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A-24

The rise of "Golden Dawn"

por A-24, em 21.12.12

Ser o país mais corrupto da Europa não dá prazer nenhum

por A-24, em 11.12.12

To Vima, The Guardian

Dia 5 de dezembro, a ONG Transparência Internacional apresentou o seu relatório 2012 sobre a perceção da corrupção no mundo. Não foi novidade a Finlândia e a Dinamarca aparecerem no topo da classificação. Também não foi novidade a Somália e a Coreia do Norte aparecerem em último lugar. Entre os países da UE, a Grécia é a mais mal colocada – 94º lugar, com o Djibuti e a Colômbia -, 19 posições abaixo do penúltimo Estado-membro, a Bulgária.
Esta classificação está “totalmente errada” e “não convence”, considera To Vima, porque a “Transparência Internacional não questiona o problema e limita-se a transcrever impressões dos cidadãos”. Mas, nota o diário ateniense,
num período de grande crise, de memorando [assinado com o FMI, a UE e o BCE sobre o pagamento da dívida] e de recessão sem precedentes, em que a opinião pública é bombardeada com notícias negativas e incontáveis referências a escândalos económicos, poderiam os cidadãos dizer outra coisa? Isto não significa que a corrupção tenha aumentado ou que se tenha intensificado. Como seria possível haver mais corrupção num país onde a economia está a ser destruída, onde a recessão atinge os 7%, onde os bancos estão paralisados, onde as obras públicas estão paradas? É evidente que este relatório não tem sentido. Vai sendo tempo de acabar com estes disparates desnecessários que se escondem por trás de ONG como a Transparência. Riem-se das pessoas. O Governo tem de reagir imediatamente.
Uma opinião refutada por Costas Bakouris, presidente da secção grega desta ONG. Num artigo de opinião publicado no Guardian, recorda que, no máximo, na semana anterior, a Comissão Europeia e a…Transparência Internacional Grécia
apresentaram em Atenas um plano de luta contra a corrupção no país. Quando vemos o índice de perceção da corrupção, torna-se imperativo que as iniciativas anticorrupção apresentadas sejam prontamente postas em prática.

Partidos políticos numa encruzilhada

por A-24, em 10.12.12

Ao escolherem Pier Luigi Bersani, do Partido Democrático, como candidato do centro-esquerda a primeiro-ministro, os eleitores italianos contrariaram a ideia de que a crise da zona euro está a destruir o sistema tradicional de partidos políticos, na Europa do Sul.
Pier Luigi Bersani, de 61 anos, é um ex-comunista originário da classe trabalhadora, que, nas eleições primárias de domingo, contou com o apoio da sua fiel base sindical para derrotar Matteo Renzi, presidente da Câmara de Florença e seu opositor, de 37 anos.
As sondagens indicam que o Partido Democrático conta com um apoio nacional de 30%, bem à frente dos seus rivais, pelo que Bersani parece bem colocado para vir a ser primeiro-ministro de um governo de coligação de esquerda, depois das eleições legislativas, previstas para março.
Contudo, tanto em Itália como em toda a zona do Mediterrâneo, a posição dos partidos tradicionais é mais confusa do que o sucesso de Bersani tende a indicar. A evolução mais significativa da política italiana continua a ser a desintegração das forças de centro-direita, que dominaram a cena nacional desde 1994. O partido Povo da Liberdade, do antigo primeiro-ministro Silvio Berlusconi, em tempos conhecido como Forza Italia, regista um recuo acentuado. Boa parte da sua base de apoio está a transferir-se para o idiossincrático Movimento Cinco Estrelas, do humorista Beppe Grillo.
Contudo, os atrativos da destruição da política têm os seus limites, mesmo num país como a Itália, onde as elites partidárias estão desacreditadas por terem arrastado o país para a beira do desastre financeiro. Imediatamente a seguir à Segunda Guerra Mundial, irrompeu na cena política um partido “antiestablishment” conhecido como Uomo Qualunque (Homem Comum), que obteve mais de um milhão de votos nas eleições de 1946 e 1948 e cerca de duas dezenas de assentos no parlamento.

