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A-24

Festival de Cannes 2012

por A-24, em 28.05.12

25 de Maio - O antepenúltimo dia do Festival de Cannes 2012 trouxe-nos a estreia mundial de "Cosmopolis", um intenso thriler de David Cronenberg, que não maravilhou a crítica mas que conseguiu, mesmo assim, causar uma boa impressão junto do grande público. Apesar das boas performances do seu elenco e da agradável intensidade da sua narrativa, "Cosmopolis" ficou um pouco àquem das expectativas porque todos esperavam um pouco mais desta obra. A grande surpresa positiva deste dia acabou por ser "The Fog", um drama bastante interessante de Sergei Loznitsa que deixou a crítica rendida à sua curiosa narrativa que joga com uma série de temas bastante emotivos. Na Secção Un Certain Regard foi exibido o filme que viria a ganhar esta competição - "Despues de Lucia", de Michel Franco.
26 de Maio - O penúltimo dia deste festival e último dia da programação da competição oficial teve como grande destaque o drama "Mud", de Jeff Nichols. Esta obra é muito diferente do primeiro grande sucesso deste realizador, "Take Shelter", mas não deixa de ser um bom filme que passou por este certame para se mostrar ao mundo e não para ser um sério candidato aos principais prémios. O sul-coreano "The Taste of Money", de Im Sang-Soo, fechou a Competição Oficial sem muito brilho. Fora da Competição foi exibido  "Maniac".

27 de Maio - O Festival de Cannes 2012 terminou com "Therese Desqueyroux", o último filme do recém-falecido Claude Miller. Esta obra conseguiu arrancar muitos aplausos do público e conferiu um final digno a esta sexagésima quinta edição deste certame, onde o grande vencedor foi Michael Haneke e o seu "Amour"

Kiev, a porta da Ucrânia

por A-24, em 28.05.12
O Hotel Slavutich ergue-se na margem esquerda do rio Dniepr, em Kiev (Kyiv em ucraniano), como mais uma das inúmeras memórias vivas (neste caso, habitáveis) da União Soviética que é possível encontrar na Ucrânia.
UCRÂNIA: Viagem às cidades do Euro 2012

