Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A-24

Balanço de 39 Anos do 25 De Abril

por A-24, em 25.04.13

Hoje passam precisamente 39 anos desde a revolução de 25 de Abril. Um balanço sobre o resultado desses 39 anos:
Termino, afirmando que os direitos fundamentais inerentes a todos os seres humanos: Vida, Propriedade e Liberdade, não são direitos que alguém possa dar (incluindo qualquer constituição, governo ou estado), mas antes são direitos que ninguém pode tirar.

João Cortez n'O Insurgente

“E tu, onde estavas no 25 de Abril?”

por A-24, em 25.04.13

Eu estava dentro de um útero. Curiosamente, como viria a nascer em Outubro, teria à volta de 12 semanas no 25 de Abril, o que daria à minha mãe – houvesse Lei da interrupção voluntária da gravidez – o poder de decidir se eu era ou não era; portanto, se estava ou não em algum sítio. É muito confuso: quem sabe, nessas circunstâncias legais, se eu chegaria alguma vez a ser? E se não chegasse, teria alguma vez sequer ter sido? Não vou perguntar à minha mãe: correria o risco de desenvolver mais um estigma, a acrescer aos que já tenho, como o de ser caracterizado como “um direitolas”.

“Um direitolas” é um ser, como se sabe, e por definição dos inventores do termo, uma coisa que repudia o 25 de Abril – o que é muito aborrecido porque não é o meu caso. Torna-se enfadonho tentar explicar aos que afirmam desejar derrubar preconceitos, que muito frequentemente eles próprios me preconceitizam(*). Por outro lado, quem sou eu para repudiar etiquetas que me colocam? Tatuem-me lá a coisa no pulso e siga-se para bingo: é que também tenho a desfaçatez de considerar que um dos importantes intervenientes para o fim do Estado Novo é deliberadamente omitido na discussão sobre o 25 de Abril – emigrantes de meios rurais.
Prosperidade. Muitos, nos anos 60 e 70 do século passado, rumaram com valises, da napa ao cartão, para as Franças, Bélgicas, Alemanhas, Luxemburgos, Suíças e outros, em busca de prosperidade. Sem Ryanairs ou Schengans, sem apoios fora do núcleo familiar ou da sua comunidade. Acreditem que não existia um “Gabinete de Apoio Estatal à Pessoa Humana em Busca de Uma Saída Profissional Institucionalizada”, era mesmo graças ao que alguns poderiam chamar de caridadezinha. O que lá encontraram, nessas Franças e afins, exportaram de forma inconsciente para a psique de uma nação: oportunidade de trabalho e pertença a um mundo além fronteiras, não isolado, não orgulhosamente sós, muito mais orgânico, mais livre, mais próspero. Um mundo com problemas, problemas enfrentáveis, problemas ultrapassáveis com esforço e determinação pessoal para a conceptualização de sucesso individual. Sobretudo, e sem pensarem no assunto, sem desenharem uma estratégia ou recorrerem a uma política ministerial ou agenda, iniciaram uma revolução: povão a viajar por esta Europa fora.
O 25 de Abril ocorreria em qualquer data, com ou sem tanques, com ou sem cravos. Era uma questão de tempo. Muitos falarão – e bem – do papel essencial da Guerra Colonial. Leiam e ouçam-os com atenção: muitos explicarão isso melhor que eu. Eu falo hoje para os pequeninos, já que uma característica do “direitolas”, pelo que percebo, é o populismo rural; não quero desapontar já no primeiro post.

