Mesmo nos órgãos de comunicação social, acaba sempre por haver um lado bom ou menos mau num conflito. Quando de um lado da barricada estão grupos com os "valores" do Boko Haram, a escolha é quase automática. Gente que rapta crianças, que fuzila e decapita em série, que professa um regresso à idade das trevas, que despreza a democracia e exclui a liberdade religiosa ou qualquer direito elementar, não merece qualquer complacência.
Foi assim na Nigéria, no Mali ou no Sudão. Mas não foi assim na Síria, por uma razão extraordinariamente simples. Numa primeira fase da guerra todas as atrocidades foram atribuídas ao regime de Assad, que não hesitou em dizimar cidades ou em usar armas químicas, banidas por todos os acordos internacionais. À medida que a guerra se prolongou, a atenção virou-se a espaços para os milhões de refugiados, uma crise que pouco comoveu a comunidade internacional. Só muito mais tarde é que se começou a dar atenção a um movimento com muitos meses: a tomada de assalto por extremistas sunitas do movimento anti-Assad. É difícil aceitar isto, mas foi o facto de Assad ser "o mau" que atrasou tanto o reconhecimento do perigo que o Estado Islâmico representava para o Ocidente.
Quem criou o Estado Islâmico percebeu isto desde o início. O maniqueísmo com que se olha para uma guerra civil beneficiou-o por muito tempo, conseguindo financiamento de países sunitas da região, como o Qatar ou a Arábia Saudita, de que o Ocidente tanto gosta. Ao longo desse período em que pouco foram notados, os terroristas do Estado Islâmico já usavam as suas armas de sempre nas redes sociais: vídeos com atrocidades, mensagens e fotografias sobre a sua cavalgada heroica, relatos de como são bem tratados os que se submetem (e convertem) ao Estado islâmico e o fim que têm os que o desafiam ou são considerados apóstatas.
Os vídeos de decapitações, de fuzilamentos, de lapidações ou crucificações não são de agora. É por isso que defendo que não devem ser ignorados. Devem, isso sim, ser usados com cuidado, cortados nas suas partes chocantes e gratuitas, editados e explicados. É claro que a decapitação de James Foley elevou esta questão a um limite extremo, pela barbaridade, pela cobardia, pelo sotaque do verdugo e, sobretudo, pela proximidade da vítima. Foley é "um de nós", um ocidental que teve o azar de cair nas mãos de uns torcionários quando apenas estava a fazer o seu trabalho, absolutamente inofensivo.
A grande diferença dos dias de hoje não está na forma como jornais, televisões ou sites devem tratar este caso, mas na explosão da internet e das redes sociais. Em 2002 o jornalista Daniel Pearl foi decapitado no Paquistão, mas o vídeo pouco foi visto, apesar de ter sido notícia em todo o mundo. Dois anos depois, o vídeo da decapitação do empresário americano Nicholas Berg foi divulgado na Malásia, mas a sua visualização foi restrita. O que mudou entretanto não foi a brutalidade dos verdugos nem a natureza das vítimas, foi a força das redes sociais e dos sites de alojamento de vídeos. E mudou para toda a gente, para vítimas e atacantes, para quem está por perto ou do outro lado do mundo.
A sofisticação do estado Islâmico é evidente. Tem Apps oficiais (The Dawn of Glad Tidings ou simplesmente Dawn), tem gestores de redes sociais, adapta as hashtags até ao ponto em que são trends no twitter, tem contas sucessivas no youtube para nunca estar fora do ar e, em caso extremo, recorre a uma rede social chamada Diaspora onde os vídeos são literalmente impossíveis de serem retirados, porque ironicamente tem uma arquitetura pensada para escapar à censura dos Estados...
Ignorar a propaganda do Estado Islâmico não é uma boa opção. Podemos e devemos cortar partes chocantes e não repetir ad nauseam as imagens. Mas ignorá-las pode ter um efeito errado. É verdade que as imagens provocam o efeito pretendido ao espalhar o medo entre nós, mas não é menos verdade que os Estados Unidos e a União Europeia só acordaram para o estado Islâmico quando estas imagens chocaram os cidadãos dos seus países. Não é caso único, foi a queda do avião da Malasian Airlines que obrigou a União Europeia a deixar de ignorar que a Rússia estava a interferir no conflito ucraniano...
O maior desafio na reação à propaganda do estado Islâmico não está nas redações, mas nas redes sociais e motores de busca. As redações devem aprender a trabalhar perante uma ameaça tão sofisticada e tão bem organizada em todo o tipo de ações. Por exemplo, sabe-se agora que o célebre assalto do estado Islâmico ao Banco Central de Mossul não valeu nem de perto nem de longe os célebres 430 milhões de dólares que o Estado Islâmico divulgou.
Nas redes o desafio é muito mais complexo. O Youtube, o Facebook e o Twitter demoraram muito a responder à propagação do vídeo da decapitação de Foley. Foram muito lentos e ainda hoje os vídeos e as fotografias circulam. Num artigo no Financial Times, Zenyep Tufecki, da Universidade da Carolina do Norte, lembra que se o Estado Islâmico tivesse usado imagens não autorizadas de um concerto de Beyoncé, estas tinham sido imediatamente retiradas. Esta é a questão fundamental: qualquer imagem de Beyoncé, da Premier League ou da Formula 1 é retirada mais depressa das redes sociais que uma decapitação.
Este tema não fica por aqui. O Estado Islâmico vai estar entre nós muito tempo e vai bombardear os nossos espaços públicos, que hoje são os meios de comunicação social, mas, muito mais, as redes sociais. Um campo vasto que faz toda a diferença entre a quase indiferença da decapitação de Daniel Pearl em 2002 e a de Foley em 2014. E que faz toda a diferença entre as atrocidades do Estado islâmico e as do exército nigeriano. As redes sociais são muito assim, de modas e ondas avassaladoras. Lembram-se de Koni, que obrigava crianças a lutar ao seu lado no Uganda? Claro que não, isso já foi em 2012...

