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A-24

A hipocrisia do PCP

por A-24, em 09.11.14
Observador

No editorial do Avante!, o PCP considera que o fim do Muro representou a destruição das "realizações económicas, sociais e culturais de mais de 40 anos de poder dos trabalhadores" na ex-RDA.
Celebrações são a forma capitalista de celebrar o fim do socialismo, diz o PCPJOSE SENA GOUL
Na semana em que se assinalam 25 anos sobre a queda do Muro de Berlim, o Partido Comunista Português (PCP) publicou um editorial no jornal Avante! em que recorda as “notáveis realizações nos planos económico, social e cultural” da República Democrática Alemã (RDA)”. A reunificação da Alemanha é vista como uma “anexação” que deu origem a uma “‘grande Alemanha’ imperialista”.
“Aquilo a que assistimos no território da ex-RDA foi à destruição forçada das realizações económicas, sociais e culturais de mais de quarenta anos de poder dos trabalhadores”, pode ler-se no editorial publicado pelos comunistas a 6 de novembro. Referindo-se sempre à “chamada queda do Muro de Berlim”, o PCP considera que as celebrações do fim do muro são a forma capitalista de celebrar o fim do socialismo e da RDA, através de uma reunificação que consideram ser, na verdade, uma “anexação” que levou à formação de uma “‘grande Alemanha’ imperialista”.

“Hostilizada e caluniada pela reação internacional, a RDA, pelas suas notáveis realizações nos planos económico, social e cultural e pela sua política antifascista e de paz, impôs-se e fez-se respeitar no concerto das nações como Estado independente e soberano”, escrevem.

Sem nunca referir as pessoas que morreram a tentar sair da RDA para a República Federal da Alemanha (RFA), o texto responsabiliza “o imperialismo” por nunca ter desistido “das suas tentativas de liquidar a RDA socialista acabando em 1989 por alcançar a vitória, conseguindo que manifestações, nomeadamente em Leipzig, que na sua essência reclamavam o aperfeiçoamento do socialismo e não a sua destruição, ganhassem a dinâmica contra-revolucionária que conduziu à precipitação dos acontecimentos e à anexação forçada da RDA pelo governo de Helmut Kohl”.

A construção do Muro
Para o PCP, a construção do muro de Berlim em 1961 era necessária pelo seu “caráter defensivo”. “É a resposta a constantes provocações na linha de demarcação entre a parte Leste e Ocidental da cidade e reiteradas violações de soberania da RDA, no coração de cujo território se encontrava Berlim, num incontestável ato de segurança e de soberania”.

“Independentemente da opinião que se tenha sobre a construção do muro de Berlim, a verdade é que este, se não contribuiu, pelo menos não impediu que a RDA fosse internacionalmente reconhecida como Estado independente e soberano”.

Ao mesmo tempo, o editorial critica a hipocrisia dos que celebram a queda do Muro de Berlim porque “têm construído e continuam a construir barreiras do mais variado tipo (sociais, raciais, religiosas e outras) por esse mundo fora, incluindo muros físicos, intransponíveis de que o exemplo mais brutal é o muro erguido por Israel para cercar e aprisionar o povo palestiniano na sua própria pátria, a que se juntam os muros erguidos pela Coreia do Sul na Península da Coreia dividida, por Marrocos contra a luta libertadora do povo sahauri, pelos EUA na fronteira com o México e outros”.
Segurança e paz na Europa ficaram comprometidas
No final, derrubar o Muro não trouxe segurança nem paz à Europa, escreve o PCP. “A anexação da RDA, as derrotas do socialismo no Leste da Europa, não contribuíram para a segurança e a paz na Europa e no mundo. Pelo contrário”.
A Alemanha, manifestando as suas ambições de grande potência económica e militar, estende a sua esfera de influência para o Leste do continente europeu e lança-se na destruição da Jugoslávia tornando-se responsável pela primeira guerra na Europa depois da 2.ª Guerra Mundial.
A situação que hoje se vive na Ucrânia, nomeadamente com a ascensão ao poder de forças fascistas, a perseguição anticomunista e a escalada de confrontação com a Rússia é o desenvolvimento lógico da «cavalgada» do imperialismo para Leste que se seguiu às derrotas do socialismo na RDA e noutros países socialistas”.

