Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A-24

Terceiro Mundo: O sistema de castas na Índia III

por A-24, em 04.08.13
Muita gente argumentaria que as formas mais brutas de discriminação já desapareceram, resultado de movimentos reformistas esporádicos. É verdade que, pelo menos na esfera pública, os intocáveis fizeram progresso desde o tempo em que eram espancados se sua sombra tocasse alguém de casta superior, usavam sinos para alertar de sua aproximação e levavam baldes para que não contaminassem o chão ao cuspir. Eles não podiam entrar em escolas nem se sentar em nenhum banco perto de alguém de casta superior.

A Constituição de 1950 impõe um sistema de cotas em que são reservados cargos na legislatura federal em proporção igual à dos intocáveis na população: 15%. No jargão jurídico e administrativo, eles agora são conhecidos como “castas arroladas”. Lugares reservados os intocáveis têm também em legislaturas estaduais, conselhos de aldeia, no serviço público e nas salas das universidades.

Os partidos dirigentes da Índia apoiaram esse programa de cotas apesar da violenta oposição. Turbas causaram tumultos durante 78 dias, em 1981, no estado de Gujarat, quando um estudante de casta superior não foi admitido em uma faculdade de medicina para dar lugar a um intocável. Embora muitos postos destinados ao contingente das cotas continuem desocupados, especialmente em universidades, o emprego na vasta burocracia indiana elevou o padrão de vida de alguns intocáveis, impelindo milhares à classe média.

Apesar de todas as leis, porém, o cerne do sistema de castas segue inalterado. Existem 160 milhões de intocáveis na Índia, que se proclama modelo para as nações em desenvolvimento: a democracia mais populosa do mundo, uma potência que desenvolveu indústrias de software, satélites de comunicação e usinas para a produção de energia e bombas nucleares. Durante o inverno que passei na Índia, quase não houve nenhum dia em que não ouvisse ou lesse notícias sobre ácido jogado no rosto de um menino, sobre mulher estuprada na frente do marido ou sobre algum outro ato cuja única provocação fosse simplesmente o intocável não ter sabido qual era seu lugar.
O sistema de castas hindu tem seu próprio manual de instruções. As Leis de Manu, coligidas há pelo menos 2 mil anos por sacerdotes brâmanes, prescrevem para cada varna o que comer, quem desposar, como ganhar dinheiro, quando lutar, como manter-se limpo, a quem evitar. “Manu está gravado no íntimo de cada hindu”, declara Umashankar Tripathy, sacerdote que conheci em Varanasi, a cidade de peregrinação às margens do Ganges. Tripathy senta-se de pernas cruzadas em um capacho de palha no templo onde leciona. Traja o dhoti, tanga comprida com túnica abotoada por cima. Sua roupa está imaculada e suas mãos são macias como finas luvas de couro.
Tripathy segue à risca as palavras de Manu. Explica que, como brâmane, tem de observar o código de pureza, o alicerce da divisão da sociedade. “Não como carne nem bebo álcool. Não como vegetais do tipo do gengibre ou da cebola, que são cultivados debaixo da terra. Minha mente deve ser tão pura quanto minhas roupas.” Para ele, um verdadeiro brâmane nunca deve ter contato com nenhum intocável. “Um brâmane não tocaria sequer nos pés de Gandhi”, comenta Tripathy, referindo-se ao deificado líder da independência da Índia. “Ele era um vaixá. Os brâmanes são superiores.”
Manu também determina que tocar em um corpo depois das cerimônias fúnebres finais traz grande contaminação. Por isso, cabe às castas de intocáveis, como os doms, cremar os mortos. Os doms trabalham nas margens recortadas em degraus do Ganges em Varanasi, onde os fiéis hindus levam seus mortos para serem cremados à vista do rio sagrado.
Desviando das lufadas de fumaça em Harishchandra Ghat, observo um dom, de calção e camiseta, incumbir-se da cremação de uma mulher idosa. Matru Choudhary, líder da comunidade dom na região, explica o processo num inglês que ele diz ter aprendido com os turistas. “O corpo demora três horas para queimar. Às vezes menos, com mais lenha. Quanto mais rica é a família, mais lenha compram de nós.”

