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A-24

Começou o verão

por A-24, em 26.06.13

Começou o verão. E com ele a "silly season", os anúncios de vitórias interplanetárias e visões faraónicas da terra prometida onde a secura vai acabar, a relva crescerá vermelha, ou melhor, encarnada, e onde os árbitros vão acabar o jogo antes dos 92'

É neste período, entre Junho e Agosto, que um clube ganha sempre tudo. É neste período que uma vez mais, a soberba e a alienação criam uma equipa divina, gigante, um "rolo compressor" que joga um futebol divino, digno de "nota artística".
Mas tal como no "1984" de Orwell, é difícil reescrever a história todos os dias e manipular toda gente durante todo o tempo. No último jogo do campeonato, a águia Vitória piou mais alto e disse chega: abriu as asas e voou para longe e decidiu nunca mais voltar. A águia já foi. Restam 6 milhões de alienados que continuam à espera de ganhar. Entretanto, vão perdendo tudo, e se quando perdem apagam as luzes, ligam a rega, não cumprimentam o presidente da nação e saem de campo sem honrar o adversário que lhes ganhou e agridem árbitros e o próprio treinador nem me atrevo a pensar no que seria se ganhassem.
Mas tento sempre entender que clube é este, que valores defende e que adeptos são estes. Nunca tenho muito sucesso, e entretanto começa mais um campeonato, onde a Providência nos lembra, inexoravelmente, que o inferno é vermelho e que o Céu foi pintado em tons de Azul!


André Villas Boas

O carburante da extrema-direita

por A-24, em 25.06.13

Em 2002, a França entrou em estado de choque quando Jean-Marie Le Pen conseguiu passar à segunda volta das eleições presidenciais, ultrapassando o socialista Leonel Jospin. Todos os partidos democráticos aliaram-se então a Chirac, que foi reeleito com 84% dos votos. Nessa altura, no entanto, Jean-Marie Le Pen não conseguiu mais do que 16% dos votos, só tendo passado à segunda volta em virtude da divisão do campo socialista, que posteriormente passou a ser resolvida com a criação de uma espécie de primárias socialistas nas presidenciais.
Ontem, no entanto, a Frente Nacional obteve 47% dos votos numa eleição parcial, só não tendo conseguido a eleição do seu candidato em virtude de todos os outros partidos se unirem contra ela. A França já percebeu, por isso, que nas próximas europeias corre o risco de assistir a uma vitória da Frente Nacional. Para tal contribuem dois factores: Primeiro, a personalidade de Marine Le Pen, bastante mais perigosa do que o seu pai, e que tem feito crescer paulatinamente o seu partido. Em segundo lugar, a incompetência total da Comissão Barroso, cujo liberalismo radical ameaça fazer cair a Europa nos braços do nacionalismo. Tem toda a razão o Ministro francês Arnaud Montebourg quando avisa que Durão Barroso é o carburante da extrema-direita. Efectivamente, a política da Comissão Europeia só tem tido como efeito o crescimento dos partidos nacionalistas e xenófobos em toda a Europa.
Só que a irresponsabilidade da Comissão Europeia ameaça virar-se contra si própria. Efectivamente uma das propostas eleitorais de Marine Le Pen é a saída da França do euro. Como o euro não subsistirá sem a França, se a Frente Nacional alguma vez ganhar as eleições, é certo e seguro que o euro acaba e com ele a União Europeia. E Durão Barroso será o principal responsável por este descalabro.
Luís Menezes Leitão

A estratégia da Escola de Frankfurt

por A-24, em 24.06.13
O que de mais importante se pode assimilar da forma de operação da Escola de Frankfurt é que eles desenvolveram tácticas que visavam a implementação da revolução comunista. Frustrados com o facto do marxismo - economicamente - não ter o que era preciso, eles - os teóricos da Escola de Frankfurt - adicionaram aspectos culturais.

Embora existam várias sub-técnicas, aquelas que têm um peso maior são:
1. Teoria Crítica.

Esta técnica consiste em rodear e atacar a civilização ocidental e todos os seus alicerces (igrejas, família, economia) de todos os ângulos. Este ataque não é baseado na lógica e na racionalidade e nem tem como alvo aqueles que são politicamente mais informados. (É por isso que é tão fácil encontrar contradição na "lógica" esquerdista) Este ataque tem como finalidade desmoralizar as massas de modo a que elas percam - também - a vontade e a força para resistir à imposição da vontade da elite esquerdista.

Este ataque consiste na ridicularização, no envergonhar, na vitimização, na personalização da vítimas, na colectivização da culpa, nos gatilhos emocionais, na contagem de "estórias", na infiltração de instituições de comunicação (órgãos de informação, universidades, cultura popular, "peritos" científicos), no pensamento de grupo aceitável e "não-aceitável", na mobilização de grupos de interesse, no suborno , na rejeição de responsabilidades (aborto), e na repetição ad nauseum.

Os ataques levados a cabo pela Teoria Crítica não se baseiam em queixas individuais válidas, mas sim na própria existência da Civilização Ocidental em si. Tudo aquilo que promove a superioridade da cultura Ocidental é, por defeito, algo que tem que ser destruído. Os marxistas culturais atacam (apenas e só) com o propósito de desacreditar todo o edifício cultural ocidental e acelerar assim a "revolução" (isto é, a instalação da ditadura esquerdista).
2. Politicamente Correcto.

O Politicamente Correcto foi criado como forma de expandir a guerra de classes económica para a guerra de classes cultural. Foi esta forma de pensar que gerou o conceito da Raça / Sexo / Classe, que expande o conceito marxista da estruturação das classes. Fazer o papel de vítima satisfaz a natureza humana de desejar o que não lhe pertence. Isto é feito suprimindo o discurso político que não se alinha com a esquerda militante chamando-o de "discurso de ódio", e classificando preferências políticas e gostos sexuais de "direitos".

Qualquer voz que não aceite esta nova reestruturação social é classificada de "racista", "sexista", "homofóbica", "machista", "nazi" e assim por diante.

A Teoria Crítica é a espada que ataca a civilização ocidental e o Politicamente Correcto é o escudo que protege os "grupos-vítima", dando-lhes assim livre acção. É por isto que uma activista feminista pode chamar os nomes mais terríveis aos homens, ao mesmo tempo que estes mesmos homens estão ideologicamente impedidos de dizer em público que existem diferenças psicológicas e biológicas entre os homens e as mulheres.

