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A-24

O que nos aguarda para as Olimpíadas

por A-24, em 08.11.14
Instituto Ludwig Von Mises

Restaram apenas dois países interessados em sediar os jogos olímpicos de inverno de 2022: China e Cazaquistão. 
Sobraram apenas estes dois porque a Noruega desistiu da disputa após seus cidadãos pagadores de impostos se rebelarem e dizerem que não estão a fim de dar o dinheiro necessário para fazer dos jogos olímpicos um mero parque de diversões para os empresários corporativistas, políticos e burocratas mais ricos do mundo.
Em teoria, as Olimpíadas são uma organização privada. Na prática, trata-se de uma organização corporativista gerida por plutocratas cuja única missão é extrair dos pagadores de impostos do país-sede o máximo possível de receitas. Em todas as Olimpíadas, os vencedores são sempre os mesmos: as empreiteiras que fazem obras superfaturadas, os políticos que recebem propinas dessas empreiteiras, as redes de hotéis e a própria mídia. 
Um dos motivos de a Noruega ter se retirado é que seu governo pelo menos ainda é obrigado a prestar contas aos seus cidadãos pagadores de impostos, ao passo que os governos de Cazaquistão e China não são. A retirada da Noruega ocorre após as retiradas de Suécia, Polônia e Ucrânia.

Portugal, campeão europeu de Ténis de Mesa

por A-24, em 28.09.14


A selecção portuguesa venceu neste domingo na final do Campeonato da Europa de equipas de ténis de mesa a selecção germânica, por 3-1, e conquistou pela primeira vez o título.
Muitos adeptos e praticantes foram ao Meo Arena, em Lisboa, apoiar a selecção contra a Alemanha. Um deles era o primeiro-ministro — Pedro Passos Coelho deslocou-se ao ex-Pavilhão Atlântico e assistiu à final.
No primeiro jogo, Freitas defrontou Steffen Mengel, numa disputa em que se assistiu a bolas longas e duradoras, com os jogadores a serem obrigados a afastar-se bastante da mesa e a usar da força, num desempenho desgastante para os atletas, mas que empolgou a audiência.
Coube a João Monteiro o confronto com o n.º 2 da Europa, Timo Boll. A Alemanha venceu por 3-0. À excepção do segundo set, que correu bastante mal ao jogador da selecção portuguesa, João Monteiro disputou bem muitos dos pontos, nem sempre facilitando a vida ao opositor.
Seguiu-se Tiago Apolónia, que venceu Dimitrij Ovtcharov por 3-1, numa exemplar demonstração de autocontrolo e maturidade, tendo no segundo set obtido um memorável resultado de 11-2. Na memória ficará também o 10.º ponto do quarto set, em que a bola entrou pela parte lateral da mesa (ou seja, sem passar por cima da rede).
O atleta português conseguiu responder quase sempre com eficácia a um tipo de serviço que caracteriza o adversário, que flecte os joelhos de tal forma que quase desaparece do lado de lá da mesa, imprimindo à bola um efeito que parece contrariar as leis da física. Uma disputa em que se trocou de bola por três vezes, tal a intensidade de jogo.
O embate final, entre os dois esquerdinos e agressivos jogadores Marcos Freitas e Timo Boll, foi o mais espectacular e aquele em que os adeptos mais se fizeram ouvir. Não só pela dinâmica que imprimiram ao “duelo”, como pelo vislumbre da vitória portuguesa, que se confirmaria.
O pavilhão explodiu então de euforia, com a comitiva portuguesa a festejar abraçada no chão um inédito triunfo continental e logo perante uma selecção que é a número 1 do ranking europeu, campeã europeia ininterruptamente desde 2007 e vice-campeã do mundo.
Pedro Rufino, seleccionador nacional, lembrou que foi uma tarefa difícil: “Sofremos muito, mas encontrámos um caminho. Estes jogadores são fortes física e mentalmente. Merecem ser campeões da Europa.” E terminou acrescentando: “Se jogássemos contra eles [alemães] amanhã, seriam favoritos outra vez”, numa declaração que revela bem a qualidade do opositor.
A selecção nacional feminina também obteve o seu melhor resultado de sempre, 12.º lugar na I Divisão, e garantiu a presença no Europeu 2015, em Baku. Público

A tentação errada de se comparar/equiparar ao Benfica

por A-24, em 07.07.14
Um erro crasso na análise a um canal que ainda nem sequer iniciou a sua actividade, é querer compará-lo ao outro canal de clube desportivo existente em Portugal, a Benfica TV. Sim, a Benfica TV é o único canal de clube que existe em Portugal, pois o Porto Canal, infelizmente para mim, como telespectador, nem é carne nem é peixe, nunca sei se hei-de esperar por um programa que me ensine como fazer alheiras de Mirandela ou algo relacionado com futebol.