Joana Lopes

Um quarto de século, que passou depressa, com grandes sobressaltos e muitas esperanças por cumprir. Mas comemore-se e festeje-se hoje, obviamente, a destruição de um barreira que, durante 28 anos, cortou uma cidade e separou pessoas e famílias, provocou mortes. Como se os problemas entre seres racionais pudessem ser resolvidos com amontoados de pedras.
Há textos, relatos, fotografias, vídeos um pouco por toda a parte. Mas talvez escape a muitos este texto publicado no Avante! – A chamada «queda do muro de Berlim» – e creio que deve ser conhecido.
Se o PCP não fosse o que é, celebraria a data e, do seu ponto de vista, aproveitaria para sublinhar que o capitalismo não foi capaz de satisfazer as esperanças que nasceram com a queda do muro e com o que esta representou. Em vez disso, pariu uma catilinária, nostálgica e lamentável, num texto que até podia ser considerado humorístico, como um amigo o classificou no Facebook, se o humor negro fosse o estilo da Soeiro Pereira Gomes e se não estivéssemos a falar de coisas tão sérias.

A tragédia do socialismo do século XXI

por A-24, em 10.03.14
Alexandre Homem Cristo

O regime nascido da revolução bolivariana faliu. Algum dia tinha de acontecer. Até porque, como se costuma dizer, a história é repetição. Na Venezuela, repetiu-se mesmo. E, assim, o ano de 2014 marca o fim das ilusões. As dos venezuelanos, que durante mais de uma década se deixaram governar pelo populismo de Chávez. E as dos socialistas europeus, que viram no regime venezuelano um oásis de resistência contra a economia de mercado. Com fome nas ruas, com escassez de bens de primeira necessidade nas mercearias, com falta de medicamentos e com falhas sucessivas na rede eléctrica, o povo saiu à rua. E disse basta.


Associar a falência do regime venezuelano à substituição de Hugo Chávez por Nicolás Maduro, nomeadamente pela falta de carisma do segundo, é um erro grave. Subestima a degradação social e política dos últimos anos. É que, embora tenha morrido sob o estatuto de herói popular, foi Chávez quem trilhou o caminho para a ruína. Atropelou as regras institucionais do regime, tornando-o dependente na sua pessoa. Estrangulou a iniciativa privada. E apostou cegamente num modelo de investimento público insustentável, suspenso numa produção petrolífera em declínio. Quando chegou a sua vez, Maduro deu continuidade ao delírio. E fê-lo com uma obstinação invejável. Mal assumiu a presidência, em substituição de Chávez, Maduro ordenou ao Banco Central a impressão de mais dinheiro, para com ele financiar novos programas de investimento público. Entre outros, o da atribuição de um tablet para cada aluno venezuelano. A inflação atingiu os 56%.

Entretanto, acabou com a liberdade política, impondo uma forma de ditadura (suspensão da Constituição): o Parlamento concedeu-lhe poderes executivos especiais para alterar leis sem fiscalização política. Acabou com a (pouca) liberdade económica: promulgou uma lei que define os preços dos produtos e limita o lucro das empresas, prendendo os comerciantes que resistissem. E acabou com a liberdade individual, através de uma crescente repressão policial e militar, que provocou dezenas de mortes, para assim travar aqueles que “querem destruir a nação”.

É claro que, perante este descalabro político e social na Venezuela, podemos fechar os olhos. Ou acreditar que a resistência nas ruas não é de origem popular, mas sim de “grupos de cariz neofascista”. Ou achar que essas manifestações são operações “apoiadas pelo imperialismo norte-americano”. Ou ainda alegar que o Governo venezuelano está a ser alvo de uma “guerra económica que visa destabilizar o país”. No fundo, podemos subscrever o incrível comunicado do PCP (14.02.2014) e, através dele, negar a realidade. Mas a realidade é o que é. E a história, que se repete, já mostrou que negá-la não a altera.

A distante Venezuela está a ferro e fogo. E isso interessa a nós, portugueses? Sim, interessa. Num momento em que tanto se discutem alternativas políticas, em Portugal e na Europa, o fracasso da “revolução bolivariana” na Venezuela é uma boa forma de recordar que o socialismo utópico do século XXI é tão nefasto para as populações quanto o do século XX. Confiar que é nessa doutrina ideológica, partilhada em Portugal por PCP e BE, que está o futuro não é, portanto, mais do que condenar-nos ao passado.