"É um livro aberto", diz Vladimir, o motorista do táxi que apanhei no aeroporto, descrevendo a forma do edifício. Dias antes de chegar à capital ucraniana saíra na revista alemã Der Spiegel um artigo relatando como vários hóteis ucranianos tinham sido literalmente assaltados e confiscados pelas máfias locais, a pensar na carteira dos fãs que em Junho começarão a desembarcar aqui para assistir aos jogos do Euro 2012. O primeiro hotel mencionado no artigo era o Slavutich. E eu estava lá. Na entrada estava uma meia dúzia de matulões, vestidos de preto, mal encarados. Nenhum interrompeu o suave dormitar ao fim de uma noite de vigia nem sequer para dizer bom dia. O meu primeiro comité de recepção na Ucrânia era promissor.
Após umas horas de repouso num quarto que permitia chegar a algumas conclusões seguras sobre o fim do comunismo, estava pronto para a minha primeira experiência de encantamento. Fundada no século V, Kiev cresceu como um entreposto na rota fluvial usada pelos varegues, vikings que desceram pelos rios do mar Báltico até ao mar Negro. Na Primavera, quando chegava o degelo, esses barcos largavam de Kiev rumo a Constantinopla. Para a compreender a cidade, portanto, é preciso começar pela relação que estabelece com o Dniepr. 
Tinha acabado de sair do hotel, que fica na margem esquerda do rio, que é largo como o Tejo em Cacilhas ou mais, apesar de estarmos a centenas de quilómetros da foz. Do lado de lá, espraia-se uma encosta arborizada na qual se inscrevem as cúpulas verdes e douradas do mosteiro ortodoxo da Pecherskaya Lavra. Começado a construir no século XI, é o mais antigo templo da cidade que, entre os séculos IX e XIII, foi capital de um principado (o Rus de Kiev) que ocupava quase toda a actual Rússia europeia, quando Moscovo ainda nem existia. É o primeiro mosteiro cristão no espaço que hoje é a Rússia. Os monges viviam em grutas no sopé da colina, que hoje são um lugar de peregrinação.
Kiev é o ponto de partida de uma civilização. É "a mãe de todas as cidades russas", através da qual o cristianismo e a arte bizantina entraram nesta parte da Europa.
Cúpulas de ouro a brilhar, telhados verdes e paredes brancas, misturadas com o verde suave das árvores dispersas na encosta que acompanha o rio. Há uma continuidade perfeita entre o espaço urbano e o contexto natural. É uma frente fresca, que se estende por vários quilómetros, ao pé de um rio navegável, com várias ilhas e praias fluviais de areia. Um ecossistema amplo e magnífico: a mão do homem fica escondida, com excepção dos prédios mais altos e das cúpulas douradas das igrejas e dos mosteiros, que ou aclaram o cinzento nos dias de chuva e nevoeiro ou sublinham o brilho do sol nos dias claros.
Cada uma das quatro cidades ucranianas que vão receber o Euro 2012 - Kiev, Lviv, Kharkiv e Donetsk - é uma porta de entrada para um período da História e uma parte da identidade do país, do fim do primeiro milénio ao século XIX, do principado de Kiev aos impérios que a governaram e dividiram até à independência, em 1991. Kiev é fundamental para essa identidade por ter sido a primeira grande cidade nesta parte do mundo eslavo e o ponto de partida para a respectiva cristianização, que começa com o baptismo do príncipe Vladimir, em 988.
SOS cirílico
É isso que defende Mikhail Ratushnyi, um dirigente de uma organização não-governamental dos ucranianos na diáspora e também ex-deputado. Vai ser o meu cicerone e abrir-me as portas da cidade que ainda me está fechada. Encontramo-nos à hora marcada no café do Hotel Salyut, um edifício redondo à beira do parque que dá para o rio. Eu bebo chá, ele bebe café - os ucranianos são consumidores ávidos de café. Trocamos impressões sobre a comunidade ucraniana em Portugal. Falo-lhe também em Clarice Lispector, a escritora brasileira que nasceu na Ucrânia em 1920. Ele pede-me que escreva o nome da autora de O Lustre num papel e depois mostra-mo em alfabeto cirílico. É uma excepção ao ritual que se vai repetir muitas vezes nos dez dias de viagem que tenho à minha frente. Depois de Clarice Lispector, vou ser sempre eu a pedir aos outros que me escrevam nomes de pessoas e lugares em alfabeto latino.
É complicado viajar na Ucrânia porque a esmagadora maioria das pessoas não fala inglês - sobretudo nas cidades mais próximas da Rússia, como Kharkiv e Donetsk, e por causa do alfabeto cirílico. Não há indicações em alfabeto latino nas ruas, nos principais monumentos ou no metropolitano e isso obriga a um trabalho árduo de navegação. Já os menus dos restaurantes estão quase sempre nos dois alfabetos.
Apesar disso, e dos cuidados que convém ter em matéria de segurança, Kiev é uma cidade onde rapidamente nos sentimos confortáveis. O ambiente é decididamente europeu. Os cafés são muito agradáveis e variados, há lojas e restaurantes para todos os gostos. Há jardins enormes (neste país tudo tem uma dimensão colossal) nas zonas centrais das quatro cidades onde estive. É agradável passear nas ruas e é curioso mergulhar nas labirínticas passagens subterrâneas cheias de lojas, que são os centros comerciais de Inverno.
O metropolitano é muito barato e eficaz: os comboios passam de dois em dois minutos e, sempre que um parte, um cronómetro dispara e conta o tempo até à partida do seguinte.
Apesar disso, as carruagens andam sempre cheias: estamos numa cidade de cinco milhões de habitantes. A arquitectura das estações é um exemplo imperdível de grandiloquência soviética, seguindo a matriz do de Moscovo. As escadas rolantes descomunais conduzem-nos aos átrios amplos, com tectos abobadados dos quais estão suspensos enormes candelabros. O pior é os mapas com os nomes em caracteres latinos estarem dentro das composições e ser quase impossível ver o nome da estação onde estamos quando o comboio pára. É o que se consegue por duas hrvinas (dois cêntimos) a viagem. Outro problema: nas estações em que duas linhas se cruzam, cada uma tem um nome diferente, o que torna a orientação mais penosa para os desgraçados que viajam pelo alfabeto cirílico como Stanley procurando o dr. Livingstone em África: presumindo e com sorte acertando.
À superfície, essa grandiloquência dos edifícios estalinistas é esbatida por se tratar de uma cidade muito acidentada - Kiev é mais uma cidade de "sete colinas", como Lviv, aliás - num país que é rigorosamente plano de uma ponta à outra, com excepção dos Cárpatos.
Mikhail conduz-me pela avenida principal, a avenida Krechtchatik, e aponta os edifícios pesados que a ladeiam. "Isto são os prédios da era soviética [os soviet times, uma expressão mil vezes ouvida neste país], que hoje continuam a ser edifícios públicos." Um Mercedes preto ultrapassa-nos a toda a velocidade, fora de mão, na avenida de oito faixas. "Isto também é a Ucrânia", diz o meu cicerone. O seu olhar vai ganhar outro brilho quando chegamos à vasta Praça da Independência: "Foi aqui que aconteceram as manifestações da Revolução Laranja." É o ponto em que o meu percurso encontra a história recente da Ucrânia. Por causa das manifestações de 2004, esta praça era a minha única imagem visual de Kiev. Agora integro-a neste universo físico feito de colinas, catedrais e um rio. A cidade imaginária que trouxe de Lisboa começa a esconder-se atrás da cidade real.
A praça é dominada por um monumento à independência, com 52 metros de altura, construído em 2001. É um espaço aberto aos peões. Aliás, a Krechtchatik é fechada ao trânsito aos feriados e nos fins-de-semana. Ao lado do monumento, as linhas delicadas do conservatório suavizam a dureza áspera e maciça dos prédios soviéticos, construídos depois da II Guerra. Fora do centro, subsistem muitas construções anteriores à guerra e as cores dominantes são o amarelo ou o azul-claro, que encontramos em alguns dos principais edifícios religiosos, como a catedral de São Vladimir ou o mosteiro de São Miguel das Cúpulas Douradas.
Mas aqui, na Praça da Independência, estamos num eixo que funciona como uma das espinhas dorsais da cidade. Nesse eixo inscreve-se o Estádio Olímpico, onde terá lugar a final do Euro 2012. O estádio, com capacidade para 70 mil espectadores, foi inaugurado no ano passado. Apesar de já estar a funcionar, ainda decorriam ainda alguns trabalhos na zona envolvente quando por lá passei. Obras do Euro 2012 nas cidades ucranianas significa novo estádio e novo terminal do aeroporto. O terminal de Kiev estava em obras quando cheguei e ainda não se encontrava operacional, mas prevê-se que os trabalhos estejam prontas antes do arranque da competição.
O eixo central continua pelo mercado da Bessarabia, um típico mercado ucraniano, onde começa a Krechtchatik. Os primeiros edifícios administrativos soviéticos que aqui existiam foram dinamitados pelo NKVD, a polícia secreta do regime, depois de os nazis ali terem instalado o seu quartel-general. Em consequência desses atentados, em Setembro de 1941, mais de 33 mil judeus foram massacrados na ravina de Babi Yar, nos arredores da cidade. Ao longo da guerra, mais de cem mil pessoas seriam assassinadas no mesmo lugar. Durante a guerra, a população de Kiev passou de 800 mil para 295 mil, nota o historiador Mark Mazower, em Hitler's Empire. Quase nenhum dos 600 mil soldados soviéticos cercados pelos nazis no cerco da capital ucraniana sobreviveu. Mazower nota também que houve colaboracionistas ucranianos que participaram nas atrocidades dos nazis. Mas a guerra neste lado da Europa, explica o mesmo autor, era uma guerra de extermínio de judeus e eslavos.