A Teoria Crítica e o Politicamente Correcto podem facilmente ser combinados. Por exemplo, os "direitos dos homossexuais" em nada estão relacionados com os verdadeiros propósitos e desejos dos homossexuais. O que se passa é que a Teoria Crítica classificou os valores morais Cristãos como fundamentos da Civilização Ocidental, e como tal, esses valores tinham que ser destruídos. O mesmo se passa com a família.

O activismo homossexual leva a cabo o propósito da Escola de Frankfurt de destruir a Civilização Ocidental, destruindo a família e o Cristianismo (alicerces da Civilização Ocidental). A ideia de atacar a família e o Cristianismo veio primeiro. Depois disso, os teóricos buscaram formas de o fazer, identificando o activismo homossexual (e a promoção do comportamento em si) como uma táctica.

Conseguem ver a manobra? Por exemplo, eis aqui a forma de atacar a família:
a) "É só um pedaço de papel!" - Não funcionou.
b) "É a violação institucionalizada!" - Não funcionou
c) "É um direito humano que se centra no amor, e como tal, todas as pessoas deveriam ter o direito de casar!"

Espera lá. Mas eu pensava que era só um "pedaço de papel" ou que era a "violação institucionalizada"?!

Esta é a forma como funciona o Marxismo Cultural /Politicamente Correcto. O movimento homossexual e o movimento feminista em nada estão relacionados com os propósitos dos homossexuais ou das mulheres; estes movimentos são formas (armas) através das quais o esquerdismo avança na sociedade sem que as vozes conservadoras possam resistir sem serem classificadas de "homofóbicas" e "machistas".

O mesmo se passa com as igrejas; encontrem "valores" que sejam opostos aos valores do Cristianismo, e transformem-nos em "direitos". Depois digam que os Cristãos são contra os "direitos humanos". Por isso é que actualmente temos activistas homossexuais que se assumem como "defensores dos direitos humanos" (como se ter uma preferência sexual pela pessoa do mesmo sexo fosse um "direito humano").
3 - Multiculturalismo

Depois da 1ª Guerra Mundial, os teóricos comunistas que erradamente esperavam uma "revolução do proletariado" e a união da classe operária por toda a Europa, ficaram horrorizados ao observarem que os operários de cada um dos países envolvidos no confronto bélico se uniram aos burgueses do mesmo país na luta contra os operários e burgueses de outros países. Isto fez com que os marxistas se apercebessem do poder do nacionalismo - e do patriotismo - numa cultura etnicamente e culturalmente homogénea (a situação da Europa do início do século 20).

Como forma de impedir que o nacionalismo volte a bloquear o avanço da revolução, os marxistas culturais promovem o multiculturalismo. Isto consiste literalmente em diluir a cultura Ocidental ao permitir que membros de uma ou mais culturas opostas existam e aumentem o seu número no Ocidente. (Já se tornou óbvio que o Multiculturalismo só é promovido da forma que é no Ocidente. Nos países islâmicos, asiáticos ou africanos, não existem manobras da ONU ou de outra grande organização internacional a promover a "diversidade" e a "coesão".)

A imigração, o relativismo moral e o revisionismo histórico têm como propósito enfraquecer a posição única da Civilização Ocidental e não ajudar essas outras culturas. Os esquerdistas não se importam com as prácticas islâmicas levadas a cabo pelos mesmos no Ocidente; eles apenas usam os muçulmanos como arma de ataque ao Ocidente (exactamente o mesmo que é feito com o activismo homossexual e o movimento feminista).

As civilizações precisam duma identidade coerente ou então elas perdem a força e deixam de existir. O enfraquecimento da identidade cultural do Ocidente Cristão é precisamente o propósito do Marxismo Cultural.

Conclusão:

O Marxismo Cultural é a táctica primária da esquerda militante. Todos os adversários políticos são catalogados de "racistas" quando são contra a imigração em massa, de  "homofóbicos" quando defendem que o casamento é entre um homem e uma mulher, ou de "misóginos" quando defendem que existem distinções fundamentais entre o homem e a mulher. Olhando para as acções dos esquerdistas segundo este prisma, fica mais fácil entender as suas motivações, e construir rotinas de refutação mais eficazes.

Um piano nas barricadas

por A-24, em 24.06.13


A Itália da década de 70 viu surgir um movimento surpreendente que pretendia afirmar a autodeterminação do proletariado, sem concessões nem mediações. O livro Um Piano nas Barricadas: Autonomia Operária (1973-1979) (Edições Antipáticas) relata este peculiar acontecimento que, sem bases, sem posto de comando, no início até sem programa, ousou destruir toda a estratificação social que o capitalismo impõe. Este livro mostra-nos o ponto de vista de Marcello Tarì sobre os acontecimentos mais marcantes e todo o contexto social e intelectual que os rodeava. O sujeito é assim uma difusa rede de diferentes agentes, organizados em grupos heterogéneos, cujo papel se vai revelando ao longo da narrativa. Ao invés da sacralização heróica dos actos deste ou daquele indivíduo, existe uma multiplicação de experiências que vai contribuir para afirmar os valores do movimento, que conseguiram tornar-se bastante precisos.

Num depoimento recolhido durante o processo que visava desmantelar o movimento, Lucio Castellano dá-nos um potente retrato do que foi a Autonomia:

