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A-24

"Queremos viver sozinhos" - Número aumentou 37,3% nos últimos dez anos

por A-24, em 02.09.12
Viver só não é necessariamente sinónimo de solidão. Dentro do número de famílias de uma só pessoa em Portugal - que triplicou desde 1960 e aumentou 37,3% nos últimos dez anos - há histórias de quem gosta de ter um espaço só para si. Viver sozinho pode ser uma escolha, uma descoberta ou uma libertação.
A vizinha do lado bate-lhe à porta todos os dias pouco depois das sete da manhã. Não é sequer preciso abrir: basta dar sinais de vida, gritar que já está acordada e cada uma segue o seu dia. A essa hora, normalmente, a música até já está "a trabalhar bem alto" em casa de Nazaré Silva, como conta, um dia antes de fazer 83 anos. O ritual entre as duas vizinhas repete-se durante a semana, por vezes com variações. Há um tempo encontrou um papel no corredor, que tinha entrado por baixo da porta: "Nazaré, vou tomar banho", era o que estava escrito. "Depois fui ver dela e até dei o papel de volta para não ter de gastar outro."
Ambas vivem sozinhas no centro de Lisboa, uma no lado esquerdo, outra no lado direito de um andar num prédio de quase cem anos. "Solidão" não é palavra que se sobreponha aos dias de Nazaré. Pelo menos agora: vive-os com o orgulho de ter aprendido a estar sozinha e preza a autonomia com que gere o tempo.
Esse tempo passou a estar mais livre desde que se reformou, como recepcionista num consultório médico, e já tinha 76 anos. Por insistência da família, inscreveu-se nas actividades da Junta de Freguesia. "Há lá velhotas assim com a minha idade. Todos os dias, à tarde, há aulas diferentes. À terça-feira é [tapetes de] arraiolos, à quinta é ginástica, depois os computadores. Também há "chicongo ioga" [Chi Kung]." Conta como foi dando mais liberdade aos dias: "Dantes", depois das aulas, ia para casa. "Agora vou ao cinema. Tenho um grupo muito engraçado, às vezes vamos para o café, conversamos, elas bebem umas cervejas, eu não. Antes de ontem até fui jantar fora ao chinês." Jantar fora já significa chegar a casa mais tarde, à uma e meia da manhã, depois de apanhar o último metro no centro de Lisboa. Foi o que também aconteceu no dia de Santo António, por ter ficado a ver as marchas. "Eu nunca saía a essas horas. Agora, quando chego a casa, tenho de avisar as minhas filhas, que ficam à espera que eu lhes ligue."
A pausa nas aulas, trazida pelo Verão, levou Nazaré Silva para uma colónia de férias: praia durante a manhã, na Costa da Caparica, almoço no bar da praia, passeios à tarde. Ficava com o fim do dia para tratar das compras e das limpezas da casa, tudo a seu cargo. "Corro tudo para fazer as compras, até vou ao Lidl do Sporting porque o autocarro pára em frente. E entretenho-me muito em casa, limpo é sempre o mesmo", ri. "Vejo televisão, faço renda. Às vezes, vou dormir à meia-noite porque vou à Internet." É que as tecnologias também já não lhe são totalmente estranhas: usa telemóvel - ainda que diga deixá-lo por vezes esquecido na mala - e tem email e Facebook. 
As trajectórias e fases da vida de quem vive sozinho podem ser muito distintas. Rosário Mauritti, socióloga, investigadora no Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do Instituto Universitário de Lisboa (CIES-IUL) e autora do livro Viver Só, compara essas realidades. "Os idosos começam a viver sozinhos não por opção. E esse viver sozinho tem fases: um autofechamento e depois a descoberta da libertação", disse à revista 2. Nas mulheres, e nos casos decorrentes de viuvez, é uma "espécie de descoberta de que afinal são capazes", sobretudo as que viveram muito tempo limitadas pelos pais ou pelos maridos. 
Nazaré vive ainda na mesma casa onde nasceu, casou e teve duas filhas. Ali, em momentos diferentes, já viveu com toda a família mais próxima. Para quem visita a casa, as fotografias em molduras, penduradas nas paredes ou pousadas nas cómodas, dão a conhecer quem já lá passou: os pais, o irmão e o marido, nas fotografias ainda a preto e branco; as duas filhas, os genros e os netos, nas que já são a cores. 
Perdeu a mãe cedo, tinha oito anos. "Agora até me rio com isso, mas, na altura, chorava e perguntava: e agora quem é que me vai coser as meias?" Para ajudar em casa, o pai arranjou uma empregada. "Chamava-se Margarida, o nome da minha mãe. Nunca me deixava andar sozinha, mas eu pedia-lhe: "Deixa-me ir só do Arco do Cego à Estefânia." Uma vez lá deixou e eu fui descer a rua sozinha."Aos 21 anos, deixou o pai nervoso quando lhe falou num namorado. "Ele estava estabelecido aqui na rua, era da drogaria. Achava-lhe graça, mas eu nunca andava sozinha. Um dia fui à drogaria com a minha prima. "Oh senhor José, precisava de um bico para o fogareiro." E ele pediu-me em namoro." 
Casaram e ficaram a viver em casa dela. Tiveram duas filhas, que ainda eram pequenas quando, aos 33 anos, ficou viúva, um ano depois da morte do pai. Foi aí que a vida deu uma volta: pela primeira vez estava por sua conta. "Fui trabalhar para um consultório aos 34 anos. Ia às cegas e chorava, nunca tinha trabalhado na minha vida. Fiquei lá 42 anos." 
Não voltou a casar-se. "Segui o exemplo do meu pai e só me casei uma vez." Mesmo assim, a presença das filhas, dos genros e dos três netos não a deixou sozinha em casa, até aos 81 anos, quando o último neto se mudou. "Houve um tempo em que me custou. Tinha sempre cá tido gente em casa e fiquei sozinha de repente." Foi preciso adaptar-se. Mas, dois anos depois, a conversa é diferente. "Gosto muito da casa das minhas filhas, mas não há nada como a minha. Faço o que quero e me apetece.
O número de famílias de uma só pessoa aumentou 37,3% nos últimos dez anos, de acordo com os dados provisórios dos Censos 2011. Entre 1960 e 2011, triplicou (de aproximadamente 254 mil famílias unipessoais para 868 mil), embora neste indicador estatístico também estejam incluídas pessoas independentes, sem grau de parentesco entre si, que partilham alojamento. 
Recuando a 1960, desce para 11 em 100 o número de famílias de uma só pessoa, contrastando com o peso das famílias de duas pessoas (20%) e de seis (17%). Hoje em dia, em cada 100 famílias portuguesas, 21 são constituídas por uma só pessoa, um número inferior ao das famílias de duas pessoas (32%), mas consideravelmente acima das famílias com mais de cinco (6%). 
Maria das Dores Guerreiro, socióloga e coordenadora pelo CIES-IUL do Observatório das Famílias e das Políticas de Família, destacou num artigo publicado na revista Sociologia, Problemas e Práticas, em 2003, os múltiplos trajectos sociais de quem vive sozinho. Sejam os idosos que enviuvaram, "os adultos que, por opção, ou não, permaneceram sós e que, podendo já ter vivido em casal, passaram por situações de ruptura conjugal", ou as novas gerações "em transição para a vida adulta". 
As diferentes realidades entre um idoso e um jovem a viver sozinhos resumem, em parte, aquilo que separa as histórias de Nazaré Silva e Susana Pires. Antes de fazer 25 anos (agora tem 27), Susana saiu de casa dos pais em Almada e mudou-se para Lisboa. Primeiro, por uma questão prática: viver perto dos sítios onde trabalha. Mas não era só isso. Já tinha acabado o curso em História, estava a fazer um mestrado em Teoria da Literatura e trabalhava no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian e como tradutora para duas editoras. "Queria muito ter o meu espaço para ler e escrever. Uma cabana para pensar. Ia poder fazer tudo o que nunca tinha conseguido fazer", lembra. "Mas tive medo que fosse uma ilusão, uma coisa romântica." 
Começou por pensar em partilhar casa e acabou por comprar uma no centro histórico de Lisboa. "Vou estar a pagá-la aí durante uns 50 anos", ironiza. "Mas este é um espaço que é meu. Nada na forma como habito a minha casa é indiferente, há um valor afectivo nas coisas. Por exemplo, tenho aquela tendência, desde pequena, de deixar sempre o melhor para o fim. Por isso, deixei para o fim arrumar os livros nas prateleiras." A mudança não lhe custou, até porque, diz, nunca teve problemas em estar sozinha, talvez por ser filha única. Teve de ir pedindo alguma ajuda à mãe, para escolher detergente ou o programa da máquina da roupa, para fazer a primeira sopa. E a casa - com dois gatos - passou a fazer parte do seu ritmo de vida. Opta por não ter televisão, da mesma forma que escolhe não cozinhar todos os dias ou que prefere perder uma hora de sono para poder ler todas as noites, porque sente que a leitura é uma parte central da sua identidade.Agora, admite que existe um risco. "Ganha-se a propriedade do espaço e não se quer abdicar disso. Gostar de viver sozinho faz com que se goste daquele espaço que é da nossa autoria e torna-nos mais intransigentes. Vai ser mais difícil viver com alguém", admite. Ainda que aos poucos a ideia lhe pareça mais possível. 
Num relacionamento anterior, ela e o namorado optaram por viver em casas separadas, cada um testando por si o que significava viver só. E é aqui que sublinha como viver sozinha não significa sentir-se sozinha. Pelo contrário, essa liberdade - ou o que a socióloga Rosário Mauritti define como "a ausência de balizas quotidianas", a que a partilha de casa habitualmente obriga - faz com que os amigos sejam presença assídua na casa na Bica. "Adoro tê-los em casa. Não é a mesma coisa do que combinar um jantar fora. E aquela afectividade que tenho com os objectos faz com que eu goste de os ver usar os meus talheres ou até sujar a toalha."
Abrir a casa aos amigos é algo que Susana Pires tem em comum com Ricardo Santos, 29 anos. Receber quem quer em casa, sem dar explicações, é uma das formas como traduz a liberdade que sente. Mas há outras. "Se me apetece ir ao ginásio, andar de mota ou ler, é isso que faço. Outros dias, só quero silêncio, chegar a casa, fazer o jantar, deitar-me no sofá e ver filmes." Só que viver sozinho também tem as suas exigências e uma delas é tratar da casa. "Sou eu que faço tudo, seja montar cortinados, cozinhar, o que seja, limpezas e tudo." Ou quase tudo. "Só há uma coisa que já tentei fazer e não consigo: passar as camisas a ferro. Tenho um senhor que as vem buscar a casa. De resto, passo tudo." 