Os emigrantes desempenharam um papel passivo, mas de grande importância. Todos conhecemos ou temos familiares que foram (ou são) emigrantes dos anos 60 e 70. Todos recordamos a época áurea dos meses de Agosto, os melodramáticos anos 80, cravejados de emigrantes divididos entre a ingénua ostentação de carros “bomba” e uma imagem do mundo que parecia tardar a Portugal, mesmo anos após o 25 de Novembro. Arraiais, mais ou menos proto-pimba, com odor a fritos e a promessa de regresso num dia longínquo, isto enquanto depositavam poupanças na Caixa Geral de Depósitos.
Os humanos – termo não “direitolas” seria “a pessoa humana” – buscam a prosperidade, anseiam-a. O 25 de Abril representou uma promessa, a de liberdade e prosperidade sucessivamente adiada. Adiada no singular: as duas estão demasiado interligadas, não podem ser separadas. Prosperidade implica liberdade; liberdade é o único caminho para a prosperidade. Por tudo isto, o 25 de Abril foi apetecível para a trupe revolucionária de filiações mais ou menos sino-soviéticas, mais ou menos dispostas a tornarem-se os depositários dessa liberdade. Muitos ainda aí andam, agora institucionalizados, conformados ao darwinismo político.
Para mim e para muitos portugueses nascidos em 1974, o 25 de Abril celebra um folclore libertador, a génese anunciada da mitologia democrática de um novo regime. Inversamente, o 25 de Novembro não é romântico: é a promessa de liberdade propriamente dita, a concretização mais ou menos conseguida da mitologia, a sua materialização pragmática. Pode festejar-se o 25 de Abril. Aliás, deve festejar-se: no dia 25 ainda não explodiam bombas nos sítios dos inconvenientes, ainda não se expropriava propriedade privada, ainda não se desenhava o país a régua, ainda não havia reforma agrária, ainda não se invertera o insulto “facholas“. O dia 25 foi a festa. A mitologia não pertence à esquerda ou à direita; por definição, pertence a todos. Rejubilemos, pois!
É dia de cravos, dois ou três foguetes, um discurso e umas cervejas com os “pás” do bairro. Podemos usar a data para recordarmos o que é uma revolução: a substituição de sangue, suor e lágrimas por mais sangue, suor e lágrimas. Devemos celebrar o emigrante: o português que não esteve com tretas e criou um pouco de Portugal onde ele não existia, sem cravos nem tanques, sem discursos enfadonhos ou indultos a bombistas. Depois de toda esta festa, devemos festejar o 25 de Novembro. Esta sim, festa com toda a pompa e circunstância, com cantigas de louvor ou até com os palavrões que quisermos; com blasfémias ou reverências; com salamaleques ou bonecos; com crítica e contestação fundamentada ou com “troika fora daqui, qu’eu é que tenho razão“. Porque graças a esse dia, ali, no taciturno Outono de 1975, conquistaram-nos verdadeiramente o direito de fazermos o que nos apetece, para o bem e para o mal. Este texto foi mesmo escrito ao abrigo do 25 de Novembro.
Já repararam, hoje em dia, que não faltam vozes do regime sugerindo saída do euro, exigindo o fim da austeridade, culpando líderes e povos estrangeiros, ansiando a hiper-inflação que os sustentará, como agentes regimentados supra-povo que são; este irónico deslize ao situacionismo do antigo regime, exigindo encarceramento ao “orgulhosamente sós” materializado nos “nós não somos a Alemanha” e “que se lixe a Troika”, é o ADN fascista que se refugia nos bradares aos “princípios de Abril”. Não emigrem. Não produzam. Não lutem, não olhem o espelho. Não “batam punho” – “eles” têm que nos resolver isto. Sempre o “eles” e sempre o “nós” passivo, inocente; sempre o “o mundo está a oprimir-me”; sempre o “dêem-nos as nossas vidas”. A terminologia imperialista, bélica, orgulhosa, nacionalista, socializante, desesperadamente oca. A inverdade. O newspeak orwelliano, a narrativa.
Afinal devo ser mesmo um “direitolas”: aceitei com muita honra o amável convite deste grupo de pessoas que escrevem num espaço de liberdade e estou agradecido pela oportunidade. Um não-”direitolas” nunca agradece: tira e usufrui o que considera seu por direito. Pior ainda, escrevi um texto que vos convida a celebrarem a mitologia do 25 de Abril, que como mitologia, se assemelha à festa nada laica da Natividade regimental, o quasi-milagre do caminho socializante em preâmbulo constitutivo.
Hoje, em dia de celebração, os meus foguetes são atirados para que se avance com a verdadeira (r)evolução, aquela que consiste em terminar a revolução que dura há exactamente 39 anos. Estou pronto, como qualquer “direitolas”, para o 26 de Abril.

Vitor Cunha no Blasfémias

Droga livremente à venda no centro de Lisboa

por A-24, em 25.04.13
Ainda não encontrei nenhum russo que tenha visitado Lisboa e tenha vindo desiludido. Não se cansam de dizer bem da própria cidade em cima, da hospitalidade dos lisboetas, da cozinha, vinhos, etc.

Aqueles que já visitaram várias vezes a capital portuguesa constatam que a Câmara Municipal de Lisboa, dirigida por António Costa, está a realizar um excelente trabalho de recuperação de edifícios degradados, na limpeza das ruas da Baixa e na transformação do Terreiro do Paço nu excelente local de lazer.
Mas todos os visitantes russos ficam intrigados com um fenómeno comum em Lisboa. Frequentemente, são abordados por pessoas que lhes tentam vender um “pó branco”. A forma descarada com que o fazem leva os turistas a perguntar-me se aquilo é droga ou não. Não acreditam que se possa vender droga de forma tão aberta e sem receio da polícia.
Eu respondo-lhes que não sei qual a constituição do “pó branco”, porque nunca recorri aos serviços dessas personagens, mas que os traficantes o tentam vender como droga. Se é pura e de boa qualidade, nada sei, nem nada posso garantir.
Mas o que me faz confusão é como criminosos atuam descaradamente, dia e noite, no centro da capital portuguesa, que ainda tem fama de ser uma das mais seguras cidade segura. Será que as autoridades policiais não podem pôr fim a esta nódoa? Não se trata de tráfico nalgum dos bairros problemáticos de Lisboa, mas no centro da capital!
Lanço aqui um apelo às autoridades competentes. O turismo é uma importante fonte de receitas para o país e, por isso, devem ser criadas condições para que as pessoas que nos visitam se sintam bem.
A não ser que o tráfico de droga traga mais dividendos ao erário público do que o turismo. Se assim é, isso não está expresso no Orçamento de Estado.

José Milhazes in Da Rússia

Lewandowski 4-1 Real Madrid

por A-24, em 25.04.13
Noite de sonho do polaco e de pesadelo para a equipa de Mourinho, que tem de recuperar três golos para estar na final da Liga dos Campeões.

Robert Lewandowski foi tudo menos discreto na sua primeira participação num jogo das meias-finais da Liga dos Campeões de futebol. O ponta-de-lança polaco deixou o Borussia de Dortmund às portas da final — e a Alemanha muito perto de um jogo do título 100% nacional —, ao marcar os quatro golos da vitória caseira da sua equipa sobre o Real Madrid (4-1).


O duelo desta quarta-feira no Estádio Signal Iduna Park, em Dortmund, será para sempre recordado como o jogo de Lewandowski, que viveu uma noite histórica que aproximou a equipa orientada por Jürgen Klopp da sua segunda final da Liga dos Campeões, depois do triunfo em 1996-97 (com a contribuição de Paulo Sousa).
“Definitivamente ganhou a melhor equipa”, admitiu José Mourinho. “Perdemos Lewandowski de vista em três golos”. O avançado de 24 anos tornou-se o primeiro na história da principal prova europeia de clubes a anotar quatro golos numa meia-final e também nenhum outro jogador tinha obtido um póquer contra o Real nas competições europeias.
A formação espanhola, por seu lado, só se pode agarrar ao golo marcado por Cristiano Ronaldo, que a deixa numa posição ligeiramente melhor do que o rival Barcelona, que na véspera também sofreu quatro golos perante o Bayern Munique, mas não obteve nenhum. José Mourinho, que além de Ronaldo apostou também em Fábio Coentrão e Pepe de início, pode sempre referir aos seus jogadores os três casos em que o Real recuperou uma desvantagem de três ou mais golos nas provas da UEFA.