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<div dir="ltr"><span style="font-family: Georgia, Times New Roman, serif;"></span></div><div style="text-align: justify;"><span style="font-family: Georgia, Times New Roman, serif;"><a href="http://5dias.files.wordpress.com/2013/06/tumblr_mak9m35rg91rs4qqbo1_500.jpg" style="clear: right; float: right; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;" rel="noopener"><br /><img src="http://5dias.files.wordpress.com/2013/06/tumblr_mak9m35rg91rs4qqbo1_500.jpg?w=419" loading="lazy" /></a></span></div><div style="text-align: justify;"><span style="font-family: Georgia, Times New Roman, serif;"><br /></span></div><div style="text-align: justify;"><span style="font-family: Georgia, Times New Roman, serif;">A Itália da década de 70 viu surgir um movimento surpreendente que pretendia afirmar a autodeterminação do proletariado, sem concessões nem mediações. O livro Um Piano nas Barricadas: Autonomia Operária (1973-1979) (<a href="http://edicoesantipaticas.tumblr.com/" rel="noopener">Edições Antipáticas</a>) relata este peculiar acontecimento que, sem bases, sem posto de comando, no início até sem programa, ousou destruir toda a estratificação social que o capitalismo impõe. Este livro mostra-nos o ponto de vista de Marcello Tarì sobre os acontecimentos mais marcantes e todo o contexto social e intelectual que os rodeava. O sujeito é assim uma difusa rede de diferentes agentes, organizados em grupos heterogéneos, cujo papel se vai revelando ao longo da narrativa. Ao invés da sacralização heróica dos actos deste ou daquele indivíduo, existe uma multiplicação de experiências que vai contribuir para afirmar os valores do movimento, que conseguiram tornar-se bastante precisos.</span></div><div style="text-align: justify;"><span style="font-family: Georgia, Times New Roman, serif;"><br /></span></div><div style="text-align: justify;"><span style="font-family: Georgia, Times New Roman, serif;">Num depoimento recolhido durante o processo que visava desmantelar o movimento, Lucio Castellano dá-nos um potente retrato do que foi a Autonomia:</span></div><div style="text-align: justify;"><span style="font-family: Georgia, Times New Roman, serif;"><br /></span></div><div style="text-align: justify;"><span style="font-family: Georgia, Times New Roman, serif;">&lt;<aquilo a="" acusa="" agita="" alargamento="" algo="" alguns="" amigavelmente="" anos="" ao="" aos="" aquilo="" arriscando="" as="" at="" c="" central="" clareza="" classe="" coisas="" coloca="" com="" compreender="" conhece="" conquistaram.="" consangu="" consolidadas="" conspira="" constitu="" construir="" convencido="" correntes="" cred="" cultura="" da="" danos="" de="" desordenado="" dessa="" destes="" dirigente="" dirigentes="" dirigidas="" diversas="" do="" docentes="" dos="" dr.="" e="" em="" enquanto="" entende="" entre="" es="" escola.="" espa="" est="" este="" estes="" eu="" existir="" express="" fala="" fam="" faz="" fazendo="" feito="" filho="" formado="" formas="" galluci="" grande="" guerra="" hierarquias="" hierarquicamente="" ideias="" imagem="" impor="" is="" isso="" isto="" levaria="" lia.="" liberdade="" linguagem="" ltimos="" mais="" manda="" mas="" me="" medo="" mero="" mesmo="" minha.="" modo="" move="" movimento="" mplice="" mundo="" n="" na="" nas="" necessariamente="" nego="" neos.="" neste="" nimes="" no="" nos="" nova="" o.="" o="" objectivos="" ocorrido="" odiosa.="" olhos="" organiza="" os="" ou="" overno="" pagando="" pap="" para="" parecida="" parte="" patr="" pela="" pele="" perten="" pessoas="" podem="" poder="" por="" porque="" poss="" possa="" possam="" potentados="" pris="" procura="" professores="" provocar="" que="" quest="" raramente="" rebro="" reduzir="" relevo:="" remisturando="" rie="" rodar="" s="" se="" sei="" seja="" sem="" sempre="" sentido="" ser="" servidores="" seu="" seus="" severo="" shakesperianos="" si="" significa="" sombra="" sua="" suas="" subversivos="" tem="" ter="" teria="" termos="" terrorismo="" terroristas="" torno="" totalmente="" um="" uma="" un="" unidas="" universidades="" vel="" vezes="" voc="">&gt; (Interrogatório de Lucio Castellano perante o juiz instrutor, 12 de Junho de 1979)</aquilo></span></div><div style="text-align: justify;"><br /></div><div style="text-align: justify;"><span style="font-family: Georgia, Times New Roman, serif;">O movimento parte da identidade do operário fordista para questionar o seu papel económico e ambicionar à sua destruição, enquanto produtor e consumidor passivo, aprofundando depois esta experiência nos seus diferentes papeis sociais. Assim, a relação de exploração que define o proletariado é compreendida de forma extensiva. Ultrapassa os limites da fábrica e questiona as relações contemporâneas de sociabilidade em diferentes níveis. Por exemplo, este movimento vê ascender uma forte crítica feminista do papel da mulher. Olha para o trabalho doméstico enquanto trabalho não pago e para o papel reprodutivo enquanto sustentação da criação de mão-de-obra necessária ao sistema. Contra esses papéis da mulher, o movimento feminista tenta estratégias “peregrinas” como a Greve Humana. </span></div><div style="text-align: justify;"><span style="font-family: Georgia, Times New Roman, serif;"><br /></span></div><div style="text-align: justify;"><span style="font-family: Georgia, Times New Roman, serif;">Outra questão central do movimento, e que mostra bem o aprofundamento da sua crítica, está relacionada com o papel do desejo. Profundamente influenciados pela crítica a Freud presente em O Anti-Édipo de Deleuze e Guattari vai atender ao desejo como devir revolucionário.</span></div><div style="text-align: justify;"><span style="font-family: Georgia, Times New Roman, serif;"><br /></span></div><div style="text-align: justify;"><span style="font-family: Georgia, Times New Roman, serif;">Este extravasar da fábrica para o quotidiano levou a possibilidades excitantes e entusiasmantes que vão de algum modo superar a nova identidade proletária que, como sabemos, se tornou mais difusa, complexa e atomizada segundo o sistema de produção pós-fordista. Ao transpor os limites normativos que a cadeia produtiva capitalista impõe a Autonomia fortaleceu-se e a sua crítica endureceu:</span></div><div style="text-align: justify;"><span style="font-family: Georgia, Times New Roman, serif;"><br /></span></div><span style="font-family: Georgia, Times New Roman, serif;"> </span><br /><div style="text-align: justify;"><span style="font-family: Georgia, Times New Roman, serif;"><a href="http://5dias.files.wordpress.com/2013/06/parcolambro.jpg" style="clear: right; float: right; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;" rel="noopener"><img