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A-24

10% dos deputados são pseudo-comentadores na TV

por A-24, em 09.04.13
O momento político providencia mais excitação do que a ficção nacional da RTP, SIC ou TVI. Num dia, o ministro Relvas apresenta o ‘embaixador’ do ‘Impulso Jovem’ e seu espectáculo de stand-up comedy. No dia seguinte, o PS faz espectáculo com uma moção de censura e Seguro diz que mandou à troika a carta que tinha inventado semanas antes para fazer manchete do ‘Expresso’; depois, Relvas demite-se, com ano e meio de atraso sobre a data avisada, e faz espectáculo com declaração ao país; sexta-feira, o Tribunal Constitucional, qual autarca ou treinador da bola, convoca as TV para abrir os telejornais mas faz suspense, como as novelas, até às nove da noite; chega sábado e mais suspense, com conselho de ministros de urgência.
É um país muito politizado. A televisão é causa e consequência dessa politização. TV e política têm uma relação quase sempre de amor, raramente de arrufo. Os canais de TV têm enxames de comentadores, em especial pseudo-comentadores – comentadores de comentadores, políticos comentando-se uns aos outros.


Temos a TV mais politizada da Europa, com muitos canais de notícias, noticiários a transbordar de política e dezenas de comentadores. Poderia ser bom se fosse verdadeiro debate. Mas os comentadores não são especialistas (universitários, colunistas ou jornalistas), são os próprios políticos, actores passados ou presentes das acções que ‘comentam’. Decidem à tarde no parlamento e ‘comentam’ à noite nos ecrãs – dezenas de horas por semana. É uma espécie de ditadura dos políticos e dos partidos, um verdadeiro confisco mediático do tempo destinado ao esclarecimento dos espectadores: os políticos são-nos impostos pelas TV. Estão em todo o lado, nos canais generalistas, informativos, regionais e até desportivos.
Pelas minhas contas, pelo menos 10% dos deputados são ‘comentadores’ televisivos. Um em cada dez. Somam-se-lhes mais meia dúzia de eurodeputados, dois ex-primeiros ministros e uma dezena de bonzos actuais ou passados dos cinco partidos. A SIC Notícias, em especial, parece uma casa de bonecas parlamentar, um parlamentozinho de brinquedo com deputados pseudo-adversários num sistema que os alimenta.
As TV conluiam-se com os cinco partidos para estarem de bem com eles, servem-nos em vez de servirem os cidadãos seus espectadores. A transferência quase total do debate político do parlamento para as TV é uma dupla perversão e menorização: do parlamentarismo e do seu lugar na política nacional; e do jornalismo como força independente na sociedade democrática.

A VER VAMOS
O novo ‘comentador’ da RTP 1 Nuno Morais Sarmento estreou-se num aborrecido espaço de ‘comentário’ dizendo que já andou por canais privados, mas que na RTP é que está bem, olaré, por tudo o que fez por ela. Armou-se de novo em Santo Antoninho da RTP – um exagero. Em 2002, o ministro Sarmento queria acabar com a RTP 2 e foi o Grupo de Trabalho de que fiz parte que lhe deu a oportunidade da ligação da RTP 2 à sociedade civil, o que não só a manteve no Estado como o salvou a ele dum sarilho. Sarmento também disse que a "RTP não podia deixar de dar espaço" a Sócrates com tempo de antena semanal. Não podia?! Porquê, é obrigação constitucional? Ou será porque sem Sócrates ao domingo não haveria Sarmento à sexta?

JÁ AGORA
Os documentários sobre animais que a RTP 2 repete 50 vezes por ano à mesma hora dividem-se em dois: os da BBC, calmos, lineares, em que os animais são mesmo protagonistas; e os americanos, excitados, aos solavancos por causa dos intervalos previstos na montagem de dez em dez minutos e muito menos centrados nos animais do que nos apresentadores e suas emoçõezinhas.
Eduardo Cintra Torres