Veja

Da semana

por A-24, em 04.08.13
Agora é tarde
Comentário mesquinho e desnecessário de Rui Rio, que escusava de nos dizer o óbvio, isto é, que jamais votaria no seu velho ódio de estimação, Luis Filipe Menezes, para o substituir numa cadeira que ocupou, com brilho muito discutível, durante doze anos. O comentário vem, de resto, numa altura em que Rio parece ter desistido, de vez, de se candidatar ao lugar de Monti português, agora que Passos e Portas parecem ter voltado a entender-se, pelo menos para levarem o governo até ao final da legislatura. A partir de Setembro deste ano, Rio ficará sem nada para fazer na política, a não ser assistir ao desfile de personagens de que não gosta em lugares que foram ou poderiam ter sido seus. Contudo, só pode queixar-se de si próprio, por não ter tido a coragem suficiente de avançar quando teve essa oportunidade. Agora é tarde. 
Rui A.

Quem vem e atravessa o Rio…
Rui Rio fez – com o timing esperado – o que lhe competia: alertar para os perigos que a cidade enfrenta com a possível eleição de Menezes. Ao contrário deste, o Presidente da CMP aguardou o (quase) final do seu mandato para se pronunciar, contrastando com quem, tendo um município para gerir, está em campanha na cidade vizinha há quase um ano. Pela blogosfera e pelo facebook cresce o ruído da indignação menezista. Ao candidato que quer o Palácio de Cristal como o Tivoli de Copenhaga, a Praça da Corujeira como o Central Park de NY e o Porto como a Barcelona do Oeste, só lhe faltou sugerir o Salgueiros como o Real Madrid lusitano, tal é a megalomania das suas propostas e a demagogia nelas inserida. Rui Rio não fez mais que apontar o óvio: que a soma do que LFM tem proposto terá como consequência principal um endividamento da cidade do Porto à imagem de Gaia, ou pior. E que, feitas as contas, o que LFM fez do outro lado da ponte difere em pouco do que o PS fez ao país. 
Ricardo Lima

Que se lixe!
Este excelente artigo de João Miguel Tavares demonstra o estado miserável em que se encontra o actual Partido Socialista, a fazer de tontos dez milhões de portugueses que padecem pelo estado em que o país se encontra, no qual este partido tem especiais e graves responsabilidades. E não é somente pela péssima “liderança” de António José Seguro, que produz inanidades diárias sobre o sofrimento das pessoas, mas também e sobretudo, pelo facto de não haver por lá ninguém que ponha cobro a esta situação e que fale aos portugueses com a seriedade que eles merecem, numa altura de grave crise nacional. Infelizmente, andam todos a fazer contas à vida, a medir influências pessoais e tribais, e à espera dos resultados das autárquicas, para verem se Seguro passa ou não no eleitorado. Quanto ao país, que se lixe!

Rui A.

Trabalhar alcoolizado

As leis laborais não versam sobre os estados de alma do trabalhador, observam: “Não há nenhuma exigência especial que faça com que o trabalho não possa ser realizado com o trabalhador a pensar no que quiser, com ar mais satisfeito ou carrancudo, mais lúcido ou, pelo contrário, um pouco tonto”.
“Vamos convir que o trabalho não é agradável”, observam ainda os desembargadores Eduardo Petersen Silva, Frias Rodrigues e Paula Ferreira Roberto. “Note-se que, com álcool, o trabalhador pode esquecer as agruras da vida e empenhar-se muito mais a lançar frigoríficos sobre camiões, e por isso, na alegria da imensa diversidade da vida, o público servido até pode achar que aquele trabalhador alegre é muito produtivo e um excelente e rápido removedor de electrodomésticos”. 
Raquel Varela


Terceiro Mundo: O sistema de castas na Índia II

por A-24, em 03.08.13
Nascer hindu na Índia é entrar para o sistema de castas, uma das mais antigas formas de estratificação ainda em vigor. Arraigado na cultura indiana há 1,5 mil anos, o sistema segue um preceito básico: todos são criados desiguais. A hierarquização da sociedade hindu originou-se de uma lenda na qual os quatro principais grupos, ou varnas, emergem de um ser primordial. Da boca, vêm os brâmanes – sacerdotes e mestres. Dos braços, os xátrias – governantes e soldados. Das coxas, os vaixás – mercadores e negociantes – e, dos pés, os sudras – trabalhadores braçais. Cada varna, por sua vez, abrange centenas de castas e subcastas hereditárias, cada qual com hierarquia própria.
Um quinto grupo consiste nas pessoas que são achuta, ou intocáveis. Não vieram do ser primordial. Eles são os excluídos – pessoas demasiado impuras para classificar-se como seres dignos. O preconceito define sua vida, particularmente nas áreas rurais, onde vive quase três quartos da população indiana.