O fascismo de Álvaro Cunhal continua vivo

por A-24, em 30.01.14
Henrique Raposo

É sempre cómica a forma como o jornalismo português transforma um fascista vermelho num grande democrata. Ontem, uma jornalista até disse que "Cunhal sempre lutou por um partido livre e transparente". Um sujeito ouve isto e fica a pensar "mas ainda há células do PCP nas redações?". Meus amigos, Cunhal lutou toda a vida contra a democracia. Cunhal tinha uma concepção totalitária da política: só compreendia a linguagem da força, só aceitava um regime de partido único (o dele) e toda a sociedade, dos romances aos tampos das sanitas, tinha de obedecer a um plano central (o de Moscovo). Por outras palavras, Cunhal era fascista.

Antes de 1974, Cunhal fez a vida negra às oposições democráticas, porque o PCP não queria uma transição para a democracia. É ler Norton de Matos, Eduardo Lourenço, Sophia, Sousa Tavares, Alçada Baptista, Bénard, Cunha Leal. Todas estas figuras contestaram, ao mesmo tempo, Salazar e Cunhal. Nos anos 50, Cunha Leal e Norton de Matos afirmaram que Cunhal era pior do que Salazar. No final dos anos 60, Eduardo Lourenço declarou que a oposição democrática não podia dançar o tango com a oposição autoritária (o PCP), porque Cunhal era uma fotocópia de Salazar. Moral da história? Durante o Estado Novo, o grande alvo do PCP não foi Salazar, mas a restante oposição. Daí nasceu esta guerra civil entre as esquerdas (tornada explícita em 1975) e a ditadura intelectual do PCP junto dos meios jornalísticos e intelectuais. Algo que ainda perdura em reportagens que cantam loas a Cunhal em 2012.

Depois do 25 de Abril, Cunhal continuou a lutar contra a democracia. Em actos e palavras, foi sempre claro: Portugal não podia caminhar no sentido democrático. É por isso que o líder do PCP sempre desprezou os actos eleitorais. Aliás, passava a vida a dizer que a sua "maioria política" era mais importante do que as "maiorias aritméticas" das urnas. Ou seja, a violência da rua e dos militares do PCP eram mais importantes do que o respeito pelos processos democráticos. Em 2012, os jornais e TV estão cheias de pessoas a dizer que "ora, ora, com tanta manif na rua, o governo perdeu a legitimidade e deve cair". O fascismo de Cunhal continua vivinho da silva.

Como a esquerda se entretém

por A-24, em 16.12.13
Vasco Pulido Valente via Dissidente


"A esquerda portuguesa é de facto extraordinária. Quando se provou que os partidos da esquerda se tinham metido num beco sem saída, a primeira ideia que veio à cabecinha das notabilidades da seita foi fabricar mais partidos, sempre à procura da mítica “unidade”, que por toda a parte desapareceu logo na sua auspiciosa criação. Excepto sob a autoridade da URSS, primeiro em Moscovo e a seguir no Comintern e no Cominform, a história do socialismo nunca passou de uma série de querelas, de cisões, de purgas, de assassinatos cometidos com suma piedade e zelo. Mas, pelos vistos, continua em Portugal, no ano de 2013, a mesma ambição de juntar os “verdadeiros” camaradas numa casa comum que domine a política nacional e acabe de uma vez com as terríveis desordens do capitalismo.