Ainda haverá fulgor para um novo Poitiers?

por A-24, em 21.09.14

Onde é que o Estado Islâmico vai buscar dinheiro?

por A-24, em 08.09.14
Via Observador

Estima-se que os ataques de 11 de setembro de 2001 tenham custado aos cofres de Bin Laden e da al-Qaeda um a dois milhões de euros, entre logística, subornos e custos com os terroristas nos EUA. Com o atual ritmo a que o autodenominado Estado Islâmico (EI) consegue juntar dinheiro, este grupo terrorista tem capacidade para fazer um ataque como o do World Trade Center por dia sem precisar de recorrer a qualquer financiamento externo.
Venda e exploração de petróleo, controlo de comida e água, extorsão, impostos e resgates são apenas algumas das atividades levadas a cabo pelo EI, que fazem com que todos os dias entre dois a três milhões de dólares sejam adicionados aos cofres do grupo liderado por Abu Bakr al-Baghdadi. A consolidação da ocupação dos territórios conquistados e o avanço no terreno, tomando algumas das cidades mais importantes a nível estratégico e financeiro do Iraque, fazem com que esta organização seja autossuficiente e, por isso, cada vez mais difícil de travar.
“Eles têm uma economia estável, tanto na Síria como no Iraque”, defende Hasan Abu Hanieh.
Não há informação oficial ou números certos sobre a origem e os valores atualmente detidos pelo Estado Islâmico. Sabe-se, sim, que para alimentar o crescimento exponencial deste grupo nos últimos meses foram precisas duas coisas: financiamento e organização. O EI conta com quase 100 mil homens nas suas fileiras, todos pagos e com valores muito superiores a outros grupos rebeldes sírios, uma área de influência cada vez maior e tem armamento cada vez mais potente que vai adquirindo ou saqueando.
Algumas estimativas mostram que o grupo pode estar a gerir mais de dois mil milhões de dólares em bens e dinheiro e, assim, a desenvolver a sua própria economia. “Eles têm uma economia estável, tanto na Síria como no Iraque”, defende Hasan Abu Hanieh, um académico jordano citado pelo “Wall Street Journal”.
Algumas estimativas mostram que o grupo pode estar a gerir mais de dois mil milhões de dólares em bens e dinheiro, e assim a desenvolver a sua própria economia.
Esta estabilidade da economia está ligada ao seu avanço estratégico no Iraque, onde o grupo luta para tomar os principais campos petrolíferos e refinarias. Há semanas que os guerrilheiros do EI combatem o exército para tomarem Baiji, a maior refinaria do Iraque. Outro dos objetivos do grupo é o de chegar a Kirkuk, a maior reserva de petróleo do Iraque.


