Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A-24

Podemos: o “populismo de esquerda” que emerge em Espanha

por A-24, em 26.11.14
Público


Chama-se Podemos — Yes we can — e foi a sensação das eleições europeias em Espanha. Formado há três meses, com um programa qualificado de “populismo de esquerda”, conquistou 1,2 milhões de votos (9,7%) e elegeu cinco eurodeputados — passa a ser a quarta força política espanhola. Tem um rosto: Pablo Iglesias, 35 anos, intelectual marxista, professor de Ciência Política na Universidade Complutense de Madrid e vedeta da televisão.


O seu sucesso assentou na mobilização do que resta do movimento dos “indignados” do 15-M (15 de Maio de 2011) e, sobretudo, na penetração no eleitorado socialista. Propõe-se “transformar a indignação em mudança política”. Mas Iglesias visa mais alto. Quer o voto daquela “gente humilde que historicamente depositou a sua confiança no PSOE e se sente muito decepcionada porque há uma distância enorme entre o que o PSOE propõe e o que depois faz”. Quer “reinventar a democracia e criar um processo constituinte”. Estas eleições confirmaram o desgaste dos grandes partidos, o PP e o PSOE, assim como o fim anunciado do bipartidarismo. É nesta brecha que Iglesias aposta.

Um ar populista
Dias antes da votação, interrogava-se no El País o politólogo José Ignacio Torreblanca: “Podemos é um partido populista?” Deixava a resposta em aberto. Sublinhava a ambiguidade do projecto. “Por um lado, Pablo Iglesias pede nada menos do que a derrogação do Tratado de Lisboa [de 2007], a saída do euro, a suspensão do pagamento da dívida (default), a nacionalização da banca e de quase todos os sectores estratégicos da economia. (...) Mas, ao derrogar o Tratado de Lisboa, não ficaria em vigor o Tratado de Maastricht, que é precisamente o que criou o euro? E a saída do euro? Suporia o regresso a uma peseta desvalorizada?”
Lendo o programa eleitoral do Podemos, “não aparece a palavra euro uma única vez”, nem se analisam as alternativas e as consequências sobre os espanhóis. “Qual é o verdadeiro programa? O do Podemos ou o de Pablo Iglesias? Qual deles é o populista?” Torreblanca pedia uma clarificação.
Numa entrevista na véspera da votação, Iglesias “arredondou” a resposta: “A recuperação da soberania na política monetária — que é o que propomos — implica a formulação de uma estratégia com outros países do Sul da Europa, que estão numa situação similar [à nossa]. O que é claro é que este euro não nos serve.” Saída do euro? “É um cenário de ficção política.” O que interessa é a reestruturação da dívida.”
A campanha eleitoral passou ao lado do euro e concentrou-se noutros temas: denúncia da corrupção e da “casta” política, crescimento, emprego, reestruturação da dívida pública “ilegítima”, fim dos despejos de casas, proibição de deslocalizações para fora da Europa. “O debate não é entre esquerda e direita mas entre a casta política e os cidadãos”, proclamava Iglesias. Outro tema foi o ataque cerrado a Merkel: “Não podemos ser uma colónia da Alemanha”; ou “os alemães querem fazer de nós os seus criados.
Falando numa “política do futuro”, Iglesias evocava também a Revolução Francesa: “A Europa é governada por absolutistas, e nós vamos ser os seussans-cullottes.”

“El Gato al agua”
Pablo Iglesias não tem este nome por acaso: é uma homenagem ao Pablo Iglesias fundador do PSOE, em 1879. Militou nas Juventudes Comunistas entre os 14 e os 21 anos. Passou depois pelos movimentos alternativos e antiglobalização. Estudou o movimento zapatista. Doutorou-se em Direito e Ciência Política na Complutense.
Lançou-se numa carreira mediática, primeiro em canais de baixa audiência, onde foi comentador, apresentador, entrevistador. Procurava novas formas de comunicação política, disse ao El País. As grandes estações de televisão começaram a sentir-se atraídas pelas opiniões dos que participavam nessas tertúlias — os programas de debate político na Espanha.
“A chave das tertúlias — explica Iglesias ao El Confidencial — é que são os espaços mais poderosos de combate político. É mais importante o que se discute nas tertúlias do que o que se debate no Parlamento. A maioria das pessoas forma a sua opinião a partir do que ouve na televisão. (...) E a crise politizou muito a sociedade.
Sintetiza o El Mundo: “O 25 de Abril de 2013 foi o dia em que começou a mudar a política espanhola sem que ninguém desse conta.” Nessa noite, Iglesias foi convidado como “tertuliano” no programa ‘El Gato al agua’ da televisão (conservadora) Intereconomia. Bastou uma aparição para que todos os canais se batessem por o ter o “tertuliano rojo” nos seus debates. Treze meses depois, converte-se na grande revelação eleitoral e faz uma “entrada triunfal na esfera do poder”.

“Leninismo digital”
“Tanto a ascensão de Marine Le Pen em França como a surpresa espanhola do Podemos são sintomas do mesmo descontentamento”, anota o jornalista e escritor Juan Soto Ivars. “E partilham muito mais do que a ambos agradaria.”
Enric Juliana, do La Vanguardia, faz uma análise irónica do fenómeno: “Um intelectual marxista que saltou dos livros para o plasma, infiltrando-se nas tertúlias mais ruidosas com a astúcia de um bochevique do soviete de Petrogrado”.
“Enquanto a Esquerda Unida permanece nas mãos da velha guarda comunista (...) o círculo de leitores de Slavoj Zizek [filósofo marxista esloveno) idealizava o partido de novo tipo. O Partido da indignação. O partido da raiva social. O Podemos é leninismo digital.”
“Deixaram perplexo o PSOE e deram uma alegria ao PP”. Confessou ao La Vanguardia um alto dirigente popular: “Tivemos sorte por o Podemos ter capitalizado boa parte do voto de protesto; sem o Podemos, o PSOE podia ter-nos ganho as eleições.”

Real Madrid vs. Barcelona e o poder de 400 milhões

por A-24, em 06.11.14
Via Malomil

A primeira reacção ao resultado do clássico entre o Real Madrid só pode ser … Olé! As razões para vermos este clássico eram muitas. E entre o melhor ataque e a melhor da Liga Espanhola … a vitória do ataque da capital espanhola foi inequívoca.