Os intocáveis são evitados, insultados, proibidos de freqüentar templos e casas de castas superiores, obrigados a comer e beber em utensílios separados em lugares públicos e, em casos extremos mas não incomuns, são estuprados, queimados, linchados e baleados.
O antigo sistema de crença que criou os intocáveis prepondera sobre a lei moderna. Embora a Constituição da Índia proíba a discriminação de casta e especificamente tenha abolido a condição de intocável, o hinduísmo, religião de 80% da população da Índia, governa a vida diária com suas hierarquias e seus rígidos códigos sociais. Um pai ou uma mãe intocável gera filhos intocáveis, marcados como impuros desde o momento em que começam a respirar.
Mas eles não têm aparência diferente da dos outros indianos. Sua pele é da mesma cor. Não andam esfarrapados, não são cobertos de feridas. Andam pelas mesmas ruas e freqüentam as mesmas escolas. As mulheres varrem o quintal de terra e lavam a roupa da família. As crianças jogam críquete, geralmente com ramos de árvore e bolas de tênis, e colam fotos de atletas e astros pop na parede de suas casas de barro de um cômodo. Os homens labutam, costurando sapatos, bordando tapetes, secando esterco de vaca que será usado como combustível e, como homens de todas as castas em todas as comunidades, deitam dinheiro fora bebendo e jogando.
Mas, apesar desses sinais exteriores de normalidade, os intocáveis nem precisam usar uma tatuagem escarlate na testa para anunciar sua condição. “Casta não se consegue esconder”, garante Sukhadeo Thorat, docente da Universidade Jawaharlal Nehru, em Nova Délhi, um dos poucos intocáveis na Índia com Ph.D. em economia. “Dá para tentar disfarçá-la, mas muitos são os modos de trair-se. Um hindu não se sente confiante para estabelecer um relacionamento social sem conhecer as origens da outra pessoa. Antes de dois meses, a casta se revelará.” Nome de família, endereço na aldeia, linguagem do corpo – tudo fornece pistas. O mais revelador, porém, é a ocupação.
Os intocáveis executam o “trabalho sujo” da sociedade – atividade que requer contato físico com sangue e excrementos humanos. Os intocáveis cremam os mortos, limpam latrinas, cortam cordões umbilicais, removem animais mortos da rua, curtem couro, varrem sarjeta. Esses trabalhos, e a condição de intocável, são transmitidos aos descendentes. Mesmo os numerosos intocáveis que exercem serviços “limpos”, principalmente trabalhos agrícolas mal remunerados em terras de grandes proprietários, são considerados impuros.
Em uma sociedade livre só na aparência, os intocáveis estão atrelados à base de um sistema incapaz de funcionar sem discriminação.
Tom O'Neill 

Veja

Liverpool entra na senda do "politicamente correcto"

por A-24, em 03.08.13
O Liverpool Football Club (FC) entrou na era do Politicamente Correcto (PC), em nome da promoção da igualdade e do combate à discriminação. “Fag” (calão inglês para homossexual), “princess” (princesa), “paki” (diminutivo com carga pejorativa para paquistanês) ou “raghead” (expressão utilizada para árabes) são alguns exemplos que costam de um manual de conduta da formação de Anfiled como expressões que fomentam a discriminação e que o clube da cidade dos Beatles quer erradicar das bancadas do seu estádio. Este manual foi distribuído pelos funcionários do clube que tenham contacto com o público, com a recomendação de fazerem o possível para promover a igualdade em Anfield.
A lista de palavras proibidas divulgada nesta quarta-feira pela imprensa inglesa está dividida em raça/religião, orientação sexual, género e deficiência.