Territórios ocupados pelo Estado Islâmico em agosto de 2014
Na Síria, a organização controla oito campos de gás e petróleo nas regiões de Raqqah e Deir Ezzor, vendendo o barril de petróleo bruto entre 26 a 35 dólares – o preço atualmente situa-se nos 95 dólares nos mercados internacionais. O barril de petróleo pronto para transformação é mais caro, sendo vendido por cerca de 60 dólares. Estes combustíveis são adquiridos por intermediários locais que depois transportam o crude para refinarias na Turquia, no Irão e no Curdistão.

O grupo também não tem qualquer problema em fornecer energia às forças que combate e que apelida muitas vezes de infiéis, abastecendo por exemplo, o exército sírio. Estima-se que na Síria o Estado Islâmico esteja a conseguir produzir entre 30 mil a 70 mil barris de petróleo por dia, segundo rebeldes que desertaram.
A dimensão das vendas de combustível oriundo do Estado Islâmico no mercado negro não é difícil de constatar na região, já que o ministro dos Negócios Estrangeiros da Turquia disse publicamente que houve um aumento de 300% na apreensão de petróleo ilegal na fronteira entre a Síria e a Turquia desde 2011, altura em que começaram os combates.
O mapa abaixo é atualizado diariamente pelo The Long War Journal, consoante o avanço das tropa dos Estado Islâmico no terreno:
O contrabando só tem agora tendência a crescer e a desenvolver-se com o avanço no território iraquiano. Esta organização, segundo avança Valerie Marcel, investigadora de Chatham House, está já a atrair mão-de-obra especializada na prospeção, tratamento e transformação do crude. “Estas pessoas têm a capacidade de pôr estas instalações [refinarias e poços] a funcionar. O EI está a produzir petróleo”, assegurou ao Buzzfeed.
Estima-se que na Síria, o Estado Islâmico esteja a conseguir produzir entre 30 mil a 70 mil barris de petróleo por dia, segundo rebeldes que desertaram.
O mealheiro dos terroristas

Mas não é só a partir do contrabando de petróleo que se faz o grupo terrorista mais rico do mundo. Apesar de no início haver especulação sobre o financiamento desta organização por parte de países como o Qatar, Arábia Saudita e Kuwait (o ministro alemão da Desenvolvimento e Cooperação económica acusou mesmo o Qatar de armar e financiar o EI), agora sabe-se que atualmente o grupo é financeiramente independente de qualquer país ou indivíduo – continuando a receber generosas doações de magnatas da região que apoiam o califado declarado a 30 de junho.
Uma das pistas mais sólidas sobre a forma como este grupo atua para obter fundos e se organiza internamente foi conseguida dias antes de o EI tomar a cidade de Mosul em junho, com a apreensão de 160 pens USB que pertenciam à organização terrorista. O exército iraquiano, assim como os serviços de informação norte-americanos, ficaram surpreendidos pelo grau de detalhe que os registos do EI demonstravam.
Para além de compilar todos os nomes, alcunhas e desempenho dos guerrilheiros vindos do estrangeiro que se juntaram ao grupo terrorista, havia um registo meticuloso das suas finanças, da hierarquia de comando e das suas fontes de informação em ministérios na Síria e no Iraque, segundo relata o “Guardian”.
Antes de tomar Mosul, o EI teria, entre bens e dinheiro, cerca de 875 milhões de dólares, segundo os registos informáticos encontrados. Para além de explorar desde 2012 campos petrolíferos na Síria, também se descobriu que vendia antiguidades pilhadas em museus sírios no mercado negro. A organização vendeu artefactos com mais de oito mil anos roubados em al-Nabuk, perto de Damasco, por 36 milhões de dólares.
Quando Mosul passou para o domínio do EI, o grupo fez um dos seus maiores saques, roubando quase 500 milhões de dólares do banco local. Tanto os serviços de informação norte-americanos, como o exército iraquiano não sabem onde é que a organização guarda o dinheiro, podendo estar distribuído em várias contas por todo o mundo ou guardado algures na Síria ou no Iraque.
O exército iraquiano ficou surpreendido pelo grau de detalhe que os registos do Estado islâmico demonstravam.