Carlo Ancelotti calou os críticos e o mesmo pode dizer … Iker Casillas. Eu diria que o momento-chave do jogo foi a defesa do capitão Casillas de um golo quase certo de Leo Messi que teria dado ao Barcelona o 2-0. Mais do que Ronaldo, que marcou de forma impecável o penálti que deu o primeiro golo ao Real Madrid, o que sobressaiu nesta equipa foi justamente o colectivo e o contributo de outras estrelas como Benzema e James. E talvez o terceiro golo simbolize justamente a articulação de uma equipa que vinha sendo criticada neste início de época por ser «apenas» um conjunto de estrelas galácticas. Será difícil fazer esquecer dois jogadores fabulosos como Xabi Alonso e Di Maria mas Carlo Ancelotti tem com esta vitória o caminho mais facilitado para impor as suas ideias num clube que não tem uma estrutura dirigente e massa associativa fácil.
E do lado catalão? Cláudio Bravo foi finalmente batido e por três vezes, Messi não brilhou e Telmo Zarra continua ainda a ser o recordista dos golos na Liga espanhola e o «tridente» deu… um ar da sua graça. Foi dos pés do uruguaio Luís Suárez que saiu o passe para o golo de Neymar. Há quem diga que o Clássico foi «muito cedo» para um jogador que regressa agora aos relvados. Foi uma opção arriscada e Luis Enrique assumiu-a sem complexos mesmo na conferência de imprensa depois do jogo. Diria que este tridente sul-americano vai dar muito que falar tendo em conta a já evidente parceria entre Messi e Neymar e a extraordinária qualidade de Suárez, um jogador com um «instinto assassino» no que toca a golos. Mas foi a opção pelo meio-campo «da casa» que se revelou desastrosa tendo em conta a exibição apagada de Iniesta-Xavi-Busquets. Foi surpreendente Rakitic ter começado o jogo no banco… Depois da derrota em Paris e agora esta em Madrid há quem comece a questionar a capacidade do Barcelona de ganhar «jogos grandes». Luis Enrique não encontrou ainda o seu Barcelona e está agora mais pressionado para fazê-lo. Será fundamental vencer o PSG no dia 10 de Dezembro e o Atlético de Madrid a 10 de Janeiro em Camp Nou.
Para além do jogo há outro aspecto igualmente extraordinário: o «fenómeno mediático global». Este clássico foi transmitido para mais de 100 países e foi visto por 400 milhões de espectadores. Sim, eu repito: 400 milhões. Como explicar este número? Em primeiro lugar estamos a falar dos dois clubes mais valiososdo futebol mundial. De acordo com a Revista Forbes a instituição desportiva mais valiosa do mundo é o Real Madrid com 3440 milhões de dólares, seguido de perto pelo Barcelona com 3200. Depois temos o Manchester United, o Bayern de Munique e … a equipa de basebol dos New York Yankees.


Esta magnitude financeira do Barcelona e do Real Madrid está evidentemente ligada à popularidade do futebol a nível global mas em particular à mediatização da Liga Espanhola. E o que tem o futebol espanhol de tão especial? Penso que para respondermos a esta pergunta temos de olhar para os ingredientes de uma rivalidade a vários níveis e também para o sucesso do Barcelona na formação de talentos espanhóise a sua afirmação enquanto potência europeia.
A rivalidade desportiva entre o Barcelona e o Real Madrid é um espelho das tensões políticas e da história da própria Espanha. Hoje em dia, a questão da independência catalã está na ordem do dia como atesta a controvérsia à volta do referendo, agora inviabilizado pelo Tribunal Constitucional e transformado em consulta popular, do próximo dia 9 de Novembro. Para percebermos melhor o contexto desta questão temos que recuar no tempo. A Catalunha tem uma história multisecular enquanto entidade política e cultural tendo sido absorvida no século XV através do casamento de Fernando de Aragão com Isabel de Castela. A forte tradição de autonomia política e, paralelamente, a manutenção de uma identidade cultural e linguística própria fizeram da Catalunha uma dor de cabeça para os vários reis espanhóis. Foi justamente a uma das suas revoltas que os portugueses devem, em grande parte, a restauração da sua independência em 1640. A esta forte identidade histórica temos que juntar o período franquista para podermos compreender o impacto da rivalidade entre os dois grandes clubes espanhóis.

Franco não foi diferente de outros ditadores e considerou o futebol fundamental para o triunfo do seu regime quer interna quer externamente, um tema ao qual voltarei mais tarde. Do ponto de vista interno associou o projecto de centralização política a um clube da capital: o Real Madrid. Ao longo dos anos promoveu de forma consistente este clube como exemplo do que a sua Espanha deveria ser em detrimento de outros como, por exemplo, os bascos do Athletic e os catalães do Barcelona. Esta abordagem reflectia a opressão intransigente dos vários símbolos regionais e a supremacia do castelhano enquanto língua. O sucesso do Real Madrid a nível externo com a conquista das cinco primeiras Taças dos Clubes Campeões Europeus (que em 1992/93 deu origem à Liga dos Campões) deu a Franco uma ajuda importante no combate à marginalização política do seu regime. Esta foi a equipa do fabuloso Di Stéfano e de jogadores não menos fabulosos que Puskás.
No entanto, ao trazer o futebol para o domínio da política Franco acabou por reforçar justamente o papel de clubes como o Barcelona enquanto símbolos. Dito de outra forma o Barcelona passou realmente a ser «mais do que um clube»: representante da Catalunha e da resistência à ditadura.


Com a morte de Franco uma das questões mais complexas da democracia espanhola foi como lidar com a questão regional. Na tentativa de agradar a todos a Constituição de 1978 acabou por consagrar a existência da nação espanhola e de «nacionalidades». Nas décadas seguintes a Catalunha manteve o seu desenvolvimento económico ao mesmo tempo que reforçou as suas tradições e a língua catalã. A Catalunha é uma região rica em Espanha e ao mesmo tempo orgulhosa da sua história. Se tivesse que escolher os melhores símbolos desta dupla condição optaria pela organização dos Jogos Olímpicos em 1992 e FC Barcelona.