Entre colinas
A Krechtchatik (também lhe chamam a Krechtchkaya) corre entalada entre duas colinas, a que acompanha o rio e outra onde estão as catedrais de Santa Sofia e de São Miguel das Cúpulas Douradas, o ponto onde a cidade começou. Sobe-se até lá a partir da Porta Dourada, uma das quatro portas da cidade do tempo do príncipe Iaroslav, uma estrutura em madeira do século XI, com uma capela no interior, reconstruída nos anos 1980. No topo, chega-se a uma praça extensíssima, com os dois templos em cada extremo. Só Santa Sofia - que integra também o património mundial da UNESCO - vale a viagem até aqui. Numa obra publicada em 1954, o historiador de arte George Hamilton definiu-a como "a maior estrutura religiosa monumental da Rússia e a fonte a partir da qual iriam derivar as igrejas ortodoxas nos nove séculos seguintes". Foi construída à imagem de Santa Sofia de Constantinopla, mas, segundo o mesmo historiador, representava já um ponto de partida em relação ao modelo bizantino. No entanto, muito pouco resta da catedral original - foi destruída em 1240, quando os mongóis de Batu Khan arrasaram a cidade, causando a decadência desta. Entra-se no complexo através de uma torre barroca, azul-clara, e avista-se a catedral com as 13 cúpulas verdes e douradas sobre as paredes brancas, que representam Cristo e os 12 apóstolos. O interior é deslumbrante, e preserva alguns frescos originais. O mais impressionante é o da Virgem Orante, do século XI, situado por trás do altar.
Entre os elementos que subsistem da catedral original estão as ânforas vazias colocadas no interior das paredes, para melhorar a acústica. Subdividido em nove naves, o espaço interior é fragmentado e escuro. Hamilton sugere que essa estrutura, que dá um ambiente intimista ao templo, serviria para suportar as 13 cúpulas que iluminam o interior.
Do outro lado da praça está São Miguel das Cúpulas Douradas, um mosteiro em estilo barroco ucraniano, que foi duas vezes destruído na sua história. O edifício original, da Idade Média, também foi destruído pela invasão mongol. Reconstruído no século XVIII, o mosteiro foi depois demolido na era soviética para dar lugar à sede do governo da República Socialista da Ucrânia, nos anos 1930. O complexo soviético só foi parcialmente construído - é agora ocupado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros ucraniano - e o templo seria reconstruído no princípio deste século. O mosteiro reconstruído, todo ele em tons de azul-claro e com cúpulas cintilantes, tem à entrada uma torre que oferece um panorama excelente da cidade.
O percurso às origens de Kiev fica completo se descermos de São Miguel até ao Podil, um bairro comercial nas margens do rio. Pode-se ir pelo funicular e sai-se em frente à bela Igreja da Natividade. Hoje em dia é a alternativa à Descida de Santo André, uma das ruas mais interessantes da cidade, onde se ergue outra magnífica igreja barroca, que também se chama Santo André, e domina todo este lado da cidade. Igualmente em tom azul-claro, a igreja foi encomendada pela imperatriz Isabel, em 1744, e o projecto é de um arquitecto italiano, Bartolomeo Rastrelli. Na descida há galerias de arte e um mercado de rua onde é possível comprar souvenirs como antigas bandeiras ou bonés militares soviéticos. Mas a rua está interrompida e é impossível não só visitar a igreja como seguir até ao Podil, que é um bairro singular, de prédios baixos, com lojas e cafés simpáticos, que parece ter ficado esquecido deste lado da cidade. É, no entanto, uma das partes mais antigas de Kiev, que originalmente era constituída pela colina onde fica Santa Sofia e por este bairro, onde ainda hoje existem inúmeros embarcadouros.
Falta o mosteiro do Lavra para ficar com o retrato da Kiev que não se pode perder. Como em todos os mosteiros ortodoxos, a porta de entrada é monumental e, neste caso, excepcionalmente bela. Lá dentro, um complexo gigantesco, do qual se destacam a Catedral do Dormitium (reconstruída em 2001), a torre sineira, as grutas e a igreja do refeitório. Não se pode entrar na primeira - uma situação muito frequente nas igrejas ortodoxas - e as grutas do mosteiro também estavam fechadas. Passei ao lado de uma das mais extraordinárias iconóstases (ícones que estão no altar que separa as naves do santuário, onde só o padre pode entrar) da capital. Construído no século XI, o Dormitium foi destruído por três vezes, a última das quais durante a II Guerra Mundial. Desforrei-me com a torre barroca e um pequeno, mas muito interessante, concerto de carrilhão.
Uma polifonia percorre o céu cinzento do fim de tarde que precede a minha despedida de Kyiv. É o momento em que fechamos os olhos e deixamos os sinos conduzirem-nos até The Great Gate of Kiev, uma das peças de Quadros numa Exposição, de Mussorgsky, que ilustra uma porta projectada para a cidade que nunca foi construída. De novo a cidade imaginária. E Kiev é de facto a porta para um país, o ponto onde a língua ucraniana e a língua russa mais se confundem: uma fronteira dentro de um país cujo nome deriva de "fronteira", em eslavo.
Sentado no espaço para os peregrinos deixo-me ficar a ouvir a missa. Toda a gente está de pé, surpreende a intensidade dos coros, fica-se com a ideia de um culto mais cru do que o católico. Pormenor: as confissões são feitas em público, na igreja, ainda que não à hora da missa.
Cheguei imaginando uma cidade agreste e encontrei uma cidade aberta, amável apesar do gigantismo, tapada pelas colinas onde se foi escrevendo uma história essa sim agreste - a de uma cidade que foi o primeiro centro de uma civilização e que, depois de destruída pelos mongóis, só recuperou a sua autonomia com a independência, em 1991. As catedrais e mosteiros ortodoxos são a marca maior dessa identidade fundadora que Kiev reclama para si, como legitimação, aliás, de uma independência que começou a ser projectada, nos moldes actuais, em pleno século XIX. Apesar da rivalidade entre as igrejas ortodoxa ucraniana e russa, não são as igrejas que vincam as diferenças entre a Ucrânia e a Rússia. O barroco, um dos estilos dominantes na cidade, é comum às catedrais ucranianas ou ao Palácio Mariinsky ou à igreja de Santo André, dois marcos deixados pelos czares da dinastia Romanov nesta cidade que foi a terceira tanto da Rússia imperial e da União Soviética, a seguir a Moscovo e a São Petersburgo (ou Leninegrado).
O traço mais forte da era soviética acaba por ser a enorme (102 metros de altura) estátua da Mãe Pátria, dedicada às vítimas da Grande Guerra Patriótica (foto ao lado). Na Ucrânia, as figuras femininas costumam ser as mais importantes nestes monumentos, nos quais há sempre uma chama acesa. Feios e brutais, esses monumentos impõem-se ao nosso olhar como a evidência da brutalidade inexplicável do conflito.
Muitas vezes ocupada e destruída, Kiev é uma cidade que nunca foi apagada. É o que sentimos percorrendo templos e edifícios sucessivamente arrasados por guerras e depois reconstruídos. A memória desta cidade fundadora é fluída. E uma das chaves para a compreender é decifrar e preencher os vazios dessas sequências de destruição e reedificação, que são a marca de cultura resiliente e de um povo de sobreviventes às fronteiras da geografia e às fronteiras da história.