src="http://5dias.files.wordpress.com/2013/06/parcolambro.jpg?w=244&amp;h=370" loading="lazy" /></a></span></div><div style="text-align: justify;"><span style="font-family: Georgia, Times New Roman, serif;"><br /></span></div><div style="text-align: justify;"><span style="font-family: Georgia, Times New Roman, serif;">«Os “jovens” são uma invenção recente, não existiam enquanto categoria sociológica até aos anos Quarenta, começam a existir quando o Estado e o mercado de trabalho criam, na década seguinte, o espaço para um estrato da força de trabalho em formação na qual pretendem também construir o consenso relativamente às formas sociais dominantes. Mas se nos anos Sessenta este estrato social começa a recusar a organização autoritária da sociedade e do trabalho, na década seguinte os jovens, agora já proletarizados, tornam-se cada vez mais indisponíveis para o trabalho e utilizam o tempo de não-trabalho para a subversão do tempo total da vida. A taxa de desemprego jovem alcançou níveis estratosféricos nesses anos, mas os jovens já não constituíam um “exército de reserva” à disposição do capital simplesmente porque, a certo ponto, muitos deles escolheram não voltar a pedir para entrar na fábrica ou em qualquer outro lugar para se deixarem explorar, mas permaneciam de fora, a reinventar a vida, combatendo duramente e resistindo ao trabalho, difundindo formas de desfrute imediato do mundo através da pesquisa de uma utilização livre e comum de tudo. Muitos eram os que, ainda que não tivessem emprego na fábrica ou no escritório, passavam de um trabalho precário para outro, partilhando casas e dinheiro com os companheiros com quem por vezes iam depois queimar a empresa onde tinham acabado de trabalhar.</span></div><div style="text-align: justify;"><span style="font-family: Georgia, Times New Roman, serif;"><br /></span></div><div style="text-align: justify;"><span style="font-family: Georgia, Times New Roman, serif;">(…) “Movimento é o estrato social que se move”, escrevia “A/traverso” num dos seus primeiros artigos, em 1975, e referia-se exactamente ao que se começava a chamar proletariado jovem. Os primeiros a forjar esta expressão foram os redactores de “Re Nudo”, uma revista de contracultura ao redor da qual giravam muitas experiências libertárias, dos situacionistas aos autónomos, dos últimos hippies aos apoiantes de um comunismo psicadélico. “Re Nudo” organizava reuniões musicais e políticas segundo o modelo do Movement norte-americano e do Norte da Europa, tendo partido dos seus interesses iniciais pelas drogas, o rock e a contracultura para se aproximar cada vez mais do que era expresso no movimento autónomo. Em Itália, ao contrário dos Estados Unidos e de outros países, a contracultura desenvolveu-se a níveis de massas dentro de um movimento juvenil que já era muito politizado: gente que ligava facilmente a marijuana ao exproprio selvagem, o sexo livre aos distúrbios de rua, o rock duro à greve selvagem. Até aí, os encontros eram organizados em localidades fora das cidades, às vezes tão perdidas que nem sequer se sabia como lá chegar, mas a certo ponto os hippies maoístas de “Re Nudo” começaram a pensar sobre os comportamentos de rebelião juvenil que se estavam a difundir na grande metrópole e, não por acaso, o seu interesse pela construção de comunas teve de render-se ao facto de que era mais interessante, em Itália, procurar fazê-las na cidade do que em ambientes rurais longínquos, como acontecia noutros locais.</span></div><div style="text-align: justify;"><span style="font-family: Georgia, Times New Roman, serif;"><br /></span></div><div style="text-align: justify;"><span style="font-family: Georgia, Times New Roman, serif;">A partir do Outono de 1975, grupos de jovens partiam das periferias urbanas e dirigiam-se ao centro para saquear as lojas, provocavam confrontos nos estádios de futebol, apresentavam-se frequentemente às centenas nas entradas dos concertos de rock e desencadeavam um inferno para não pagar o bilhete, por vezes apenas para estragar o concerto, considerado o enésimo assalto e tentativa de lhes proporcionar um espectáculo do qual estavam irremediavelmente separados: música-mercadoria servida quente para os estupidificar com promessas de Peace &amp; Love. Era a isso que os jovens proletários do Núcleo Autónomo de Quarto Oggiaro, um gangue da periferia milanesa próximo das revistas “Puzz” e “Gatti selvaggi”, chamavam “organização mafiosa da passividade” e continuavam – dirigindo-se aos seus companheiros – “quando vocês vão aos concertos, vão na verdade TRABALHAR, mas o ridículo é isto: que vocês pagam para ir trabalhar”. A polémica dura e acesa com os organizadores dos concertos e dos festivais rock aqueceu, mesmo quando os organizadores eram os grupos extra-parlamentares, que foram mais do que uma vez obrigados a fazer com os que os músicos tocassem com o serviço de ordem disperso sob o palco e nas entradas porque, diziam os autónomos com lucidez: “a gestão de esquerda da alienação é apenas uma gestão de esquerda da alienação”. Os grandes concertos de rock tornaram-se assim mais um dos mil problemas de “ordem pública” e, após um molotov ter voado para o palco de Santana incendiando a amplificação, mais nenhuma estrela quis ir tocar a Itália durante largos anos. Menos mal: a criatividade foi mais autónoma e houve mais espaço para o do it yourself, também na música.</span></div><div style="text-align: justify;"><span style="font-family: Georgia, Times New Roman, serif;"><br /></span></div><div style="text-align: justify;"><span style="font-family: Georgia, Times New Roman, serif;">Os estudantes dos liceus tinham, pela sua parte, começado a ocupar as escolas de forma cada vez mais organizada: as ocupações podiam durar semanas e semanas, durante as quais a coisa mais importante era a acumulação de contrassaberes úteis à sabotagem da metrópole e a intensificação de novas experiências, isto é, a construção de comunas temporárias, a experimentação de novas formas de amor e de luta, para lá do aprofundamento teórico-político que habitualmente acompanhava as agitações estudantis. Durante esses meses, os mais zangados começavam também a entrar em confronto violento com os directores e professores reaccionários, tornando-se normal encontrarem os seus automóveis destruídos por bombas incendiárias, como acontecia aos seguranças e directores de secção nas fábricas. Nas escolas onde o Movimento era forte, ao cabo de dois anos os directores e professores já não governavam nada.