Mas o resultado traduz fielmente a diferença de qualidade e andamento que os dois clubes mostraram nesta primeira mão. Lewandowski, que na próxima época deve seguir Mario Götze para Munique, marcou todos os golos do Dortmund, mas não jogou sozinho. O polaco foi um quebra-cabeças para Pepe, que foi batido em dois golos e ainda o colocou em jogo em outro, mas também Marco Reus, Götze, Kuba e Ilkay Gündogan foram problemas de difícil resolução para o Real Madrid. O facto de o guarda-redes Diego López ter sido um dos melhores da sua equipa foi outro sinal de desequilíbrio.

O Dortmund, que é como quem diz Lewandowski, marcou cedo. Reus foi o primeiro a testar López e aos 8’ já os adeptos da casa festejavam. Götze cruzou da esquerda e o homem da noite inaugurou o marcador. Ronaldo tentou empatar de livre, mas foi de bola corrida que o conseguiu. Para marcar, o Real Madrid precisou de um erro grave do normalmente fiável Mats Hummels, que deixou a bola à mercê de Higuaín para este fazer a assistência para o golo fácil do internacional português. Ronaldo chegou aos 12 golos esta época na Liga dos Campeões e marcou pelo sexto jogo seguido na prova, igualando os feitos do turco Burak Yilmaz e do franco-marroquino Marouane Chamakh.
Mas o registo famoso do encontro pertenceu ao n.º 9 dos visitados. O seu segundo golo chegou aos 50’, depois de uma bola metida na área por Reus, e o terceiro aos 55’ num lance semelhante (o remate desta vez é de Marcel Schmelzer) concluído com grande classe. Este último foi o melhor golo do jogo, mas Lewandowski ainda não tinha terminado o seu trabalho, marcando o seu 10.º golo em 11 jogos na prova: desta vez na transformação de um penálti por empurrão de Xabi Alonso a Reus (67’). Pelo meio houve uma grande jogada individual do médio Gündogan, travada por uma grande defesa do guarda-redes visitante, que também teve de se esforçar aos 78’ para evitar o quinto do ponta-de-lança adversário.

O Real foi dominado, mas teve oportunidade nos momentos finais de reduzir a goleada: Roman Weidenfeller saiu rápido aos pés de Ronaldo e o central Varane errou o alvo num canto. Depois da Taça UEFA de 1979-80 entre Eintracht Frankfurt e Borussia Mönchengladbach, a Alemanha está perto de voltar a ter dois clubes numa final europeia.

O Zé não poupa

por A-24, em 24.04.13

Tenho falado neste blog várias vezes sobre o problema da escassez de capital em Portugal e os efeitos dessa escassez no produto, no nível salarial e no desemprego (principalmente desemprego qualificado). Esta escassez de capital resultou, da acumulação de dívida e de má alocação de capital. O estado, como todos sabemos, acumulou uma dívida brutal, e é um dos principais responsáveis pela actual escassez de capital no país. Mas não foi só o estado que acumulou uma grande dívida. Como a esquerda não se cansa de recordar, também os privados acumularam bastante dívida. Muita dessa dívida acumulada está relacionada com a compra de habitação própria. A entrada no euro influenciou este comportamente, mas não só. Para entendermos melhor as motivações dos agentes no mercado, imaginemos o caso do Zé que considera comprar uma casa.
O Zé tem a sorte de ter um emprego. Ele calculou que, com algum sacrifício, consegue poupar 400 € por mês. Ele viu uma casa que lhe agrada e que não é muito cara: apenas 80 mil euros. Com estes dados tentou entender as suas opções. A primeira opção é pedir um empréstimo ao banco e pagar 400 € por mês. Assumindo uma taxa de juro de 5%, e 400€ de mensalidade, o Zé calculou que demoraria 35 anos a pagar a casa.

EmprestimoSE
No final do empréstimo, teria pago mais de 80 mil euros só em juros. Esta opção exigirá ao Zé trinta e cinco anos de sacríficios mensais, pagando ao fim daquele tempo mais em juros do que o preço da casa. Depois disto, ele considera a opção de poupar até ter dinheiro para comprar a casa sem qualquer empréstimo. Assumindo os mesmos 5% de juro nas suas aplicações (imaginemos que o Zé compra obrigações do Banco) e 400€ mensais poupados, ele calculou que demoraria 12 anos a poupar o valor da casa.
PoupaSE
Neste caso, apenas teria que fazer sacrifícios no orçamento mensal durante 12 anos mas, por outro lado, também teria que esperar 12 anos até poder comprar a casa. O Zé está indeciso: valerá a pena passar mais 23 anos a fazer sacrifícios para poder comprar já a casa?
É aqui que o Zé se lembra do Estado. Alguém lhe diz que o Estado lhe garante um abatimento fiscal no valor de 10% dos juros pagos. Uma excelente ajuda: feitas as contas o Zé, com a mesma taxa de juro e a mesma mensalidade, apenas precisa de 30 anos para pagar a casa.