Uma força esgotada

A verdade é que o “qualunquismo” desapareceu quase tão rapidamente como tinha aparecido, varrido pelos democratas cristãos, à direita, e pelos comunistas, à esquerda. A questão é se o movimento de Beppe Grillo sobreviverá ao ressurgimento inevitável do centro-direita italiano, depois de Berlusconi finalmente desistir.
A Grécia representa o exemplo mais claro do colapso da ordem estabelecida. Até à crise da dívida de 2009, a política tinha sido controlada por dois partidos, desde o fim do regime militar, em 1974: o conservador Nova Democracia e o socialista PASOK. Mas, nas eleições gerais de há seis meses, a votação combinada desses dois partidos mal chegou aos 42%.
O PASOK, em especial, com apenas 12,3%, parece uma força esgotada. Os eleitores transferiram-se em massa para o Syriza, uma alternativa mais explicitamente de esquerda. No entanto, além do facto óbvio de que o eleitorado estava a expressar a sua cólera pela descida da Grécia ao abismo, uma das razões pelas quais se deu a fuga de apoios dos partidos tradicionais residiu no facto de estes terem muito menos benefícios a oferecer em troca dos votos.
Os sistemas de partidos construídos em Espanha e Portugal, após as transições democráticas dos anos 1970, estão, para já, a resistir melhor do que na Grécia. A nível nacional – embora não a nível regional em Espanha – a competição é, em larga medida, entre um grande partido, à direita, e um grande partido, à esquerda. A mudança é travada pela natureza altamente centralizada destes partidos e pelo poder das lideranças partidárias para escolher candidatos às eleições, sem o contributo dos membros comuns do partido ou dos eleitores.

Apoio a Rajoy em queda livre

No entanto, existem algumas diferenças entre Espanha e Portugal. Apesar de os índices de popularidade do primeiro-ministro de centro-direita, Mariano Rajoy, estarem em queda livre, os cidadãos espanhóis não dão mostras de gostar mais do líder da oposição socialista, Alfredo Pérez Rubalcaba. Mesmo entre os eleitores do seu próprio partido, verifica-se uma espantosa ausência de convicção de que Rubalcaba governaria mais eficientemente a Espanha do que Rajoy.
A Espanha apresenta algumas condições essenciais para uma reformulação do sistema de partidos, mas isso parece ser menos verdadeiro no caso de Portugal. Ali, os sociais-democratas (centro-direita), no poder, e os socialistas, na oposição, mantêm a capacidade de moldar as atitudes de um povo que parece quase sempre mais passivo a nível político do que os seus primos espanhóis. Em 1975, quando se realizaram em Portugal as primeiras eleições livres em cinco décadas, a afluência foi de 92%. Mas, nas eleições gerais do ano passado, foi de 58%.
É desanimador pensar que, mesmo num período de crise, os jovens nascidos numa sociedade democrática votam menos do que os seus pais, que viveram diretamente o autoritarismo.

A bancarrota alemã dos anos 20 e a bancarrota da Grécia de hoje

por A-24, em 14.11.12
Em 1953, há menos de 60 anos - apenas uma geração - a Alemanha de Konrad Adenauer entrou em default, falência, ficou kaput, ou seja, ficou sem dinheiro para fazer mover a actividade económica do país. Tal qual como a Grécia actualmente.
A Alemanha negociou 16 mil milhões de marcos em dívidas de 1920 que entraram em incumprimento na década de 30 após o colapso da bolsa em Wal...l Street. O dinheiro tinha-lhe sido emprestado pelos EUA, pela França e pelo Reino Unido.
Outros 16 mil milhões de marcos diziam respeito a empréstimos dos EUA no pós-guerra, no âmbito do Acordo de Londres sobre as Dívidas Alemãs (LDA), de 1953. O total a pagar foi reduzido 50%, para cerca de 15 mil milhões de marcos, por um período de 30 anos, o que não teve quase impacto na crescente economia alemã.
O resgate alemão foi feito por um conjunto de países que incluíam a Grécia, a Bélgica, o Canadá, Ceilão, a Dinamarca, França, o Irão, a Irlanda, a Itália, o Liechtenstein, o Luxemburgo, a Noruega, o Paquistão, a Espanha, a Suécia, a Suíça, a África do Sul, o Reino Unido, a Irlanda do Norte, os EUA e a Jugoslávia.
As dívidas alemãs eram do período anterior e posterior à Segunda Guerra Mundial. Algumas decorriam do esforço de reparações de guerra e outras de empréstimos gigantescos norte-americanos ao governo e às empresas. Durante 20 anos, como recorda esse acordo, Berlim não honrou qualquer pagamento da dívida (!).
Por incrível que pareça, apenas oito anos depois de a Grécia ter sido invadida e brutalmente ocupada pelas tropas nazis, Atenas aceitou participar no esforço internacional para tirar a Alemanha da terrível bancarrota em que se encontrava. Ora os custos monetários da ocupação alemã da Grécia foram estimados em 162 mil milhões de euros sem juros. Após a guerra, a Alemanha ficou de compensar a Grécia por perdas de navios bombardeados ou capturados, durante o período de neutralidade, pelos danos causados à economia grega, e pagar compensações às vítimas do exército alemão de ocupação. As vítimas gregas foram mais de um milhão de pessoas (38960 executadas, 12 mil abatidas, 70 mil mortas no campo de batalha, 105 mil em campos de concentração na Alemanha, e 600 mil que pereceram de fome). Além disso, as hordas nazis roubaram tesouros arqueológicos gregos de valor incalculável.
Qual foi a reacção da direita parlamentar alemã aos actuais problemas financeiros da Grécia? Segundo esta, a Grécia devia considerar vender terras, edifícios históricos e objectos de arte para reduzir a sua dívida.
Além de tomar as medidas de austeridade impostas, como cortes no sector público e congelamento de pensões, os gregos deviam vender algumas ilhas, defenderam dois destacados elementos da CDU, Josef Schlarmann e Frank Schaeffler, do partido da chanceler Merkel. Os dois responsáveis chegaram a alvitrar que o Partenon, e algumas ilhas gregas no Egeu, fossem vendidas para evitar a bancarrota. "Os que estão insolventes devem vender o que possuem para pagar aos seus credores", disseram ao jornal "Bild".
Depois disso, surgiu no seio do executivo a ideia peregrina de pôr um comissário europeu a fiscalizar permanentemente as contas gregas em Atenas.
O historiador Albrecht Ritschl, da London School of Economics, recordou recentemente à "Spiegel" que a Alemanha foi o pior país devedor do século XX. O economista destaca que a insolvência germânica dos anos 30 faz a dívida grega de hoje parecer insignificante. "No século xx, a Alemanha foi responsável pela maior bancarrota de que há memória", afirmou. "Foi apenas graças aos Estados Unidos, que injectaram quantias enormes de dinheiro após a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, que a Alemanha se tornou financeiramente estável e hoje detém o estatuto de locomotiva da Europa. Esse facto, lamentavelmente, parece esquecido", sublinha Ritsch.
O historiador sublinha que a Alemanha desencadeou duas guerras mundiais, a segunda de aniquilação e extermínio, e depois os seus inimigos perdoaram-lhe totalmente o pagamento das reparações ou adiaram-nas. A Grécia não esquece que a Alemanha deve a sua prosperidade económica a outros países. Por isso, alguns parlamentares gregos sugerem que seja feita a contabilidade das dívidas alemãs à Grécia para que destas se desconte o que a Grécia deve actualmente.
A ingratidão dos países, tal como a das pessoas, é acompanhada quase sempre pela falta de memória.
(por Albrecht Ritschl, da London School of Economics)