O Bloco de Esquerda, hoje defunto, começou com essas fantasias. Claro que o BE não tinha nada de esquerda: nem “massas” que o seguissem, nem um programa para a reforma do país, nem sequer uma estratégia: tinha só as famosíssimas “rupturas”. Mas protegido por alguns génios, que pretendiam enfraquecer o PC, teve até certa altura muito tempo de televisão. E apareceram de repente Miguel Portas, Francisco Louçã, Ana Drago e outros, com um arzinho de universitários sabichões, que atraíram em pouco tempo uma pequena parte da populaça. Eles diziam que eram “modernos” e a populaça julgava que a “modernidade” a esperava. Este equívoco durou quase 20 anos, enquanto a impotência do Bloco se não tornou evidente e Sócrates não se apropriou das “rupturas”. Sob vários pretextos, muitos ratos fugiram imediatamente do barco e ainda não deixaram de fugir.
Com o PC feliz no seu velho ghetto e o PS numa perpétua trapalhada, um antigo BE resolveu arranjar um “partido”, deliberadamente sem doutrina e disciplina, em que as prima-donas da esquerda pudessem falar à sua vontade e ser ouvidas, sem perturbação, por meia dúzia de gatos-pingados. Nada sairá deste concurso de asneiras, mas não interessa. A patetice pública alivia a alma. E estávamos nisto, quando Manuel Carvalho da Silva, agora munido de um doutoramento, tomou a estranha decisão de inaugurar um “movimento”, com o objectivo (adivinhem) de finalmente promover a “unidade” da esquerda. O “movimento” recebe quem lhe bater à porta: católicos, o BE, o “Partido Livre” e mesmo uns tantos comunistas na disponibilidade. É uma sopa turva de que inevitavelmente vai saltar uma dezena mais de partidos com a pedra filosofal no bolso. Deus nos dê muita paciência."

Na União Soviética eles também não existiam!

por A-24, em 13.06.13
O parlamento russo, ou a dúbia entidade proto-democrática que se assemelha a um parlamento na Rússia, votou massivamente (434-0) a favor de uma lei da autoria de Vladimir Putin que torna ilegal dizer às crianças que existem homossexuais ou tão simplesmente dizer que eles são idênticos, em matéria de direitos, aos heterossexuais. As consequências para tamanha desfaçatez serão coimas, prisão ou mesmo deportação da terra mãe. Nada que se compare, contudo, ao vil vitupério de uma sexualidade diferente.
Tal notícia só causará espanto aos mais incautos. É já uma tradição secular russa, bem executada durante a União Soviética, a de dar sumiço aos homossexuais. Como se torna difícil albergá-los a todos, opta-se pelo sumiço virtual. Orwell está mesmo em voga.

Será também curioso observar a reação (ou ausência dela) do PCP a esta notícia.

Mário Amorim Lopes n'O Insurgente

Perguntas que ninguém faz ao PC

por A-24, em 14.02.13

Entre 1900 e 1960, nasceram 2 biliões de seres humanos. Desses, 5%, ou seja, 100 milhões, foram mortos por regimes comunistas na URSS, na China, na Coreia do Norte, no Cambodja, no Afeganistão, no Vietname, na Europa Oriental, na Nicarágua, em Cuba, na Etiópia e Moçambique em purgas, fomes artificiais, destruição premeditada de grupos sociais, deslocação de populações, campos de trabalhos forçados, repressão policial, privação de assistência médica. Os horrores cometidos pelos nazis atingiram cifras impressionantes estimadas entre 7 e 12 milhões, perfazendo 10% das vítimas do comunismo. Moral e academicamente, é pertinente lavrar juízo sobre experiências políticas pela quantificação do mal que causaram - isto é, do sofrimento - assim como identificar as ideias, os programas e os homens que estiveram na origem de tais crimes, na larga panóplia de genocídios, democídios, classicídios, crimes contra a humanidade e terror de Estado.
O tema já foi tratado com propriedade por Steven Rosefielde, Robert Conquest, Anne Applebaum, Stéphane Courtois, Manus Midlarsky, entre outros, em estudos sérios, quantificados, alicerçados em aturado trabalho arquivístico, pelo que neles não há preconceito, propaganda, manipulação ou qualquer outro intuito que escape ao objectivo eminentemente científico da investigação académica. Os crimes cometidos em nome do regimes que se reivindicavam do marxismo-leninismo foram cometidos em tempo de paz; ou seja, foram executados em situação regular do exercício do Estado, sem a emergência de guerra interna ou externa que pudesse desencadear mecanismos de auto-defesa preventiva ou perda de controlo dos decisores superiores sobre os respectivos subordinados.
Afirmava na passada semana um deputado comunista que o actual governo é causador de infelicidade, desespero e fome. Estas acusações fazem amiúde parte do jargão das oposições. Porém, há que saber distinguir entre a decisão programática em executar políticas causadoras de mal-estar social e humano - consequência de orientações e, até, impostas pelas circunstâncias - e políticas cujos efeitos perversos são o fundamento do tipo de governança. Neste último caso, o exercício do poder contra as pessoas, silenciando-as, manietando-as, privando-as legal e socialmente de amparo, detendo-as, exterminando-as até, constituiu um programa e um método do exercício do poder. Os regimes comunistas fizeram-no durante décadas e a uma tal escala e similitude que ninguém minimamente honesto poderá contrariar. Entre nós persiste, lamentavelmente, um temor reverencial que impede que o tema dos muitos holocaustos comunistas sejam aflorados na disputa política. Estamos no último ano da evocação do genocídio dos ucranianos, que se saldou pela morte, entre 1932 e 33, de dez milhões de camponeses que se opunham à colectivização imposta por Moscovo. Que eu saiba, nenhum deputado da maioria pediu à Assembleia um voto de pesar lembrando essa tragédia da história contemporânea. Não há, nos grupos parlamentares do PSD e do CDS, ou até do PS, um só deputado que levante o debate?