EmprestimoCE
Por outro lado, o Zé lembra-se que ao poupar se tornará beneficiário de rendimentos de capital pagando um imposto de 30% sobre os rendimentos. Isto atrasa-lo-ia um ano: em vez de 12 anos, teria que esperar 13 anos até poupar o valor da casa.
PoupaCE
Se pedir um empréstimo, o Zé é, aos olhos do estado, um pobre explorado pela banca, merecedor de benesses fiscais que o ajudem a ultrapassar as dificuldades. Se o empréstimo correr para o torto ainda pode beneficiar de algumas benesses da justiça. A justiça social assim o impõe. Já se poupar para comprar a casa, o mesmo Zé passa ao papel de rico capitalista a viver à custa dos retornos de capital.em nome da mesma justiça social, o Zé agora tem que pagar impostos sobre esses retornos. Com algum azar, se a coisa der para o torto ainda se arrisca a que ao fim de 10 anos os euros poupados se tornem em Chicos. E ninguém terá pena dele, afinal, se ele tem 60 mil euros no banco só pode ser rico, e é obrigação dos ricos contribuir para o bem comum.
O Zé, que antes estava indeciso, acabou de decidir: irá pedir um empréstimo. Acumular capital em Portugal é uma actividade de alto risco.
Carlos Guimarães Pinto

Barcelona cai com estrondo em Munique

por A-24, em 24.04.13

Não restam dúvidas de que o Barcelona é uma equipa extraordinária, provavelmente uma das melhores de sempre da história do futebol. Provou isso mesmo nos oitavos-de-final desta Liga dos Campeões, quando transformou uma derrota por 2-0 frente ao AC Milan, em Itália, num triunfo por 4-0, na Catalunha, seguindo em frente na prova. Mas depois da humilhação desta terça-feira em Munique, onde sofreu uma goleada por 4-0, poucos acreditarão no milagre em Camp Nou, no dia 1 de Maio. Mas se alguém o conseguisse seria o Barcelona de Messi, que esteve irreconhecível, tal como a sua estrela maior.
A perderem por 1-0 ao intervalo, nada prepararia os jogadores catalães para o inferno que iriam viver na segunda metade do primeiro jogo das meias-finais da Champions. Em Munique, toda a arte individual e colectiva da equipa espanhola foi antecipada e anulada pelo Bayern. Com mais três golpes mortais na segunda parte, os bávaros deixaram praticamente resolvida a presença na final de Wembley, no próximo dia 25 de Maio. Müller foi a grande figura do encontro, com dois golos e uma assistência para outro de Mario Gomez.
Apesar deste desfecho, o respeito mútuo marcou a primeira parte da partida na Allianz Arena. De um lado, um Bayern mais perigoso, que apostava em rápidas transições atacantes para surpreender os espanhóis, sem nunca perder o equilíbrio defensivo; do outro, um Barcelona que procurava pausar o ritmo da partida, especialmente nos momentos iniciais, escondendo a bola do adversário, mas sem qualquer objectividade ofensiva.


As emoções dos primeiros 45’ foram pontuais, mas invariavelmente na área catalã. Logo aos 2’, um remate de Robben foi travado por Valdés, que não conseguiu evitar, aos 25’, o golo do adversário. Uma vantagem que surgiu após um lance de bola parada e quando os catalães pareciam ter adormecido a partida e parcialmente o adversário. Ribéry cobrou um canto, acabando a bola por ser metida na área por Robben, antes de o defesa central Dante assistir Müller, que cabeceou para as redes.
A vantagem premiava a equipa mais perigosa em campo, que teve o mérito de nunca se desconcentrar ou ceder perante o futebol rendilhado de passes constantes dos espanhóis, mas pouco objectivo. O Bayern pode ainda queixar-se de dois lances polémicos na área adversária. No primeiro, aos 15’, Piqué desviou claramente a bola com o braço; o segundo, que deixa mais dúvidas, teve a mão de Alexis como protagonista. Nenhum dos lances foi sancionado pelo árbitro Viktor Kassai. O juiz húngaro seria ainda protagonista em dois outros lances determinantes na segunda metade, que, desta feita, acabaram em golos.
Empenhado em levar uma vantagem mais confortável para Barcelona, o Bayern reentrou personalizado, empurrando o adversário para a sua área. Aos 49’, mais uma vez na sequência de um canto, Müller volta a ganhar nas alturas à defesa espanhola (Daniel Alves) e coloca a bola de cabeça nos pés do avançado Mario Gomez, que aponta o segundo, mas aparentemente em fora-de-jogo.
Mais óbvia foi a falha do árbitro no terceiro golo alemão, aos 73’. Uma grande jogada de contra-ataque conduzida por Ribéry, com a bola a acabar em Robben que, com uma finta magistral, tirou um adversário da frente, e marcou. O adversário era Jordi Alba, que acabou por ser completamente retirado da jogada com um bloqueio claro de Müller.
Irreconhecível, o Barça foi incapaz de construir um lance claro de golo em todo o encontro e muitos menos contrariar a organização e solidariedade defensiva alemã. O Bayern cedeu a posse de bola aos catalães (63% contra 37%), mas não a agressividade, concentração e eficácia. Aos 82’, para tornar tudo ainda mais humilhante para o conjunto espanhol, Müller encerrou a contagem, após um cruzamento do lateral esquerdo Alaba.

Foi uma vingança eficaz do Bayern Munique, que há precisamente quatro anos foi brindado com uma goleada pelos mesmos números em Camp Nou, acabando depois por empatar a uma bola, em Munique, na segunda mão, sem ser capaz de evitar o afastamento dos quartos-de-final da prova.