É neste contexto que o sucesso do Barcelona é particularmente relevante. Em primeiro lugar a nível europeu com a conquista da sua primeira «Liga dos Campões» em 1991/1992 sob a liderança de Johan Cruyff, em 2005/2006 com Frank Rijkaard e as duas de Guardiola em 2008/2009 e 2010/2011. Paralelamente, o Real Madrid depois de 32 anos de jejum desde 1966 conquistou o «Olimpo» em 1997/1998 e depois em 1999/2000, 2001/2002 e no último ano a sua Décima. Ao longo destes tempos a rivalidade foi subindo de tom. Ainda me lembro como se fosse hoje do barulho ensurdecedor ao som de pesetero com que Luís Figo foi recebido em Barcelona enquanto jogador do … Real Madrid.
Mas foi a equipa do Barcelona a coluna vertebral da selecção espanhola que nos deu seis anos de futebol de outro mundo e que se sagrou campeã da Europa em 2008 e 2012 e Campeã do Mundo em 2010 na Africa do Sul. Não quero reduzir a aposta estratégica da Federação Espanhola na formação de jovens e a sua ligação aos clubes ao Barcelona mas, sem dúvida, que nesta matéria La Masia é a rainha das academias. São muitos os jogadores espanhóis que de lá saíram e (continuam a sair): Cesc Fabregas, Pedro Rodriguez, Victor Valdes, Gerard Pique, Sergio Busquets, Carles Puyol e, em especial, Andrés Iniesta e Xavi Hernandez. Estes dois médios entraram respectivamente aos 12 e aos 10 anos na academia do Barcelona. Deste modo, a aposta na formação de talentos espanhóis pelo Barcelona beneficiou e muito a selecção espanhola e foi uma peça importante na popularidade do futebol espanhol e da sua liga.
Há ainda um factor final à rivalidade entre o Real Madrid e o Barcelona: a «luta» entre Cristiano Ronaldo e Lionel Messi. O percurso de ambos foi diferente. O argentino Leo Messi é um produto La Masia onde chegou aos 13 anos enquanto Cristiano Ronaldo chegou a Madrid em 2009. O percurso notável do número 7 madridista e o numero 10 culétornou-os símbolos do Real Madrid e Barcelona e ingredientes cruciais para a rivalidade mais mediática do mundo.

Raquel Vaz-Pinto

Podemos… Ser Levados A Sério?

por A-24, em 05.11.14
João Cortez

Neste post, são apresentadas algumas ideias peregrinas do programa do Podemos que está à frente nas sondagens de intenção de voto em Espanha:

Reducción de la jornada laboral a 35 horas semanales y de la edad de
jubilación a 60 años, como mecanismos para redistribuir equitativamente el
trabajo y la riqueza, favoreciendo la conciliación familiar. Prohibición de los
despidos en empresas con benefcios.

Recuperación del control público en los sectores estratégicos de la economía:
telecomunicaciones, energía, alimentación, transporte, sanitario, farmacéutico 
y educativo, mediante la adquisición pública de una parte de los mismos, que
garantice una participación mayoritaria pública en sus consejos de
administración y/o creación de empresas estatales que suministren estos
servicios de forma universal.

Derecho a una renta básica para todos y cada uno de los ciudadanos por el
mero hecho de serlo y, como mínimo, del valor correspondiente al umbral de la
pobreza con el fn de posibilitar un nivel de vida digno. La renta básica no
reemplaza al Estado de bienestar, sino que trata de adaptarlo a la nueva
realidad socio-económica.

Moratoria de la deuda hipotecaria sobre primeras viviendas de las familias con difcultades para afrontar el pago de los préstamos, y cancelación inmediata de la misma en los casos en que haya prácticas fraudulentas o conprobada mala fe por parte de las entidades fnancieras.[...]Paralización inmediata de todos los desahucios de primeras viviendas y de locales de pequeños empresarios. 

Derogación del Tratado de Lisboa con el fin de que los servicios públicos no
estén sometidos al principio de competencia ni puedan ser mercantilizados,
del mismo modo que todos aquellos que han construído la Europa neoliberal y
antidemocrática;

Fin del uso de los Memorándums de Entendimiento. Establecimiento de
criterios de democratización, transparencia y rendición de cuentas para todos
los procesos de toma de macro-decisiones en el ámbito de las políticas
económicas.

Gastos salariais na Liga Espanhola (2014/2015)

por A-24, em 22.09.14

Criminalização de sem-abrigo avança pela Europa

por A-24, em 28.07.14
Público

A penalização da mendicidade na Noruega é o derradeiro exemplo de uma tendência para aprovar leis, regulamentos ou medidas que dificultam a vida de quem dorme nas ruas da Europa. Ao mesmo tempo, há tentativas de integrar os sem-abrigo. Diversos países delinearam estratégias, como Portugal.

Com a crise a semear pobreza, há cada vez mais gente sem casa pela Europa. Alguns descobrem que as acções mais corriqueiras na rua podem resultar numa sanção penal. O último exemplo vem da Noruega. Este Verão os seus municípios voltam a poder banir a mendicidade.
A Federação Europeia de Organizações Nacionais Que Trabalham com Sem-abrigo (FEANTSA) tem manifestado "preocupação" pelo modo como, em diversos pontos da Europa, se tem optado por "medidas repressivas". Em 2012, aliou-se à Housing Rights Watch e à Fondation Abbé Pierre para produzir o primeiro relatório sobre "a criminalização dos sem-abrigo na Europa".
No Sul e no Norte, no Ocidente e no Oriente, regiões e municípios têm avançado com regulamentos e medidas que dificultam o dia-a-dia de quem sobrevive nas ruas, diz Freek Spinnewijn, director da FEANTSA, ao PÚBLICO. Proíbem actos como deitar-se, dormir, comer ou guardar pertences pessoais no espaço público, mendigar, distribuir comida ou recolher lixo dos contentores.
A tendência vem dos Estados Unidos, com tradição de "lei e ordem" baseada em políticas como a "tolerância zero". Antes os sem-abrigo não faziam parte da chamada "população perigosa". Esse lugar pertencia aos ciganos e, na Irlanda e no Reino Unido, aos travellers. Com o aumento de estrangeiros entre os sem-abrigo, alguns tornaram-se "vítimas" de leis e regulamentos que punem o suposto risco de crime.
A Freek Spinnewijn a Noruega parece um caso "interessante". Tem um Estado social forte e um conjunto de leis progressistas. Os noruegueses não serão tão afectados pela proibição de mendigar. A medida, anunciada com a promessa de mais apoio à reinserção de toxicodependentes e expansão da habitação social, recairá mais sobre os estrangeiros indocumentados, em particular sobre os de origem cigana saídos da Roménia, da Bulgária e da Hungria.