A violência do dinheiro
As práticas violentas do EI não fazem apenas parte da sua estratégia militar. Integram o dia-a-dia das cidades que ocupam e traduzem-se na imposição de impostos e extorsão, tanto na Síria como Iraque. Por mês, o grupo conseguirá arrecadar cerca de 12 milhões de dólares desta forma.
“É sabido que o Estado Islâmico é quase inteiramente autofinanciado”, Charles Lister
Charles Lister, investigador do Brookings Doha Center, disse, em entrevista à Der Spiegel, que o dinheiro “é a chave do EI”. “É sabido que o Estado Islâmico é quase inteiramente autofinanciado. O dinheiro vem do controlo e da venda ilícita de petróleo e gás, produtos agrícolas como cereais, controlo da água e da eletricidade e de cobrar impostos nas áreas que controla”. O académico relata que o grupo está a tentar cumprir as funções de um governo, controlando até ao pormenor a vida das pessoas que vivem nos seus territórios.

Assim, cabe à estrutura montada em cada cidade pelo EI regular o comércio, especialmente o tradicional comércio de rua, e recolher o pagamento pela “proteção” das suas milícias – o nível de organização é tão grande, que o grupo também exerce o poder judicial, instituindo tribunais que decidem segundo a lei islâmica os mais diferentes casos, desde disputas de terras a adultérios, como se pode ver no documentário do site “VICE”, filmado na capital do Estado Islâmico, Raqqah.
Os impostos passaram a ser recolhidos pelo Estado Islâmico nas cidades que dominam. Para os cristãos e outras minorias que decidiram ficar nestes territórios, o EI impõe um imposto adicional. Também quem se dedica à agricultura e à pecuária tem de entregar uma parte da sua produção aos terroristas.
O “Business Insider” dá conta que o próprio EI já estará a fazer a sua própria farinha depois de se ter apoderado de terras nas cinco principais províncias produtoras de cereais no Iraque. Estas terras são responsáveis por 40% da produção de cereais e pelo caminho, o EI saqueou silos do governo que continham entre 40 mil a 50 mil toneladas de cereais. A farinha produzida pelo Estado Islâmico estará mesmo a ser vendida às autoridades iraquianas para arrecadar mais fundos.
Quanto a resgates, tornou-se prática comum no califado raptar pessoas para depois exigir largas somas de dinheiro em troca, não só cidadãos estrangeiros, mas também habitantes locais. Esta prática já terá rendido cerca de 125 milhões de dólares ao grupo terrorista nos últimos cinco anos, segundo avança o “New York Times”, e sabe-se agora que, antes da execução de James Foley, o Estado Islâmico pediu às autoridades norte-americanas e à família do jornalista, um resgate multimilionário.

A mais recente fonte de receitas do EI é a venda de jovens cristãs como escravas sexuais aos guerrilheiros por 150 dólares, segundo uma família fugida da região relatou ao chegar a Paris.

Para os cristãos e outras minorias que decidiram ficar nestes territórios, o IS impõe um imposto adicional. Também quem se dedica à agricultura e à pecuária tem de entregar uma parte da sua produção aos terroristas.

Como travar o Estado islâmico?
Financiando-se a nível local e dependendo só de si próprios para manter a operação militar, é impossível lidar com o EI utilizando as fórmulas do passado. Impor sanções internacionais a países que estejam a ajudar os guerrilheiros não parece ser eficaz, já que poucos analistas acreditam que nesta altura algum Estado ainda esteja a financiar um grupo tão radical.
Quanto a doações individuais, ocorrem através de países onde os fluxos de capital não são controlados, o que leva a um vazio de informação sobre a sua proveniência e sobre o seu destino. A maneira mais eficaz seria travar o mercado negro de petróleo na região, o que implicaria maiores controlos transfronteiriços, mas também a consciencialização, por parte dos iraquianos e dos curdos, que a compra de petróleo a intermediários que lidam com o EI só fomenta o avanço desta organização dentro do país.
Os ataques aéreos norte-americanos na zona de Kirkuk abrandaram a conquista de território por parte dos guerrilheiros na região, dando espaço para a fuga dos cristãos iraquianos que estavam encurralados nas montanhas e continua a dar frutos, já que, após várias semanas, o exército iraquiano conseguiu romper o cerco que o EI fazia à cidade de Amerli. Mas o Estado Islâmico continua a expandir-se em várias frentes, intensificando a luta pela refinaria de Erbil.
Alemanha, França e Reino Unido vão enviar durante as próximas semanas armas para os combatentes curdos. Na Alemanha o anúncio foi feito este domingo e o ministro da Defesa referiu que a situação é crítica”. Berlim vai enviar 70 milhões de euros em equipamento militar, incluindo oito mil espingardas G36, cinco tanques, proteções corporais e sistemas de comunicação, e ainda 50 milhões de euros em ajuda humanitária.
Uma das melhores hipóteses de travar este grupo é a de a Turquia continuar a reter as águas do rio Eufrates, que é uma das principais fontes de àgua na Turquia, na Síria e no Iraque. A Turquia fechou recentemente a barragem e a capital dos terroristas, Raqqah, já se está a ressentir. No entanto, continuar a reter estas águas pode significar a morte de milhões de pessoas que dependem deste rio como fonte de água potável.