Já tinha pensado em partilhar casa com amigos, mas não tinha sido mais do que uma ideia passageira. Quando saiu de casa dos pais, aos 27 anos, foi para viver com a namorada, com quem já tinha uma relação de oito anos. Era um plano a dois e todos os passos dados foram planeados ao milímetro. "O pensamento era esse: arrumarmos as nossas coisas e irmos à nossa vida." Ambos trabalhavam e, por conselho dos pais, compraram uma casa de duas assoalhadas em Loures, perto do sítio onde cresceram. Planearam que um dos ordenados teria de ser suficiente para pagar as contas, "já para o caso de um de nós ficar desempregado" - uma das decisões a dois mais importantes que tomaram, diz.
Viveram juntos dois anos, até que se separaram. De um momento para o outro, Ricardo viu-se sozinho como nunca tinha estado. A vida a dois tinha-se resumido a um só: ele próprio. "Não foi fácil." Ter casa cheia é uma das coisas de que mais gosta, por isso houve momentos, como a hora do jantar, que se tornaram estranhos. Aprendeu a preenchê-los e construiu à sua volta um espaço do qual hoje não prescinde. "Fui percebendo que morar sozinho é uma sensação única e é bom ser nesta altura." 
Trabalha como responsável logístico numa empresa de marketing e publicidade, o primeiro trabalho estável que teve. Consegue pagar as contas, mesmo que tenha "tudo muito mais contado" - pedir emprestado aos pais está fora de causa. Voltar a partilhar o seu espaço não está fora de causa (ainda que tenha de ser "muito bem pensado"). Não só pelos momentos em que lhe falta companhia, mas porque sustentar uma casa não é tarefa simples. Esta é uma das razões para não haver mais pessoas a viver sozinhas em Portugal, segundo Rosário Mauritti. "Portugal está na cauda da Europa neste fenómeno por termos menos dinheiro." Com outras condições económicas, "haveria, entre jovens, sem dúvida, um maior número a viverem sozinhos". Olhando para outros países, e de acordo com um estudo da Euromonitor International, publicado este ano e citado pelo jornal britânico Guardian, o Reino Unido tem 34% das pessoas a viver sozinhas, e esse número aumenta quando se fala da Noruega (40%) e da Suécia (47%), que ocupa o topo. 
Bo Söderberg, investigador sueco do Institute for Housing and Urban Research (IBF), da Universidade de Uppsala, aponta várias razões para os números da Suécia. "Um padrão de vida mais elevado permite que se façam escolhas livres. Isto significa que os jovens têm capacidade para ficar sozinhos por mais tempo. E as famílias também podem separar-se mais facilmente se não estão "forçadas a estar juntas" por razões económicas", explicou, por email, à revista 2. A oferta de habitação, assegurada através de programas públicos desde 1960, também pode facilitar o aumento de famílias unipessoais. E ainda outro motivo: uma taxa de emprego semelhante entre homens e mulheres. "Isto significa que, economicamente, as mulheres são tão independentes quanto os homens. Elas podem escolher onde viver, como viver e com quem viver. Por isso, o número de pessoas a viver sozinhas pode de alguma forma ser maior do que em países onde as mulheres não têm uma taxa de emprego tão elevada." 
O investigador resume a tendência na Suécia: "Viver sozinho é, para muitas pessoas, um bem que tende a ser preferido, se o puderem pagar. Viver com mais gente é, para muitos, um problema a suportar quando não se pode comprar a alternativa preferida." Também Ulla Björnberg, professora e investigadora em Sociologia na Universidade de Gotemburgo, sublinhou o facto de a independência individual ter efeito nas políticas sociais, já que "a partir dos 18 anos é esperado que as pessoas se sustentem a si próprias", como explicou à 2.
Nos Estados Unidos, com cerca de 27% das pessoas a viver sozinhas, o livro do sociólogo americano Eric Klinenberg, Going Solo: The Extraordinary Rise and Surprising Appeal of Living Alone, lançado no início deste ano, veio alimentar o tema. Klinenberg analisou o impacto que o número de americanos a viver sozinhos tem na política ou na cultura. Contrariando a ideia de que este número representa necessariamente um aumento da solidão, o sociólogo defende que estas pessoas tendem a estar mais envolvidas social e civicamente, menos limitadas e com maior hipótese de escolha de companhia. 
Em Portugal, a conversa muda quando a idade avança. Aos 37 anos, viver sozinho levanta outras questões. "Acho que a sociedade, quando vê uma pessoa que viva sozinha com a minha idade, pensa que ou é maluca ou tem algum problema", diz Márcia Mendes. São muitos os amigos, da sua geração, a viver sozinhos, portanto não são eles que perguntam por que razão não se casa. Mas há quem o faça. "Viver sozinho deve ser respeitado como uma opção", considera. "Se acontecer conhecer alguém, isso pode mudar, mas não é uma coisa que me preocupe." 
Começou a viver só aos 25 anos, ainda que antes já tivesse partilhado alojamento com três primas, quando veio de Leiria para a universidade. A sua primeira casa foi "um telhado em Lisboa", com 30m2, cuja inauguração durou quase seis meses, "com jantares todas as semanas". Estava licenciada em Linguística e já tinha começado a trabalhar. "Não levei muito tempo a tomar a decisão de viver sozinha. Era algo que eu queria, precisava do meu espaço, das coisas escolhidas por mim, de poder pendurar quadros nas paredes. Quando escolhi a casa, disse: "Então vai ser este o meu primeiro espaço. É isto"." Escolheu dedicar-se por inteiro ao trabalho, passando muito tempo fora do país. O seu estilo de vida, explica, criou a necessidade de ter um porto de abrigo. "Tornamo-nos mais exigentes. Vamos criando hábitos e rotinas, deixamos de estar disponíveis para partilhar." Dentro de uma relação, nunca dividiu casa, e quando acontecer terá de ser necessariamente numa fase mais avançada de um relacionamento, "quando houver muita cumplicidade". 
