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A-24

Calton, capital da precariedade

por A-24, em 04.12.12
Vítima da desindustrialização dos anos 1970 e 1980, o bairro operário de Calton, em Glasgow, acumula recordes negativos: desemprego, esperança de vida, rendimento por habitante. E os cortes na despesa social não deixam grandes esperanças de que isto mude.
Arjen van der Horst

Um vento áspero atravessa Calton, arrastando à sua frente sacos de plástico e outros detritos. Edifícios deteriorados com as janelas tapadas são uma constante neste bairro. Na Stevenson Street, uma mãe adolescente empurra num passo arrastado um carrinho de bebé. Entra num quiosque de jornais e sai pouco depois com um maço de tabaco na mão. Se não fosse ela, a rua estaria deserta. Só se notam alguns sinais de vida no Calton Bar. Por volta do meio-dia, já ali está um grupo de clientes preparado para beber a primeira imperial.
Outrora, Calton era um bairro animado, o coração industrial do oeste de Glasgow. Grandes acerarias de chaminés fumegantes dominavam o bairro operário. No People's Palace que dá para o Green Park podia fazer-se uma ideia do que era a vida local há uns cinquenta anos. Calton era um bairro operário típico. As fotografias a preto e branco aí expostas mostram os exíguos apartamentos onde várias famílias partilhavam a mesma casa de banho. É verdade que os habitantes de Calton nunca conheceram o conforto. Mas, nesse tempo, não havia falta de trabalho.

Metade da população depende de apoios sociais

George Robertson, 67 anos, residente em Calton, guarda lembranças vivas desse tempo. “Tinha vinte anos e o meu primeiro emprego foi na aceraria. Encontrávamos trabalho facilmente. Fui varredor, pedreiro e, mais tarde, operário metalúrgico. Neste momento, desapareceu tudo”, diz com um sorriso amargo, mostrando os vestígios da destilaria Johnnie Walker (fundada em 1887). A aceraria Parkhead Forge, um pouco mais à frente, foi a última a oeste de Glasgow a encerrar. Em tempos o primeiro empregador da cidade, exportava aço para todo o mundo. Foi substituída por um centro comercial onde se vendem montes de produtos fabricados na Ásia. Aqui, os idosos que ocupam os bancos todos bebem uma chávena de chá barato. Não vieram fazer compras, mas aproveitar o quentinho, que lhes permite poupar na fatura do aquecimento em casa. Na Grã-Bretanha, a expressão fuel poverty[precariedade energética] passou a ser um conceito: gastar mais de 10% dos rendimentos na fatura da eletricidade é sinal de pobreza. Devido ao mau isolamento das casas, ao aumento do preço da eletricidade e à escassez de rendimentos, esta categoria da população encontra-se sobre representada nesta zona da Escócia.
O declínio industrial fez de Calton uma espécie de esgoto da Grã-Bretanha. Um bairro desfavorecido onde cerca de um habitante em cada cinco não tem emprego e onde metade da população depende de apoios sociais. Com o desemprego em massa veio a pobreza, a depressão, o álcool, a droga, os suicídios, a violência, os maus hábitos alimentares. “Toxicodependência, excesso de peso, doenças cardiovasculares, bronquite, Calton bate o recorde em todos os domínios”, resume Robert Jamieson. Clínico geral há 25 anos neste bairro, trava um combate permanente contra os gigantescos problemas de saúde. “No plano médico, é sem dúvida o pior bairro em todo o mundo ocidental.”

 
Os problemas de saúde conjugados com a extrema pobreza revelam ser um cocktail fatal. A esperança média de vida de um homem em Calton é de 53 anos, como testemunham os números implacáveis dos serviços de saúde pública. Se Calton fosse um país, estaria na 168ª posição da classificação mundial, entre o Quénia e o Congo.
“Se existe um sítio onde a pobreza é total, esse sítio é aqui. Este bairro regista os problemas mais graves de saúde de todo o país e os rendimentos por agregado familiar são os mais baixos de toda a Grã-Bretanha. As crianças que crescem neste bairro têm poucas esperanças. Quando procuram emprego, que hipóteses têm os jovens de o arranjar? A maior parte das vezes, não têm formação nem roupa adequada para as entrevistas de recrutamento. Os empregadores olham para o código postal no formulário de candidatura a emprego e veem de onde são oriundos. Sabem que os podem riscar”, explica Robert Jamieson.