Escalada na Hungria
Nenhum lugar preocupa tanto Freek Spinnewijn como a Hungria. Desde meados dos anos 2000 que as autoridades locais criminalizam a chamada "mendicidade silenciosa". E já então era proibido mendigar na companhia de crianças ou de forma "agressiva". A partir de 2010, com a subida da extrema-direita ao poder, o país começou a escalada para a criminalização dos sem-abrigo.
Primeiro, o Parlamento húngaro aprovou a lei que permite atribuir funções específicas ao espaço público e proibir quaisquer outras. Depois, Budapeste interditou o uso do espaço público para morar. Volvidos uns meses, o Parlamento decidiu punir com 60 dias de prisão ou 530 euros de multa quem, durante seis meses, por duas vezes violasse qualquer proibição de dormir no espaço público. Mais um mês e estava a proibir dormir no espaço público em todo o país.
"A criminalização dos sem-abrigo pode ter o perigoso efeito secundário de forçar as pessoas a procurarem lugares mais escondidos, onde é mais difícil receber a ajuda — amiúde vital — de cidadãos preocupados ou o acompanhamento de técnicos que se deslocam ao terreno", sustentou Balint Misetics, professor no Colégio de Estudos Avançados em Teoria Social, no referido relatório.
"A Hungria choca mais porque não teve o cuidado de esconder o que está a fazer e fá-lo a um nível nacional", considera Freek Spinnewijn. "Noutros países europeus, isso tem estado a acontecer de uma forma mais subtil, por vezes quase invisível, e a um nível das regiões ou dos municípios."
Cory Potts, criminologista da FEANTSA, e Lucie Martin, socióloga da Diagénes, pegam no caso da Bélgica para mostrar como tudo pode começar com sanções administrativas e acabar em prisão. Veja-se o caso de Liège. De acordo com o regulamento aprovado em 2011, mendigar é permitido entre as 8h e as 17h de segunda a sexta e das 7h às 12h de domingo; não podem estar mais de quatro mendigos numa rua; não se pode mendigar em cruzamentos, nem em entradas de edifícios públicos, empresas, casas. Desde 2012, quem desrespeita as regras cai na alçada da polícia. Na primeira vez, um aviso; na segunda, uma intervenção do serviço social; na terceira, detenção.
Os sem-abrigo não desapareceram da cidade. Há zonas de tolerância. Cory Potts e Lucie Martin temem que essa tolerância esteja ameaçada. Proliferam os locais "semipúblicos", o que abre caminho a novas restrições. E a requalificação que se vai fazendo vai tornando os sítios mais "defensivos". Basta colocar barreiras nos bancos públicos para impedir as pessoas de se deitarem neles, por exemplo.

Punir comportamentos
Há exemplos anteriores à crise que começou nos EUA em 2008 e se estendeu à Europa. A Câmara de Barcelona é emblemática: em 2005, optou por punir comportamentos que considera anticívicos, como vomitar, urinar, defecar, cuspir, pintar graffiti, mendigar na rua, exercer a prostituição ou fazer venda ambulante, com multas que oscilam entre 120 e os três mil euros.
No ano passado, a Câmara de Madrid aprovou um modelo mais duro: punir com multa de 750 a três mil euros quem pedir esmola à porta de um centro comercial, acampe, faça malabarismos ou solicite serviços sexuais no espaço públicos, cuspa ou atire papéis para o chão, ofereça folhetos nos semáforos; perturbe os vizinhos, enquanto rega as plantas; alimente ou dê banho a cães na rua.
Em Itália, os exemplos multiplicam-se. Logo em 2008, a Câmara de Roma decidiu castigar com multas de 50 a 150 euros quem se pusesse a comer ou a beber, a cantar, a fazer barulho ou a dormir no centro histórico ou mesmo fora dele, se junto a monumentos. Também decretou que não se pode mendigar, nem vender flores ou outros pequenos objectos, a menos que se tenha licença.
Verona foi mais longe. A câmara resolveu passar multas de 25 a 500 euros a quem alimentar sem-abrigo. O presidente, Flavio Tosi, eleito pelo partido de extrema-direita anti-imigração Liga do Norte, diz que o objectivo é promover "a higiene" e "a imagem pública da cidade".
Tudo isto, na opinião de Freek Spinnewijn, reflecte ignorância e sensação de impotência. "Ser sem- abrigo não é uma escolha individual, é o resultado de uma série de desvantagens", sublinha. "Tornar a vida destas pessoas mais difícil não resolve o problema. As pessoas podem ficar menos visíveis, mas continuam lá."
Havia complacência, corrobora Sérgio Aires, presidente da Rede Europeia Anti-pobreza. Pensava-se os sem-abrigo como pessoas com problemas de saúde mental, dependência de bebidas alcoólicas ou drogas ilícitas. Essa ideia é mais redutora do que nunca. Muita gente tem perdido a casa com a crise.
Sérgio Aires lê nas leis, regulamentos e medidas que dificultam a vida dos sem-abrigo uma "intolerância para com os pobres" que lhe parece "estranha". As pessoas que estão a chegar às ruas são "mais parecidas com o cidadão comum". Muitas vezes tinham vidas integradas até perderem o emprego.
O fenómeno está na agenda europeia. Há meia dúzia de anos que a União instiga os Estados-membros a investirem na integração das pessoas sem-abrigo.
Diferentes países adoptaram estratégias para reduzir o número de pessoas a dormir nas ruas. Alguns optaram por abordagens mais baseadas na lógica "casa primeiro", como a Suécia, a Finlândia e a Dinamarca. Outros, apesar de considerarem isso importante, falam em aumentar a qualidade da rede de albergues e de serviços de apoio à habitação, como os Países Baixos, a França e Portugal.