O guia recomenda aos empregados do Liverpool que “é importante perceber o contexto do que é dito”, acrescentando que considera determinadas palavras e expressões “inaceitáveis”. Mesmo expressões como “joga como um homem” ou “jogas como uma menina” também não são toleradas pela direcção do clube de Anfield.
“Este programa inclui seminários interactivos e um manual que presta informação sobre a mais recente legislação sobre igualdade e dados sobre que tipo de terminologia é considerada aceitável e inaceitável.
Este programa de consciencialização permite que os nossos empregados reconheçam linguagem que não seja apropriada e que tomem as medidas necessárias para que Anfield esteja livre de todas as formas de discriminação”, explica Rishi Jain, responsável pelos programas de inclusão social do Liverpool e um dos autores do manual.
Este manual não foi distribuído pelos jogadores do Liverpool, porque estes já são obrigados a seguir um código de conduta imposto pela Federação Inglesa, e surge um ano e meio depois do caso em que o avançado uruguaio Luis Suárez foi condenado por insultos racistas a Patrice Evra, defesa do Manchester United.
Na altura, o Liverpool defendeu o jogador, segundo melhor marcador da Premier League na última temporada, e foi criticado por isso. O internacional uruguaio, que poderá estar de saída do Liverpool a curto prazo, acabaria por ser suspenso por oito jogos e condenado a pagar uma multa de 40 mil libras, com o clube a condenar as sanções aplicadas.
Esta é mais uma das medidas tomadas pelo Liverpool para combater a discriminação no clube e promover a igualdade. Em Agosto do ano passado, os reds tornaram-se no primeiro clube da Premier League a estar representado numa marcha de orgulho gay e tem colaborado activamente com organizações como a “Kick it Out”, “Show Racism the Red Card” e a “Anthony Walker Foundation”.
Público

A Áustria e a imigração

por A-24, em 03.08.13
Bartosz T. Wieliński

A Áustria, onde os democratas-cristãos fazem parte da coligação, está a deportar refugiados paquistaneses, condenando-os praticamente à morte. E, no entanto, poucas semanas antes o Papa Francisco tinha falado em defesa deles. As suas palavras moveram muitas pessoas, mas pelos vistos não chegaram aos ouvidos dos políticos austríacos, realça a Gazeta Wyborcza.
Toda esta terrível história nunca teria acontecido se os imigrantes paquistaneses em situação irregular, que pediram asilo na Áustria, se tivessem mantido em silêncio. Mas, por pensar que estavam num país democrático, decidiram pedir publicamente um tratamento digno. Em vez de passar o resto das suas vidas em campos de refugiados sobrepovoados em Traiskirchen perto de Viena e trabalhar de forma ilegal, decidiram sair às ruas, no mês de novembro do ano passado, para se manifestar contra as condições precárias nas quais se encontravam.
A polícia expulsou-os imediatamente. Conseguiram encontrar refúgio numa das igrejas e, mais tarde, foi-lhes oferecido abrigo pelo mosteiro da Ordem dos Servos de Maria. Mas no domingo do dia 4 de agosto, as autoridades, que não se esqueceram do que ocorrera, prenderam e deportaram imediatamente 8 dos 40 paquistaneses envolvidos na manifestação.
As autoridades declararam que nada poderá impedir o plano de funcionar como previsto
Os ativistas austríacos que, juntamente com a Igreja Católica, apoiam os refugiados paquistaneses, tomaram várias iniciativas para impedir a sua deportação. Um dos ativistas comprou um bilhete de avião para o mesmo voo que iria deportar um paquistanês e tentou impedi-lo de arrancar, mas foi rapidamente neutralizado pela polícia. Pior ainda, os polícias voltaram-se contra os próprios ativistas. Três pessoas foram detidas por tráfico de seres humanos na semana passada, e a polícia revistou o mosteiro. As autoridades declararam que nada poderá impedir o plano de funcionar como previsto.

Medo e impotência
Para eles, a deportação é uma condenação à morte: pelas forças de segurança ou pelos talibãs
Não estaria a escrever sobre este assunto com tanto pormenor se não tivesse conhecido em pessoa os refugiados do mosteiro de Viena. Passei umas horas com eles em abril. Os seus olhos refletiam um sentimento de medo e de impotência. A maioria era defensora dos direitos humanos no Paquistão e teve de fugir do país. Para eles, a deportação é uma condenação à morte: pelas forças de segurança ou pelos talibãs.
Os candidatos ao asilo não percebiam como é que o Governo austríaco considerava o seu país de origem um oásis de democracia. O próprio ministro dos Negócios Estrangeiros, adiantaram eles, lançou avisos aos turistas austríacos para se manterem longe do Paquistão. Portanto, por que é que as autoridades disseram, relativamente aos refugiados, que estes não corriam perigo e que podiam ser deportados?
A Áustria é, sem dúvida alguma, um país governado por leis, com regulamentos sobre o tratamento dos imigrantes. Também é verdade que muitos asiáticos e/ou africanos vêm para a Europa por razões exclusivamente económicas, utilizando a perseguição política e religiosa como pretexto.
Um pequeno país como a Áustria não pode simplesmente acolhê-los a todos. No entanto, a lei não deve ser aplicada de forma generalizada. Cada caso individual deveria ser tratado atempadamente. Os refugiados não são animais. Além disso, há anos que a opinião pública tem conhecimento das condições dos campos de refugiados na Áustria, que são escandalosas.