Dos conflitos actuais - via Observador

por A-24, em 02.09.14

(...) Escolhi por isso um tema que cruza a nossa actualidade com o que se passa no mundo: a ida de portugueses para a Síria para combaterem ao lado dos jihadistas. Ainda serão muito poucos, sobretudo se compararmos com o que se passa noutros países europeus, mas este fim-de-semana o Expresso contou-nos ahistória de um casal – ela filha de alentejanos, ele criado na linha de Sintra – que foi juntar-se ao califado (link para assinantes). Pequeno extrato:

Ângela comenta a Jihad nas redes sociais, Fábio vai para a frente de combate. Fonte ligada aos serviços de informação portugueses coloca-o na brigada Kataub al Muhajireen do EI, constituída apenas por combatentes de países ocidentais, como a Grã-Bretanha, Alemanha, França ou Dinamarca. Ao seu lado há pelo menos mais três portugueses: dois irmãos, de 26 e 30 anos, que como Fábio, cresceram na linha de Sintra; e um jovem de Quarteira, de 28 anos. São amigos no Facebook e irmãos de armas na frente de guerra. Os quatro converteram-se ao islamismo quando estavam emigrados nos arredores de Londres e daí partiram para a Síria.
Em Portugal existirão, como se sublinhava numa recente reportagem do Fábio Monteiro no Observador, cerca de 55 mil praticantes da religião de Maomé. Entre nós não há sinais visíveis de derivas radicais semelhantes às que têm surgido noutros países europeus, não devendo ser por acaso que nos casos contados pelo Expresso a radicalização ocorreu no Reino Unido e na Holanda.
A capacidade que o ISIS tem demonstrado de recrutar combatentes na Europa Ocidental justificou um artigo na última edição da Economist, onde se publica um mapa que dá uma ideia precisa, quantificada, do que está a acontecer:
Nesta vaga de combatentes, há uma novidade: a presença de mulheres (como a portuguesa Ângela):
Most Western fighters are men under 40, but this war has attracted more women than past causes. Some 10-15% of those travelling to Syria from some Western countries are female. (…) Some hope to marry, others join all-female units to ensure that women in areas under IS control obey the strictest version of Islamic rules, such as covering up; a few take part in battles.
Por todo o lado os governos começam a tomar medidas. NaHolanda tiram o passaporte às famílias que querem juntar-se ao Estado Islâmico. Em Espanha os serviços de informação já confirmaram que há 51 nacionais a combater com os jihadistas. Na Alemanha suspeita-se que pelo menos 20 antigos soldados, treinados pelas forças armadas germânicas, possam ter já ido para a Síria.

Mas é seguramente no Reino Unido que o nível de alarme é maior. Primeiro, porque se leva realmente a sério a hipótese de o país ser alvo de atentados. Depois, porque a maioria dos eleitores defende que seja retirada a cidadania a esses jihadistas e o governo de David Cameron anunciou hoje novas medidas para conter a ameaça terrorista. Finalmente porque o aparecimento destes radicais coincide com a revelação de outros escândalos que põem em causa o multiculturalismo prevalecente no modelo de integração britânico.
Comecemos pelos jihadistas e por uma interessantíssima entrevista do Wall Street Journal com um antigo radical. Shiraz Maher, cidadão britânico, foi durante alguns anos militante e, depois, dirigente do grupo radical Hizbut Tahrir, até que, ao presenciar os atentados de Londres em 2005, rompeu com o radicalismo. Hoje dedica-se a estudar o radicalismo: faz parte do International Center for the Study of Radicalization, no King’s College de Londres. É impossível resumir tudo aquilo que diz, mas deixa aqui apenas uma passagem, como aperitivo:
Hizbut Tahrir, for example, organized a 1994 conference in London about the need to establish a caliphate. The event drew Islamists from Sudan to Pakistan, yet Mr. Maher says U.K. law enforcers took a blasé attitude: "These exotic guys with beards are talking about a new state. OK." The result was that the "idea of having an Islamic state had been normalized within the Muslim discourse," Mr. Maher says, and young Muslims were taught to think of their British identity as something "filthy."
O tema da relação da Inglaterra com os seus radicais foi de resto o escolhido por Maria João Marques para a sua última crónica, “Senhor jihadista, posso ter a Grã-Bretanha de volta? Obrigada.” Nela sublinhou, por exemplo:
É sabido e mais que documentado que muitas mesquitas britânicas são centros de radicalização, incitamento ao ódio e violência e recrutamento de jovens desequilibrados para uma guerra que têm a falta de pudor de chamar santa. Douglas Murray, na Spectator, faz um resumo dos casos envolvendo jihadistas britânicos que as boas consciências herculeamente ignoraram. Quem avisou que este caldinho seria calamitoso foi apelidado de islamofóbico e intolerante. E quem cala, consente, não é?