</span></div><div style="text-align: justify;"><span style="font-family: Georgia, Times New Roman, serif;"><br /></span></div><div style="text-align: justify;"><span style="font-family: Georgia, Times New Roman, serif;">Foi em Milão que tudo se condensou improvisadamente no Inverno entre 1975 e 1976. Os gangues juvenis eram cada vez mais numerosos e lançavam-se ao assalto da metrópole, ocupavam apartamentos vazios para fazer comunas, inventaram os centros socais onde organizavam concertos e espectáculos teatrais, expropriavam as mercadorias: começavam a compreender ser uma “força”. Re Nudo”, juntamente com o que restava de Lotta Continua, puseram à disposição os seus saberes e algumas das suas sedes e, juntamente com os grupos, criam os primeiros Círculos do Proletariado Juvenil que chegaram em pouco tempo a cerca de trinta apenas em Milão, geralmente cada um com a sua sede e o seu jornal. Os rapazes que constituem os círculos são na maioria aprendizes muito jovens de pequenas fábricas, trabalhadores precários, desempregados e estudantes-trabalhadores, mais uns quantos “cães soltos” e ex-militantes de extrema-esquerda: todos entram em polémica com os grupos que “propõem a divisão entre criatividade-divertimento e política tradicional”. Os Círculos, ao contrário de todas as forças organizadas, que sempre tinham tido a sua sede no centro da cidade, escolhem o caminho do enraizamento no território:</span></div><div style="text-align: justify;"><span style="font-family: Georgia, Times New Roman, serif;"><br /></span></div><div style="text-align: justify;"><span style="font-family: Georgia, Times New Roman, serif;">“A cintura metropolitana era formada por bairros de construção relativamente recente, ou seja, tinham sido fabricados no fim dos anos Cinquenta. Os jovens nascidos nesses bairros demoraram 15 ou 16 anos a recuperar uma identidade territorial, a tornar amigável o território e a pensar que, para eles, a vida libertada não era desejável apenas na sede política central mas no seu bairro, sem intervenções externas” (Primo Moroni, “Ma l’amor mio non muore”, in Gli Autonomi I, op. Cit.).</span></div><div style="text-align: justify;"><span style="font-family: Georgia, Times New Roman, serif;"><br /></span></div><div style="text-align: justify;"><span style="font-family: Georgia, Times New Roman, serif;">Também por isto se imaginavam “índios metropolitanos”, fechados nas suas “reservas”, excluídos de tudo, mas que podiam daí partir para saquear o centro da cidade, defendido pelos “casacos azuis”. O mal-estar desses rapazes, com idades entre os 13 e os 18 anos, derivava de terem como locais e meios de socialização apenas o bar, os flippers, as bandas desenhadas pornográficas, o cinema de série C, as drogas pesadas, os bancos gelados dos esquálidos jardins da periferia, enquanto o seu desejo os pressionava para uma forma diferente de estar juntos. Os jovens dos Círculos, por exemplo, queriam que ao feriado do Primeiro de Maio se juntasse o primeiro dia da Primavera, porque odiavam a metrópole e amavam imaginar a libertação dos bairros para fazer deles as suas pradarias.</span></div><div style="text-align: justify;"><span style="font-family: Georgia, Times New Roman, serif;"><br /></span></div><div style="text-align: justify;"><span style="font-family: Georgia, Times New Roman, serif;">No mesmo período, os bairros mais centrais de Milão de composição popular, como o Ticinese, tinham sido lentamente apropriados por estruturas políticas autónomas e muitíssimos eram os jovens que ocupavam as velhas casas comunitárias nas quais tinham vivido os proletários do século XIX, criando assim verdadeiros “bairros vermelhos”. A velha classe operária, pelo contrário, fugia dessas casas para ir para os novos bairros-gueto, onde os apartamentos talvez tivessem casa de banho privada e um lugar de estacionamento para o carro utilitário. Habitações estudadas para o isolamento da família mononuclear, imersas numa solidão gigante, construídas dentro de bairros horríveis onde as ligações de solidariedade desapareciam e nem sequer existiam os bares onde se poderia ir beber um copo de vinho e falar com os amigos depois do trabalho: os seus filhos não amavam certamente estes novos símbolos de estatuto do “bem-estar” operário, construídos no meio do nada e que se tornariam os locais da sua domesticação humana. &gt;&gt;</span></div><div style="text-align: justify;"><span style="font-family: Georgia, Times New Roman, serif;"><br /></span></div><div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"><span style="font-family: Georgia, Times New Roman, serif;"><a href="http://5dias.files.wordpress.com/2013/06/210_a.jpg" style="color: #1155cc; margin-left: 1em; margin-right: 1em;" target="_blank" rel="noopener"><img alt="Image" src="http://5dias.files.wordpress.com/2013/06/210_a.jpg?w=650" style="border: 0px;" loading="lazy" /></a></span></div><div style="text-align: justify;"><span style="font-family: Georgia, Times New Roman, serif;"><br /></span></div><div style="text-align: justify;"><span style="font-family: Georgia, Times New Roman, serif;">A multiplicação de experiências e identidades insurrecionais, que partem da teoria clássica marxista sob o controlo dos meios de produção e vão tão longe quanto a multiplicação de identidades sexuais, contribuíram para o fortalecimento desta unidade de combate popular que vai muito além dos preceitos leninistas sobre a táctica para o combate político. Esta experiência revela como o antagonismo dentro do próprio movimento, a constante contestação e desafio das estruturas, e a capacidade de multiplicar as experiências e suas identidades, contribuiu para o fortalecimento da sua crítica do quotidiano, tudo isto conseguido sem qualquer disciplina militar ou comité central. O seu culminar aconteceu com a insurreição de 77 que se espalhou como um raio e acabou com a repressão dos tanques a recuperar a ordem nas praças italianas. Gorou-se a possibilidade de criar de raiz uma nova sociedade baseada na autodeterminação e na sociedade sem classes mas a história dos movimentos autónomos ganhou um importante momento aqui retratado ao longo destas páginas entusiasmantes que as Edições Antipáticas acrescentam ao seu assinalável cardápio de importantes escritos que alimentam algumas das mais efervescentes críticas no panorama editorial português.</span></div><div style="text-align: justify;"><span style="font-family: Georgia, Times New Roman, serif;"><a href="http://5dias.wordpress.com/2013/06/20/um-piano-nas-barricadas/" target="_blank" rel="noopener">Fonte</a></span></div><br /><div style="background-color: white; color: #1155cc; font-family: arial, sans-serif; font-size: 13px; text-align: justify;"><a href="http://5dias.files.wordpress.com/2013/06/210_a.jpg" style="background-color: white; color: #1155cc; font-family: arial, sans-serif; font-size: 13px;" target="_blank" rel="noopener"></a></div>