Pavlik

por A-24, em 23.04.13
Saiu há uns tempos, com chancela da Antígona, um livro arrepiante. O Tchekista, de Vladímir Zazúbrin, é uma novela sobre o terror na era de Lenine, um homem que, segundo as frases citadas no prefácio ao livro, não se inibia de deixar por escrito directrizes como estas: É preciso encorajar a energia e o carácter de massas do terror (Novembro de 1918) ou É indispensável aplicar um terror de massas sem piedade contra os kulaks (Agosto de 1918). Cortante, um telegrama de Agosto de 1918: Fuzilem sem perguntar nada a ninguém e sem delongas imbecis.

         Ao gabinete do oficial da Tcheka, personagem central deste livro apenas publicado em 1989 (Zazúbrin seria fuzilado durante o estalinismo…), afluíam centenas de denúncias, umas anónimas, outras não. «Tem centenas de informadores voluntários, um corpo de agentes secretos permanentes e, juntamente com cada um deles, ele espia, escuta», escreve-se n'O Tchekista. A delação constituía o cúmulo da devoção ao Partido. Melhor ainda seria se, em torno dela, existisse a ideia de que denúncia era feita com a máxima pureza de alma, sem suspeitas de que fora ditada por infamante desejo de calúnia ou outros interesses vis, invejas de aldeia ou intrigas mesquinhas. Ora, a pureza da delação seria tanto maior quanto mais puro fosse o denunciante. E quem melhor do que as crianças poderia desempenhar esse papel? De uma criança nunca se diria que denunciou o vizinho para lhe ficar com os seus parcos haveres, para se apropriar de tudo  quanto o fuzilado tinha, mulher incluída… Mas o melhor, o melhor de tudo, era se a criança denunciasse os próprios pais. Isso, sim, seria o apogeu de fidelidade à causa da revolução, a «Ela», a entidade inominada que surge assim descrita («Ela») na novela de Zazúbrin.
Os sistemas ditatoriais sempre alimentaram o culto das crianças e dos jovens. Abundam, por todos lugares, imagens dos ditadores com crianças ao colo ou rodeados de adolescentes em êxtase. Todos os totalitarismos tinham organizações de enquadramento da infância e da juventude. Às crianças, que tanto gostam de objectos para forjar a sua identidade em construção, eram dados emblemas, lenços, sinais de pertença e marcas que assinalassem, através de uma graduação precisa, a hierarquização da fidelidade.

A razão é simples: por mais que os nazis proclamassem os 3K (Kinder, Küche, Kirche), por mais que Gorky ou Brecht louvassem o amor de mãe, tudo isso actuava num plano acessório, apenas naquilo que contribuísse para a construção do Estado totalitário. Sempre que a família ou o amor maternal se sobrepusessem ou pusessem em causa esse projecto, não se hesitava em destruir famílias inteiras ou separar os filhos dos pais. A autêntica Mãe Coragem não era a encenada por Brecht (aliás, um ser humano desprezível: basta ler o arrasador Intelectuais, de Paul Johnson), mas a cantada por Anna Akhmátova, autora do pungente Requiem, publicado entre nós na antologia Só o Sangue Cheira a Sangue (trad. port., Assírio & Alvim, 2000). O filho único de Akhmátova, Lev Gumiliov, esteve cerca de quinze anos detido nos campos prisionais soviéticos. Há dezassete meses que grito, / que te chamo: volta para casa, / lançava-me aos pés do verdugo, / ó meu filho e meu horror. / Tudo se confundiu para sempre / e não sei agora distinguir / quem é besta, quem é homem.
         Tudo isto nos conduz a Pavel Trofimovich Morozov (1918-1932), «Pavlik», sobre o qual existe um livro admirável de Catriona Kelly, Comrade Pavlik. The Rise and Fall of a Soviet Boy Hero (2005).  A história de Pavlik conta-se em poucas linhas. Em 1932, Pavlik, um rapaz de treze anos, que alegadamente pertencia aos Pioneiros, denunciou o pai à delegação da polícia política (GPU) da terra recôndita em que vivia, a aldeia de Gerasimovka, na região de Sverdlovsk, Sibéria Ocidental. Em resultado disso, o pai seria condenado a dez anos de prisão num campo de trabalho e, mais tarde, executado. Entretanto, Pavlik apareceria morto, o corpo retalhado a golpes de faca. O tio, o avô, a avó e um primo seriam presos e, numa farsa de julgamento, todos, excepto o tio, seriam condenados e executados por um pelotão de fuzilamento. A diabolização dos infanticidas sempre foi um expediente eficaz da propaganda autoritária, como se explica aqui, a propósito de Pavlik.
         Assim estava criado um mártir, um herói e criança-modelo para todos os jovens da União. Durante o julgamento da família, uns pobres camponeses varridos pelos ventos da colectivização, afluíram ao tribunal centenas de cartas apelando ao juiz para que não tivessem a mínima complacência para com os assassinos de Pavlik. No processo da morte de Pavlik, que Catriona Kelly consultou em Moscovo, existem cerca de 500 cartas de pioneiros, exigindo a morte dos acusados.  
A partir de então, em torno da sua memória foram edificadas dezenas de estátuas – a ideia foi de Gorky –, inúmeras escolas e outros tantos grupos de juventude ostentaram o seu nome. Foi escrita uma ópera em sua honra, além de muitas e muitas biografias. A escola que frequentara tornou-se um lugar de peregrinação, onde acorriam excursões vindas de todos os lugares da URSS.
Ainda que partindo de uma história de Turgenev, Sergei Eisenstein baseou-se (como, aliás, admitiu) no caso de Pavlik  Morozov para realizar em 1937 o mítico filme O Prado de Bezhin, que, por ter desagradado às autoridades, não chegou a ser concluído. O realizador mostrou-se arrependido por este seu desvio aos padrões estéticos do estalinismo, salvou a sua carreira, acabaria por receber a Ordem de Lenine (1939), sendo nomeado em 1941 director artístico dos estúdios Mosfilm. Tal não impediria que, à custa deste incidente cinematográfico, várias pessoas – que não Eisenstein…– acabassem na prisão. Nos anos sessenta, soube-se que a viúva do realizador guardara alguns fragmentos da película e o filme foi restaurado numa nova versão.      