Estádio Olímpico de Kiev

Capacidade: 70.050 lugares
Capacidade no Euro 2012: 60.000 lugares
Número de jogos: 5

Jogos
Grupo D 11 de Junho: Ucrânia-Suécia
15 de Junho: Suécia-Inglaterra
19 de Junho: Suécia-França
Quartos-de-final 4 24 de Junho: 1.º Grupo D-2.º Grupo C
Final 1 de Julho
É o maior dos oito estádios que vão receber jogos do Euro 2012, sendo, por isso, o local da final. Na Europa de Leste, só o estádio Luzhniki (Moscovo) é maior. Construído em 1923, este recinto foi renovado para receber esta competição, numa obra que custou cerca de 400 milhões de euros.

Guia prático
Como ir
A TAP voa para Kiev às sextas, domingos e terças-feiras e os preços para o início de Junho rondam os 335 ou 375 euros, ida e volta. De Kiev pode voar com a Ukraine International Airlines para Kharkiv por cerca de 127 euros (sem taxas), para Lviv por cerca de 104 euros (sem taxas) ou para Donetsk por perto de 122 euros (sem taxas). Há também ligações internas entre as cidades ucranianas que não obrigam a passar pela capital, mas tendem a ser mais caras.
As viagens de avião entre Kiev e as três outras cidades demoram em média uma hora.
Prevê-se que os novos terminais já estejam operacionais nas quatro cidades ucranianas. O mais atrasado, quando estivemos no país, era o de Kiev. Entre as cidades onde Portugal jogará no âmbito do grupo B, Lviv já estava semi-operacional e Kharkiv plenamente operacional. Em Donetsk, o terminal pago pelo presidente do Shakhtar, Rhinat Akhmetov, está pronto mas só abre a 28 de Maio.
Outros transportes
É possível viajar de comboio dentro da Ucrânia, mas é preciso ter em conta que as distâncias são grandes e as ligações longas. O comboio demora seis horas e meia a ligar Kiev a Lviv (quatro ligações diárias, preços entre as 540 hrvinas, em primeira classe, e 75, em terceira) e seis a ligar a capital a Kharkiov (quatro ligações diárias e duas à noite). A ligação ferroviária para Donetsk dura cerca de cinco horas e meia. Não recomendamos a terceira classe.
Também se pode viajar de autocarro, que sai do próprio aeroporto de Borsipol, pelo menos com destino a Kharkov.
Se pensar em alugar um carro prepare-se para um regresso ao passado e a estradas parecidas com as portuguesas dos anos 1970, com bastantes buracos. Em geral, os ucranianos gostam de guiar depressa.
Em Kiev e Kharkiv não hesite em usar o metro, apesar das dificuldades que decorrem da pouca informação em alfabeto cirílico. Cada viagem custa duas hrvinas (mais ou menos dois cêntimos contra 1,25 euros em Lisboa...) nas duas cidades. Os autocarros também custam duas hrvinas e são outra opção.
Os táxis são o transporte mais selvagem do país. É preciso regatear preços (ofereça um quarto do valor proposto) e não embarque em qualquer veículo. Há muitos táxis clandestinos. Uma regra que aprendi antes de ir: se transportar malas no porta-bagagem nunca saia do veículo antes do táxi. Há o risco de este arrancar com as malas, tornando inútil o esforço feito para regatear o preço da corrida...
Onde ficar
É possível encontrar alojamento em hotéis de quatro estrelas nas quatro cidades do Euro 2012 a partir dos 50 euros/dia, mas desconfie dos preços demasiado tentadores. Evite os hotéis de três estrelas, que no geral estão longe de ser satisfatórios. Quatro estrelas é o mínimo olímpico, mas dá garantias. Houve notícias de que alguns hotéis iriam aumentar significativamente os preços durante as semanas do Euro, o que levou o Governo e a UEFA a ameaçarem tomar medidas para regular a oferta. Os preços médios que referimos são desta semana, mas se fizer reservas para o mês do Eeuro pode ser que encontre valores mais elevados.
A oferta de hotéis aumentou em todaos as cidades. Se quiser fazer algumas experiências topo de gama, em Kiev recomendamos o Premier Palace, na avenida principal (Tarasa Shevchenka Blvd, 5; Tel.: +044 537 4500; www.premier-palace.com) e, sobretudo, o Hyatt, admiravelmente localizado na colina da catedral de Santa Sofia (Ally Tarasovoi St, 5; Tel.: +044 581 1234; kiev.regency.hyatt.com). Em Donetsk há uma oferta crescente, destacando-se o Shakhtar (Germana Titova Ave., 15) e o Victoria (14 A Mira Avenue), ambos ao pé do Donbass Arena, mas o must da cidade é o clássico Donbass Palace (80, Artyoma Street, Tel.: +38 062 343 43 33; www.donbasspalace.com). Em Lviv, há bastantes hotéis no centro histórico, destacando-se uma nova unidade, o Leonidas. Em Kharkiv, há o Kharkov, um clássico (7 Svobody Square), e o Kharkiv Palace Premier (2, Pravdy Avenue, Tel.: +38 (057) 766 44 45; www.kharkiv-palace.com).
Também é possível alugar apartamentos. Em alguns hotéis, prepare-se para voltar a viver experiências nostálgicas, como por exemplo, como quartos sem chaves magnéticas.
Trocar dinheiro
Uma hrvina vale 0,09 euros e a maneira mais rápida, ainda que aproximada, de fazer os câmbios, é dividir o valor em hrvinas por dez. Trocar dinheiro é fácil, a qualquer horas. Banco, hotéis, lojas e casas de câmbio são opções disponíveis em qualquer uma destas cidades. Tenha atenção às taxas de câmbio, mas não encontrámos grandes discrepâncias.
Comer
A gastronomia ucraniana é interessante, muito à base de sopas, vegetais e legumes. Os ucranianos tomam um pequeno-
-almoço substancial e costumam jantar cedo, mas a maioria dos restaurantes serve refeições a qualquer hora, o que é muito prático. As opções são muito variadas e os preços em conta para as bolsas portuguesas. É possível comer por cinco euros nos cafés, que servem refeições ligeiras, ou em buffets onde é possível experimentar muitos pratos diferentes. Nos restaurantes, é possível comer bem por preços entre os dez a 20 euros. As ementas costumam estar em inglês e russo ou ucraniano.