Chineses ressuscitam o Pireu

por A-24, em 22.10.12

Um trabalhador da China Ocean Shipping Company, no porto de Pireus, junho de 2010.
AFP
Desde que passou a gerir parte do histórico porto grego do Pireu, a empresa chinesa Cosco duplicou o tráfego de carga durante o último ano. A parte grega do porto olha com ceticismo, e talvez alguma inveja, refere um artigo do New York Times.
Liz Alderman
Pireu. No seu elegante gabinete com vista para este porto no mar Egeu o capitão sorri enquanto os guindastes descarregam contentor após contentor de dentro de um gigantesco navio. Veículos automáticos transferem a carga para embarcações menores que as transportarão pelo Mediterrâneo.
O volume de carga é atualmente três vezes superior ao de há dois anos, antes de o capitão Fu Cheng Qiu ser colocado neste posto pela Cosco, uma transportadora mundial gigantesca, propriedade do Governo chinês.
Num negócio de 2010 que deu aos depauperados cofres gregos cerca de €500 milhões, a Cosco alugou metade do porto do Pireu e rapidamente converteu um negócio em declínio, gerido pelo Estado grego, num viveiro de produtividade.
A outra metade do porto ainda é gerida pela Grécia. E o facto de o seu negócio ser muito inferior ao da Cosco mostra como intrincadas leis laborais e salários relativamente elevados – para os afortunados que ainda têm trabalho – sufocam o crescimento económico do país. “Aqui toda a gente sabe que tem de trabalhar muito,” afirma o Capitão Fu. Sob a sua batuta a parte chinesa do porto tem atraído novos clientes, enormes volumes de tráfego e navios maiores.
O Capitão Fu diz que a Grécia tem muito a aprender com empresas como esta. “Os chineses querem gerar dinheiro trabalhando”. Para ele houve demasiados europeus a viver uma existência excessivamente confortável e protegida desde o fim da Segunda Guerra Mundial. “Querem uma boa vida, mais férias e menos trabalho”, afirma. “E gastam dinheiro antes de o ganhar. Agora, estão cheios de dívidas.”
A troika de financiadores da Grécia – Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia – tem argumentos semelhantes. Entre outras coisas estão a pressionar o primeiro-ministro Antonis Samaras no sentido de este acabar com as proteções aos trabalhadores e aos sindicatos. Exigem à própria Grécia que passe a funcionar como um negócio produtivo moderno.