Gosta de jantar à frente da televisão, até porque normalmente o almoço é partilhado no trabalho com as colegas. Há outras coisas de que não abdica de fazer sozinha, como ir ao supermercado ou até à praia; com os amigos há as idas ao teatro, ao cinema ou a um concerto. Eles são parte da rotina e, por isso, quando há seis anos escolheu mudar para uma casa maior, tinha um requisito: uma sala enorme. "Sou muito sociável e só estou sozinha quando quero. Fazem-me falta as pessoas." 
Lados negativos? "Às vezes custa-me não ter ninguém com quem comentar um filme ou uma música", responde. "Mas, ao mesmo tempo, se me apetecer chorar desalmadamente, também o posso fazer à vontade." 
Ainda que há mais de dez anos não partilhe casa, não pára muitas vezes para pensar no assunto. "Sei que não tenho filhos e que não tenho muita família. Se continuar solteira e não conseguir viver com pessoas à minha volta, deixo a cidade e vou para a aldeia dos meus pais." Até porque há uma coisa de que não é capaz: viver isolada. "A solidão deve ser uma coisa horrível."
É uma das diferenças que Rosário Mauritti refere. Viver sozinho não é sinónimo de ser solitário ou estar isolado. "Frequentemente, é o inverso que acontece", escreve a investigadora no livro. "A possibilidade de escolha por uma vida independente acaba por promover uma intensificação dos laços e das trocas que se estabelecem na intimidade." 
Também João Bessa, psiquiatra e investigador da Escola de Ciências da Saúde da Universidade do Minho, destaca o peso que a personalidade tem na forma como uma pessoa, independentemente da idade, lida com ideia de viver sozinha. "Os traços de personalidade podem ser um factor facilitador", explica à revista 2, sublinhando ser essa uma variável importante quando está em causa a forma como são estabelecidos os laços sociais, baseados numa maior ou menor dependência na relação com os outros. Ainda que, sobretudo na população idosa, "a perda de familiares ou o isolamento sejam factores que predispõem ao desenvolvimento de estados depressivos", é essencial não generalizar a ideia de que viver sozinho é uma causa de depressão, considera João Bessa. A socióloga Rosário Mauritti vai mais longe: "Qualquer um pode sofrer de solidão mesmo estando envolvido em relações de conjugalidade ou parentalidade ou no seio de amigos."
Foi esse sentimento, em parte, que levou Jorge Romão a mudar de rumo. "Divorciei-me com a esperança de ser algo mais do que fui no meu casamento", conta, aos 41 anos. Acha que há um egoísmo maior do que o de querer viver sozinho: o egoísmo de querer uma família por ter medo de ficar sozinho. E apesar de todas as dúvidas, os últimos cinco anos sem partilhar casa foram tempo para muitas descobertas. "Uma grande conclusão: passar a ferro é uma actividade muito interessante, dá para pensar e tomar decisões." Ter sucesso num jantar preparado para amigos ou concluir que afinal é capaz de fazer tudo em casa são momentos especiais. Considera-se um dono de casa, "e sem aspas, porque o sou mesmo". É que até aos 31 anos viveu com a mãe e as irmãs, e "pouco fazia em casa". Namorou oito anos e casou-se, adaptando-se a uma vida a dois. Só que, cinco anos depois, tomou a decisão que já há tempo andava a crescer dentro dele: terminou o casamento e foi viver sozinho. Nunca tinha acontecido, embora desde muito novo procurasse tempos e espaços para si próprio. ""Tu gostas muito de estar sozinho", diziam-me os meus amigos, quando era mais novo." 
Hoje, Jorge vive numa luta entre, por um lado, querer estar sozinho e achar que não são suficientes os momentos que tem para si próprio, e, por outro, vir a partilhar a vida com alguém. A vontade maior? Ter um filho. Portanto, o que conclui é que, excepto quando pensa no que ainda lhe falta viver, gosta de estar só. "Tenho necessidade de períodos de tempo só para mim, para poder fazer o que é diferente quando se vive com alguém, como ler ou escrever, deitar-me a horas mais tardias, levantar-me às horas que quero." 
A casa onde vive, que vê como uma "habitação individual", pensada para si, é um espaço que não se imagina a partilhar. Refazer a vida e deixar alguém entrar nesse espaço terá de acontecer noutra casa, não naquela. Quanto aos amigos, recebe-os quando quer, e alguns deles, casados, dizem-lhe invejar a vida e a liberdade que ele tem. "Esta é uma boa fase da minha vida. Se calhar, um dia, virei a achá-la melhor ainda do que a vejo agora." 
Rosário Mauritti conclui que a sociedade já não vê de forma negativa quem vive sozinho. Até porque, como escreve no livro, "se é verdade que ao longo de toda a vida adulta os indivíduos tendem a passar com maior frequência por experiências de residência unipessoal, isto não significa que estejam a ficar mais solitários ou que estejam a perder os laços de afinidade e de partilha na família e nas relações amicais".
Há o desejo de ter um espaço e um tempo não partilhados, embora nesse espaço também exista tempo para dúvidas e receios, seja aos 27 ou aos 83 anos. Susana conta que, no prédio em frente, vê todos os dias, de manhã à noite, uma senhora em casa, sentada ao pé da janela. "É muito velhinha, tem mais de 90 anos e passa os dias ali à janela a ler. Lê os jornais que o meu vizinho lhe leva, de uma ponta à outra, e depois passa o resto do dia a ler livros. Parece o negativo da minha vida." Jorge optou por escrever as suas "aventuras" a viver sozinho. Já Ricardo conclui que a mudança o fez aprender. "Gosto mais de mim mesmo." Nazaré Silva, para quem o último aniversário foi um dos dias mais felizes que já teve, confessa, sentada no cadeirão da sala e rodeada pelas fotografias dos casamentos dos netos, qual o seu próximo desejo. "Quando vier o Totoloto, compro uma casa no campo."