Falar
Os ucranianos falam ucraniano na parte ocidental e russo na parte oriental, mas é provável que não perceba as diferenças. Falam pouco inglês e isso é um problema, sobretudo nas parte oriental do país. É fácil contratar guias ou intérpretes através da Internet. Há muito poucas indicações em inglês nas cidades e mesmo as ruas muitas vezes só estão assinaladas em cirílico, mas é possível que a situação melhore para o euro.
Apoio aos adeptos
Todas as cidades têm zonas para apoio aos adeptos, devidamente assinaladas, e milhares de voluntários para apoiar, além de linhas telefónicas especiais.

23 milhões de escravos transportados em quatro séculos

por A-24, em 28.05.12
Entre 1500 e 1900 cerca de 23 milhões de africanos foram transportados para ilhas do Oceano Índico, Maditerrâneo e, em especial, continente americano, na condição de escravos.

Este número foi um dos que esteve em reflexão na I Conferência dobre a Diáspora Africana no Mundo, que decorreu na África do Sul e onde Angola se fez representar por Manuel Augusto, secretário de Estado das Relações Exteriores, o embaixador Arcanjo do Nascimnto, representante de Angola na União Africana, e Francisco Correia, director para as comunidades angolanas no exterior e serviços consulares.
O objectivo dos países passa por sensibiziar os maiores talentos de origem africana a vingar noutros continentes para darem o seu contributo a África, incentivar o diálogo e parcerias com países de grande população de origem africana e criar uma frente diplomática que garanta a participação efetiva de toda a diáspora na União Africana.

"Racismo (ele existe)"

por A-24, em 27.05.12
In Bairro do oriente

Estava no outro dia a ver o programa "5 para a meia noite", que passa agora nas manhãs de terça a sábado na RTPi. O apresentador era o desengraçado Nuno Markl, e nele mais uma vez assistimos a piadolas sem graça sobre "os chineses", ainda na sequência da compra da EDP pela empresa "Três Gargantas", algo que parece incomodar os falidos lusitanos. Tenho pena que ainda seja assim. O nosso orgulho (ignorância?) ainda nos deixa olhar para os chineses como uns tipos "engraçados", exóticos e vilões. Ainda são os tais que figuram no pacote do pudim flan El Mandarin (que ainda por cima é espanhol), ou dos filmes de kung-fu. Os chineses ainda são os gajos dos restaurantes... chineses. Ou das lojas dos trezentos, agora chamadas lojas dos chineses. Os chineses ainda são uma piada. Ahahah. E nós ali todos falidinhos da Silva. Ahahah. E eles a maior economia emergente do mundo. Ahahah. Dá mesmo vontade de rir.
Aqui em Macau estamos mais que vacinados para isto. Quem vive no território há pelo menos 3 anos sabe que os chineses são um povo empreendedor, trabalhador e sério. Não há lugar para piadas e bocas racistas. Nós somos os convidados, e eles até nos respeitam, e na volta ainda querem aprender qualquer coisa connosco. Duvido que na televisão chinesa existam programas onde façam piadas sobre os tesos dos portugueses, que imploram que lhes comprem a dívida, que se afundam na miséria e no desemprego. Enfim, os chineses não têm tempo para isso. Se calhar a maioria deles nem sabe onde Portugal fica, e se isso pode ser entendido por ignorância ou falta de cultura geral, também pode ser entendido por desprezo. Desprezo do bom e do fresquinho. Deste lado, dos do "ou mun ian" (macaenses), existe uma espécie de descriminação com que deparo todos os dias. É sabido que os chineses não gostam muito de misturas, e ainda é-lhes difícil aceitar casamentos mistos, com estrangeiros ocidentais ou africanos. A coisa não muda muito de figura quando se trata de imigrantes do Sudeste Asiático. Falo das filipinas e das indonésias. Não é muito normal um chinês de Macau casar com uma filipina ou indonésia, e basicamente - e isto chamando os bois pelos nomes - porque elas são consideradas "sujas". Isto tem a ver com um tipo de preconceito antigo, a ver com as "tan ka ian", ou tancareiras, ou seja, a versão macaense das "boat people".
As tancareiras eram mulheres originárias da China continental que imigraram para Macau sobretudo depois dos anos 40. Viviam em embarcações estacionadas na zona do Porto Interior, eram bronzeadas do sol e cheiravam a peixe podre. Muitos portugueses, especialmente soldados, casaram e miscigenaram-se com elas, dando origem a muitos macaenses que ainda hoje são vivos. Mas quanto aos chineses que não eram "boat people", estes sempre lhes deram uma grande dose de desprezo, que passou para as tais imigrantes do Sudeste Asiático. Os "ou mun ian" preferem as mulheres "branquinhas", se bem que, e falo por experiência própria, branqura de pele nunca foi sinónimo de higiene. São preconceitos com que convinha acabar. Porque não?

Mais uma vez a Suécia... um país que percebe o conceito de Eurofestival

por A-24, em 27.05.12
Já sem Portugal, que foi afastado na segunda eliminatória, a Suécia foi o melhor país entre os 26 presentes na grande final e atingiu os 372 pontos.

Com esta vitória, a Suécia regista o quinto triunfo no festival, depois dos êxitos em Brighton, com os Abba, em 1974, Luxemburgo (1984), Roma (1991) e Jerusalém (1999).

O segundo lugar foi conquistado pela Rússia, com 259 pontos, cabendo à Sérvia a terceira posição, com 214.

Contudo, apesar da edição deste ano estar oficialmente terminada, há fanáticos para quem a Eurovisão dura o ano inteiro . Organizam grandes eventos, debates, sabem tudo o que há para saber sobre o tema.