Uma mão cheia de gestores chineses
Além dos €500 milhões recebidos pela cedência do Pireu aos chineses, o Governo grego recebe agora mais impostos, resultado da retoma do negócio do porto. Além de uma mão cheia de gestores chineses, a Cosco dá, ainda, emprego a mais de mil trabalhadores gregos – mais que os 800 que trabalhavam nas docas sob gestão grega.
Na parte do porto utilizada pela Cosco, o tráfego de carga mais do que duplicou no último ano, para cerca de 1,05 milhões de contentores. As margens de lucro ainda são relativamente pequenas – €4,98 milhões no último ano para um volume de vendas de €72,5 milhões. Isto acontece porque a empresa chinesa está a reinvestir muito deste dinheiro no próprio porto. A Cosco está a gastar mais de €299 milhões para modernizar a sua doca, para que esta possa movimentar até 3,7 milhões de contentores no próximo ano, o que a tornará numa das dez maiores do mundo. Além disso, os trabalhadores também estão a abrir as fundações para um segundo cais da Cosco.
O lado grego do porto, afetado por várias e debilitantes greves dos trabalhadores nos últimos três anos antes de a Cosco chegar, foi obrigado pela concorrência chinesa a seguir um caminho de modernização. Mesmo assim, apenas um terço do seu negócio vem do tratamento de carga; o resto é o muito mais lucrativo negócio do tráfego de passageiros.
Durante muitos anos o terminal de contentores foi um negócio rentável. Mas Harilaos N. Psaraftis, professor de transportes marítimos na Escola de Arquitetura Naval e Engenharia Marítima de Atenas, afirmou que era ineficiente “porque as relações com os trabalhadores eram muito complicadas”. Alguns salários chegavam aos €140 000 por ano; a Cosco paga, em geral, um pouco menos de €18 000 por ano.
Do lado grego do porto, as regras dos sindicatos exigem que estejam presentes nove pessoas para operar uma grua; a Cosco usa equipas de quatro. “Era uma loucura”, relembra Psaraftis, que foi chefe executivo do porto entre 1996 e 2002. “Eu disse-lhes, ‘se continuarem assim, isto vai ser privatizado’. Mas eles não me ouviram.”

Deuses gregos ao lado de dragões chineses
Do outro lado da cerca metálica que separa as operações gregas e chinesas o Capitão Fu afirma que adoraria que fosse a Cosco a gerir todo o porto do Pireu se o Governo grego o colocasse à venda. Essa expansão cimentaria o domínio chinês num dos portos mais estratégicos da Europa do Sul e dos Balcãs. Isso poderia levantar forte oposição dos sindicatos gregos e dos altos funcionários da Autoridade Portuária do Pireu que criticam a forma de trabalhar da Cosco. “É um país diferente do outro lado”, afirmava Thanassis Koinis, diretor da Autoridade Portuária do Pireu, numa destas manhãs, enquanto olhava pela janela do seu delapidado gabinete para as gruas a trabalharem por cima das docas da Cosco.
Koinis e outros gregos acusam a Cosco de utilizar emprego subcontratado temporário, não especializado, trabalhadores não sindicalizados, desesperados por trabalho e de os explorar, pagando salários baixos. Babis Giakoymelos, membro da direção do Sindicato dos Estivadores, sustenta que a Cosco também poupa dinheiro ao ignorar regras sobre segurança no trabalho. “Estão a trazer os padrões de trabalho do terceiro mundo para a Europa.”

As reluzentes salas executivas adjacentes ao gabinete do Capitão Fu, recentemente renovadas por 1,29 milhões de dólares, atestam os esforços diplomáticos das empresas chinesas para com os gregos. Pinturas e esculturas de deuses gregos ao lado de representações de dragões chineses e fotografias do Presidente Hu Jintao ao lado de líderes gregos adornam uma enorme sala de reuniões. “Ao início os gregos estavam preocupados que os chineses chegassem e se apoderassem de tudo”, afirmou o Capitão Fu. “Ao invés mostrámos à população local que queremos ajudar ao seu desenvolvimento; não pretendemos tirar-lhes trabalho para dar aos chineses.”
A Grécia luta para recuperar a economia, afirmou, a Cosco representa uma oportunidade para os trabalhadores gregos – e para o próprio país. “A Cosco é o seu futuro”, afirmou. “Viemos para ficar.”

Traduzido do inglês por Ana Marques

Grécia - Supermercado russo no mar Egeu

por A-24, em 30.09.12
Residências secundárias, hotéis, terrenos e clube de futebol: o dinheiro russo jorra a rodos, em particular na região de Salónica. Um maná financeiro que pode atingir a privatização das infraestruturas do país.