Nos anos oitenta, antes da perestroika, um jornalista e escritor dissidente, Yuri Druzhnikov, fez uma extensa investigação sobre a morte de Pavlik, chegando à conclusão de que o rapaz tinha sido assassinado pelos próprios agentes locais da GPU. O seu trabalho circularia inicialmente por via clandestina, através de samizdat, mas foi publicado no Ocidente, primeiro em russo, e, em 1996, em inglês, com o título Informer 001. The Myth of Pavlik Morozov.

Em Comrade Pavlik, Catriona Kelly, que também estudou o caso a fundo, tendo acesso a documentação secreta do processo (transcrita aqui), contestaria a tese de Druzhnikov, dizendo que Pavlik fora morto, isso sim, por uma questiúncula de rapazes em torno da posse de uns arreios e de uma arma. Druzhnikov acusou Kelly de plágio e de ter confiado em excesso naqueles que lhe franquearam as portas dos arquivos russos. Kelly ripostou num artigo fundamental, intitulado «Без заголовка». Aconselha-se vivamente a leitura no original.  


Em qualquer dos casos, a versão oficial é posta em causa: é possível que Pavlik não tenha denunciado o pai às autoridades; quase de certeza, a família não o terá assassinado. Mas parece que, de facto, o rapaz detestava o pai, que batia na mãe e abandonara a família, trocando a legítima por outra mulher. A mãe de Pavlik, a analfabeta Tatiana, terá ficado mentalmente perturbada.   

É curioso notar que a memória de Pavlik, explorada durante décadas pelo regime soviético, é agora objecto de controvérsia entre um escritor russo e uma historiadora de Oxford. Por outras palavras: Pavlik, usado como arma de propaganda por Estaline e seus sucessores, converteu-se num memento mori disputado entre intelectuais da Rússia e do Ocidente. No fundo, continua a ser um ícone, quando, em vida, não passou de um rapazinho atravessado por um edipiano complexo, que passava fome enquanto via o pai a bater na mãe. Ao contrário da história oficial que, durante décadas, foi contada nas escolas da URSS, Pavlik nem sequer pertencia aos Pioneiros. Desejava ardentemente ser um deles, mas não o era – o que talvez explique algo do que se passou. Irónico é pensar que, na querela contemporânea, cada qual quer buscar o seu quinhão à herança do pobre rapaz. Sim, Pavlik era pobre, paupérrimo. A única imagem que dele existe mostra-nos um pré-adolescente magro e de olhar vago, assustadiço, que vivia numa terra descrita como um «ninho de kulaks», ou seja, como um lugar suspeito.
Falando de suspeitos e suspeições, Orlando Figes, um historiador de renome mas dado a algumas malandrices e pecadilhos para com os colegas de ofício, assinala em Sussurros. A Vida Privada na Rússia de Estaline (trad. port., Alêtheia, 2010) que Pavlik vivia num local miserável, rodeado de campos de trabalho e «alojamentos especiais». À noite, os habitantes de Gerasimovka ouviam o ladrar dos cães de guarda. Na escola só existiam treze livros e um professor. Em 1931, nenhum morador dessa terra aderira ao processo de colectivização, pelo que a imprensa soviética falaria de um «ninho de kulaks», expressão que surgiria em obras hagiográficas de Pavlik, publicadas ao longo dos anos.

Pavlik desejava integrar os Pioneiros e era, ao que parece, um agitador que gostava de andar próximo da polícia. Tinha fama de delatar os vizinhos que, anos mais tarde, o recordariam como um «miúdo corrompido». No julgamento do pai, o juiz confrontou-o com as acusações, ao que o jovem terá respondido: «É verdade que ele era meu pai, mas deixei de o considerar como tal. Não faço isto como filho, mas como pioneiro». Pavlik actuava e denunciava como pioneiro: o sistema vencera. Parece que, estimulado por este sucesso parricida, passou a denunciar tudo e todos na aldeia siberiana. Acabou mal.

O culto que lhe foi dedicado, e a que milhões seriam expostos, não suscitou, a acreditar em Figes, grande adesão por parte dos jovens soviéticos provenientes de famílias estruturadas. Mas, nos que provinham de lares problemáticos, a prática da delação tornou-se frequente. Aliás, os propagandistas originais da causa de Pavlik vinham de famílias conturbadas: o jornalista Pavel Solomein, que primeiro chamou a atenção para o caso, tinha fugido de um padrasto brutal em criança, vivendo a infância em vários orfanatos; por seu turno, Gorky tomara conta de si próprio desde os nove anos, idade em que fora expulso da casa do avô e começara a trabalhar nas cidades industriais do Volga. Nas cartas que Gorky enviava a Estaline, o tema do bem-estar das crianças e dos jovens na União Soviética era frequentemente abordado.  

Alguns dos entrevistados por Orlando Figes reconheceram o fascínio de Pavlik. Na União Soviética, muitos órfãos, que tinham sido criados pelo Estado, viam este último como a encarnação dos pais e não percebiam que mal existiria na denúncia de um progenitor, sangue do seu sangue. Depois de narrar alguns casos, Figes escreve que:
.
«Os Pioneiros instigavam as crianças a imitar Pavlik Morozov e a denunciar os pais. Brigadas de pioneiros vigiavam os campos dos kolkhozes e denunciavam os camponeses que roubavam cereais; o Pionerskaia Pravda publicava os nomes dos informadores e os respectivos feitos. Nos anos 30, no auge do culto a Pavlik Morozov, o verdadeiro pioneiro quase tinha a obrigação de demonstrar o seu valor denunciando a família; um dos jornais de província advertia que os pioneiros que o não fizessem deviam ser olhados com desconfiança e, se se chegasse à conclusão de que eram pouco vigilantes, deviam ser eles a ser denunciados».