Famílias no centro de acolhimento

Se Calton é o esgoto, Marie Trust é a tampa. Neste centro de acolhimento para os sem-abrigo chegam ao fim do dia os restos humanos que vagueiam durante o dia entre ruas e átrios a oeste de Glasgow. A cidade tem mais de dez mil sem-abrigo, uma boa parte dos quais em Calton e arredores. Nestes últimos tempos, Marie Trust está cada vez mais superlotada. No ano passado, este centro de acolhimento ajudou dois mil sem-abrigo, 25% mais do que no ano anterior. Há dezenas de anos que o bairro vive em dificuldades, mas a recessão e as medidas de austeridade tomadas pelos poderes públicos só vieram agravar a situação. Os poderes públicos reduziram sensivelmente os subsídios de alojamento e os jovens desempregados deixaram de poder usufruir de um subsídio de desemprego. “Há quinze anos que aqui trabalho”, diz Martin Johnstone do Marie Trust, “mas estes últimos dois anos foram os mais difíceis de todos. Recentemente, chegámos a receber famílias inteiras, o que não é normal”. Foram tomadas algumas medidas para insuflar uma nova vida ao bairro, mas os poderes públicos não se mostram interessados em Calton. De Margaret Thatcher a Tony Blair incluído: durante trinta anos a Grã-Bretanha não teve uma política industrial, deixou que as fábricas se deslocalizassem para a Ásia e deixou campo aberto para o setor financeiro, com todos os seus excessos e prémios exorbitantes.
Será que ainda se pode salvar Calton? Robert Jamieson é pessimista: “Será que temos realmente vontade de viver num país com diferenças tão acentuadas? Muitas vezes pensamos que não há agitação social nem motins na Grã-Bretanha, mas é só ver o que aconteceu nas ruas de Londres o ano passado. Ou o que aconteceu na Grécia e em Espanha. Na História da Europa, já vimos muitas vezes o que acontece quando o fosso entre os abastados e os carenciados se torna demasiado grande.

SEPARATISMO Um sintoma da crise da dívida

por A-24, em 23.10.12
Não é apenas na Catalunha e na Escócia que as pressões nacionalistas se fazem sentir. A vitória dos nacionalistas flamengos de Bart De Wever, nas eleições locais de 14 de outubro, "é mais do que uma advertência para a Bélgica. É uma verdadeira advertência para toda a Europa",escreve La Tribune. Para este diário económico francês,
seria ingenuidade pensar que o vento favorável a esses movimentos, nos últimos meses, é totalmente independente das turbulências que a Europa atravessa há dois anos e meio. A crise da dívida não é a sua causa mas pode ser um acelerador. Nos países onde a unidade é problemática […], a questão é saber quem vai pagar a dívida do conjunto e quem vai fazer esforços para pagar essa dívida. Por outras palavras, o combate não é lutar contra a austeridade mas evitar a austeridade, deixando-a para os outros.
Assim, os flamengos têm o sentimento de que os problemas financeiros estão ligados à má gestão do Governo central, salienta De Standaard. Neste contexto, este jornal flamengo cita Louis Vos, investigador da Universidade de Lovaina:
Quando se verifica que o nível superior [federal] não funciona bem – a crítica bem conhecida de De Wever [dirigente dos nacionalistas flamengos] – de que o governo dos impostos de Di Rupo não é apoiado pela maioria dos flamengos – isso intensifica o atrativo da autonomia.
No entanto, salienta o Financial Times Deutschland, apesar de ser "compreensível", a questão da independência "não pode ser a resposta aos problemas que a Europa tem hoje de enfrentar". Com efeito, este diário económico alemão considera que
foi avançando sem ter em conta as fronteiras e o nacionalismo que a Europa se tornou próspera e viveu em segurança. Teremos de fazer o mesmo para superar as crises bancárias, económicas e financeiras que submergiram países pequenos como a Irlanda. Apenas uma comunidade ampla tem condições para ajudar a resolver problemas que um Estado não pode enfrentar sozinho. Os separatistas perceberam bem isso: os catalães gostariam de se separar de Espanha, solicitando ao mesmo tempo a ajuda financeira de Madrid. Mas não é possível reivindicar para si os sucessos e as riquezas e delegar os problemas e os custos no Estado central ou na UE. A Europa deve preservar a sua diversidade regional, sem no entanto proclamar uma vez e outra um Estado independente. Isso serviria apenas para minar as capacidades da Europa de resolver os problemas a longo prazo.
Outros países vão em contracorrente, como salienta La Tribune, que refere o exemplo da Itália, a braços com "um processo de centralização […] que reforça o Estado central em detrimento de um processo frágil de descentralização".
Beneficiando do enfraquecimento da Liga do Norte, minada por alguns casos e pela sua participação no Governo de Berlusconi, o Governo de Monti decidiu voltar atrás quanto à lei muito descentralizadora de 2001. Mario Monti quer atribuir mais competências ao Estado central, para evitar o desperdício e a corrupção e, também, para dominar o esforço de austeridade e controlar melhor a dívida pública. […] A crise da dívida fez perder crédito aos executivos regionais e ao grande partido secessionista.