Público

S. João do Estoril

por A-24, em 02.09.12
Povoação da freguesia do Estoril no concelho de Cascais, no início do século XX São João do Estoril era descrito na revista "Ilustração Portugueza", como «uma pequenina povoação talhada em ruas perpendiculares, pouco abundante em árvores e sombras e frequentado especialmente pela burguesia abastada de Lisboa». 
                                                               Praia de banhos da Poça
                       
                      
                                                                            Forte da Poça
                       
Forte da Poça foi erguido como parte da linha de fortificações erguida entre 1642 e 1648, por determinação de D. António Luís de Meneses, governador da Praça-forte de Cascais, no contexto da Guerra da Restauração, e que se estendia entre São Julião da Barra e o Cabo da Roca.
Desactivado no século XIX, passou por diversas tutelas que, nas diferentes épocas, deram-lhe distintas utilizações. No século XX, em 1954, foi utilizado como Casa de Chá e, a partir de 1957 foi arrendado a um particular, passando a albergar um restaurante, o que levou a "múltiplas transformações e acrescentos". Actualmente funciona como discoteca.
  
                             S.João do Estoril.8
          
Ex-libris de S. João do Estoril,os recentemente recuperados antigos "Banhos da Pôça", junto à praia do mesmo nome, datam de 1890, quando Luís Filipe da Matta e Carlos Tavares decidem formar sociedade para explorar as já então afamadas águas da região, com propriedades medicinais e particularmente indicadas para doenças de pele e reumatismo.
Sediado num edifício de cariz Romântico, torreado e com ameias, tornaram-se pelas suas características, condições logísticas e métodos terapêuticos praticados, num dos melhores Banhos do Mundo. Os "Banhos da Pôça" foram igualmente primordial elemento dinamizador do desenvolvimento e crescimento da povoação de São João do Estoril.    
                                           Edifício dos "Banhos da Poça" e anúncio à «Agua Chloretada»                
               
Estas termas deixaram de funcionar em 1922. A época balnear ia de Maio a Novembro. Mas no parque em volta do antigo balneário ainda persistiram por muitos anos as grandes «banheiras» em pedra, onde os aquistas tomavam os seus banhos ao ar livre, transportando a água da nascente da praia.
A actual exploradora do «balneário» da praia ainda recorda esses tempos, e mesmo depois até finais da década de 70, os banhos de chuveiro que fornecia: «Nós tínhamos aí um duche, na rua e uma bomba que puxava água ai do poço, mas depois aquilo secou», e continuou «(…) que ficou aqui foi esta coisa feita pelo meu pai, ele fez aqui este poçozinho e depois as águas continuavam para a praia, mas com as obras e infra-estruturas feitas a montante os filões começaram a desviar e água também se começou a extinguir daqui».
O edifício dos antigos banhos, embora remodelado, ainda se conserva e serve actualmente de Jardim-de-infância.                                                                                
                                                                            
 
É também à entrada de São João do Estoril que se situa o forte que servia de residência de férias antigo Presidente do Concelho, Dr. Oliveira Salazar.
                           