Stavros Tzimas

O ultranacionalista Vladimir Jirinovski pode estar satisfeito. A sua profecia, com a queda do bloco soviético, segundo a qual “o dia em que os russos lavariam os pés em águas quentes” estaria próximo, parece estar a concretizar-se. Não pela força das armas do império – que se estenderia do Mediterrâneo ao oceano Índico, como sonhava o Czar – mas através de fluxos turísticos.
O empresário Sergei Fentorov, da Câmara do Comércio e da Indústria de Moscovo e antigo oficial da Marinha Nuclear, já está em campo. Propõe umas férias de luxo em casas na península de Kassandra [no sudeste de Salónica]. E, entenda-se, não é o único. Mesmo à frente, a península de Sithonias, com uma vista única sobre o Monte Athos, abriga uma moradia no meio de 0,7 hectares de colinas de pinheiros, que pertencia a Yuri Tchaïka, procurador-geral e um homem poderoso na Rússia a seguir a Putin.


Empresas russas compram hotéis e terrenos

Os russos ricos compram cada vez mais residências secundárias em Calcídica [no Norte do país], ao passo que as empresas russas compram hotéis e investem na compra de terrenos. Ninguém sabe ao certo aquilo que já terão comprado. Mas tudo indica que já compraram um grande complexo hoteleiro em Potideia, um outro em Psakoudia e parece que estão dispostos a participar na oferta pública de aquisição de um grande hotel em Gerakini. Simultaneamente, construíram nesta região um hotel com 600 quartos em parceria com uma sociedade grega. Há uma outra sociedade russa envolvida na venda e na compra de um terreno de 4200 hectares em Sithonia destinado à construção de um hotel de 5 estrelas, visto que há interesses russos a controlar a quase totalidade do aumento do fluxo turístico proveniente dos países do antigo bloco soviético.
“Habitualmente, procuram bons negócios para comprar a preços inferiores a 30% do valor real”, explica Gregori Tasios, presidente da União dos Hoteleiros de Calcídica. “Investem em terrenos, em moradias secundárias de luxo e em hotéis. Já compraram entre oito e dez hotéis.”
“Não me parece que possa haver outro país no mundo com o qual a Rússia mantenha a mesma relação que tem com a Grécia”, explica Terenty Mescheryakov, membro do governo regional de São Petersburgo. É por isso que investem capital no imobiliário por toda a parte e não apenas em Calcídica.


Interesse em Creta, Corfu e Patmos

Os investidores russos têm interesse em ilhas como Creta, Corfu e Patmos. A equipa de futebol PAOK Salónica foi comprada com financiamento russo, há um interesse na OSE, a companhia nacional de caminhos de ferro, e correm rumores no meio empresarial de que não ficaram indiferentes à aquisição, no quadro das privatizações do país, de um porto no norte da Grécia, sobretudo o de Salónica. Evitavam assim o pesadelo de transpor o estreito de Dardanelos, maioritariamente controlado pelos turcos [mas com o estatuto de águas internacionais] e a um preço incomportável.
Mesmo que os russos se lancem em massa em investimentos e no turismo, a “Pérola do Mar Egeu”, como lhe chamam, atrai outros países dos Balcãs que funcionam bem em matéria de aquisição de casas, pequenos hotéis e fluxo turístico na região. O atual Presidente búlgaro, Rossen Plevneliev, por exemplo, possui um chalé em Ouranoupolis, o antigo primeiro-ministro da Macedónia, Vlado Boutskofki, em Neos Marmaras, e representantes do Governo sérvio e albanês, nas redondezas. “Agora temos de ter em conta que o turismo e a nossa economia em geral, aqui no Norte da Grécia, estão vivos graças aos Balcãs”, conclui um hoteleiro da região.

Não há dinheiro nem para as pedras velhas

por A-24, em 03.09.12
A herança cultural não escapa à cura de austeridade a que estão submetidos os países europeus, começando pelos do Sul. É aí que se concentra grande parte do património histórico – e dos cortes a que estão sujeitos – com efeitos desastrosos.