1.º Suécia (372 pontos), Loreen - «Euphoria»
2.º Rússia (259 pontos), Buranovskiye Babushki - «Party for Everybody»
3.º Sérvia (214 pontos), Željko Joksimović - «Nije ljubav stvar»
4.º Azerbeijão (150 pontos), Sabina Babayeva - «When the Music Dies»
5.º Albânia (146 pontos), Rona Nishliu - «Suus»
6.º Estónia (120 pontos), Ott Lepland - «Kuula»
7.º Turquia (112 pontos), Can Bonomo - «Love Me Back» 
8.º Alemanha (110 pontos), Roman Lob - «Standing Still»
9.º Itália (101 pontos), Nina Zilli - «L'amore è femmina (Out of Love)»
10.º Espanha (97 pontos), Pastora Soler - «Quédate conmigo»
11.º Moldávia (81 pontos), Pasha Parfeny - «Lăutar»
12.º Roménia (71 pontos), Mandinga - «Zaleilah»
13.º Macedónia (71 pontos), Kaliopi - «Crno i belo»
14.º Lituânia (70 pontos), Donny Montell - «Love is Blind»
15.º Ucrânia (65 pontos), Gaitana - «Be My Guest» 
16.º Chipre (65 pontos), Ivi Adamou - «La La Love»
17.º Grécia (64 pontos), Eleftheria Eleftheriou - «Aphrodisiac»
18.º Bósnia e Herzegovina (55 pontos), MayaSar - «Korake ti znam»
19.º Irlanda (46 pontos), Jedward - «Waterline»
20.º Islândia (46 pontos), Gréta Salóme & Jónsi - «Never Forget»
21.º Malta (41 pontos), Kurt Calleja - «This Is the Night»
22.º França (21 pontos), Anggun - «Echo (You and I)»
23.º Dinamarca (21 pontos), Soluna Samay - «Should've Known Better»
24.º Hungria (19 pontos), Compact Disco - «Sound of Our Hearts»
25.º Reino Unido (12 pontos), Engelbert Humperdinck - «Love Will Set You Free»
26.º Noruega (7 pontos), Tooji - «Stay»

Linkin Park e Pumpkins na enchente do Rock in Rio

por A-24, em 27.05.12
Cerca de 83 mil pessoas passaram neste sábado pelo Rock in Rio, numa noite de nostalgia rock, onde os mais aguardados acabaram por ser os Linkin Park e Smashing Pumpkins.

A maior parte não vai ao Rock in Rio para ser surpreendido, em termos musicais, entenda-se. As marcas no terreno, essas sim, dão o máximo para serem criativas na forma como tentam seduzir as milhares de pessoas para os seus espaços, mas das bandas, a larga maioria, espera apenas que repliquem os êxitos de sempre e cumpram com o que anseiam, gerando um efeito de reconhecimento, principalmente quando falamos de grupos que tiveram sucesso em décadas passadas, como é o caso dos Linkin Park, Limp Bizkit, Offspring ou Smashing Pumpkins.
Mas por vezes acontecem surpresas. Raramente, mas ocorrem. Foi no intervalo de meia hora entre o concerto dos Linkin Park e dos Smashing Pumpkins, quando muito público partiu em debandada depois de ver os primeiros, que aconteceu. Foi no espaço Vodafone, um lugar de passagem, que a coisa se deu.
Em palco, quatro músicos na casa dos vinte anos, com ar de ianques (de Nova Iorque, diriam depois) que dão pela designação de Oberhofer. Não são a melhor banda do mundo, nem provavelmente a melhor lá do seu bairro, mas mesmo assim foram aquilo (nervo, irreverência, energia, espontaneidade) que quase não se viu ao longo de toda a noite.

Em meia hora os Oberhofer mostraram que o rock está bem vivo, quando ligado organicamente ao pulsar da vida, no seu sentido mais urgente. Quando é apenas espectáculo pelo espectáculo, sucumbe. Ficam os tiques. As astúcias repetidas à exaustão. A quantidade – de som, de cenário, de canções que repetem a mesma receita – em vez da pulsão inevitável. Na segunda metade da década de 90, depois do efeito Nirvana, o rock cresceu para os lados, desligou-se da vida, tornou-se balofo. Sim, existem excepções. Mas são isso: excepções. 
O chamado nu-metal cresceu assim, mas foi tendo sempre muitos adeptos. Que o digam os Limp Bizkit, durante muitos anos porta-estandartes do género, há alguns anos algo esquecidos, mas que no Parque da Bela Vista mostraram que em Portugal ainda têm imensos partidários. O vocalista Fred Durst fez aquilo que se espera dele, puxou pela assistência e escalou duas torres de câmaras, enquanto o resto da função ficou a cargo, essencialmente, da guitarra ruidosa de Wes Borland, num início de noite de rock cuidadosamente encenado, algo inconsequente, mas ainda assim com muitos seguidores. 
Horas mais tarde, os Linkin Park repetiram a fórmula, mas ainda para mais seguidores. Das 83 mil pessoas presentes – números da organização – a grande maioria estava lá por causa dos californianos. E saíram satisfeitos, cantando em coro canções como In the end, Numb, Given up, Crawling, Somewhere i belong ou Breaking the habit, com o vocalista Chester Bennington a revelar-se o principal impulsionador de um grupo que apostou na exposição dos temas de maior sucesso do seu percurso. Do novo álbum Living Things, quase a ser editado, acabaram por tocar apenas dois temas. 
Mas ninguém se importou. A imponente assistência cantou, colocou os braços no ar sempre que solicitada do palco, puxou dos telemóveis e dos isqueiros nos momentos mais melosos e do corpo nas alturas mais enérgicas. Ou seja, a prescrição funcionou sem grande mácula. Mas também, valha a verdade, sem grande emoção. A não ser quando endereçaram uma curta homenagem aos Beastie Boys (Sabotage) ou quando Bennington desceu até ao público e empunhou um cachecol do F.C. Porto que lhe foi oferecido (sem saber, claro, o que estava a fazer) e acabou por ser, com gentileza é certo, assobiado. 
Antes já haviam tocado outros repetentes no Rock in Rio, os americanos The Offspring, praticantes de um punk-rock reciclado para grandes audiências, que é tudo aquilo que o punk nos idos anos 70 não queria ser: enfadonho e previsível. 
No palco secundário, não se pode dizer que tenham existido grandes rasgos de criatividade na apresentação conjunta dos portugueses Xutos & Pontapés e dos brasileiros Titãs, mas seja em que circunstância for existe sempre verdade e uma forma, ao mesmo tempo empenhada e descontraída de estar em palco, que acaba por conquistar. E foi isso que aconteceu com a ‘superbanda lusobrasileira’, com dez músicos em palco, a divertir-se e a contagiar quem assistia, tocando canções de uns e outros, trocando de papéis (o cantor dos Titãs a cantar À minha maneira, por exemplo) e colocando em acção canções catárticas como Não sou o único (Xutos) ou Porrada (Titãs). Do concerto dos Smashing Pumpkins não se sabia muito bem o que esperar. Em mais de que uma ocasião, Billy Corgan havia dito que mais este regresso do grupo ao activo não significava que iriam fazer render os hinos de sempre. Mas perante tamanha multidão, nem eles resistiram à tentação, optando por uma solução mista: concentrando-se no material do antigamente como Zero, Tonight ou Today, misto de rock furioso e rock sonhador, em versões arriscadas de canções conhecidas (The end is the beginning is the end) e alguns temas que farão parte do novo álbum de originais, Oceânia
De todos os grupos que passaram pelo palco principal, os Smashing Pumpkins foram, apesar de tudo, os que mais arriscaram. Talvez por isso, em alguns momentos, a assistência tenha parecido algo dormente, mesmo quando foram tocadas, no final, versões como Space oddity (David Bowie) ou Black Diamond (Kiss). Não deve ser fácil um grupo como o de Billy Corgan automotivar-se, apresentando novas canções, e não desiludir quem espera ouvir as canções da sua adolescência. Mas, louve-se o gesto, os Smashing Pumpkins estão a tentar. 
Para lá da música, o Rock in Rio, também já não surpreende, com montanhas russas, rodas gigantes, ofertas de sofás insufláveis, enfim, uma Disneylândia no meio do rock, que atrai gente de todas as idades. Há no entanto uma excepção: a zona onde foi recriado o ambiente de Nova Orleães. E foi aí que aconteceu outra das surpresas musicais do festival. Às tantas, ao início da noite, nesse local, fez-se ouvir uma banda americana de clássicos do blues. Sim, era apenas uma banda competente de versões. Mas no meio do alarido, conseguiram criar um clima de algum intimismo. Um milagre na Bela Vista.