                            
                                                                   Anúncio em 24 de Junho de 1928
                            
                                                     Restaurante, Bar, Dancing "A Choupana"
       

Retirado do valioso blogue de José Leite, "Restos de Colecção"

“‘Eurofonia’ e lusofonia, a mesma farsa”

por A-24, em 01.09.12
Nas primeiras imagens de uma deliciosa comédia de Ernst Lubitsch, A 8.ª Mulher do Barba Azul, vê-se um homem bem vestido a olhar a montra de uma loja na Riviera francesa. Franze o sobrolho quando lê este aviso:“Falamos alemão. Falamos italiano. Falamos inglês. Compreendemos americano.” Gary Cooper (é ele o actor) entra na loja e quando lhe perguntam “o cavalheiro, o que deseja?”, responde: “Pajamas.” Claro que era um americano. Porque se fosse inglês teria dito“Pyjamas”. Teria dito? De quantas maneiras poderá dizer-se uma mesma palavra? E de quantas nos é possível escrevê-la? As diferenças entre línguas, e particularmente entre variantes de uma mesma língua, têm sido ao longo dos séculos motivo de curiosidade ou de humor, mas nunca de conflito. São tão naturais como tudo aquilo que as fez nascer. Já agora: pijamas (que em Portugal se escreve com “i”) não é inglês nem “americano” – é uma palavra de origem persa.
Vem isto a propósito da mais recente “inovação” em matéria linguística. Num artigo recente, o economista italiano Edoardo Campanella (ver PÚBLICO de 8 de Agosto) defende“a adopção de uma língua comum” na União Europeia. Isto não teria que rejeitar as línguas existentes, que ele reconhece serem muitas (só em Itália, o seu país natal, há uns 20 dialectos regionais), mas levaria a que as línguas de cada país fossem para uso caseiro, sendo que em termos internacionais se usaria uma língua comum. Qual, ele não diz, mas só vê benefícios.
Voltemos a Lubitsch. O filme é de 1938, vésperas da II Guerra Mundial. Ora não foi por questões linguísticas que a Europa se emaranhou em vergonhosas carnificinas. Pretender, hoje, que uma “língua comum” serviria para aliviar preconceitos ou para agilizar a circulação no espaço europeu, é demasiado pueril. Língua internacional, não só à escala europeia mas mundial, já existe de forma natural e não precisa de substituto: é o inglês. Não o inglês culto, de Chaucer ou Shakespeare, mas uma amálgama tosca que toda a gente, mal ou bem, vai sabendo pronunciar ou, em última instância, até escrever. No Webster’s Inglês-Português, por exemplo, o “dilema” de Lubitsch resolve-se de forma prática escrevendo “pajamas, o mesmo que pyjamas” ou “pajamas, pyjamas = pijamas”. A matriz inglesa e a variante americana válidas, na escrita, ressalvando-se o país de uso. Aliás, mesmo sem ir até à estante, a Wikipedia faz o favor de nos informar que “muitas regiões, como o Canadá, Austrália, Índia, Nova Zelândia, África do Sul, Malásia, Singapura e o Caribe, desenvolveram as suas próprias variantes da língua”. Da inglesa, naturalmente.
Antes de Campanella, as ideias de “língua comum” não se recomendam. A novilíngua de Orwell, no seu 1984, trazia os traços do totalitarismo mais sombrio. E o esperanto, querendo ser uma língua de fácil aprendizagem para toda a população mundial (sem substituir as existentes, o que a aproxima da sugestão de Campanella), acabou por morrer. Línguas artificiais não vingam. E, no entanto, é sempre com o argumento da facilidade que o disparate linguístico se insinua.
Em Abril passado, na Bienal do Livro de Brasília, o escritor Ondjaki disse em voz alta o que muitos outros já terão pensado: considera-se um autor “de expressão angolana” e não portuguesa, como paternalmente o designam. Aquilo de que Ondjaki se queixa tem raízes num disparate idêntico ao de Campanella: a lusofonia. Ora a lusofonia não existe, tal como não existirá nunca uma “eurofonia”. São duas faces semelhantes de uma mesma farsa, inventadas para unir à força o que só encontra unidade forte na diferença. Se alguma coisa existe, no universo que usa a língua portuguesa como matriz (dela fazendo derivar riquíssimas variantes), é a uma polifonia: de vozes, de pronúncias, de diferenças iniludíveis. O actual acordo ortográfico, feito à revelia desta evidência, nasceu do mesmo absurdo que a “eurofonia” utópica de Campanella.
Pajamas, pyjamas, pijamas? Metro, metrô, andante? Sim, e depois? O mundo vive mais facilmente com isto do que com unidades feitas à custa da falsidade e da mentira torpe. A democracia fica mal de botas cardadas, sobretudo quando marcham sobre o que ainda nos resta de inteligência.

Nuno Pacheco in Público

Os novos senhores da Europa são jovens e irrequietos

por A-24, em 01.09.12

James Konrad, de 27 anos, apreciador de livros e bem-educado, costumava ganhar a vida numa empresa de apostas desportivas, avaliando as probabilidades de o terreno lamacento afetar as capacidades físicas dos cavalos nas corridas. Agora, aceita apostas sobre o terreno lamacento da política europeia.
James Konrad negoceia obrigações da zona euro, no valor de até 3 mil milhões de libras [cerca de 3,77 mil milhões de euros] por dia em nome do Royal Bank of Scotland. As probabilidades são quase igualmente duvidosas nas duas áreas, mas aos montantes que movimenta no seu emprego atual, e que parecem deixá-lo atordoado, são incomparavelmente maiores. "Como é que faz alguém perceber que negociou obrigações no valor de mil milhões?" "Mil milhões. É fácil perdermo-nos nos zeros."
O mercado obrigacionista revelou-se um protagonista de peso na crise económica na Europa, representando uma deslocação decisiva de poder dos políticos para os investidores e para uma obscura legião de banqueiros. As suas decisões coletivas de rotina podem agora fazer cair governos e detêm a chave da sobrevivência do euro.
Esse mercado parece um enorme Golias para quem está de fora, mas, em entrevistas, os próprios operadores financeiros que negoceiam em obrigações têm confessado que têm medo e se sentem confusos. Presentemente, estes operadores gerem níveis espantosos de risco e riqueza em nome dos investidores –cerca de 6,7 biliões de euros em dívida pública da zona euro, segundo o Banco Central Europeu.