Condições terríveis
Mas o Governo em Viena nunca se preocupou com as críticas e acabou por escolher a pior forma de resolver o problema. A deportação dos paquistaneses começou na véspera das campanhas eleitorais, numa altura em que o principal defensor dos refugiados, o Cardeal Christoph Schönborn, arcebispo de Viena, estava fora do país e não podia, portanto, intervir em sua defesa. Neste contexto, as alegações segundo as quais a coligação (SPÖ, socialista, e ÖVP, democrata-cristão) está a tirar partido desta situação para reforçar a sua influência política, atraindo a simpatia do povo, não são de todo surpreendentes.
Mas a Áustria não é o único país em que os refugiados enfrentam condições terríveis. Na Grécia, a polícia de fronteiras persegue-os como se fossem gado. Os italianos enviaram furtivamente imigrantes africanos para a Alemanha. No Reino Unido, uma recente campanha governamental alerta os imigrantes clandestinos que, se não saírem do país, acabarão presos. Na Polónia, como o demonstrou recentemente um canal de televisão público, os centros de detenção para refugiados funcionam como verdadeiras prisões.
Há um mês, na ilha italiana Lampedusa, onde milhares de africanos, que chegam de barco, encontram temporariamente refúgio, o Papa Francisco declarou que queria convencer os católicos a mudar de atitude em relação à tragédia que abala os imigrantes. Quer que comecemos a tratá-los como pessoas necessitadas. Quando é que a Europa começará a dar-lhe ouvidos?


Via Press Europe

Austeridade, Áustria e Portugal

por A-24, em 03.08.13
 in Estado Sentido

Nos últimos quinze anos visitei a Áustria perto de vinte vezes. Não fui na qualidade de turista nem na condição de cidadão. Desloquei-me de acordo com o meu perfil híbrido, remexido pelo pulsar de múltiplas culturas e nações que residem no meu espírito. Pratico uma modalidade de abnegação patriótica - uma disciplina crítica que não coloca nenhum país num pedestal de superioridade. As idiossincrasias nacionais funcionam como uma impressão digital - não há forma de se lhes escapar. As coisas boas e más estão presentes nos quatro cantos cardinais, nas penínsulas e nas centralidades continentais. Nesta minha derradeira deslocação, viajei do reino da Austeridade para um país que já viveu essa experiência no pós-segunda Grande Guerra, mas, que por força do destino económico e social do presente, deixou cair o termo do seu léxico quotidiano, com todas as conotações nefastas a ela associada. A Áustria não tem noção do drama do sul da Europa. 
No desconcerto das nações europeias, a Áustria permanece na sua ilha de contentamento e esplendor. A sua taxa de desemprego ronda os 4% e a sua posição geo-económica significa que mantém intensas trocas comerciais com os países fronteiriços - uma boa meia dúzia de vizinhos. Como é natural nunca deixei de comparar realidades, com o intuito de tentar perceber as razões dos sucessos e descalabros. Em duas semanas de estadia em Graz (considerada a cidade do mundo com melhor qualidade de vida), vi menos Mercedes, Audis e BMWs por alcatrão quadrado do que em Portugal. Não escutei buzinas, e no centro da cidade 30km/h são 30km/h (poupa-se combustível, nervos e acidentes). Estacionar no centro da cidade implica preços proibitivos - paguei por um devaneio de 6 horas 40 euros! Mas tudo isto tem um custo. A Áustria por viver no auge do conforto e segurança económica e social (por exemplo, o subsídio por filho chega aos €400 mensais até aos quatro anos de idade para estimular a taxa de natalidade) desligou o motor de reflexão sobre os problemas dos outros. O extinto império Austríaco viu nascer tantas escolas de excelência, que facilmente o país vive a plenitude dessa falsa autosuficiência intelectual e cultural. A escola Austríaca de economia moldou tantas outras como a de Chicago ou a de Londres; a psicanalise fundada na persona de Freud e companhia também concedeu essa ilusão de vantagem. E não esqueçamos que a Áustria conseguiu convencer o mundo inteiro que Hitler era Alemão e Beethoven Austríaco, este último reunido com os grandes Haydn ou Mozart. Mas também não devemos omitir que Simon Wiesenthal - o caça nazis -, tinha a sua sede de operações em Viena. 
Ou seja, a noção de que há uma responsabilidade histórica paira no ar, e, condiciona, se não todos os cidadãos, pelos menos alguns pensadores maiores, incomodados pelas acções colectivas e os desígnios da nação. Thomas Bernard mais antigo e Robert Menasse do nosso tempo, para citar dois exemplos de pensadores irrequietos com a sua identidade. Todos os países vivem o movimento pendular das suas acções - um relógio que obedece a lógicas de paragens e continuidades que obriga os países a reverem a sua condição. Portugal, distante que está da Áustria, partilha algumas particularidades excêntricas. O domínio da língua falada e escrita parece obedecer a uma matriz semelhante de relacionamento ou paternidade. A Áustria está para a Alemanha como o Brasil está para Portugal. Partilham a mesma árvore linguística, mas os desvios no modo de expressar acontecem, num caso, de um modo natural, e noutro, de acordo com uma certa resistência nacionalista. A Alemanha não se sente ameaçada pelo vizinho do lado que usa uma palavra distinta para batata. São estes detalhes que ajudam a formar uma imagem incompleta das terras e das suas gentes. Ao fim de duas semanas, ou de uma vida, não podemos cair na tentação da redução simplista, do certo ou errado, do bom ou o mau. Os vinhos tintos da Áustria não aquecem a alma como os Portugueses, mas os brancos são excepcionais. Não menciono a qualidade do azeite - este vem da Grécia e não se compara ao trago nacional, profundo e perfumado. Faz bem sair para regressar e tornar a partir. Portugal dá luta e isso não deve ser menosprezado.