Regras portuguesas
"Portugal não tem orçamento", comenta Freek Spinnewijn. Apesar disso, o país cabe no rol de exemplos positivos. "Tem uma estratégia nacional. Ainda está no papel, mas tê-la já é um princípio."
Segunda a Estratégia Nacional para a Integração de Pessoas Sem Abrigo, aprovada em Portugal em 2009, ninguém deve permanecer na rua mais de 24 horas, a menos que seja essa a sua vontade. Existiriam centros de emergência — estruturas de resposta imediata, das quais se sairia, com um diagnóstico feito, para alojamento temporário ou permanente. Em lado algum foram criados.
A estratégia aponta para a organização local. Sempre que o número de sem-abrigo justifique, deve constituir-se um Núcleo de Planeamento, Intervenção a Sem-Abrigo e delinear-se um conjunto de respostas integradas. "Vai funcionando no Porto", afiança Sérgio Aires. Em Lisboa não tanto. Tenta-se agora reactivá-la. "Há muita coisa a acontecer e essa não é uma das prioridades." Congratula-se por não haver em Portugal a intolerância de outros países. Nem um clima rigoroso.
No ano passado, pelo menos 4420 pessoas viviam em jardins, estações de metro ou camionagem, paragens de autocarro, estacionamentos, passeios, viadutos, pontes e abrigos de emergência de Portugal. O número peca por defeito. Corresponde às pessoas acompanhadas no âmbito da Estratégia.
Os técnicos encontram resistência entre alguns sem-abrigo. Os albergues não permitem animais. Nem deixam entrar quem emite sinais de estar de consciência alterada. Têm rigorosos horários de entrada e saída. As pessoas têm de sair e de voltar cedo. São forçadas a passar o dia na rua. E, na maior parte das vezes, não têm privacidade no albergue. Mesmo assim os que existem não chegam para as encomendas. A Segurança Social recorre então a pensões, amiúde, de baixíssima qualidade.
"Aquelas pessoas querem viver numa casa, como as outras, mas precisam de algum apoio para isso", diz Freek Spinnewijn. Alargar o mercado social de arrendamento parece-lhe a melhor hipótese. "Em muitos países, o Estado e a Igreja e outras organizações têm inúmeras casas vazias."
Há uns meses, o diário britânico The Guardian fez as contas: na Europa existem umas 11 milhões de casas vazias e uns 4,1 milhões de sem-abrigo. Em Portugal a desproporção também é grande 4420 sem-abrigo e, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), 735 mil casas vazias.
O exemplo de Portugal pode ajudar a perceber o quão inalcançável pode ser uma casa. O preço das rendas permanece alto para quem recebe 179 euros de rendimento social de inserção ou 235 euros de pensão social, como já explicou ao PÚBLICO Henrique Pinto, director da Cais.
Sérgio Aires também faz a defesa das bolsas de habitação. Não a construção de bairros, modelo que criou não lugares por toda a Europa, mas a recuperação de casas situadas em ruas comuns, "com dignidade, a custos controlados". Na certeza de que tal não será solução para todos.

A vontade de uns poucos galegos

por A-24, em 16.07.14

vontade de uns poucos galegos

04 Julho 2014 – por 



O anúncio foi feito pelo presidente da Generalitat da Catalunha, Artur Mas. A data para o referendo e a pergunta estavam escolhidas: “Quer que a Catalunha seja um Estado?” Na reação, Mariano Rajoy, o primeiro-ministro de Espanha, afirmou que este referendo “é inconstitucional e não se vai realizar.” 
Para já, ainda faltam mais de três meses e o referendo continua com data marcada para 9 de novembro. O País Basco segue de perto todas as novidades, querem ser a seguir. E ao longe, alguns galegos esfregam as mãos. São poucos, mas acreditam que se a Catalunha se tornar independente, podem vir a receber o impulso por que ansiavam para reacender a nacionalismo galego. Falam da opressão durante a ditadura de Franco, do “imperialismo” económico de Espanha e do direito à auto-determinação. Queixam-se de serem perseguidos, de serem acusados de terrorismo. 
Em 50 anos de atividade política, o BNG nunca teve mais do que dois deputados no parlamento espanhol. “O nacionalismo galego é muito limitado” 
Em 1964, com o nascimento do partido político de extrema-esquerda Bloco Nacionalista Galego (BNG), surgiram os primeiros nacionalismos na Galiza. Contudo, “nunca expressaram claramente a intenção de ser independentistas”, conta Manuel Marquez, especialista na Transição Democrática espanhola da Universidade Complutense de Madrid. 
Em 50 anos de atividade política, o BNG nunca teve mais do que dois deputados no parlamento espanhol. “O nacionalismo galego é muito limitado”, explica. Há quatro anos, o BNG saiu do grupo parlamentar de que fazia parte e perdeu ainda mais relevância. Na Galiza, sobraram outros partidos, movimentos, mais pequenos, “quase insignificantes”. É fácil encontra-los nas paredes de Vigo. Os Cartazes e graffittties destes movimentos minoritários, estão em todo o lado. O Observador foi à procura dos independentistas galegos. 

NA GALIZA,“SER INDEPENDENTISTA É DE POBRE” 
Nos jardins da praça de Compostela, em Vigo, está a decorrer uma sessão popular do Podemos, o terramoto político encabeçado pelo académico Pablo Iglesias que aconteceu nas eleições para o Parlamento Europeu. Semanas depois da surpresa eleitoral, os deputados locais promovem uma sessão para criarem “círculos de contactos e ajuda” na comunidade local. 
Mas Daniel não é tão otimista ao ponto de achar que a Galiza podia sobreviver sozinha. “Como país independente íamos ter pouca força. Não temos uma grande indústria, nem somos uma comunidade com muita força económica”, confessa. 
Daniel Iglesias, 20 anos, estudante de ciências e tecnologia, anda de um lado para o outro a distribuir panfletos do partido. “Crescer na Galiza é muito complicado, não temos quase nenhumas oportunidades”, conta o jovem, lembrando que essa foi uma das razões pelas quais se juntou ao Podemos. “Nós [galegos] sempre estivemos um pouco isolados de Espanha”, conta. 
Tal como o País Basco e a Catalunha, a Galiza tem uma cultura e língua própria, sendo que ambos aspectos foram muito atacados durante os anos da ditadura de Franco. “Proibiu-nos de falar galego”, lembra Daniel. Esta é uma das razões que ainda hoje leva muitos dos amigos de Daniel a juntarem-se à causa independentista. “Eles não se revêem como espanhóis.” Mas Daniel não é tão otimista ao ponto de achar que a Galiza podia sobreviver sozinha. “Como país independente íamos ter pouca força. Não temos uma grande indústria, nem somos uma comunidade com muita força económica”, confessa. 
Tânia Reicha, que andava a passear no parque, também tem memórias do franquismo. Quando andava na escola, tinha vergonha de falar galego, lembra. Em casa, não se podia falar de política. “Não se pode esquecer isto”, diz a realizadora de televisão com 39 anos. Esquecer o que foi tão duro para a família, as dificuldades que passaram por manter uma identidade cultural. Mas a imagem que tem hoje de Espanha não é melhor: “É horrível. Notam-se resquícios do franquismo. E os jovens nem sabem quem ele foi!”, acusa, tendo por base a experiência de percorrer o país em trabalho. 
Para a realizadora, quem podia lutar pela cultura galega não está presente. “Estão em Madrid, na Catalunha, em qualquer lugar”, diz, ao falar dos jovens. A grande maioria da população galega é idosa, não tem força para lutar pelo independentismo. “A direita comprou os votos aos pobres e velhos”, acusa. E o que se está a passar na Catalunha é um espelho para os galegos. “A Catalunha consegue sobreviver sozinha. Tem uma economia capaz disso.” 
“Preparei alguns cocktails molotov”, conta, como se fosse algo normal de fazer perante a situação que enfrentava. “Consideramos [militantes do NOS] que todos os métodos de luta são válidos para alcançarmos o nosso propósito de ter a nossa nação” 
Consegue imaginar a Galiza independente? “Não, nunca. Se a juventude voltasse para aqui, lutar pela nossa história, seria fantástico. Mas não consigo imaginar.” 