'Até ao enésimo grau'

As preocupações económicas de fundo são que alguns países europeus devam demasiado dinheiro e que o mercado reaja fortemente a esse facto. Muitos investidores temem que deter dívida pública europeia envolva riscos a médio e longo prazo e tomaram a decisão, que consideram racional, de reduzir as suas carteiras ou mesmo de as resgatar. E, apesar de os dirigentes europeus defenderem que a moeda única sobreviverá à crise, nem todos os economistas têm tantas certezas.
Alguns operadores financeiros preocupam-se abertamente com o facto de muitos dos seus colegas não terem as competências necessárias para decifrar sinais contraditórios dos dirigentes europeus, num setor cada vez mais dependente da perceção e dedução política. Admitem que as flutuações a curto prazo das taxas das obrigações nem sempre refletem acuradamente o valor e o risco. No entanto, os operadores financeiros são tidos em conta pelos políticos em todo o leque de políticas governamentais –e são muitas vezes mal interpretados.
Os operadores financeiros são os primeiros a admitir que o resultado das suas decisões não é necessariamente coerente ou racional –ou mesmo claro, na mensagem que envia. Contudo, raramente tiveram tanto poder nas suas mãos.
"Costumávamos ser capazes de medir tudo até ao enésimo grau", disse Tim Skeet, gestor de títulos de rendimento fixo do Royal Bank of Scotland. "Presentemente, nada é mensurável. Tem menos a ver com manipular números e mais com o oráculo de Delfos."
Os economistas tendem a tratar o mercado obrigacionista como um interveniente racional, que impõe disciplina orçamental aos políticos. Os políticos acusam os "bond vigilantes" de porem em causa a recuperação da Europa e o seu prezado Estado-providência. A realidade é menos a preto e branco.

Pagar para emprestar dinheiro a Berlim

O medo existente entre os operadores financeiros e os seus nervosos investidores ajuda a explicar o motivo pelo qual as taxas para países com problemas, como a Itália e a Espanha, aumentaram fortemente e o motivo pelo qual as taxas de juro das mais fiáveis obrigações alemãs flutuaram em terreno quase negativo: os investidores estão tão aterrorizados que pagam efetivamente a Berlim pelo privilégio de lhe emprestar dinheiro.
Mas, no risco, também há lucro –muito lucro –bem como perda. Os montantes agora em jogo no mercado obrigacionista tornaram-no mais vulnerável aos tipos de especulação, volatilidade e rendimentos mais associados ao mercado de ações. Depois de a dívida pública na União Europeia ter atingido os 88% do produto interno bruto, e muito mais em certos países, segundo o Eurostat, alguns fundos de dívida soberana deram aos investidores rendimentos anuais de 9%. Claro que os investidores que detinham obrigações gregas sofreram perdas abruptas.
Dada a grande influência detida pelo mercado obrigacionista, as decisões por este tomadas podem ter o poder de uma profecia –ou seja, podem conduzir à sua própria concretização, influenciando os acontecimentos, mesmo quando os operadores financeiros as avaliam em bolsa.
Se considerarem que as obrigações espanholas são de risco, por o Governo de Madrid poder vir a entrar em incumprimento, os investidores e os operadores financeiros podem ajudar a que a Espanha entre de facto em incumprimento, aumentando os custos dos empréstimos. Claro que o facto de, durante meses, o Governo espanhol ter negado ou distorcido a dimensão dos seus problemas bancários não ajudou. Nem o facto de, antes de a Espanha ter começado a ter problemas, os detentores de dívida grega terem já sofrido enormes perdas. E, devido à profundidade dos problemas económicos de Espanha, alguns acreditam que poderá ser necessário um resgate.

A valsa e o frenesi

Os operadores financeiros queixam-se frequentemente de que os políticos esperavam que o mercado obrigacionista falasse a uma só voz e acrescentam que seria bom que os políticos fizessem isso mesmo. Na verdade, em muitos aspetos a crise europeia tornou-se uma corrida entre as exigências frenéticas dos operadores financeiros e a valsa dos dirigentes europeus em luta pela criação de instituições que protejam a união monetária. É uma contenda enervante.
Olivier de Larouzière recorda ter convocado uma reunião de emergência, nas instalações da [empresa francesa de gestão de ativos] Natixis Asset Management, na Margem Esquerda, em Paris, num momento crucial, em junho. Nesse dia, Larouzière, que, como chefe da secção de títulos de rendimento fixo em euros da Natixis, gere dívida no valor de 18 mil milhões de euros, esteve atento à subida do rendimento das obrigações espanholas a 10 anos acima dos 7%, enquanto a chanceler alemã, Angela Merkel, e os seus pares europeus tentavam convencer os mercados de que não seria necessário o resgate da Espanha.
A opinião negativa sobre a dívida soberana da UE –suscitada, pelo menos em parte, por preocupações legítimas quanto à possibilidade de os dirigentes europeus não chegarem a acordo sobre o que fazer –pode ter um efeito de contágio, em especial quando acompanhada por dados económicos reais que se tornaram cada vez mais alarmantes.

Dar espaço à intuição

Presentemente, Olivier de Larouzière diz que "os rendimentos das obrigações italianas não deveriam estar onde estão", o que quer dizer que pensa que os progressos do país em matéria de reformas políticas são maiores do que os reconhecidos. Ainda assim, Larouzière continua a vender dívida italiana, por receio de que o pessimismo coletivo torne mais difícil para Roma obter os 100 mil milhões de euros de que precisa este ano.