Euro 2012 - Varsóvia, a 'cidade da Fénix' que renasceu para o Euro2012

por A-24, em 27.05.12
Exemplo de determinação, Varsóvia, conhecida como a “Cidade da Fénix”, por ter superado várias guerras, vai ser o primeiro “palco” do Campeonato da Europa de futebol de 2012, organizado conjuntamente por Polónia e Ucrânia.
A histórica capital polaca foi praticamente dizimada durante os seis anos da II Guerra Mundial, com a população a rebelar-se duas vezes contra a invasão alemã, primeiro no gueto e depois em toda a cidade, com enormes custos.
Calcula-se que 85 por cento das suas construções tenham ficado destruídas e que tenham morrido 800 mil pessoas. No entanto, a “segunda Paris” reergueu-se.
As ruas, os edifícios e igrejas do centro histórico, reconhecido como património mundial da UNESCO em 1980, foram reconstruídas minuciosamente, enquanto o regime soviético “influenciou” na edificação de enormes blocos de prédios e na criação de enormes avenidas na zona leste da cidade, a paredes-meias com as traças tradicionais.
Em 14 de maio 1955, a capital polaca ofereceu o nome a um alinhamento entre países socialistas do Leste europeu, o Pacto de Varsóvia, que só expirou 36 anos depois, com a queda dos governos socialistas e o “derrube” do Muro de Berlim.
Com mais de 1,7 milhões de habitantes, Varsóvia é atualmente a maior cidade polaca e também das que apresenta melhor dinâmica na indústria, cultura e ensino superior.
Varsóvia orgulha-se de ter como “filhos” o compositor Fryderyk Chopin e Marie Skłodowska-Curie, a primeira mulher a receber o prémio Nobel da Física, em 1903, tendo recebido o da Química, em 1911. Outro ilustre, igualmente simbólico, é o "Aniołek" (pequeno anjo) Mordechaj Anielewicz, que liderou a revolta do gueto judaico de Varsóvia durante a ocupação nazi.
A cidade é atravessada pelo rio Vístula, junto ao qual foi construído o Estádio Nacional de Varsóvia, aproveitando o espaço do antigo Estádio do Décimo Aniversário, que, desde 1989, tinha sido construído num mercado.
O recinto, que custou 500 milhões de euros e tem uma capacidade para 50 mil espetadores, é o único “palco” do Euro2012 que pode ficar totalmente coberto, com um sistema retrátil semelhante ao aplicado no estádio de Frankfurt, na Alemanha.
A seleção portuguesa empatou a zero frente à Polónia na estreia do novo estádio, cuja fachada, coberta com painéis vermelhos e brancos, recria a bandeira polaca.
Durante o Euro2012, Varsóvia acolhe o Grupo A, com dois jogos da Polónia frente à Grécia, no jogo inaugural, a 08 de junho, e da Rússia, a 12, e o embate entre gregos e russos, a 16, e, na segunda fase, recebe um jogo dos quartos de final e outro das “meias”.
Sapo Desporto

Morreu segundo nazi mais procurado do Mundo

por A-24, em 26.05.12
O segundo criminoso de guerra nazi da lista do Centro Simon Wiesenthal, que se dedica a procurar antigos líderes do Terceiro Reich, morreu na quinta-feira em Ingolostadt, na Alemanha. Klaas Faber, de seu nome, era holandês e tinha 90 anos, diz a AFP.
A notícia foi apenas avançada este sábado pelas fontes médicas. Faber era procurado há anos pelas autoridades holandesas, por ter sido membro das SS Silbertanne. Foi condenado à morte em 1947 por matar 22 judeus, pena que acabou por ser comutada para prisão perpétua. O antigo SS fugiu da prisão em 1952, refugiando-se na Alemanha. Em 1957, um segundo julgamento despronunciou o caso Faber e desde essa altura viveu em liberdade.
Tentaram extradita-lo para a Holanda para cumprir pena, o que foi rejeitado pela Alemanha, uma vez que este país não extradita os seus cidadãos: uma lei nazi dava a nacionalidade alemã a todos os elementos das SS.

Euro 2012 - Lviv dividida entre o oeste e o leste europeu

por A-24, em 26.05.12
Lviv volta a celebrar o futebol no Euro2012, depois de ter sido o palco do primeiro jogo de futebol jamais realizado na Ucrânia ou Polónia.
A cidade ucraniana acolheu o encontro em 1894, com o Sokol Lviv a vencer uma equipa de Cracóvia por 1-0, em...sete minutos - nos primórdios do "golo de ouro" -, e foi sede do primeiro clube polaco, com a fundação do Czarni Lwów, em 1903.
Apesar deste pioneirismo desportivo, atualmente Lviv destaca-se nos desportos de inverno, sobretudo, pela candidatura à organização dos Jogos Olímpicos de inverno de 2022 e também pela modéstia da formação local, o FC Karpaty Lviv, que luta pela permanência na Liga ucraniana de futebol.
O passado de Lviv, que está sob soberania ucraniana desde 1939, depois de ter estado sobre alçada polaca, austríaca e novamente polaca, até 1919, conferiu ecletismo à cidade, reconhecida como um dos mais importantes centros universitários do país e detentora de um centro histórico classificado como património Mundial da humanidade pela UNESCO desde 1998.
Em Lviv, cidade com cerca de 760 mil habitantes, existem mais de 150 templos religiosos, de várias crenças, como catolicismo ucraniano, romano, da igreja arménia e judeus.
O jornalista e escritor austríaco Leopold von Sacher-Masoch, autor do romance “Vénus em Peles” e responsável pela corrente masoquista, é um dos mais ilustres “filhos” de Lviv.