Miguel Castelo Branco in Combustões

A ditadura de Cunhal

por A-24, em 08.12.12
Henrique Raposo

(...) Em 1958, o saudoso Victor Cunha Rego escreveu esta coisa sem importância: nos meios intelectuais, "o grupo comunista" exibia "um nítido desejo de que a era do dr. Salazar não atinja o seu termo". Cunha Rego deu assim a entender que o PCP necessitava de Salazar, e a seguir explicou porquê. Nessa explicação, Cunha Rego foi profético em relação às ambições do PCP: "da ditadura da extrema-direita à ditadura da extrema-esquerda vai o salto de uma cobra". Cunha Rego tinha razão. Durante o PREC, Cunhal tentou implementar uma ditadura comunista. Esse projecto foi derrotado. Mas a derrota da ditadura política de Cunhal não pode desviar a nossa atenção da ditadura cultural que o PCP impôs ao meio intelectual português durante décadas. E essa ditadura intelectual assentava numa chantagem mui simples: "se não estão connosco, estão com Salazar". Com raríssimas excepções, esta chantagem foi muito eficaz durante décadas, antes e depois do 25 de Abril.
Como já foi dito, poucos conseguiram furar este bloqueio comunista. Uma dessas excepções dá pelo nome de O Tempo e o Modo, a revista dos católicos progressistas, liderada por Alçada Baptista e João Bénard da Costa. Gerando enorme polémica nos meios intelectuais (sempre dominados pelo PCP), a O Tempo e o Modo desarmadilhou a chantagem do PCP. Bénard e Alçada protegeram os intelectuais que viviam encurralados entre as duas ditaduras, a ditadura política de Salazar e a ditadura intelectual de Cunhal. Nessa livre e frágil terra de ninguém, situada entre duas paredes autoritárias, a revista deu asas a figuras como Agustina, Sophia, Sena, Lourenço, etc., uma geração de intelectuais que, segundo Vasco Pulido Valente, "rejeitava simultaneamente a ditadura, o velho republicanismo jacobino e o PC". Por outras palavras, estes intelectuais recusaram submeter-se à chantagem do PCP. Como defensores da liberdade, sabiam que Cunhal era tão autoritário como Salazar.  pp. 197-199