Pois é. E o problema parece começar, pelo menos para muitos britânicos, quando a obsessão com o politicamente correcto impede de ver, ou de denunciar, crimes que estão a acontecer debaixo do nosso nariz. O caso mais recente é a descoberta de que pelo menos 1.400 crianças tinham sido abusadas sexualmente em Rotherham. Um relatório independente, aqui sintetizado pela Economist, revelou que ao longo de 26 anos as autoridades locais não fizeram nada para impedir esses crimes. Ou, mais exactamente, estiveram paralisadas , como escreveu a Spectator:
In Rotherham, political correctness about race seems to have paralysed police and social workers. The report says that ‘-several staff described their nervousness about identifying the ethnic origins of perpetrators for fear of being thought racist.
Este caso levou a que de imediato se levantassem vozes contra o que foi descrito como o “legado tóxico de multiculturalismo”. O caso foi naturalmente relacionado com outro escândalo, o do “cavalo de Tróia” nas escolas de Birmingham, uma zona de forte presença de comunidades islâmicas onde nas escolas públicas já se tolerava o ensino da sharia. O problema, de resto, não é novo, como relata o director do jornal online Spiked, Brendan O'Neill: "When Political Correctness Took Over in Yorkshire - Official fear of 'giving offense' allowed 1,400 girls to be victimized".

Sai mais um califado

por A-24, em 01.09.14
A Batalha

O líder do grupo terrorista nigeriano Boko Haram, Abubakar Shekau, proclama o nascimento do califado na localidade de Gwoza, localizada no Nordeste da Nigéria, no estado de Borno. “Graças a alá, os nossos irmãos alcançaram a vitória em Gwoza, que a partir deste momento faz parte do califado islâmico.” A declaração com a duração de mais de uma hora, foi transmitida em vídeo e constitui o primeiro passo na concretização do objectivo de implantar a lei e o estado islâmico na Nigéria. Cerca de 100 pessoas, entre os quais 35 polícias, desapareceram. Em jeito de aviso às autoridades nigerianas, Abubabar Shekau informou que os islamitas resistirão a qualquer tentativa que seja feita no sentido de os desalojar das zonas ocupadas.
O grupo terrorista Boko Haram tem intensificado durante o último ano as suas acções na zona Norte do país, de maioria muçulmana. Perante a manifesta incompetênca e impotência das forças militares da Nigéria, nas últimas semanas conquistaram vários territórios, incluíndo alguns perto da fronteira com os Camarões, assassinando quem se constitui como ameaça, matando para servir de exemplo.
No vizinho Chade, militares resgataram ao grupo terrorista islâmica 85 aldeões nigerianos que haviam sido raptados das suas localidades. De acordo com as informações dadas pelos militares chadianos, durante uma inspecção de rotina, foram detidos dois autocarros repletos de reféns e de homens armados. Segundo os reféns, os terroristas terão assassinado, pelo menos, 28 pessoas e feriram muitas outras antes de levarem os reféns em direcção ao Chade.
Entretanto, o Presidente de França, François Hollande, sublinhou a necessidade de organizar uma cimeira de âmbito internacional para que se analisem as formas para combater o avanço do grupos jihadistas. François Hollande defende “uma estratégia global” para lutar contra o terrorismo.