.
Não admira, assim, que, mesmo no interior dos lares, a censura se instalasse. Os pais não falavam com os filhos: «Eu nunca disse nada contra Estaline ao meu rapaz. Depois da história de Pavlik Morozov, a pessoa tinha receio de deixar cair qualquer mais indiscreta, mesmo em frente aos próprios filhos», confessou um dos entrevistados por Orlando Figes. O sistema triunfara em pleno: a educação no culto a Estaline era agora feita no interior de cada casa, por acção ou omissão. Sobretudo, pelo silenciamento da crítica. Julgando que os pais, ao não questionarem Estaline, aderiam ao seu modelo, as crianças passaram a interiorizar desde cedo o ideal do novo homo sovieticus.

Mais do que saber quem matou Pavlik – o ponto que opõe Catriona Kelly e Yuri Druzhnikov (síntese aqui), mas que dificilmente será resolvido –, é fascinante ver como a imagem da criança  foi moldada ao longo dos tempos. Este é, provavelmente, o aspecto mais fascinante do livro de Kelly. Um jovem famélico e moreno, de olhar assustado, foi convertido num rapaz louro, com um ar resoluto e decidido.  As várias imagens que foram sendo construídas de Pavlik são muito distintas consoante o público a que se destinavam e a época em que foram produzidas. Desde logo, colocaram-lhe um lenço dos Pioneiros ao pescoço, a ele, Pavel Trofimovich Morozov, que nunca pertencera à organização. Depois, o Pavlik dos anos 30 e do auge do Grande Terror estalinista nada tem a ver com o Pavlik da década de 50 e da liderança de Nikita Krutschev. Ao que parece, e segundo Catriona Kelly, Estaline não era um incondicional adepto do culto de Pavlik, pois pressentia que esse fascínio implicava a subversão de um princípio de autoridade – a autoridade paterna –, o qual, em última instância, poderia causar danos à ordem imposta pelo Estado. Terá sido essa a razão do fracasso do projecto cinematográfico de Eisenstein. Por outro lado, o culto de  Pavlik cede lugar, a certa altura, à atracção exercida por um pioneiro de ficção, Timur, herói criado por Arkady Gaidar e que conquistou o imaginário de gerações de jovens soviéticos. Durante a 2ª Guerra, tempo de unidade, Pavlik eclipsa-se, a ponto de a sua casa natal ser demolida. No pós-gerra, porém, as suas virtudes de cidadão-delatorvoltam a ser louvadas. Com o tempo, Pavlik passa a configurar-se não como um pioneiro diligente e cumpridor mas como um jovem rebelde inconformista. O tempo apagaria a sua memória. Numa sondagem realizada em 2002, mais de 50% de jovens moscovitas foram incapazes de dizer quem era, ou o que fizera. Um grupo de rock chamado Crematorium chegou a gravar uma música onde o desafortunado Pavlik era descrito como um «cretino maltratado por Deus». Muitas das estátuas com a sua figura foram derrubadas. Curiosamente, nessa mesma altura – mais precisamente, em 2001 – familiares de uma das vítimas do processo de 1932 procuraram reabilitar a memória do seu antepassado. Todavia, o processo acabaria por ser arquivado. É sintomático que a passagem do 75º aniversário da sua morte, em 2007, tenha despertado mais atenção (aqui). Estranha notícia no Pravda: George Soros doou 7.000 dólares para a reconstrução do museu de Pavlik.   

   Em vida, Pavlik nunca conseguiu integrar os Pioneiros. Convertido em herói de massas, ganharia o título de Pioneiro nº 001. Na década de sessenta, qualquer candidato aos Pioneiros deveria recitar, de fio a pavio, o mantra da biografia de Pavlik Morozov. Até em Colombo, no Sri Lanka, lhe erigiram uma estátua. Era sobre uma estátua, aliás, que pretendia escrever quando iniciei este texto... Uma estátua em Berlim, dos tempos do comunismo. Não falei da estátua, espero fazê-lo em breve. A propósito de Berlim, recorde-se que os nazis também tiveram a sua versão de Pavlik Morozov. Herbert Norkus, um rapazinho da Juventude Hitleriana, morto em Berlim, 1932, numa refrega nocturna com jovens comunistas. Pavlik e Herbert morreram no mesmo ano e foram ambos glorificados como mártires. As semelhanças entre  eles, e os regimes que serviram, não ficam por aqui.