A crise do euro não é a guerra do Peloponeso mas, com os seus civilizados anfitriões (sejam os homens de negro ou os visionários de branco), ameaça o mundo tal como era. Pode ser que a Europa se salve, mas não voltará a ser a mesma. Nem os seus cidadãos, nem o seu património. Quando não há dinheiro para pensões, torna-se frívolo reivindica-lo para as pedras. Mas as pedras da Grécia merecem ser respeitadas: nelas tem as suas raízes um sistema político de aspiração universal chamado democracia, sobre elas se ergueu uma certa ideia de Europa.
Também elas, as pedras, estão ameaçadas. Curiosamente, os berços da história e da arte ocidentais são hoje países feridos e meio despedaçados por essa sucessão de crise-cortes-crise. Na Grécia, Itália, Espanha e Portugal estão 122 locais declarados Património Mundial da Humanidade pela UNESCO (13% do total). Gloriosos passados de incertos futuros como o Coliseu romano?
Os males da bela Veneza
O anfiteatro de Vespasiano perde pedras e a sua fachada sul sofreu uma inclinação de 40 centímetros, para surpresa dos italianos e por causa do excesso de tráfego. Os bolsos públicos estão tão vazios que vai ser Diego Della Valle, empresário de sapatos, a pagar os 25 milhões necessários para restaurar o grande anfiteatro inaugurado pelo imperador Tito com 100 dias de festa. Também os achaques da bela Veneza recorreram a um médico particular: a Bulgari forrou a Ponte dos Suspiros com os seus anúncios para ajudar a sua reabilitação.
Itália é o país com mais locais protegidos pela UNESCO (tem 47) e um feroz exemplo de que a história nem sempre anda para a frente. Os 2300 milhões de euros do orçamento da Cultura em 2001 encolheram para 1400 milhões (2012). Por isso se desmoronam ruínas como Pompeia e outras menos famosas. Gian Antonio Stella e Sergio Rizzo, jornalistas do Corriere della Sera, referem vários exemplos do crepúsculo da arte no seu livro Vandali. L’Assalto alle bellezze d’Italia (Vândalos, o assalto às belezas de Itália. “As únicas riquezas que temos – a paisagem, os museus, as aldeias medievais – estão a ser agredidas. Exatamente o setor que podia ser o tesouro do país neste momento de crise”, lamenta Stella. 
A Grécia, como um pé gangrenado
A Europa está a quebras os vínculos clássicos dos quais emergiu. A Alemanha, tão entusiasta de gregos e latinos no século XIX, olha agora para a Grécia como o pé gangrenado que convém cortar. Os cortes que exige emagrecem carteiras públicas e privadas. Até junho passado, o orçamento do Ministério da Cultura grego tinha sofrido um corte de 35% e, para 2013 e 2014, preveem-se cortes adicionais. Menos meios para proteger e tratar.
Itália, Espanha, Grécia e Portugal possuem 13% do património mundial protegido. Talvez seja mais fácil repetir-se o que se passou a 5 de fevereiro último no Museu de Olímpia, onde um roubo à mão armada tornou patente o óbvio: cortar em pessoal e recursos pesa na fatura. Já em janeiro tinham sido roubados um Picasso e um Mondrian da Galeria Nacional de Atenas, vigiada por um único guarda.
“Os monumentos não têm voz, só nos têm a nós”, alertam os arqueólogos gregos tentando evitar o abandono do seu gigantesco património: 17 locais na lista da UNESCO, 210 museus e coleções de antiguidades, 250 sítios arqueológicos e mais de 19 mil monumentos históricos declarados.
E o que se passa em Espanha, glória do passado com periclitante futuro? No segundo país mais protegido pela UNESCO, com 44 locais, acontece algo paradoxal: vai conservar-se pior mas destruir-se-á menos. Víctor Fernández Salinas, professor de Geografia Humana da Universidade de Sevilha e secretário do comité espanhol do ICOMOS, organismo internacional não-governamental que assessora a UNESCO, sublinha o efeito benéfico da crise sobre o património. Acabou a festa da especulação e, com ela, as principais ameaças ao património espanhol. “Os maiores danos vinham de projetos urbanísticos como campos de golfe ou arranha-céus e deviam-se à especulação”, afirma.
Alemanha imune
No Sul, os torniquetes apertam até à asfixia, mas há outros modelos. França, que também não pode deitar foguetes, deu um corte limitado no orçamento para conservação do património. Em 2012 esse orçamento é de 380,7 milhões de euros, ou seja, 0,2% mais do que no exercício anterior. Novamente, a exceção francesa. Para além da inclinação de 43 centímetros do Big Ben, o English Heritage, o organismo governamental encarregue de tratar do património do Reino Unido, assinala três mil 168 monumentos em perigo. Alguns deles requerem “intervenções significativas”.
Nesta Europa a várias velocidades, a Alemanha também está à vontade na cultura. A crise não afetou os orçamentos culturais que, segundo o instituto federal de estatística Destatis, que têm aumentado desde 2008. Há mais seis mil museus subsidiados, 150 teatros e 130 orquestras, para além de 84 óperas (em 81 localidades). O democrata-cristão Bernd Naumann (CDU), comissário para a Cultura e Meios no segundo governo de Merkel disse, em maio, o que seria impensável ouvir noutro país: “Nestes tempos de desorientação seria um atrevimento cortar nos orçamentos culturais”. Na Alemanha “há mais gente nos museus do que nos estádios de futebol”.