O Papa

por A-24, em 02.08.13
Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada

Porquê este entusiasmo das multidões pelo Papa? Porquê o fervor das gentes pela pessoa humana do representante de Cristo? Que há, na sua pessoa, que explique esta atracção? Que tem o bispo de Roma - o actual, ou os seus antecessores - que tanto fascina homens e mulheres de todas as idades e condições?
Não será exagerada esta exaltação do ser humano que ocupa a cátedra de Pedro? Não é afinal um simples mortal? Quando à sua pessoa se atribuem poderes mágicos, não se estará a incorrer porventura em superstição? Onde termina o culto da sua personalidade, em princípio aceitável, e começa uma inadmissível idolatria?
Os muçulmanos não veneram o seu profeta, Maomé, nem permitem qualquer representação de Alá. Os judeus não se consideravam sequer dignos de pronunciar o santo nome de Iavé. Até os evangélicos baniram dos seus templos as imagens sagradas e proíbem a devoção aos santos.
O Papa, seja ele quem for, é o máximo representante da comunidade eclesial: o primeiro na honra e no serviço - o servo dos servos de Deus - de uma Igreja muito humana e muito divina, porque é mistério de comunhão no mistério uno e trino que Deus é. O Ser absolutamente transcendente fez-se visível no rosto de Jesus, verdadeiro homem e verdadeiro Deus. Por isso a religião cristã, mais do que uma doutrina ou uma moral, é Alguém que eleva o homem a Deus e leva Deus ao homem. É na humanidade de Cristo que o próprio Deus se revela e é também através da humanidade do Papa e da Igreja que Cristo se faz presente em cada momento histórico. Pedro é afinal, aqui e agora, a expressão visível em que, para o mundo, se reflecte o olhar vivo, humano e divino, de Cristo, o rosto de Deus.

Da série "crimes sem perdão"

por A-24, em 02.08.13
A privatização dos CTT é um crime sem perdão, escreve Daniel Oliveira. Por causa do serviço público, por causa do lucro da empresa, por causa dos trabalhadores. Por causa do costume. Antes dos CTT a privatização da ANA era um crime sem perdão. Antes da ANA a privatização da EDP era um crime sem perdão. Antes da EDP a privatização da REN era um crime sem perdão. Antes da privatização da REN a privatização da CIMPOR era um crime sem perdão e por aí fora. Em 86 a privatização da UNICER também era um crime sem perdão com mais ou menos os mesmo argumentos. O problema não é com os CTT é com as privatizações. Mas no fim do dia continua a haver luz, cimentos e cerveja. Também vai continuar a haver cartas.