"Isto tem menos que ver com economia de base e mais com emoções humanas básicas…tem que ver com medo", disse. Claro que os céticos argumentam que, apesar de todos os progressos políticos realizados pela Itália, os preços das suas obrigações refletem a preocupação pelo facto de seu grau de endividamento se manter desconfortavelmente elevado.
Para muitos operadores que chegaram à idade adulta quando a maior parte da Europa tinha a notação AAA, estas preocupações são novidade. O quadro mudou tão rapidamente que, apesar de ainda não ter 30 anos, James Konrad passou pelas duas eras. Neste momento, a sua licenciatura em História tornou-se útil. Para chegar às mais de 600 cotações de preços diárias que faz para as obrigações que gere – cerca de uma por minuto – a avaliação de Konrad sobre os resultados eleitorais de um país é, em muitos aspetos, tão importante como o relatório do PIB desse país.
O seu colega Tim Skeet, que estudou literatura alemã e francesa, receia que os mercados modernos não estejam preparados para este novo mundo. "Algumas pessoas estão demasiado dependentes de modelos, sem fazerem perguntas", disse. "Deveríamos passar de uma abordagem altamente técnica, baseada em dados e moldada pelos dados para uma abordagem mais intuitiva e qualitativa." Konrad é a única pessoa do seu balcão com uma licenciatura em ciências humanas. Os outros quatro são licenciados em matemática ou em ciências, como boa parte dos operadores financeiros.
Enquanto James Konrad passa parte do seu tempo a tentar avaliar as mudanças de correntes políticas, os seus colegas com espíritos mais matemáticos modelam os seus pensamentos para fins de negociação [de títulos]. Konrad admite que os resultados nem sempre são coerentes. "Há alguma irracionalidade no mercado", disse.   
Press Europe

Falcão dá supertaça europeia ao Atlético de Madrid

por A-24, em 01.09.12
O Atlético Madrid venceu nesta sexta-feira a Supertaça europeia, ao bater, no Mónaco, o Chelsea por 4-1. O homem do jogo foi Radamel Falcao, autor de um hat-trick completado ainda na primeira parte.
O desfecho do jogo começou a desenhar-se logo aos 6', quando Falcao entrou na área pela esquerda e, com o seu pior pé (se é que o avançado colombiano tem um pé menos bom), fez a bola sobrevoar Petr Cech para o poste mais distante. De nada valeu o carrinho de última hora de David Luiz.

Mas este lance precoce nem foi o primeiro de perigo do jogo, já que pouco antes o colombiano tinha enviado uma bola à trave, com um desvio oportuno ao segundo poste.
O Chelsea, que já estava em sentido desde o arranque da partida, não conseguia soltar-se. E de cada vez que o Atlético pressionava mais no meio-campo inglês, os erros apareciam. Um deles, aos 19', levou novamente a bola até ao pé direito de Falcao. O ex-avançado do FC Porto puxou-a para o esquerdo e desferiu um pontapé em arco a que nem o 1,96m de Cech conseguiu opor-se.
Era o 2-0 e praticamente a machadada final no jogo, mesmo que o cronómetro ainda não marcasse sequer os 20 minutos. Aos 45', e perante um Chelsea que raramente se acercou da baliza de Courtois, Falcao completou a obra de arte: passe com o timing certo de Turan e conclusão por baixo das pernas do titular da República Checa. Hat-trick e terceiro golo de pé esquerdo.
A Supertaça estava arrumada ao intervalo e a questão residia em saber se o Chelsea ainda ia a tempo de minimizar os estragos. Mas quando Rafael Miranda, aos 60', empurrou para o 4-0 já à entrada da pequena área dos ingleses, percebeu-se que a noite de pesadelo de Di Matteo ainda não tinha terminado.
E nem o golo da consolação de Gary Cahill, aos 75', ajudou a desanuviar o ambiente. No final, o ambiente de frustração era visível entre os jogadores do Chelsea. Especialmente Fernando Torres, que viu o clube que o lançou para a ribalta apagá-lo durante os 90 minutos.

Distribuição, o eterno problema do mercado editorial português

por A-24, em 01.09.12
Há uma década faliu a DigLivro, que era na época a maior distribuidora portuguesa. Este ano, a CESodilivros foi declarada insolvente. Os editores voltam a tentar encontrar soluções. Umas estão a correr melhor do que outras.
A história repete-se. Com a insolvência da distribuidora CESodilivros, uma associação entre a Coimbra editora e a Sodilivros, várias dezenas de editoras portuguesas ficaram com dívidas e viram os seus livros desaparecer das livrarias e hipermercados durante meses. Umas optaram pela distribuição própria e outras tiveram de encontrar alternativas. Há uma década, o mercado livreiro português passou por uma situação parecida. Em 2001 faliu aquela que era considerada na época a maior distribuidora portuguesa, a DigLivro, e logo no ano seguinte fechou a Audil. 
"Falência de distribuidoras leva editoras à distribuição própria", era o título de um artigo que saiu no PÚBLICO em 2002, onde se dava conta da situação difícil que então atravessavam a Relógio D"Água e a Assírio & Alvim. Se numa década a edição mudou muito em Portugal, com a criação dos grandes grupos, parece que a distribuição está a passar pelas mesmas dificuldades. E as soluções parecem ser as mesmas. 
Há uma década os livros da Antígona eram distribuídos pela DigLivro. Quando esta foi à falência, o editor Luís Oliveira perdeu dinheiro. "Fiquei lá com 100 mil euros", lamenta. Agora a história repetiu-se. Tanto a Antígona como a Orfeu Negro estavam a ser distribuídas pela CESodilivros. "Ficaram a dever-nos muito dinheiro e não nos entregaram os livros", explica. "Estamos a tratar disso com os advogados, mas entretanto fizemos uma distribuidora. Segundo Luís Oliveira, a sua editora ficou a haver da falida CESodilivros 40 mil euros e 15 mil livros. O gestor de falência já lhe terá garantido que a Antígona reaverá os cerca de 4500 livros entregues à consignação, mas a devolução dos restantes irá ainda ser negociada. "Como comecei a distribuir os meus livros, equilibrei a vida e não tenho pensado muito nisso", diz o editor. "Estou concentrado na edição". 
Tanto a Antígona como a Orfeu Negro - que é agora uma empresa independente da Antígona - contrataram um comercial e um "empregado para o armazém para fazer entregas e embrulhos" e fizeram novos contratos com as cadeias de livrarias. "Até aqui está a funcionar bem", conclui Luís de Oliveira. 
Tanto o grupo Leya, como a Babel, a Porto Editora e a Editorial Presença têm distribuição própria. A Distribuidora de Livros Bertrand, que faz parte do Grupo Bertrand/Círculo, cujos activos pertencem ao Grupo Porto Editora, distribui, além dos livros das editoras do seu grupo, as edições da Alêtheia, da Tinta-da-China, da Saída de Emergência e da Esfera dos Livros (que para lá se mudou depois da falência da CESodilivros), entre outros. Com a falência da CESodilivros, a Planeta passou a ser distribuída pela Lojista. A Guerra & Paz, as edições Nelson de Matos e ainda a Objectiva e Alfaguara, ambas do Grupo Santillana, passaram a ser distribuídas pela VASP, considerada a maior distribuidora de publicações a operar no mercado português. 

