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A-24

25 anos depois do incêndio do Chiado

por A-24, em 25.08.13
Alcino Marques chegou ao Chiado passava pouco das 06:00. As chamas altas e o muito fumo faziam adivinhar que aquele fogo "ia correr mal" e que seriam necessários meios de combate de fora de Lisboa.
Na madrugada de 25 de Agosto de 1988, o bombeiro, hoje chefe do Regimento de Sapadores Bombeiros (RSB) de Lisboa, estava a preparar-se para ir de férias, mas uma chamada do centro de operações a descrever um grande incêndio fez com que ficasse.

"Quando cheguei ao Chiado apercebi-me logo de que era um incêndio de grande envergadura. Já na altura as chamas eram altas, pela quantidade de fumo... Era logo de adivinhar que o incêndio ia correr mal e que ia propagar-se a outros imóveis, pelo que era preciso mobilizar outros meios", recorda.
Alcino Marques ficou a coordenar os muitos meios e operacionais exteriores a Lisboa. Inicialmente estacionavam no Rossio, eram registados e depois direccionados às várias frentes do fogo para combater as chamas.
Daquele dia, lembra ainda a rapidez com que as chamas subiram pelo Chiado: "O chefe de serviço mandou um bombeiro subir e descer a rua [do Carmo] para tocar a todas as campainhas e bater às portas para mandar sair as pessoas. Quando chegou ao topo da rua já não conseguia descer porque o fogo já tinha passado de um lado para o outro".
O incêndio chegou a ter seis frentes e foi combatido por mais de 1.500 operacionais. No terreno estiveram ainda elementos da PSP, da Polícia Judiciária e de empresas de distribuição de electricidade e de gás. As chamas foram dominadas pelas 11:00 e o fogo dado como extinto pelas 16:00.
O chefe do regimento recorda o medo da propagação do incêndio à Baixa, com o autarca Pedro Feist (que na altura era vereador mas assumiu a presidência da Câmara de Lisboa, na ausência de Nuno Krus Abecassis) a "mandar retirar todos os processos que considerava importantes" dos Paços do Concelho.
A ausência do presidente da Câmara de Lisboa, que se encontrava de férias, foi criticada na altura, mas uma das principais polémicas foi a presença de floreiras na Rua do Carmo, que impediram a entrada de carros de bombeiros.
No entanto, essa barreira acabou por funcionar "a favor" dos bombeiros: "Se nós tivéssemos a rua desimpedida e tivéssemos colocado aqui várias viaturas, elas teriam ficado queimadas", com risco também para os homens, admite.
Depois do incêndio, os bombeiros continuaram no local durante cerca de dois meses, na remoção de escombros.
Foi durante esse tempo que se depararam com uma vítima mortal, um electricista reformado do Arsenal da Marina com cerca de 70 anos.
"Foi encontrado 58 dias após o incêndio, depois de removidos todos os escombros. Só então é que foi retirado esse cadáver", diz Alcino Marques.
Outra das vítimas mortais, um bombeiro de 31 anos, Joaquim Ramos, morreu no início de Setembro de 1988 no Hospital de São José. Enquanto combatia o fogo na Rua do Carmo foi atingido por uma "língua de fogo" e "gases muito quentes". Ficou com 85% do corpo queimado.
O incêndio causou vários feridos - mais de cinquenta - entre bombeiros (outros dois estiveram internados por vários dias no Hospital de Curry Cabral) e agentes de segurança com fracturas e queimaduras "mais ligeiras".
O combate às chamas "mudou bastante" em 25 anos, da organização do teatro de operações aos postos de comando, aos próprios meios. A segurança aos bombeiros, para Alcino Marques, foi a principal mudança.
"A maior parte dos bombeiros andavam completamente desprotegidos. Havia, mas não era usado material de protecção individual: casacos, calças, botas, luvas [anti-fogo], aparelhos respiratórios... Na altura o que era visível era apenas o capacete", descreve.
Hoje, o chefe do RSB admite que com este material as queimaduras do colega não teriam sido tão graves.
"Só a partir daí se começou a olhar seriamente para este caso, para a legislação de segurança das edificações e que se começou a fazer alguma coisa", afirma.
No entanto, e 25 anos depois do incêndio do Chiado, "o maior inimigo continua a ser a acessibilidade para os bombeiros: os bairros antigos, as ruas pejadas de trânsito e o estacionamento caótico", acrescenta.

Lusa/SOL