Página Inicial ⁄ Internacional ⁄ "Barroso é o carburante da extrema-direita", diz ministro francês "Barroso é o carburante da extrema-direita", diz ministro francês

por A-24, em 24.06.13
Dezenas de montras de bancos e de comércios foram atacados, esta tarde, em Paris, quando milhares de pessoas desfilaram numa manifestação "anti-fascista", em memória de Clément Méric, jovem militante de extrema-esquerda morto há duas semanas depois de ter sido agredido, durante uma altercação, por um skinhead, membro de um grupo semi-clandestino da extrema-direita.

Os militantes de esquerda e extrema-esquerda, muitos vestidos de negro, atacaram com pedras montras de dezenas de bancos e de comércios ou vandalizaram-nos com slogans anti-capitalistas e anti-fascistas, mas a polícia não interveio e manteve-se à distância.
Pouco depois, em Villeneuve-sur-Lot, no sudoeste do hexágono francês, numa eleição legislativa parcelar, o candidato da extrema-direita (da Frente Nacional-FN, de Marine Le Pen) alcançou 47 por cento dos votos, sendo batido pelo seu adversário da direita clássica, que apenas foi eleito por ter beneficiado dos votos, na segunda volta, da "frente republicana anti-Le Pen" (direita, socialistas, comunistas, centristas).
A subida da extrema-direita, sublinhada por todas as recentes sondagens, provoca inquietação em França, onde analistas prevêem que a FN vença as eleições europeias de meados de 2014.
Esta situação, designadamente o afastamento desde a primeira volta, no domingo passado, do candidato socialista na parcelar de Villeneuve-sur-Lot, enerva os próprios membros do Governo. "Durão Barroso é o carburante da FN", disse esta tarde o ministro francês da Indústria, Arnaud Montebourg, a propósito da polémica sobre as declarações do presidente da Comissão europeia sobre os "reaccionários" que defendem a excepção cultural nas negociações comerciais entre a UE e os EUA.
O ministro francês acha que a principal causa da subida da FN em França não são os escândalos, nem a subida do desemprego, nem os problemas com o poder de compra, nem os escândalos, nem os conflitos provocados pelas religiões. "A UE exerce uma pressão considerável sobre os Governos democraticamente eleitos, é inaceitável, temos um presidente da Comissão que diz 'todos os que são contra a mundialização são reacionários'... temos uma UE imóvel, que não mexe, que não responde às aspirações populares dos europeus, que dá força aos partidos nacionalistas, aos anti-europeus da UE", explicou Arnaud Montebourg.

40% dos franceses gostam de Marine Le Pen
Projetando os resultados eleitorais e os estudos das sondagens, diversos analistas consideram que a FN pode tornar-se no primeiro partido de França nas eleições autárquicas e europeias da primavera de 2014. Marine Le Pen, filha do truculento fundador da FN, Jean-Marie Le Pen, é claramente mais moderada do que pai e beneficia de uma boa imagem - 40 por cento dos franceses dizem ter uma boa opinião dela!
A chefe da FN, que disse há algumas semanas, ao Expresso, acreditar na vitória do seu partido nas eleições europeias de meados do próximo ano, recolhe votos de desiludidos tanto à direita como à esquerda, designadamente na classe operária e na juventude que, tal como indicam as sondagens, votam maioritariamente por ela! E beneficia igualmente com a crise que atravessa a UMP que, desde a derrota de Nicolas Sarkozy nas últimas presidenciais, vive com convulsões quase permanentes devido a uma descontrolada guerra de chefes pela liderança. 
Com estas perspetivas e depois da eleição de hoje em Villeneuve-sur-Lot, a França pode estar a preparar-se para viver, de novo, uma grande crise de nervos, certamente bem mais grave e fulminante do que aquela que viveu em 2002 quando Jean-Marie Le Pen se qualificou para a segunda volta das presidenciais contra Jacques Chirac!
Expresso

A fábrica de bonecas

por A-24, em 22.06.13
Uma das perguntas que mais me colocam desde que cheguei à Venezuela é sobre mulheres. São realmente do outro mundo? Serão mais bonitas ou somente mais vistosas? A resposta não é fácil, mesmo para quem - como eu - não tem qualquer problema em debruçar-se sobre a beleza das demais. Certo é que estamos num país que foi berço de seis Miss Universo e de seis Miss Mundo, só ultrapassado pelos EUA, cujo território é, pelo menos, dez vezes maior... 


À partida, nas ruas e locais que frequento diariamente, diria que são mulheres comuns, umas bonitas, outras nem tanto. Morenas na sua maioria, de estatura média/baixa - eu própria me sinto alta ao lado de muitas delas, o que é um pouco estranho, já que não chego ao tão almejado 1,70m... -, e elegantes. Mesmo com uma alimentação muito à base de fritos - arepas e empanadas -, pode dizer-se que não se vê peso a mais como noutros países, e que regra geral são esguias.
Mas depois há os circuitos mais exclusivos e da moda, onde aí sim, se encontram mulheres bonitas, cuidadas e ousadas, mas não necessariamente deusas do Olimpo. Porém, em proporção, não creio que sejam assimtaaaantas para se poder considerar que estejamos num país abençoado pela mãe-natureza. Mas isto sou eu - e quiçá a minha inveja - a falar.
O que se diz, sem grande base científica, é que o boom de beleza por estes lados tem sobretudo a ver com a mistura que se deu após a imigração oriunda da Europa. De facto, se fizermos contas, concluímos que as misses Venezuela começaram a arrecadar aqueles títulos no início dos anos 80, umas décadas depois das levadas de imigrantes de Espanha, Portugal e Itália. As mesclas com o sangue criollo e ameríndio parecem ter dado origem a uma vaga de gente bonita... 
Aliás, note-se que pelo menos uma das Misses Venezuela é lusodescendente, Vanessa Gonçalves, em 2010, sendo que na história das misses há uma série de apelidos que nos fazem crer que outras também seriam - Machado, Silva, Castro... Por sua vez, a Miss Portugal 2011, Laura Gonçalves, é também ela nascida e crescida na Venezuela e ficou no top 10 da Miss Universo, o melhor lugar conseguido por Portugal naquela competição.


Carolina Herrera | Miss Venezuela e Miss Mundo no ano em que nasci | 1984


É certo que os genes são o mais importante, mas convém lembrar que neste país que parece fabricar misses há toda uma indústria na sombra destes concursos: clínicas de estética, clínicas dentárias, ginásios, cursos de idiomas, etiqueta e - definitivamente - muito dinheiro investido. Segundo este artigo, aproximadamente 35 mil euros por candidata. Sob orientação dos gurus, as seleccionadas parecem ser talhadas à medida para arrecadar o troféu a que se propõem.
Porém, nem tudo são rosas. Há quem diga que neste país se investe demasiado na beleza e muito pouco em saúde e comportamentos de prevenção. Disse-o Eva Ekvall, Miss Venezuela no ano 2000, quando com apenas 28 anos estava às portas da morte por ter descoberto tardiamente o seu cancro da mama. Dá que pensar. Definitivamente, a beleza não vale tudo. Mas parece que por estes lados vale quase tudo para destilar beleza.