UM CAFÉ COM “TRÊS REVOLUCIONÁRIOS” 

Um homem barrigudo de polo vermelho, meio desajeitado ao andar, aparece ao virar da esquina da praça do Sol. Aproxima-se a sorrir. Pede, de forma simpática, companhia até um café mais recatado, “menos central”. Telmo Varela, 59 anos, está desempregado, e é membro do NOS – Unidade Popular, um partido político que aglomera movimentos independentistas da Galiza. Numa mesa de esplanada de um café, esperavam Lucia Liros, militante da Briga, acção juvenil da esquerda independentista, e Lara González, responsável pelo movimento feminista dentro do NOS. Os três, que se autodenominam revolucionários, pediram para beber café com leite. 
Telmo é um ex-electricista do sector naval. Em 2010, quando os estaleiros de Vigo sofreram imensos cortes e reduziram a sua produção, revoltou-se. “Preparei alguns cocktails molotov”, conta, como se fosse algo normal de fazer perante a situação que enfrentava. “Consideramos [militantes do NOS] que todos os métodos de luta são válidos para alcançarmos o nosso propósito de ter a nossa nação”, afirma. À custa dos cocktails molotov, Telmo esteve preso durante dois anos, sob acusação de terrorismo – nunca os chegou a utilizar. Mas para ele, foi tudo uma conspiração por ele ser independentista. “Na cadeia nunca te dizem que te metem lá por ideias políticas”, afirma. 

Telmo mostra-se revoltado, com as veias empoladas, pouco sorridente. “Existem presos políticos bascos. Existem presos políticos catalães. E existem presos políticos galegos. Porquê? Somos as três nações que estão oprimidas pelo Estado espanhol”, afirma de forma convicta. Bebe um pouco do café e acrescenta: “No tempo de Franco, ao menos, era às claras.” 
Lara e Lucia têm uma história semelhante, ambas imigraram aos 18 anos para Madrid. Na capital descobriram o que realmente eram: galegas, não espanholas. “Somos culturas totalmente diferentes”, diz Lara. Não gostaram da forma como eram tratadas, da língua, das frases feitas sobre o que “é ser galego”. Na perspectiva estudantil de Lucia, “o imperialismo espanhol” faz com que os jovens emigrem e sejam precários. O ensino também não ajuda. “É mais fácil um aluno saber um rio da Catalunha que da Galiza”, critica. 
Está montado um palco na praça do Sol, ao fundo da Rua do Príncipe, em Vigo. Vão atuar as “Tetas band” que tocam “punk clitoriano”. Pelo menos, é o que anunciam em palco. 

Lara, que cresceu já numa família independentista, está mais ligada às questões de género. Tem tatuado no ombro do braço esquerdo uma mulher guerrilheira, que tem escrito nos contornos: “Mulher bonita é a que melhor luta.” A feminista acredita que é possível “educar os galegos de modo a tornar a Galiza economicamente viável”. 

Há pouco mais de um mês, segundo Lara, começou em Compostela o julgamento de “12 militantes do soberania deste país [Galiza]”, por “simplesmente terem saído às ruas em 2008, no dia 8 de fevereiro. Estão a ser julgados com penas cumulativas de 45 anos de prisão e a 30 mil euros de multas. Lara parece desiludida ao contar todos estes detalhes. “Vejo Espanha como uma realidade que não existe. Com uma falsa transição da ditadura para esta pseudo-democracia”, afirma. 

UMA REPÚBLICA “FEMINISTA” 

Está montado um palco na praça do Sol, ao fundo da Rua do Príncipe, em Vigo. Vão atuar as “Tetas band” que tocam “punk clitoriano”. Pelo menos, é o que anunciam em palco. Naquele domingo, ocorreram manifestações por toda a Espanha contra a possibilidade de “mudanças à lei do aborto.” 
Perecia Orquico, 57 anos, aparece em passo de corrida, em direção ao palco, ao mesmo tempo que passeia o cão. Parecia fala português fluente. Em 1988, esteve em Lisboa, na escola de saúde pública. “Desde que tenho 17 anos que decidi ser nacionalista. O independentismo não deixa de ser mais um capítulo do nacionalismo”, confessa. 
Os pais de Pericia são originários da Catalunha e mudaram-se para a Galiza para fugirem de “represálias dos fascistas”. “O meu pai tinha lutado pelos republicanos”, conta. Quanto à hipótese da Galiza vir a ser independente em breve, Pericia acha que a ideia é boa “como horizonte”, mas não acredita que seja este o momento. 
Não muito longe do palco, estão dois jovens sentados no chão à espera do concerto. Olaia Barro, 31 anos, e António Peleteiro, 29 anos, falam em consonância, quando dizem que se sentem galegos. Mas têm dúvidas quanto ao movimento independentista.“Não sei se é muito numeroso ou não, mas se eles acham que conseguem…”, diz Olaia. António interrompe e acrescenta: “Acham que são capazes de não se insubordinarem às decisões económicas que acontecem em Madrid.” É na economia que todos os galegos encontram o maior ponto fraco do movimentos independentista e maior diferença com a Catalunha. É isto que Olaia e António lembram. Os principais problemas estão na forma como é gerida a energia éolica na região e a questão das pescas — que ficou “profundamente afectada” com o incidente com o derrame de petróleo do navio Prestige na costa da Galiza, que também afectou Portugal. 
António acha que os galegos deviam ter a oportunidade de decidir. “A partir daí, já é bastante.” Olaia não pára para pensar: “Tal como as mulheres devem ter o direito de abortar livremente, também acho que as pessoas e povos devem ter o direito de decidir o que querem fazer e ser.” Olaia pára um pouco para pensar e diz: “Posso dizer uma coisa que me lembrei? Acho que o movimento independentista está a aumentar, porque está a ser mais perseguido. Estão a inventar-se terroristas… Todos aqueles que agora sejam independentistas ou nacionalistas, são terroristas. O que está a fazer com que o povo una-se mais.” 