Espanha, Reino Unido e os frutos proibidos da independência

por A-24, em 21.10.12

FINANCIAL TIMES -LONDRES

Enquanto o primeiro-ministro britânico David Cameron aprovou um referendo sobre a independência da Escócia para 2014, a Espanha exclui uma decisão similar na Catalunha considerando-a inconstitucional. Uma das decisões é politicamente madura, a outra alimentará provavelmente o aumento dos pedidos separatistas, defende Gideon Rachman.
Gideon Rachman
Ao chegar à Escócia há alguns anos, fui recebido com um cartaz que apregoava que Glasgow tem “a latitude de Smolensk e a atitude de Barcelona”. Foi um ótimo exemplo da mistura de camaradagem e admiração com que os escoceses veem Barcelona. Barcelona, capital catalã, tem muitas coisas que os habitantes de Glasgow cobiçam: um melhor clima, uma melhor gastronomia e melhor futebol. Numa homenagem surpreendente à Catalunha, os escoceses até escolheram um arquiteto da sua capital, Enric Miralles, para desenhar o seu novo edifício do parlamento.
No entanto, hoje, os catalães têm um motivo para ter inveja da Escócia. Na segunda-feira foi confirmado que em 2014 a Escócia irá realizar um referendo sobre a independência. O Governo catalão adoraria realizar o seu próprio escrutínio sobre a independência, mas está a ser terminantemente impedido pelo Governo espanhol em Madrid.  
A Espanha está a tentar impedir o movimento para a independência catalã através da utilização do “Catch-22”. O Governo central afirma que os nacionalistas catalães devem respeitar a Constituição de Espanha. E que segundo a Constituição, a realização de um referendo sobre a independência é ilegal.
Os britânicos optaram por uma abordagem que é pragmática e, ao mesmo tempo, ousada. O primeiro-ministro David Cameron podia facilmente ter insistido no facto de que apenas o Governo britânico tem o direito legal de organizar um referendo. Em vez disso, concordou em permitir que os escoceses organizem um referendo sobre o futuro da sua própria nação – sob a condição de que apenas a questão sobre a independência pode constar no boletim de voto.

Abordagem arriscada do Governo britânico
Em termos de justiça e prudência, a abordagem do Governo britânico parece mais sensata. David Cameron, assim como Mariano Rajoy, o primeiro-ministro espanhol, é conservador e patriota. Ambos ficariam horrorizados com o facto de presidir à separação das suas nações. Mas o Governo britânico reconheceu que, ao ganhar poder em Edimburgo, os nacionalistas escoceses ganharam o direito democrático de realizar um referendo sobre o seu objetivo de longa data, a independência. Não adianta estar a tentar encontrar formas legais de os impedir.
A abordagem do Governo britânico, ainda que arriscada, é também psicologicamente astuta. Dizer às pessoas que existe algo que estão absolutamente proibidas de fazer é uma ótima forma de aumentar o seu desejo em fazê-lo. Este princípio – que surgiu pela primeira vez no Jardim do Éden – aplica-se certamente à Catalunha moderna. Em contrapartida, pode ser ligeiramente humilhante para os nacionalistas escoceses que uma recente sondagem de opinião tenha revelado um maior apoio à independência escocesa na Inglaterra do que na própria Escócia.
As similitudes entre os motivos da Escócia e da Catalunha são intrigantes. Em ambos os casos, os nacionalistas datam a perda da independência no início do século XVIII. Os escoceses assinaram o Ato de União com a Inglaterra – formando o Reino da Grã-Bretanha em 1707 – após o fracasso da tentativa colonial, o chamado Projeto Darien (Darien scheme,) que deixou a Escócia à beira da falência. Os nacionalistas catalães datam a perda da sua independência na queda de Barcelona em 1714. Num recente jogo entre o Barcelona e o Real Madrid, os nacionalistas catalães entoaram cânticos pedindo a independência da Catalunha – aos 17 minutos e 14 segundos da partida.