Dulce in Agre e Doce

Turquia: o lado solar de Erdogan

por A-24, em 22.06.13
Henrique Raposo

Se olharmos para a Turquia através da dicotomia secularismo vs. religiosidade, vamos acabar por cometer o erro típico de quem vê o mundo através da modernidade francesa, isto é, vamos assumir que a liberdade só existe no secularismo e que o autoritarismo é um monopólio dos sectores religiosos. Um erro a evitar, porque democracia não é sinónimo de laicidade, e constitucionalismo não é o mesmo que jacobinismo. A história da Turquia, aliás, prova isso à saciedade. Durante o seu longo reinado pré-Erdogan, os secularistas (kemalistas) controlaram a Turquia com punho de ferro. Exemplos? Os militares kemalistas faziam golpes de estado contra os líderes políticos que desrespeitavam - segundo os militares - o legado jacobino e mui francês de Ataturk, o pai da Turquia moderna. 
Repare-se que esta acção militarista era protegida pela própria estrutura política. Basta olhar para a Constituição de 1982 (elaborada após um golpe militar) que impôs uma espécie de Conselho da Revolução eterno. Isto quer dizer o quê? Os militares passaram a ser o verdadeiro tribunal constitucional. Qual Judge Dredd otomano, o generalato turco ganhou a legitimidade para julgar e punir na hora e à bazucada os políticos "infractores". Quando se sentavam na cadeira do poder, os primeiro-ministros turcos sabiam que tinham uma espada a pairar sobre as suas cabeças. A legitimidade revolucionária de Ataturk, preservada pelos militares, era constitucionalmente superior à legitimidade democrática dos líderes eleitos. É por isso que a Turquia era uma semi-democracia, tal como Portugal entre 1974 e 1982.
Na última década, Erdogan e o AKP colocaram ponto final nesta evidente inconstitucionalidade. Através de uma longa batalha política e constitucional, estes conservadores turcos submeteram os militares ao poder democrático. Por outras palavras, foi o islâmico AKP que colocou a democracia turca dentro dos padrões ocidentais. Um dado que tem tanto de grandioso como de irónico. Agora, os kemalistas só podem organizar manifestações pacíficas e pedir reformas democráticas. No passado, já teriam recorrido a um golpe militar para exterminar Erdogan. Apesar de tudo , a Turquia evoluiu.

Os portugueses pelo mundo

por A-24, em 21.06.13
Rui rocha in Delito de Opinião

Uma das características mais intrigantes do modo de ser lusitano é a busca incessante de casos de sucesso de compatriotas por esse mundo fora. Não há meio de comunicação social que se preze que não tenha uma referência diára a situações tão extraordinárias como a do padeiro do Marco de Canaveses que saiu de casa aos cinco anos e tem agora, quarenta e quatro anos e três meses decorridos, uma considerável fortuna pessoal em Aracaju, no estado brasileiro de Sergipe. 
É claro que tal sucesso se deve exclusivamente aos 60 meses que o dito passou exposto aos ventos continentais vindos da terra quente transmontana, à proximidade do Douro vinhateiro e, é justo dizê-lo, ao copito de jeropiga que a mãe lhe deu a fazer de mata-bicho e ao par de estaladas diário que o pai lhe propinava para lhe enrijecer o espírito e as carnes. É evidente que os outros 531 meses que passou fora do solo pátrio são um pormenor insignificante. Todos sabemos que é de pequenino que se torce o pepino. E quando, por excepção, passa um dia em que não se destaca um português, logo aparecem mais dois ou três. Se não forem cidadãos portugueses de papel passado, serão sobrinhos de um tio que namorou com a neta de uma portuguesa de Macieira de Rates. Se não for no Panamá, há-de ser mais para lá. Se não for um beirão, pode ser um cão. Quem não sente um calafrio quando houve o ino nacional? Quem não se arrepia quando toma consciência que Obama, esse mesmo, nos momentos em que analisa os registos diários de actividade que o Google lhe envia, tem a seus pés Bo, um cão de água português? Quem não se comove ao imaginá-lo, ao cãopatriota, na nobre tarefa de marcar território pelos cantos da Sala Oval? Nestas coisas, o futebol tem sempre uma palavra a dizer. Veja-se o caso do Chelsea. Para os meios de comunicação social, o Chelsea não é dos sócios, nem do Abramovich, nem dos gasodutos. O Chelsea é de Paulo Ferreira e de Hilário que têm, juntos, mais tempo de banco que o Ricardo Salgado. O Mónaco, por exemplo, não é do Alberto nem da Stephanie. Agora, é o Mónaco de Moutinho. E de Ricardo Carvalho. Que já não vê bola desde que a Nívea deixou de fazer publicidade na praia. E o Traktor é de Toni. Sim, que no Irão mandam os portugueses que lá estão. Significa isto que não há insucessos portugueses na frente internacional? Claro que há. Mas os insucessos são colectivos e as histórias de glória são individuais. Camané Alves de Jesus, algarvio da Foia, emigrou para a Suiça, conquistou nos anos cinquenta a loira Jacqueline Desmarets ao som dos Olhos Castanhos do Francisco José e tem hoje uma rede de lavandarias na região de Grenoble. Em contrapartida, são sempre portugueses não identificados que dormem na estação de Genebra. Jesus ganhou de letra ao Fenerbache, mas foi o Benfica que perdeu com o Chelsea. O que é curioso nisto tudo é que estes portugueses que reluzem nos quatro cantos do mundo e também nos da Sala Oval, eram, antes de emigrarerem, uns sacanas, uns cretinos ou, na melhor das hipóteses, uns borra-botas. Tirando o Ferreira Fernandes, de quem quase toda a gente diz bem, a única hipótese de um português ter sucesso em Portugal é ter feito merda. Veja-se o caso do Futre e da conferência de imprensa dos chineses. Veja-se o caso da Sara Norte. Aliás, a Sara Norte reúne mesmo todas as condições de sucesso. Fez merda e esteve presa no estrangeiro. Veja-se o caso do Jorge Jesus. Repare-se que o Vítor Pereira ganhou o campeonato, mas não serve. Vai para o Al Ahly. 
O Jesus fica e aumentam-lhe o ordenado. Porque fez merda. O outro vai para o Al Ahly e já vem. Mas quando vier, traz a aura de ter ganho a taça das cidades com praças viradas para Meca, coisa que lhe vai tornar o currículo muito mais valioso. E o mesmo se passa com Cláudio Braga. De acordo com o JN, trata-se de um treinador português que faz carreira nos melhores clubes da Holanda. Nada mais, nada menos. Da Holanda, esse país com um campeonato interno verdadeiramente portentoso em que o jogos costumam acabar com resultados que, por cá, só vemos no hóquei em patins. Pois bem, se lermos a notícia, veremos que o homem treina os sub-17 do Utrecht. Uma espécie de Marítimo lá do sítio. Ora, o treinador dos sub-17 do Marítimo cá do sítio nunca merecerá tal destaque. Porquê? Porque está cá e não está na Holanda. A única hipótese de ter reconhecimento é sair. Ou ficar a fazer merda. Ir a Marrocos buscar um carregamento de droga ou beber uns copos antes de uma conferência de imprensa. É por isso que a diáspora portuguesa não é bem isso. É muito mais uma síndroma de internodeficiência congénita que só se cura com várias doses de os portugueses pelo mundo. O Benfica, por exemplo, tem sofrido muito com a doença. Sabendo que os portugueses internamente não têm sucesso a menos que façam merda, constitui a sua equipa à base de brasileiros e de sérvios. Todavia, fica com um treinador português com muito sucesso no país (isto é, que fez merda) e por isso não ganha nada. Quando chega lá fora, faltam-lhe portugueses para ter sucesso (e sabemos como os portugueses são bons a ter sucesso lá fora) e por isso continua sem ganhar. É claro que tal situação está muito mais ligada com o modo de ser português, do que com qualquer maldição do pobre do Bela Guttman que, se bem se recordam, era estrangeiro.