A insatisfação do escritor 



Há semanas, o escritor Valter Hugo Mãe desabafou na sua página oficial no Facebook a insatisfação que sente pela forma como o grupo Santillana, que lhe edita os livros em Portugal, resolveu o problema da falência da distribuidora CESodilivros, optando por ser distribuída pela VASP. Contactado pelo PÚBLICO, o escritor explicou o seu descontentamento com a situação. O Filho de Mil Homens, o seu último romance, foi publicado no final de Setembro. Até Dezembro foram feitas 5 edições. "A partir de Fevereiro e até Julho deixou de existir, e a minha expectativa era que continuasse no mercado", diz. "Vivo dos direitos de autor, e se não tenho livros à venda, não recebo salário", explica. "Os meus últimos livros a serem colocados no mercado tê-lo-ão sido em Janeiro; a partir de Fevereiro, os livros voltaram a desaparecer e só apareceram no mercado outra vez no fim de Julho". Mas, acrescenta, "em Agosto, em alguns sítios, ainda não apareceram: uns existem, outros não existem". O escritor diz que, ao longo do tempo, foi fazendo perguntas e que as respostas que foi tendo" foram nenhumas, se não várias promessas de datas de colocação que não se cumpriam". Alexandre Vasconcelos e Sá, director da Santillana em Portugal, confirma que tiveram "o azar" de a distribuidora que utilizavam ter ido à falência e de isso só lhes ter sido comunicado no início do ano. "É verdade que, por acharmos que isso podia acontecer, o nosso mês de Dezembro se calhar não foi tão forte como poderia ter sido", reconhece. "Tivemos alguma cautela reduzindo o programa editorial e ficamos com uma dívida; não só nós, mas outras editoras que eram distribuídas pela CESodilivros", explica. 




Embora tudo isto tenha causado "um rombo gigante na editora", Alexandre Vasconcelos e Sá diz que, em contacto com os autores, foram sempre tentando "ver a situação da melhor maneira possível". Tinham, "felizmente", alguns livros distribuídos: "os autores principais não ficaram sem livros no mercado, mas como os livros se vendiam bastante bem, houve uma altura em que foram rareando e mudamos de distribuidora". A escolha que fizeram, na direcção da Santillana e da Objectiva em Portugal, juntamente com a Santillana em Espanha, foi pela VASP, uma distribuidora especializada em livros e revistas. 



Valter Hugo Mãe realça que não está em conflito com a direcção editorial, com quem tem uma relação de amizade sincera e com quem tem vontade de continuar a trabalhar, mas considera que "a editora, ao nível das cúpulas da administração, tomou decisões relacionadas com a distribuição que são um tiro no pé". Os contratos que o escritor tem para os diversos livros acabariam daqui a mais um tempo, mas está "com intenção de os rescindir por incumprimento por parte da editora". No entanto, diz ao PÚBLICO: "Enquanto não deixar as coisas esclarecidas com a Objectiva, não vou fazer nada, mas o meu descontentamento é suficientemente grande para eu sair da editora". E acrescenta: "Gostava que a administração pudesse recuar em muitas decisões". 



Alexandre Vasconcelos e Sá assume que nem tudo correu bem neste processo. "É verdade que não começámos a cem por cento em todo o lado, porque era uma área nova para a VASP, mas estamos a tentar a toda a hora que seja o mais eficiente e o melhor possível", diz. 



Ao longo dos anos tem crescido no mercado editorial em Portugal o poder negocial do retalho (dos pontos de vendas em geral, das cadeias de livrarias e das grandes superfícies) e tem aumentado a distribuição directa feita pelos editores. "E isto tem tido consequências", diz Miguel Freitas da Costa, secretário-geral da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL). Houve uma diminuição na clientela dos distribuidores e uma quebra nas suas receitas. "Por um lado passou a haver muitas editoras a fazer a sua própria distribuição e, por outro, ao aumentar o poder negocial do retalho, as margens das distribuidoras foram-se estreitando", explica. É um círculo vicioso: "quando as livrarias começam a pedir descontos maiores, e a ter capacidade para exigir esse desconto, obrigam os distribuidores a subir os preços para os editores. À medida que esses preços sobem, também se torna cada vez mais importante para os editores fazerem a sua própria distribuição." Os distribuidores têm limites para o que podem subir nos preços. "Ficaram apertados entre os editores e o retalho, com cada vez mais poder de negociação", acrescenta. Zita Seabra, directora editorial da Alêtheia Editores, explica o processo. Actualmente, em Portugal, os livros são vendidos a firme com direito de devolução. Por exemplo, um editor faz três mil exemplares de um livro, coloca no mercado 2800 e, passado meio ano, pode ter de regresso à editora 2700 exemplares: ou seja, vendeu 100. "O distribuidor recebeu do livreiro aquele valor, pagou ao editor esse valor e depois vai acertar as contas com os livros seguintes; e teve ainda despesas de transporte e de logística que são muito caras". O normal no mercado mundial é a parte logística ser comum aos editores e até ser comum a outras entidades que não têm nada a ver com livros. A editora lembra o caso de França, em que os editores se associaram à distribuição de águas engarrafadas, e em outros sítios houve associações com a distribuição de tabaco ou de cerveja. 



"Em Portugal há pouca tradição de associação em logística: há muito a mentalidade de que o segredo ainda é a alma do negócio, quando a associação e a partilha de custos é que são a alma dos negócios no tempo actual", diz Zita Seabra. 



A negociação tem de ser sempre individual, um contrato entre determinado editor e o mercado; agora onde se armazenam os livros - que é o que leva à falência os distribuidores - e quem vai buscar os livros, e quem os entrega em cada livraria ou hipermercado, essa deve ser uma logística que deve ser comum, defende a editora. "O que faz correr este risco às distribuidoras é precisamente os livros irem e voltarem, e o custo que isso tem", diz. "Às vezes ainda voltam para a Feira do Livro e depois para saldos". Para "lançar mais confusão neste debate sobre a distribuição, também é preciso lembrar que estamos já a falar um bocado do passado, porque o caminho neste momento é para o livro digital", adverte Zita Seabra. "Vai acontecer aquilo que aconteceu com os discos: a certa altura, a distribuição já é tão complicada, que tudo fica mais fácil tendo uma rede de distribuição via Internet", conclui a editora, que já tem ebooks à venda na Amazon.com, na iBooks da Apple e no próprio site da editora Alêtheia.


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