31 da Armada by Rodrigo Moita de Deus 

Terceiro Mundo: O sistema de castas na Índia I

por A-24, em 02.08.13
Os pecados de Girdharilal Maurya são muitos, garantem seus atacantes. Ele tem carma ruim. Por que nasceria intocável, como seus ancestrais, senão para pagar por suas vidas passadas?
Veja só: ele trabalha com couro, e a lei hindu diz que trabalhar com pele de animais torna-o impuro, alguém que se deve evitar e ultrajar.
E sua prosperidade não fica bem, é pecado. Quem esse pária pensa que é, comprando um pequeno terreno na periferia da aldeia? Ainda por cima, atreveu-se a pedir à polícia e a outras autoridades licença para usar o novo poço da aldeia. Recebeu o que os intocáveis merecem.
Uma noite, quando Maurya estava em uma cidade próxima, oito homens de uma casta superior, os rajputes, entraram em seu terreno. Quebraram as cercas, roubaram o trator, espancaram sua mulher e sua filha e queimaram a casa. A mensagem era clara: mantenha-se embaixo, onde é seu lugar.
Girdharilal Maurya pegou a família e fugiu da aldeia de Kharkada, no estado do Rajastão, oeste da Índia. Dois anos se passaram até que ele se sentisse em segurança para retornar – e isso só porque advogados de direitos humanos empenharam-se em seu caso. “Eu os vejo quase todo dia”, comenta Maurya sobre seus atacantes. “Andam por aí, livres.” Ele concordou em encontrar-se comigo – depois de escurecer – no quintal de terra de sua casa na aldeia. Maurya tem 52 anos, é alto e bem-apessoado, de cabelos brancos e rosto vincado pela preocupação. Na gélida noite de fevereiro, ele se enrola em um roupão de banho. A mulher move-se na penumbra, preparando o chá. Moram com os demais de sua casta no extremo sul da aldeia, onde o vento sopra para longe das famílias de castas superiores, que acreditam que não devem sentir o cheiro de intocáveis.
O processo na Justiça contra seus atacantes arrasta-se, explica Maurya, com voz tensa e contida. Tenta mostrar-se otimista: agora os intocáveis podem usar a bomba do poço, e um de seus filhos conseguiu avançar até a universidade – o primeiro de sua casta naquela aldeia. Mas, quando admite que ainda teme seus agressores, a voz de Maurya se altera – e a mulher aumenta o volume do rádio para disfarçar. “O governo recusa-se a lidar com problemas como esse do poço dizendo que, legalmente, o sistema de castas não existe.
Mas basta olhar em volta. Tratam melhor dos animais do que de nós. Isso não é natural.
Só estamos pedindo direitos humanos.” E fala ainda mais alto, clamando para a noite a sua volta: “Por que os deuses permitiram que eu nascesse num país como este?”

Veja

O desmoronar do milagre da alta velocidade

por A-24, em 01.08.13
Depois da China, é a Espanha quem detém o recorde de quilómetros de caminho de ferro de alta velocidade: o resultado de uma ambição que se tornou obsessão, alimentada desde há 20 anos por governos tanto de esquerda como de direita. Hoje, todo um modelo económico é colocado em questão.