O cómico Jardim e o seu império de tachos IV

por A-24, em 20.06.13
21 - O governo regional da Madeira acaba de anunciar que vai gastar 2,2 milhões de euros na construção dos balneários e das bancadas no Campo de Futebol dos Prazeres. Para o estrela da Calheta, uma equipa da 3ª divisão. O anúncio foi feito dias depois de a troika ter detectado um desvio nas contas da Madeira na ordem dos 277 milhões de euros.
22 - Já depois de anunciada a agravada austeridade para a Madeira, a Câmara Municipal do Funchal, uma das mais endividadas do país, gastou 11500 euros num coktail/jantar. Tudo à grande.
23 - Igreja inaugurada na Madeira custou ao estado 2,6 milhões, aos quais devemos adicionar as isenções de impostos de que beneficiaram em toda a obra, e posteriormente, no seu usufruto. Esta quantia ascenderá a mais uns milhões... pagos pelo povo, para não variar.
24 - Museu da baleia, milhões suspeitos e obra fechada. Obra de equipamento lançada pelo governo regional com preço-base de 1,6 milhões de euros custou quase 12 milhões e teve um financiamento comunitário de cerca de um milhão. A construção do museu no Caniçal foi adjudicada ao consórcio formado pela empresa madeirense Avelino Farinha & Agrela . A obra foi considerada pela oposição um exemplo de "má gestão dos dinheiros públicos", tendo o PCP requerido um inquérito parlamentar à respectiva derrapagem financeira, que foi rejeitado pelo PSD-Madeira. 

4.500 OBRAS INAUGURADAS POR JOÃO JARDIM, EM 33 ANOS, mas não se vislumbram hospitais, nem escolas, nem infraestruturas de apoios sociais, úteis a um região pobre. Não impulsionou a economia... Apenas constrói para ricos? Madeira ou Dubai??

No Cabo das Tormentas

por A-24, em 20.06.13
Nuno Castelo-Branco
Os brancos sul-africanos, nomeadamente os boers, durante décadas tiveram um comportamento absolutamente miserável para com a população "coloured" do país. Lembro-me que a pouco mais de um mês do 25 de Abril, regressando com os meus pais e irmãos de uma viagem a Joanesburgo, parámos em Nelspruit para reabastecer a viatura. Um enorme zulu de serviço à bomba, comentou, apontando para matrícula: "in Mozambique we are free". Foi este o tema para mais uma lição do nosso pai, fazendo-nos notar ser a África do Sul um país independente, enquanto Moçambique era um território sob a soberania de uma potência europeia. Os paradoxos não se ficavam por aí, estendendo-se os exemplos ao absurdo do Apartheid e aos seus mais visíveis e escandalosos aspectos: bancos, cinemas, restaurantes, casas de banho, transportes públicos, escolas e hospitais, enfim, um mundo que para nós era totalmente desconhecido, abjecto.
Sabemos no que tudo aquilo deu. Os sul-africanos foram recompensados com um príncipe em todos os sentidos que o termo encerra. Mandela sempre foi e ainda é, uma figura que paira sobre um mundo onde a reles vulgaridade impera despudoradamente. Foi ele, o doce castigo ministrado aos mais radicais boers: o perdão, a reconciliação, o estender do ramo de oliveira.
Pelo contrário e apesar de todos os discursos do Portugal multirracial e pluricontinental, dos textos escolares acerca dos casamentos mistos que fizeram a lenda de Albuquerque e da infalível construção de outros Brasís - apesar de já não termos um D. João VI que nos valesse -, o que nos sucedeu? Por obra e graça da Capitulação de Lusaca, em vez de um tenuemente esboçado Mandela, tivemos um Moisés de águas turvas, de seu nome Samora. O resultado está à vista, aquém e além mar. O desastre económico, a brutal ditadura de todas as "reeducações", uma liminar limpeza étnica e um milhão de mortos em menos de vinte anos. 
Dito isto, o que se torna evidente nesta hora de ocaso de uma vida ímpar, é tudo aquilo que se tem passado desde que Mandela chegou, com todo o mérito - e esplendorosa sorte de milhões de sul-africanos - à presidência do país. A sua ex-mulher Winnie e a filharada, logo começaram a esvoaçar em círculos sobre a mesa do banquete, não dando meças à cupidez e a casos de polícia. Escândalos atrás de escândalos, crimes de sangue, o amealhar de milhões provenientes da chantagem, roubo e expropriação, o ataque aos donativos para "causas" e toda uma panóplia de atitudes difíceis de qualificar, tornaram-se no apanágio do novo poder instituído. O sr. Julius Malema, pequeno ditador da juventude do ANC - uma criatura brutal, bronca, execravelmente racista e de um devorismo sem limites -, apenas tem sido um dos frutos podres do imenso pomar de todo o tipo de ilegalidades, abusos, assassinatos em série e mentiras instituídas às custas do legado do Madiba. O pândego sr. Zuma, o actual Chefe do Estado, é um daqueles típicos exemplos a que aquela parte do mundo nos habituou, em nada fugindo ao padrão que em Mobutu encontra um fácil e oportuno nome que o caracteriza, não esquecendo as variantes conhecidas por Idi Amin, Bokassa, Touré, Mugabe, Nguessu, etc. A lista é longa, imensa.


Mandela merecia melhor. Gente que apenas lhe é qualquer coisa devido a um comprovativo ditado pelo ADN, ameaça destruir muito de uma imagem que o mundo aprendeu a olhar como exemplo máximo da decência.