Não há dinheiro nem para as pedras velhas

por A-24, em 03.09.12
A herança cultural não escapa à cura de austeridade a que estão submetidos os países europeus, começando pelos do Sul. É aí que se concentra grande parte do património histórico – e dos cortes a que estão sujeitos – com efeitos desastrosos.
A crise do euro não é a guerra do Peloponeso mas, com os seus civilizados anfitriões (sejam os homens de negro ou os visionários de branco), ameaça o mundo tal como era. Pode ser que a Europa se salve, mas não voltará a ser a mesma. Nem os seus cidadãos, nem o seu património. Quando não há dinheiro para pensões, torna-se frívolo reivindica-lo para as pedras. Mas as pedras da Grécia merecem ser respeitadas: nelas tem as suas raízes um sistema político de aspiração universal chamado democracia, sobre elas se ergueu uma certa ideia de Europa.
Também elas, as pedras, estão ameaçadas. Curiosamente, os berços da história e da arte ocidentais são hoje países feridos e meio despedaçados por essa sucessão de crise-cortes-crise. Na Grécia, Itália, Espanha e Portugal estão 122 locais declarados Património Mundial da Humanidade pela UNESCO (13% do total). Gloriosos passados de incertos futuros como o Coliseu romano?

Os males da bela Veneza

O anfiteatro de Vespasiano perde pedras e a sua fachada sul sofreu uma inclinação de 40 centímetros, para surpresa dos italianos e por causa do excesso de tráfego. Os bolsos públicos estão tão vazios que vai ser Diego Della Valle, empresário de sapatos, a pagar os 25 milhões necessários para restaurar o grande anfiteatro inaugurado pelo imperador Tito com 100 dias de festa. Também os achaques da bela Veneza recorreram a um médico particular: a Bulgari forrou a Ponte dos Suspiros com os seus anúncios para ajudar a sua reabilitação.
Itália é o país com mais locais protegidos pela UNESCO (tem 47) e um feroz exemplo de que a história nem sempre anda para a frente. Os 2300 milhões de euros do orçamento da Cultura em 2001 encolheram para 1400 milhões (2012). Por isso se desmoronam ruínas como Pompeia e outras menos famosas. Gian Antonio Stella e Sergio Rizzo, jornalistas do Corriere della Sera, referem vários exemplos do crepúsculo da arte no seu livro Vandali. L’Assalto alle bellezze d’Italia (Vândalos, o assalto às belezas de Itália. “As únicas riquezas que temos – a paisagem, os museus, as aldeias medievais – estão a ser agredidas. Exatamente o setor que podia ser o tesouro do país neste momento de crise”, lamenta Stella. 

A Grécia, como um pé gangrenado

A Europa está a quebras os vínculos clássicos dos quais emergiu. A Alemanha, tão entusiasta de gregos e latinos no século XIX, olha agora para a Grécia como o pé gangrenado que convém cortar. Os cortes que exige emagrecem carteiras públicas e privadas. Até junho passado, o orçamento do Ministério da Cultura grego tinha sofrido um corte de 35% e, para 2013 e 2014, preveem-se cortes adicionais. Menos meios para proteger e tratar.
Itália, Espanha, Grécia e Portugal possuem 13% do património mundial protegido. Talvez seja mais fácil repetir-se o que se passou a 5 de fevereiro último no Museu de Olímpia, onde um roubo à mão armada tornou patente o óbvio: cortar em pessoal e recursos pesa na fatura. Já em janeiro tinham sido roubados um Picasso e um Mondrian da Galeria Nacional de Atenas, vigiada por um único guarda.
“Os monumentos não têm voz, só nos têm a nós”, alertam os arqueólogos gregos tentando evitar o abandono do seu gigantesco património: 17 locais na lista da UNESCO, 210 museus e coleções de antiguidades, 250 sítios arqueológicos e mais de 19 mil monumentos históricos declarados.
E o que se passa em Espanha, glória do passado com periclitante futuro? No segundo país mais protegido pela UNESCO, com 44 locais, acontece algo paradoxal: vai conservar-se pior mas destruir-se-á menos. Víctor Fernández Salinas, professor de Geografia Humana da Universidade de Sevilha e secretário do comité espanhol do ICOMOS, organismo internacional não-governamental que assessora a UNESCO, sublinha o efeito benéfico da crise sobre o património. Acabou a festa da especulação e, com ela, as principais ameaças ao património espanhol. “Os maiores danos vinham de projetos urbanísticos como campos de golfe ou arranha-céus e deviam-se à especulação”, afirma.