Ramón Muñoz


A Espanha pode vangloriar-se de dois recordes mundiais na área económica. A sua taxa de desemprego juvenil, de 56,4%, e a sua rede de vias-férreas de alta velocidade, de 3100 quilómetros em serviço. Só a China tem uma infraestrutura de alta velocidade mais extensa, embora haja que ter em conta que o seu território é 20 vezes maior e que a sua população é de 1300 milhões de habitantes, 27 vezes mais do que a espanhola. Em quilómetros de AVE [alta velocidade espanhola] por habitante, nenhum país do mundo se aproxima sequer do rácio espanhol.
Essa aposta, feita desde a inauguração da primeira linha Madrid-Sevilha, em 1992, deu origem a uma poderosa indústria, que gira em torno dessas vias-férreas, que fatura quase 5 mil milhões de euros por ano e que exporta 60% da sua produção. De facto, em 2012, em plena recessão, a indústria ferroviária espanhola foi a segunda que mais viu crescer as exportações.
O TGV espanhol (AVE) passou a ser o melhor embaixador da tão traída e transcendida Marca España. O recente êxito do chamado AVE do peregrino, de Medina a Meca, na Arábia Saudita, o maior contrato adjudicado a um consórcio espanhol (6700 milhões de euros), foi o reconhecimento decisivo dessa imagem da outra Espanha, que, para além da crise, se quer apresentar ao mundo.
apontando a mira para os macro-projetos internacionais de alta velocidade em preparação no Brasil, Estados Unidos, Turquia ou Cazaquistão
Governo e empresas deram as mãos, para vender essa imagem de marca tecnológica genuinamente espanhola apontando a mira para os macro-projetos internacionais de alta velocidade em preparação no Brasil, Estados Unidos, Turquia ou Cazaquistão. Mas o acidente do Alvia, na estação de Santiago de Compostela, pode representar um duro golpe para essa imagem, apesar de nem a via-férrea nem o comboio possam ser considerados estritamente como alta velocidade.
Uma arma eleitoral
Talvez tenha sido esse receio que levou as empresas a guardar um silêncio absoluto em torno do sinistro. Nem mesmo as empresas afetadas disseram uma palavra para defender os seus produtos. A Talgo, fabricante do comboio acidentado, e a associação temporária de empresas (Thales, Dimetronic-Siemens, Cobra e Antalis) que instalou o sistema de sinalização e de segurança do eixo Ourense-Santiago, optaram pelo mutismo, recusando-se a prestar esclarecimentos na investigação judicial em curso.
Se as averiguações se prolongarem, esse silêncio pode prejudicar seriamente a adjudicação de contratos internacionais. Só a projetada via São Paulo-Rio de janeiro envolve um bolo de 12 mil milhões de euros, que poderá escapar-se se, devido ao trágico acidente, subsistir a versão de que a alta velocidade espanhola não é segura. Esse nervosismo apoderou-se das autoridades, ao ponto de o presidente do Governo da Galiza, Alberto Núñez Feijóo, ter chegado a sugerir que existem "interesses económicos" de outros países, que pretenderiam desprestigiar o sistema de segurança, tendo em vista futuros concursos públicos.
Como explicar de outro modo o facto de José María Aznar e José Luis Rodríguez Zapatero só terem convergido quanto ao plano de ligar todas as capitais de província por comboios de alta velocidade
Além disso, o AVE não é apenas uma questão económica. É também uma bandeira política. Os dois principais partidos –o PP e o PSOE –usaram-na como arma eleitoral, inclusive dando maior destaque ao AVE do que a domínios mais transcendentes como a educação e a saúde. Como explicar de outro modo o facto de José María Aznar e José Luis Rodríguez Zapatero só terem convergido quanto ao plano de ligar todas as capitais de província por comboios de alta velocidade? Inclusivamente, o último plano de infraestruturas (PITVI), atribui ao AVE, até 2024 e no meio da maior recessão da história, 25 mil milhões de euros –6 mil milhões mais do que a construção de autoestradas.
4512 milhões de euros de investimento
Os fabricantes de material ferroviário espanhóis faturaram 4800 milhões de euros em 2012, dos quais exportaram 2800 milhões, cerca de 21% mais do que no ano anterior. Depois da indústria química de produtos orgânicos, foi o setor cujas vendas no exterior mais cresceram. Ao contrário de outros setores, que deslocalizaram a sua produção para países onde os salários são baixos, a indústria ferroviária mantém uma forte presença fabril, dando emprego a 18 mil trabalhadores.
A Espanha é o país do AVE, a marca comercial da Renfe mas que se transformou num termo genérico para designar toda a alta velocidade. Um total de 3100 quilómetros em serviço, face a uma rede convencional de 11 mil quilómetros que serve 60% da população.
Esse investimento sai dos impostos e não foi recuperado através da venda de bilhetes
O AVE é muito rápido mas custa imenso dinheiro. Desde que o Governo de Felipe González decidiu apostar no troço Madrid-Sevilha, a alta velocidade devorou um investimento de 4512 milhões de euros. Esse investimento sai dos impostos e não foi recuperado através da venda de bilhetes, que, por conseguinte, estão a ser altamente subvencionados.
Por isso, outros países, como a França, abandonaram os seus projetos de alta velocidade. Depois de ter recebido o chamado relatório Duron, o Presidente francês, François Hollande, decidiu apostar nas linhas convencionais, regionais e de proximidade, em detrimento dos projetos previstos de alta velocidade (entre os quais o da ligação à Península Ibérica), devido à sua "reduzida rentabilidade social". O Governo português também renunciou definitivamente da ligação a Espanha em alta velocidade. Pelo contrário, o Executivo de Mariano Rajoy, continua a seguir o caminho traçado pelo anterior, de José Luis Rodríguez Zapatero, ao mesmo tempo que preparava um plano de encerramento de linhas de longa e média distância não rentáveis (como se o AVE o fosse).
Press Europe