António Araújo 

Nesta coisa do ensino separado vs misto são muito cansativos os dois extremos

por A-24, em 23.04.13
Sou sempre atingida por uma irritação latente quando oiço o discurso negacionista das diferenças entre os sexos – desde logo porque sou feminina, gosto de ser feminina e nem quero ser como o sexo oposto nem que o sexo oposto seja igual a mim e às minhas amigas. (E é porque os sexos são diferentes que é mais benéfico para uma criança e adolescente ter tanto a referência feminina como masculina e que eu serei sempre contra leis que permitam adopção por casais do mesmo sexo que não dêem prioridade a casais de sexo diferente, mas isso é outra conversa).
Mas, há que convir, o discurso simétrico também cai em extremos bastante ridículos. Ora são estudos que relacionam as decisões eleitorais do mulherio com o ciclo mestrual – não havendo nunca nenhum estudo que relacione as decisões eleitorais dos homens com o seu nível médio de testosterona ou com as variações do nível de testosterona ao longo do dia, porque, como se sabe, só o mulherio é afetado pelas hormonas. Ora seestuda se as mulheres têm comportamentos diferentes quando estão junto de homens, conformando-se a comportamentos tradicionalmente considerados mais femininos, e quando estão entre mulheres, revelando nestas circunstâncias comportamentos tradicionalmente considerados masculinos. Claro que nunca se faz estudos destes aos homens porque, é óbvio, os homens são iguais entre homens ou entre mulheres e jamais se viu um homem ou um grupo de homens tentando impressionar uma mulher ou um grupo de mulheres.
E hoje apareceu uma senhora que também estuda estas coisas e que defende, fora o disclaimer (muito sensato) de que os pais devem poder escolher, que rapazes e raparigas devem estudar separadamente. E se é certo que há questões pertinentes sobre a crescente feminização do ensino que tende a prejudicar os rapazes, nada do que esta senhora que estuda estas questões referiu fez sentido. Acho que ainda não se chegou ao ponto de negar as diferenças físicas entre os sexos, pelo que de uma rapariga que fica incomodada porque não consegue lançar uma bola tão longe como um rapaz – que provavelmente é, na mesma idade, mais forte e mais alto – pode-se concluir que é imbecil, não uma vítima do ensino misto. Eu, que nunca na vida joguei futebol num recreio das aulas, posso garantir que também não o teria feito se tivesse estudado numa escola de raparigas; só a perspetiva é aterradora e dou por tempo muito mais bem passado ter ficado à conversa com as minhas amigas enquanto víamos os rapazes a jogar futebol (ou outra coisa, é indiferente). Também não vejo bem que relação pode ter uma senhora ter-se tornado cientista e um rapaz cantar música clássica com terem ambos frequentado escolas só de um sexo. Cantar música clássica é um atributo feminino?! E ‘ser cientista’ masculino?! E porque carga de água numa escola só de raparigas ou só de rapazes e apenas aí se  consegue formar melhor a identidade? Ver a diferença não nos ajuda a perceber o que somos? Os tontinhos dos dois extremos estão bem uns para os outros.
Maria João Marques n'O Insurgente

Sou tão fascista que até tenho boas notícias

por A-24, em 22.04.13
Henrique Raposo

Nunca fica bem dizer coisas esperançosas sobre Portugal. O sub-queirosianismo que se tornou a segunda pele do indígena letrado não o permite . Se é assim numa altura normal, o tom negro só poderia aumentar na presença da troika e de uma AD. Neste momento, dizer alguma coisa positiva sobre Portugal é o mesmo que dizer bem de um governo de fascistas neoliberais. Como sou um fascista da variante neoliberal-às-bolinhas, só me resta dar algumas boas notícias, que, verdade seja dita, nem sequer resultam da acção do governo. 
Que notícias são essas? O índice de produção industrial está a subir desde Dezembro. Esperemos que continue a subir, tal como as exportações. O mês de Janeiro foi o melhor mês dos últimos três anos no que diz respeito à constituição de empresas. Se não me engano, nasceram 5300 empresas só no primeiro mês do ano. E esta renascença empresarial deve ser cruzada com o aumento do financiamento bancário às pequenas e médias empresas (dados do Banco de Portugal). Ainda não será o suficiente, mas é um sinal. De onde vem este dinheiro para as empresas? O reforço da poupança dos portugueses pode explicar alguma coisa. As famílias estão a poupar mais, estão a deixar o dinheiro no banco em vez de consumirem como consumiam. E ainda bem. A redução do consumo tem um efeito negativo a curto-prazo (desemprego), mas tem dois efeitos positivos a médio-prazo: o financiamento dos sectores exportadores em detrimento dos serviços; sem poupança interna não sairemos da dependência doentia em relação ao crédito externo. 
E mais? A Altran (França) escolheu o Fundão para o desenvolvimento de uma estrutura de nearshore (isto é, outsourcing sem sotaque indiano). Quem diria que uma pequena Bombaim iria nascer no centro de Portugal? Por falar em tecnologias, o Centro Internacional de Engenharia da Siemens-Nokia já emprega 2500 portugueses altamente qualificados. E o que dizer do CEIIA, a empresa que está a colocar Portugal no mapa da indústria aeronáutica, aproveitando a boleia da Auto-Europa dos aviões (Embraer/Évora)? Eu poderia continuar a dar boas notícias, mas não quero dar uma congestão fascista a ninguém.

Chipre: O Presidente quer manter os russos na ilha

por A-24, em 22.04.13

A mensagem do Presidente cipriota “dirigia-se diretamente aos russos”, considera o Phileleftheros. Num discurso pronunciado a 14 de abril perante empresários russos em Limassol, Nicos Anastasiades propôs a nacionalidade cipriota às pessoas que perderam pelo menos três milhões de euros com o plano de resgate e a reestruturação do sistema bancário. Até à data, recorda o diário,
era reservado aos que investiam pelo menos €15 milhões no país, mas desta vez, o Presidente Anastasiades quer fazer algo significativo… sobretudo para os russos. O projeto será submetido a conselho de ministros, mas a maioria dos deputados espera que esta medida acalme os investidores russos no Chipre. […] O Presidente apelou a outras empresas russas implicadas na indústria petrolífera e do gás a investir e a tirar partido do enorme potencial que existe no setor da energia no Chipre.
O plano de resgate da ilha, que inclui um imposto e um congelamento dos depósitos superiores a €100 mil, “vai prejudicar o interesse dos investidores no país e reduzir de forma drástica a economia do país”, realça Der Spiegel. O semanário alemão explica que
uma cidadania europeia poderia ser muito interessante para os russos condicionados pelo visto. Anastasiades quer tirar partido disso.
Press Europe