Para o Euro2012, a “última cidade do oeste e a primeira do leste europeu” construiu o recinto com menor capacidade da competição: a Arena Lviv tem capacidade para 30 mil espetadores, sendo semelhante ao estádio austríaco de Klagerfurt, palco do Euro2008, com dois anéis de bancadas e uma cobertura semitransparente.
Este recinto, que começou a ser construído em fevereiro de 2009 e teve um custo aproximado de 60 milhões de euros, é propriedade do Ministério da Juventude e dos Desportos e deverá tornar-se a “casa” do mais representativo clube local, o FC Karpaty Lviv.
A inauguração da Arena Lviv data de 29 de outubro de 2011, com um concerto da cantora norte-americana Anastacia e de Ruslana, vencedora da edição de 2004 do Festival da Eurovisão, antes de ter sido estreado desportivamente, a 15 de novembro de 2011, com a vitória da Ucrânia frente à Áustria, por 2-1, com golos de Milveskiy e Devic. Kucher, com um golo na própria baliza, assinou o tento austríaco, neste jogo particular.
No Euro2012, Lviv vai receber três jogos do Grupo B do Europeu, entre os quais os que vão opor Portugal a Alemanha e a Dinamarca.

Sapo Desporto

Centros de emprego estão a oferecer trabalho a licenciados por 500 euros

por A-24, em 26.05.12
Sindicato da Função Pública alerta que há empresas que estão a registar-se no portal Netemprego para beneficiarem dos apoios à contratação e que oferecem salários próximos do mínimo.
O sidicato dos Trabalhadores da Função Pública do Sul e Açores (STFPSA) acusa o Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) de publicitar ofertas de trabalho para licenciados a ganharem salários próximos dos 500 euros. As ofertas foram detectadas no portal Netemprego e dizem respeito a empresas que se inscreveram para beneficiarem dos apoios à contratação previstos na medida Estímulo 2012.
Num comunicado ontem divulgado, o sindicato dá conta de duas situações em que as empresas se candidatam ao apoio - que prevê o pagamento de metade do salário do desempregado contratado (ver caixa) - para admitirem desempregados com formação superior, a contrato a termo e cujos salários estão ao nível dos oferecidos a trabalhadores menos qualificados.
Um dos casos divulgados tem a ver com uma empresa de comércio de mobiliário e artigos de iluminação que pede arquitecto, com mestrado, para trabalhar a tempo inteiro por 500 euros. Outro, é uma empresa de estudos de mercado que pretende contratar um técnico de relações públicas licenciado para fazer clipping de imprensa. O horário de entrada é às cinco da manhã e o salário oferecido são 485 euros - o salário mínimo nacional.
Tanto uma oferta como a outra já não figuravam, ontem, no portal. Mas uma pesquisa pelas 3370 ofertas de emprego disponíveis revelava casos semelhantes. Uma empresa candidatava-se ao Estímulo 2012 e pretendia admitir dois médicos dentistas, a tempo completo, a ganhar 650 euros. Outra pretendia um engenheiro mecânico, que fale inglês, francês e espanhol, oferecendo um salário de 700 euros. Em todos estes casos, as empresas apenas terão que suportar metade do salário.
"São verdadeiros saldos de engenheiros, arquitectos, relações públicas, desenhadores, com o patrocínio do serviço público de emprego", lamenta Catarina Simão, dirigente do STFPSA. "Não se respeitam as tabelas salariais nem a contratação colectiva", lamenta.
Também a página electrónicados Precários Inflexíveis tinha denunciado no início da semana um caso semelhante e criticava as empresas que se "aproveitam do desemprego galopante para baixarem os salários e fomentarem a precariedade".
O PÚBLICO tentou obter esclarecimentos junto do IEFP, nomeadamente sobre a forma como é feito o controlo dos salários oferecidos, de forma a respeitarem as tabelas de cada sector e as remunerações previstas na contratação colectiva, mas até ao fecho da edição não foi possível obter uma resposta.

Balanço do programa

Desde meados de Fevereiro, 1734 desempregados conseguiram voltar ao mercado de trabalho com o apoio da medida Estímulo 2012, um pequeno contributo para a meta de 35 mil traçada pelo Governo. Para conseguirem atingir este valor no final do ano, os centros de emprego têm que conseguir colocar 3500 desempregados por mês.
Questionado sobre se este objectivo será alcançável, o presidente do IEFP, Octávio Oliveira, diz que "a meta continua válida" e garante que o instituto está a fazer "um enorme esforço de divulgação da medida". Porém, realça, "a criação de empregos depende das empresas e não do Estado, pelo que a meta proposta apresenta particulares desafios".
Em três meses, 1725 entidades mostraram-se registaram-se no Netemprego para beneficiarem da medida, tendo apresentado 3755 ofertas de emprego. De acordo com a informação solicitada ao IEFP, a maioria das ofertas vem da restauração, alojamento, apoio social, comércio, indústria alimentar, têxtil e das actividades especializadas da construção.

Apoio pode chegar aos 419,22 euros

O Estímulo 2012 entrou em vigor em meados de Fevereiro e destina-se a empresas que contratem desempregados inscritos nos centros de emprego há pelo menos seis meses.
As empresas que celebrem contratos a termo com estes desempregados recebem 50% da retribuição base até um limite máximo de 419,22 euros. Esta comparticipação sobe para 60% se as empresas celebrarem contrato sem termo com beneficiários do rendimento social de inserção, desempregados de longa duração, com idade inferior ou igual a 25 anos ou com trabalhadores com baixas qualificações ou com deficiência. Tanto num caso como no outro, o apoio é pago por um período máximo de seis meses. As empresas são obrigadas a dar 50 horas de formação e têm que manter os níveis de emprego. No fim do contrato, a empresa pode apresentar nova candidatura à medida, mas o trabalhador cujo contrato cessou é contabilizado na aferição do nível de emprego.
Público