Como reagiria a califagem?

por A-24, em 29.08.14


Os califeiros fartam-se de publicar mapas com ameaças de conquista, englobando todas as terras que de Bassorá a Lisboa, um dia obedeceram aos sátrapas muçulmanos. 


O mundo ocidental é perito no encaixe e devida resposta a provocações gratuitas, às bravatas que já custaram a liquidação de alguns impérios e potências expansionistas. Nos anos trinta, os agentes doAhnenerbe andavam à cata de suásticas e runas, palmilhando toda a Europa do Minho à Finlândia e chegando a enviar expedições às alturas dos Himalaias. Lembram-se do filme Sete Anos no Tibete? Tratava esse tema. Onde cavocassem uma suástica virada fosse para que lado fosse, aí estava um marco susceptível de validar uma reivindicação ariana.


Os califeiros afinam pelo mesmo diapasão. Agora, neste 23 de Agosto em que passam 75 anos da celebração do Pacto Germano-Soviético, imaginem qual seria a reacção dessa turbamulta de bandidos armados - vejam o video, se conseguirem -, se num dente por dente, os cristãos desatassem a reivindicar todos os antigos territórios vizinhos do Mediterrâneo e outrora pertencentes à cristandade. Para já, existe uma clara vantagem sobre o Ahnenerbe e sucessora califagem: não é necessário cavar buracos poeirentos na terreola "santa", nem peneirar ossinhos ou esgravatar em busca da inexistente "Arca da Aliança" de todas as prestidigitações. Os vestígios saltam à vista. A propósito, quanto à Hagia Sofia...


* O ocidente não mostra. A net fervilha de imagens horrendas e só não acredita quem não quer inteirar-se do que está em causa. São estas, as bestas.

Sobre a morte de James Foley

por A-24, em 21.08.14
José Manuel Fernandes

As imagens são terríveis e a generalidade dos órgãos de informação não as publicou. Um jornalista a ser decapitado. Outro a ser ameaçado, com uma faca na garganta. Depois a decisão acertada do Twitter de bloquear o vídeo chocante da morte de Foley. Tudo a revelar a brutalidade da acção dos radicais islâmicos do ISIS, cujos métodos levaram à denúncia de que “está em curso um genocídio medieval contra a população civil no Iraque”. E por fim a ideia de que há problemas para os quais só verdadeiramente despertamos quando tocam alguém que sentimos mais próximo – como um jornalista.


James Foley, o jornalista decapitado, e Steven Sotloff, o jornalista que o jihadistas ameaçam decapitar, estavam na Síria a fazer o seu trabalho – um trabalho que, num cenário de guerra, é sempre difícil e perigoso. Outros profissionais morreram naquele conflito, apanhados pelo fogo cruzado ou no meio de um bombardeamento, alguns deles veteranos de outros conflitos. Por regra todos estavam ali como voluntários e sabiam que corriam riscos. O que não torna menos horríveis as suas mortes, sobretudo este assassinato.

Todos os que estão no terreno sabem porém que não correm apenas risco de vida – podem também pôr em jogo a sua credibilidade. Costuma dizer-se que, quando se ininia uma guerra, a primeira vítima é a verdade. E todos sabemos que a guerra da propaganda é muitas vezes mais importante do que a guerra com balas reais. Para os jornalistas o desafio é especialmente complexo porque não enfrentam apenas a dificuldade de conseguirem chegar às boas fontes de informação – confrontam-se ao mesmo tempo com tremendos desafios à sua regra de imparcialidade.

Christiane Amanpour, talvez a mais famosa repórter de guerra da CNN, disse um dia, a propósito da guerra da Bósnia: 'There was no way that a human being or a professional should be neutral.'Verdade? Na altura o seu editor corrigiu-a: 'Any good reporter caught up in a big story will occasionally go a step too far. That is why everybody has an editor.'

As dificuldades dos repórteres aumentam quando as guerras envolvem paixões não apenas nos territórios onde os exércitos se enfrentam, mas também nas opiniões públicas dos diferentes países. E poucas guerras envolvem tantas paixões como as de Israel e da Palestina. Paixões que muitas vezes também tocam os jornalistas, que até tomam partido em apaixonadas discussões. Isso mesmo está a acontecer em Israel depois de a associação da imprensa estrangeira ter feito um comunicado em que condena as pressões exercidas pelo Hamas junto dos jornalistas que seguiam o conflito a partir do interior de Faixa de Gaza: “The Foreign Press Association protests in the strongest terms the blatant, incessant, forceful and unorthodox methods employed by the Hamas authorities and their representatives against visiting international journalists in Gaza over the past month”. 