UM LÍDER PRECAVIDO 
Carlos Moraes, dirigente do NOS – Unidade Popular, tem um brinco na orelha direita com forma de estrela, a mesma estrela que aparece nas bandeiras independentistas da Galiza. Chamá-lo de espanhol seria um insulto. “Sou espanhol por imperativo legal. Mas o que eu sou é galego. Quando falo do meu país, falo da Galiza.” Até quando voa para fora do país, opta por voar de Lisboa. O encontro é num café de um dos bairros periféricos de Vigo. 
E quanto à perseguição aos independentistas? “Ainda ontem prenderam a Maria Osorio López, uma camarada da nossa luta, sob acusação de ser terrorista.” Maria López, membro da resistência Galega, era procurada por fabricar explosivos e falsificação de documentos. 
O NOS nasceu em 2001, com o objectivo de agregar todos os movimentos de esquerda independentista que existem na Galiza. Carlos tira da mochila uma série de jornais e livros. “Guarda”, diz, como se tivesse acabado de passar informações secretas – eram jornais propagandistas do movimento independentista. 
De acordo com o dirigente do NOS, a “Galiza está a enfrentar uma perda colectiva do país” devido ao “capitalismo selvagem” com que Espanha é gerida “por Bruxelas.” “Estes problemas só podem ser resolvidos ser conseguirmos a nossa soberania”, diz. Mas qual é adesão real da população? Nas últimas eleições locais e europeias, o NOS nem concorreu. “As análises não se podem fazer assim”, defende, “temos um incremento de participação, mas, mesmo assim, somos uma força modesta.” Nos finais dos anos 1990, os movimentos independentistas da Galiza conseguiram alcançar quase 20% dos votos. Hoje, não aparecem nos boletins. 
E quanto à perseguição aos independentistas? “Ainda ontem prenderam a Maria Osorio López, uma camarada da nossa luta, sob acusação de ser terrorista.” Maria López, membro da resistência Galega, era procurada por fabricar explosivos e falsificação de documentos. Perto do palco onde ocorreu o concerto da “Tetas Band” existia uma faixa que pedia a libertação da cidadã galega. Em 2011, também já existiram denúncias de que militantes extremistas do independentismo galego estariam a morar no norte de Portugal, na zona do Minho. 
Carlos é crente na independência da Catalunha, “é inevitável.” “A burguesia catalã é um dos principais impulsionadores do processo independentista, por isso acho que eles vão conseguir”, diz. Existe a possibilidade de que o governo espanhol evite o referendo. Manuel Marquez, o especialista da Universidade Complutense de Madrid, acredita que o estado espanhol não vai deixar que se realize. Porém, isso pode vir a ter um “efeito publicitário” da causa. 
“Só vai atrasar, quanto muito.”, afirma Carlos. Nem figuras como Pablo Iglesias, do Podemos, parecem captar a esperança de um governo de esquerda. “Desde quando é que um revolucionário pode aceder a todas as televisões públicas?”, questiona. Carlos Moraes sorri e esfrega as mãos, para tirar as migalhas do que tinha estado a comer. Os galegos à procura da independência vão continuar a ser poucos, disso Carlos não tem dúvidas. “Mas se a Catalunha conseguir, as nossas hipóteses vão melhorar muito.” OBSERVADOR

Em Espanha, troca-se sexo oral por bebidas grátis

por A-24, em 07.07.14
O Instituto da Mulher de Espanha pediu ao Ministério Público para investigar uma prática que estará a tornar-se comum em Maiorca. Consiste em oferecer bebidas grátis a mulheres em troca de sexo oral e foi detetada em alguns locais de entretenimento em Magaluf, Maiorca. Segundo El País, o instituto considera a situação “humilhante” e pede que aquilo que considera ser um ato de discriminação seja rejeitado, tanto pelas pessoas em geral como pela indústria do entretenimento.

De acordo com o El País, que cita relatos da imprensa local, alguns residentes de Magaluf são responsáveis por organizar competições de índole sexual: as mulheres têm de praticar sexo oral a um determinado número de homens, presentes num mesmo local, o mais depressa possível. A “vencedora” ganha bar aberto. A técnica terá sido batizada de “mamading”.

O Instituto da Mulher remeteu o caso para o Ministério Público para perceber se os promotores destes “concursos” estão ou não a incorrer num crime, como incitação à prostituição. De acordo com as informações recolhidas pelo mesmo organismo, estas atividades acontecem em vários locais e já se tornaram populares nas redes sociais.

Magaluf recebe um grande número de turistas no verão, sobretudo jovens britânicos que, diz o El País, “gostam de passar as suas férias com muito álcool”. OBSERVADOR

Os desafios de Felipe VI, o sucessor do rei Juan Carlos

por A-24, em 03.06.14
(...) Se Felipe ainda conheceu Franco, o seu percurso foi em democracia. Não teve, nem podia ter pela idade, qualquer papel histórico decisivo. E ter sido porta-estandarte da delegação espanhola aos Jogos Olímpicos de Barcelona de 1992 é, para os críticos da unidade de Espanha, um cartão-de-visita de má memória. Saberá Felipe VI tornear o problema? De que capital dispõe para a tarefa?



Preparado para rei, Felipe Juan Pablo Alfonso de Todos los Santos de Bourbón e Grécia, teve uma educação diferente à do seu pai. Em Espanha, frequentou o colégio privado “Los Rosales”, de Pozuelo de Alarcón, mas afastou-se dos filhos-família. Esteve em universidades espanholas normais e nas obrigatórias Academias Militares. Estudou, ainda, no Lakefield College School e na Universidade de Georgetown. Um percurso cosmopolita para um mundo global.
Será suficiente este curriculum para os desafios? Tão importante como a preparação é a capacidade de comunicar e comungar os problemas dos seus concidadãos. A “monarquia de proximidade”, na qual Juan Carlos sempre foi exímio.
Com 46 anos, terá cumplicidades geracionais na política, como o pai, e a sua liderança será reconhecida pela juventude espanhola, como a dos anos 70 se reviu na de Juan Carlos? Casou com a divorciada Letizia Ortiz, da classe média/baixa, antiga pivot de telejornais. Será suficiente para a aproximação à sociedade? Na sua vida pessoal, depois dos namoros com a aristocrata Isabel Sartorius e a modelo Eva Sannum, mais que aguardada é exigida contenção. As companhias femininas fizeram estragos na popularidade do seu pai.
No século XXI, a cumplicidade masculina de outrora não favorece sondagens nem desempenhos. Com poderes limitados constitucionalmente, pode denunciar problemas e flagelos – como o desemprego juvenil –, mas sem decidir. Não tem o poder de influência republicano. Com tais limitações só tem uma solução. O futuro monarca terá de fazer gestos claros. De discrição e contenção. Sem exibicionismo social, malvisto numa sociedade com profundas cicatrizes devido à crise económica. E manter afastada do Palácio da Zarzuela a ganga da corte que o seu pai nunca permitiu.