Alemanha imune

No Sul, os torniquetes apertam até à asfixia, mas há outros modelos. França, que também não pode deitar foguetes, deu um corte limitado no orçamento para conservação do património. Em 2012 esse orçamento é de 380,7 milhões de euros, ou seja, 0,2% mais do que no exercício anterior. Novamente, a exceção francesa. Para além da inclinação de 43 centímetros do Big Ben, o English Heritage, o organismo governamental encarregue de tratar do património do Reino Unido, assinala três mil 168 monumentos em perigo. Alguns deles requerem “intervenções significativas”.
Nesta Europa a várias velocidades, a Alemanha também está à vontade na cultura. A crise não afetou os orçamentos culturais que, segundo o instituto federal de estatística Destatis, que têm aumentado desde 2008. Há mais seis mil museus subsidiados, 150 teatros e 130 orquestras, para além de 84 óperas (em 81 localidades). O democrata-cristão Bernd Naumann (CDU), comissário para a Cultura e Meios no segundo governo de Merkel disse, em maio, o que seria impensável ouvir noutro país: “Nestes tempos de desorientação seria um atrevimento cortar nos orçamentos culturais”. Na Alemanha “há mais gente nos museus do que nos estádios de futebol”.

Ataques racistas atingem a Grécia

por A-24, em 28.08.12
O número de ataques racistas contra imigrantes aumentou durante o mês sagrado muçulmano do Ramadão, culminando com o assassinato de um jovem iraquiano de 19 anos, no exterior de uma mesquita improvisada no centro de Atenas, a 12 de agosto. O rapaz foi esfaqueado até à morte por cinco motociclistas, segundo a polícia. Os atacantes já tinham sido vistos anteriormente a tentarem atacar imigrantes romenos e marroquinos. Ainda não foi preso nenhum suspeito deste assassinato e a frequência de ataques racistas tem vindo a aumentar, diz o Kathimerini:
Não há juízes em Atenas? Não há procurador? Estas questões levantam-se porque, ao que parece, há bandos de criminosos à solta na cidade que espancam, esfaqueiam e matam seres humanos e, no entanto, nenhuma autoridade do Estado parece querer ou poder fazer alguma coisa.[…]
Este país nunca foi de meios termos. Do progressismo superficial que levou as autoridades à inação no que diz respeito aos imigrantes ilegais, estamos agora no outro extremo do espetro: o fascismo da indiferença quando essas pessoas são assassinadas. […] Não fizemos caso quando essas pessoas entraram no país sem autorização. E, do mesmo modo, não queremos saber quando alguém as espanca. Enquanto isso, as autoridades continuam a não conseguir cumprir os seus deveres.[…]
Precisamos de um procurador que cumpra os seus deveres, aplicando a lei, um procurador que investigue quais são as ligações entre agentes da polícia e [o partido neonazi] Aurora Dourada, um procurador que reforce a aplicação das leis na rua. O país não pode continuar refém de bandos que reclamam estar a defender o seu próprio entendimento da legalidade.
“O assassinato ocorreu no contexto de uma repressão sem precedentes contra os imigrantes clandestinos na região da grande Atenas”, escreve o jornal I Kathimerini. A operação anti-imigração, "contraditoriamente batizada com o nome de código Xénios Zeus, inspirada no nome do antigo deus grego da hospitalidade, levou, até agora, à prisão de 1596 imigrantes ilegais. Um total de 7361 estrangeiros já foram notificados para controlo”. Enquanto isso, escreve o diário, “nos últimos seis meses, na Grécia, houve cerca de 500 ataques com motivações racistas, segundo a Associação dos Trabalhadores Migrantes”.
PressEurope

Só Grécia destruiu mais empregos que Portugal nos últimos 12 meses

por A-24, em 13.07.12
Portugal é o segundo país da OCDE com maior destruição de emprego nos últimos 12 meses. Segundo os dados publicados hoje pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, o número de portugueses empregados caiu 2,4 pontos percentuais desde o primeiro trimestre de 2011. 
Entre os estados membros da OCDE, só a Grécia tem um resultado pior nos indicadores de emprego, com uma quebra de 4,5 pontos percentuais no mesmo período. Próximo de Portugal está Espanha, com uma contração de 2 pontos face aos primeiros três meses de 2011.
Os dados da mesma publicação permitem também a análise da quebra na taxa de emprego desde o início da crise financeira. Tomando como referência os valores registados no segundo trimestre de 2008 - o último antes da explosão da crise - a OCDE conclui que Portugal perdeu seis pontos percentuais. Uma quebra negativa, apenas ultrapassada pela Irlanda (9,4 pontos) Grécia (9,1 pontos), Espanha (8,7 pontos) e Islândia (6,2 pontos).
Espanha também vai viver a “austeridade à la troika” e o leque de medidas é semelhante ao aplicado em Portugal, ainda que em menor grau, com a subida do IVA de 18% para 21%, a suspensão do subsídio de Natal aos funcionários públicos, quando em Portugal além do subsídio de Natal também foi suspenso o subsídio de férias.
Outras medidas que também fazem das receitas da Troika, são a redução do número de dias livres dos funcionários públicos, um corte de 600 milhões de euros nos gastos dos ministérios, redução dos subsídios aos novos desempregados, corte de prestações sociais, reforma da legislação sobre reformas.