A polémica estalou quando a chefe da delegação do New York Times, Jodi Rudoren, utilizou a sua conta no Twitter para considerar essa tomada de posição uma “tonteria” (“nonsense”). Mais tarde acrescentaria que era “perigosa”. A história vem contada no Haaretz: “Foreign press divided over Hamas harassment”.

Mas esta controvérsia não tem apenas por palco os círculos frequentados pela imprensa estrangeira em Israel: já transbordou para as páginas de muitos jornais em todo o mundo. O que se discute é o equilíbrio na cobertura do recente conflito, o facto de praticamente nenhum repórter destacado em Gaza ter relatado as operações militares do Hamas, sendo que muitos transmitiam as informações fornecidas pelas autoridades locais afectas a esse grupo radical sem as escrutinarem devidamente.

No britânico The Telegraph, Alan Johnson, um estudioso do Médio Oriente, recapitula alguns episódios que seriam sinais de falta de equilíbrio na cobertura jornalística do conflito. Eis um deles:
Israeli filmmaker Michael Grynszpan described on Facebookan exchange he had had with a Spanish journalist who had just left Gaza. "We talked about the situation there. He was very friendly. I asked him how come we never see on television channels reporting from Gaza any Hamas people, no gunmen, no rocket launcher, no policemen. We only see civilians on these reports, mostly women and children. He answered me frankly: 'It's very simple, we did see Hamas people there launching rockets, they were close to our hotel, but if ever we dare pointing our camera on them they would simply shoot at us and kill us.'"

Um dos pontos mais controversos da cobertura noticiosa foi o facto de poucos jornalistas referirem que o Hamas construiu um dos seus principais bunkers por baixo do mais importante hospital de Gaza e que os repórteres esperavam pelas suas conferências de imprensa no pátio desse mesmo hospital. Esse é um dos pontos focados na reportagem da New Republic, uma reportagem significativamente intitulada “Reporters Have Finally Found Hamas. What Took So Long?”. Eis uma das histórias que aí se conta:
“A Palestinian journalist wrote in France’s Liberation newspaper that he had been interrogated by Hamas and threatened with expulsion from the Strip. A colleague had even denied him shelter for the night, explaining, “You don’t mess with these people”—Hamas, that is—“during war.” Two days later, the story was pulled at the journalist’s request.”

Depois há o problema de como se reportam as vítimas, em especial as vítimas civis. Quantas são? Porque nunca foram dados números sobre as baixas militares do Hamas? E é mesmo verdade que morreram todos aqueles filhos a todas aquelas famílias? Lembro-me de, em 2002, pouco tempo depois da batalha de Jenin (um campo de refugiados na Cisjordânia) ter assistido em Bruges, num Congresso do Fórum Mundial de Directores, a uma discussão sobre uma família de nove palestinianos que a imprensa de todo o mundo tinha dado como morta e que, afinal, estava viva. Agora sucedeu o mesmo, mas com uma família de Gaza. Muitos órgãos de informação contaram a história da família de Mohammed Badran, mas raros corrigiram a informação. Um dos que o fez foi a revista da esquerda britânia New Statesman, numa nota de correcção a uma longa reportagem intitulada “Life among the ruins: ten days inside the Gaza Strip”.

Um conflito com as características do israelo-palestiniano, onde quase todos tomam partido, tende a extremar as exigências de rigor e a levar ao aparecimento de organizações da sociedade civil que se dedicam ao escrutínio dos jornalistas. Essas organizações fazem-no, por regra, a partir de um ponto de vista. Assim, para conhecer uma perspectiva pró-palestiniana, pode-se consultar o FAIR – Fairness and Accuracy in Reporting, e ver este exemplo. Já sites como CAMERA - Committee for Accuracy in Middle East Reporting in America e HonestReporting – Defending Israel from Media Bias colocam-se mais numa perspectiva pró-israelita. Mas todos contribuem para colocar pressão sobre o trabalho dos jornalistas e lembrar-lhes, como fazia o editor de Christiane Amanpour, que às vezes se deixam envolver demais e perdem equilíbrio na forma como relatam os factos.

Por hoje é tudo. Bom descanso, boas férias (se for o caso) e, claro, boas leituras.