Quando é do interesse de ideólogos, a Alemanha vira keynesiana

por A-24, em 28.04.14
alemania-españa.jpgEm 2010, após Angela Merkel ter aprovado um programa de moderação nos gastos, Krugman concedeu uma entrevista à revista Der Spiegel afirmando que "as políticas de ajuste alemãs não apenas afetam negativamente sua própria economia, como também reduzem o crescimento de todos os outros países".
O problema é que, desde então, a evolução vivenciada pela Alemanha foi exatamente contrária às previsões de Krugman: o PIB de 2013 está no nível mais elevado de sua história (e 3,4% maior em relação ao pico atingido antes da crise), e sua taxa de desemprego é a mais baixa (de 5,5%).
Krugman, por conseguinte, já criou uma estratégia alternativa para blindar o dogma keynesiano deste contra-exemplo alemão: agora ele afirma que, na realidade, a Alemanha não tem sido um exemplo de austeridade.
Sim, sei que tal postura soa incrivelmente vigarista, mas é o que acaba de defender o economista americano.  No final de tudo, segundo Krugman nos relata, a Alemanha foi o segundo país da zona do euro que menos ajustou seu orçamento entre 2009 e 2013; foram os países do sul da Europa os que mais arcaram com o fardo dos ajustes e da austeridade, e não a Alemanha. 
Para comprovar a veracidade desta afirmação, basta efetuarmos uma comparação entre Espanha e Alemanha.

Instituto Ludwig Von Mises

El sacerdote Jesús Calvo acusa a Caritas de ayudar a los que “intentarán pisarnos el cuello el día que puedan”

por A-24, em 15.01.14

Alerta Digital


CK.- “En mis parroquias hace años que no hago colectas de Caritas porque se ha convertido en una ONG. Dan a todo el mundo simplemente por ser humanos, aunque no aporten nada y aunque nos intenten pisar el cuello el día que puedan”. Así se pronunció el párroco de León, Jesús Calvo, en su entrevista del pasado jueves en el programa ‘La Ratonera’ al ser preguntado sobre el hecho de que muchos de los subsaharianos autores de los gravísmos incicentes del pasado fin de semana en un pueblo de la provincia de Jaén estuvieran siendo alimentados y asesorados legalmente por Caritas y otras organizaciones católicas.


Añadió sobre esta cuestión: “Nosotros sabemos lo que la caridad. Ellos no la tienen. ¿Por qué no montan ellos su propia Caritas?”, se preguntó el párroco leonés.
Fiel a su compromiso ético con la tradición católica, lo que le lleva a mostrarse extremadamente crítico con quienes se alejan de ella, trátese de la curia española o del mismísimo Papa, Jesús Calvo desgranó, con su contundencia conocida, algunos asuntos de la actualidad relacionados con la Iglesia y la situación política.

“Populista para la gente inculta”

Durante su intervención en el espacio televisivo dirigido y conducido por Armando Robles, el cura castellano-leonés calificó al Papa Francisco como un “populista para la gente inculta” y acusó a la jerarquía católica de desviarse de su compromiso con la verdad revelada por Jesucristo. “Nunca dicen que quien no está conmigo está contra mí o que no se puede estar sirviendo a dos señores”, señaló.
Por otra parte, el Padre Calvo alertó acerca de “la descristianización que está sufriendo Cataluña” y de la “pérdida de credibilidad y de devotos” de la Iglesia catalana. “No sé por qué ha habido tanto fanatismo por parte del clero catalán al hacerse eco de lo que defienden los independentistas. ¿Qué vocación tienen y para qué están? Nunca están para predicar a Dios y la vida sobrenatural, dedicada a la santificación de las almas y a darnos el sentido pleno de la vida. Lo otro no es incumbencia nuestra y hacemos el ridículo”, declaró.
También dijo que la “decadencia moral” que padece la sociedad española “es la causa de todas las demás crisis”. “Ante esta decadencia moral nos estamos quedando solo con el antropocenmtirmso, que es el peligro y el problema que nos ha traído el Concilio Vaticano II y que considera al hombre como el centro de todo. Antes fue el teocentrismo, que situaba a Dios en el centro de todo. Luego, cuando se descubrió que la tierra era redonda, vino el geocentrismo, que nos consideraba el ombligo del universo y ahora hemos acabado en el antropocentrismo, de tal modo que si antes Dios se hizo hombre, ahora el hombre pretende hacerse Dios”.
Al ser preguntado sobre los curas de origen sudamericano que están llegando a España fruto de la falta de vocaciones autóctonas, el Padre Calvo lamentó que el Concilio Vatiocano II pusiera fin al rigor de “de la teología dogmática”. “La formación que reciben los curas ya no es la misma. El reglamento de los seminarios tampoco es el mismo. Pío XII, antes de ser Papa, defendió la creación de seminarios para la formasción de los jóvenes que viniesen de fuera. Se rieron de él y nuestro tiempo le ha dado la razón”.

Zerolo y la pena capital

Especialmente controvertidas fueron las palabras del Padre Calvo sobre el cáncer que padece el dirigente socialista Pedro Zerolo y que están siendo reproducidas por numerosos medios informativos españoles en las últimas horas: “Una cosa es lo personal y otra condenar el pecado. En la misma teología se sabe que el pecado tiene su sanción, su castigo. No me extrañaría nada que la enfermedad de Zerolo fuese también un efecto de la Divina Providencia, que intenta ejemplarizar con los que se ríen de la virtud”, manifestó.
Por último, el sacerdote leonés aseguró que “hay mucha basura social” y defendió la vigencia de la pena capital por ser, dijo, “doctrina católica”. Y apostilló: “Habría que eliminar a mucha gentuza que está haciendo la vida imposible a los inocentes”.