Escoceses são menos chauvinistas
Ambos os nacionalistas escoceses e catalães têm vindo a utilizar a UE para reforçar o seu caso. Estes defendem que a sua independência não os isolaria, na medida em que as novas nações continuariam a ser membros da União – combinando desta forma a sua independência com a segurança proporcionada pela sua participação na União Europeia.
Alguns intelectuais escoceses afirmam ainda que a hostilidade contra a UE é algo tipicamente inglês e que os escoceses são muito menos chauvinistas. Esta ideia agrada a Bruxelas, onde a noção de que a Inglaterra possa ser punida pelo seu euroceticismo através da secessão da Escócia desperta o interesse de certas pessoas. Na verdade, as sondagens de opinião indicam que os escoceses são apenas ligeiramente menos hostis à UE do que os ingleses. Um recente inquérito indica que 60% dos eleitores ingleses querem sair da UE; uma opinião partilhada por 50% dos escoceses.
A crise económica na zona euro levou os nacionalistas escoceses a diminuírem o seu interesse pela UE nas suas campanhas. Estes afirmam agora que uma Escócia independente não iria querer aderir imediatamente ao euro, e continuaria com a libra esterlina.

Nacionalistas catalães querem fazer parte do euro
A Espanha, em contrapartida, está no centro da crise do euro, pelo que o resto da UE continua a parecer saudável quando comparada a ela. A maioria dos nacionalistas catalães afirma que a sua nova nação continuaria a fazer parte do euro.
Existe, no entanto, uma enorme diferença entre o caso escocês e o catalão, que ajuda a entender a diferença de atitudes em Madrid e Londres. Dos 62 milhões de habitantes britânicos, apenas 5,2 milhões são escoceses – e são vistos como um fardo financeiro pela Inglaterra (uma ideia contestada pelos escoceses nacionalistas). Por outro lado, a Catalunha conta com 7,3 milhões dos 47 milhões de habitantes espanhóis – é uma das regiões mais ricas do país. A sua independência seria catastrófica para a Espanha.
Ainda assim, até os ingleses podem vir a arrepender-se da sua atitude comedida, caso a Escócia realmente decida a favor da independência em 2014. Pessoalmente, espero que tanto a Grã-Bretanha como a Espanha consigam permanecer juntas. Mas, caso aconteça, terá de ser na base do consentimento. O Governo espanhol deveria deixar de se esconder por detrás da lei e permitir um referendo catalão. Nenhum casamento consegue sobreviver alegando que o divórcio é ilegal.

Traduzido do inglês por Rita Azevedo

Escócia quer referendar independência no Outono de 2014

por A-24, em 10.01.12
O governo autónomo da Escócia quer que o referendo à independência em relação ao Reino Unido se realize no Outono de 2014, ou seja, muito depois da data pretendida por Londres.
A revelação foi feita no mesmo dia em que o Governo britânico definiu as condições em que o executivo nacionalista de Alex Salmond será autorizado a realizar o referendo, insistindo que uma consulta sem o aval de Westminster será inconstitucional. 
Segundo a proposta apresentada pelo ministro para a Escócia, Michael Moore, o boletim de voto deverá apenas incluir as opções “sim” ou “não” à independência, ficando afastada a hipótese de questionar os eleitores sobre a possibilidade de uma autonomia ainda mais alargada para a região. Esta opção tem o apoio da vasta maioria da população escocesa e Londres teme que seja usada para, posteriormente ao referendo, ser usada por Salmond para exigir mais poderes. 
Londres quer ainda que seja a comissão eleitoral britânica, e não um organismo local, a supervisionar o referendo e que este se realize “mais cedo do que tarde”.
Reagindo a esta iniciativa, o primeiro-ministro escocês reafirmou que o “referendo será feito na Escócia” e aprovado pelo Parlamento de Edimburgo, pelo que “não vale a pena [o Governo britânico] tentar puxar os cordelinhos por trás da cortina”. 
“O Outono de 2014 é a data que oferece melhores condições para a Escócia ter um referendo pensado”, disse Salmond, em entrevista à Sky News, acrescentando que realizar a consulta no prazo de dois anos e meio "permitirá aos eleitores ouvir todos os argumentos”. 
O primeiro-ministro escocês foi reeleito com maioria absoluta em 2010, prometendo avançar com a velha causa da independência da nação, actualmente parte do Reino Unido. A data de 2014 permite a Edimburgo beneficiar do efeito das celebrações dos 700 anos da batalha de Bannockburn, em que os escoceses bateram o Exército inglês.
O primeiro-ministro britânico, David Cameron, que como todos os restantes líderes partidários do Reino Unido se opõe à cisão, disse estar disponível para autorizar Salmond a realizar a consulta, mas nos termos definidos por Londres e no mais breve prazo possível, alegando que a actual incerteza está a prejudicar a economia da região (em cujo mar se concentram os recursos petrolíferos do país).
Segundo as últimas sondagens, os escoceses favoráveis a uma separação do Reino Unido são minoritários – 38% segundo as últimas sondagens apoiam a ideia –, mas uma esmagadora maioria apoia uma maior autonomia, incluindo em termos fiscais para a região.