O fascismo de Álvaro Cunhal continua vivo

por A-24, em 06.12.12

É sempre cómica a forma como o jornalismo português transforma um fascista vermelho num grande democrata. Ontem, uma jornalista até disse que "Cunhal sempre lutou por um partido livre e transparente". Um sujeito ouve isto e fica a pensar "mas ainda há células do PCP nas redações?". Meus amigos, Cunhal lutou toda a sua vida contra a democracia. Cunhal tinha uma concepção totalitária da política: só compreendia a linguagem da força, só aceitava um regime de partido único (o dele) e toda a sociedade, dos romances aos tampos das sanitas, tinha de obedecer a um plano central (o de Moscovo). Por outras palavras, Cunhal era fascista.
Antes de 1974, Cunhal fez a vida negra às oposições democráticas, porque o PCP não queria uma transição para a democracia. É ler Norton de Matos, Eduardo Lourenço, Sophia, Sousa Tavares, Alçada Baptista, Bénard, Cunha Leal. Todas estas figuras contestaram, ao mesmo tempo, Salazar e Cunhal. Nos anos 50, Cunha Leal e Norton de Matos afirmaram que Cunhal era pior do que Salazar. No final dos anos 60, Eduardo Lourenço declarou que a oposição democrática não podia dançar o tango com a oposição autoritária (o PCP), porque Cunhal era uma fotocópia de Salazar. Moral da história? Durante o Estado Novo, o grande alvo do PCP não foi Salazar, mas a restante oposição. Daí nasceu esta guerra civil entre as esquerdas (tornada explícita em 1975) e a ditadura intelectual do PCP junto dos meios jornalísticos e intelectuais. Algo que ainda perdura em reportagens que cantam loas a Cunhal em 2012.
Depois do 25 de Abril, Cunhal continuou a lutar contra a democracia. Em actos e palavras, Cunhal foi claro: Portugal não podia caminhar no sentido democrático. É por isso que o líder do PCP sempre desprezou os actos eleitorais. Cunhal passava a vida a dizer que a sua "maioria política" era mais importante do que as "maiorias aritméticas" das urnas. Ou seja, a violência da rua e dos militares do PCP eram mais importantes do que o respeito pelos processos democráticos. Em 2012, os jornais e TV estão cheias de pessoas a dizer que "ora, ora, com tanta manif na rua, o governo perdeu a legitimidade e deve cair". O fascismo de Cunhal continua vivinho da silva.
Henrique Raposo para o Expresso

Um país doente

por A-24, em 16.11.12

(artigo publicado hoje no Diário Económico)
Num momento de maior entusiasmo, Jerónimo de Sousa congratulou os participantes na greve de dia 14 pela “dimensão histórica” do evento. Segundo o líder do PCP, tal dimensão “exige que dela sejam retiradas todas as ilações políticas”. Para Arménio Carlos e a CGTP, a ilação a tirar é necessidade de outra política, e portanto, de outro Governo. “Só assim se pode mudar”, ouviu-se no discurso do “camarada Arménio”.
Quem tenha seguido as festividades pela televisão facilmente percebeu a mensagem que se quis passar. Entrevistada por uma repórter, uma manifestante dizia ser preciso “fazer-se uma revolução para mudar isto”. Mas, na realidade, a greve e o seu programa político são profundamente reaccionários: a última coisa que querem é “mudar”. A “perda de direitos” contra a qual se protesta não é mais do que o desfazer de uma ilusão, a de que poderíamos ter padrões de vida semelhantes aos dos mais desenvolvidos países europeus sem produzirmos a riqueza correspondente. O endividamento estatal não nos trouxe só auto-estradas, estádios de futebol vazios e aeroportos sem voos. Trouxe abundantes empregos na função pública, e fez com que se pudesse “oferecer” serviços “tendencialmente gratuitos” aos portugueses, permitindo-lhes utilizar uma parte do rendimento – que de outra forma não estaria disponível – para a aquisição de bens que alimentaram a fantasia de que Portugal era um “país como os outros”. Agora que falta dinheiro ao Estado, deixou de ser possível esconder que ele falta também a grande parte das pessoas. A política governamental é criticável, e poderia ser diferente. Mas, tivessem as opções concretas sido outras, uma perda significativa dos rendimentos e qualidade de vida dos portugueses não teria sido evitada, pela simples razão de que estes não eram sustentáveis.
No fundo, chegou a hora de acordar para a realidade. Com ela, serão notórias as dificuldades. O descontentamento manifestado na greve e nos protestos de dia 14 não é uma cura para a doença do país. É um sintoma.
Bruno Alves in O Insurgente

"Olha quem fala"

por A-24, em 22.10.12
O populismo só é bom se for comunista e se os visados forem outros partidos ou grupos económicoscapitalistas. Se o visado for o PCP - a redução para 180 deputados não interessa ao partido - nesse caso o populismo já é mau.
Jerónimo de Sousa parece não querer saber de um pequeno pormenor: independentemente do número de deputados, o PCP só terá os que os eleitores quiserem.