Ainda me lembro de quando a Benfica TV iniciou as suas transmissões. E é com “essa” Benfica TV que, quem quiser fazê-lo, deve fazer comparações com a nova Sporting TV, não com a já robusta televisão “premium” que transmite os seus jogos disputados pela equipa principal em casa e as partidas da Premier League. Fazê-lo, seria uma prova de canalhice, desonestidade intelectual ou pura ignorância. Até porque, mesmo que se o Sporting Clube de Portugal quisesse transmitir os jogos disputados em casa no novo canal, não o poderia fazer, pois tais direitos de transmissão televisivas foram vendidos pelo então presidente, José Eduardo Bettencourt, até 2018.
Por exemplo, lembro-me de ver, no início da Benfica TV, programas tipo “Dia Seguinte”, mas com apresentadores e, claro, comentadores benfiquistas, onde a maior parte do tempo era despendida a falar mal dos clube rivais, Sporting e Porto, principalmente deste último, pois estávamos então no auge do infame processo denominado “Apito Dourado”. Lembro-me de apelos às armas protagonizados por um tal Pragal Colaço, um conhecido advogado benfiquista, ou ainda de uns benfiquistas, cujos nomes não me lembro, onde passavam o tempo a gozar – é esta a palavra, “gozar” – com Sporting e Porto. Ainda bem, para o próprio Benfica, que dispensaram tais personagens da sua televisão. (Espero eu que tenham dispensado, pois não vejo a Benfica TV desde que passou a ser um canal “premium”).
Portanto, é necessário contextualizar o momento em que aparece a Sporting TV: no pior momento da vida do clube leonino. É preciso não esquecermo-nos disso! Não esperemos transmissões de jogos da equipa B com 27 câmaras ultra-HD ou emissões em directo desde Alvalade ou Alcochete a toda hora do dia. Não, será um um canal sóbrio, limitadíssimo ao tutano, tal e qual como está todo o clube limitado. Querer exigir um canal igual ou parecido com aquele com que o Benfica disfruta hoje em dia é, repito, uma canalhice ou pura ignorância.
É verdade que o processo do início do canal começou mal - a saga do “logo”, a discutível escolha de alguns dos elementos que darão a cara e “corpo” ao canal, culminando no adiamento do início da transmissão por imposição da Entidade Reguladora para a Comunicação Social – mas isso ainda não permite, em absoluto, determinar o desfecho desta “saga”, ou neste caso, o início desta “saga” que dá pelo nome de SportingTV. Não sou muito religioso mas neste caso, terei de aplicar a máxima “ver para crer”, como faria São Tomé. Depois de ver, logo direi de se gosto ou não gosto da Sporting TV.

Um novo Nobel no ténis

por A-24, em 01.02.14

rui.antunes@sol.pt

“Tenta. Fracassa. Não importa. Tenta outra vez. Fracassa de novo. Fracassa melhor”. Uma das mais célebres citações de Samuel Beckett, prémio Nobel da Literatura em 1969, está tatuada no braço esquerdo de Stanislas Wawrinka, o tenista suíço que aos 28 anos venceu no domingo o seu primeiro torneio do Grand Slam, na Austrália.

As palavras do dramaturgo irlandês aplicam-se com precisão a uma carreira marcada por sucessivas derrotas frente aos 'monstros' que têm dominado a modalidade na última década. Desde 2004, Roger Federer, Rafael Nadal e Novak Djokovic venceram 34 dos 41 grandes torneios disputados e Wawrinka, profissional desde 2002, habituou-se a vê-los ganhar.
Apesar de ser presença assídua no top-20 mundial desde 2008, o suíço chegou ao Open da Austrália deste ano com um triunfo em 14 partidas frente a Federer, dois em 17 perante Djokovic e zero em 12 com Nadal. Mas nada o demoveu de seguir a lição de Beckett que tem colada ao corpo.

“É essa a minha filosofia de vida e no ténis. Se não te chamas Nadal, Federer ou Djokovic, tens de aprender com as derrotas e precisas de voltar ao trabalho”, sublinha Wawrinka.
De tanto fracassar e tentar de novo, o destino mudou no Open da Austrália. Após 14 derrotas consecutivas com Novak Djokovic, afastou o sérvio nos quartos-de-final (2-6, 6-4, 6-4, 3-6 e 9-7). E na final, arbitrada pelo português Carlos Ramos, vergou pela primeira vez Rafael Nadal (6-3, 6-2, 3-6 e 6-3), a quem nunca havia 'roubado' sequer um set ou um jogo de serviço.
“Há uma grande possibilidade de acabar esta noite bêbado”, gracejou Wawrinka, o primeiro tenista desde o espanhol Sergi Bruguera, em 1993, a bater os dois melhores do ranking ATP num dos quatro grandes torneios - Open da Austrália, Roland Garros, Wimbledon e Open dos Estados Unidos.
“Nunca esperei ganhar um Grand Slam porque, para mim, não era suficiente bom para vencer estes tipos”, declarou o quinto jogador a quebrar a hegemonia de Federer, Nadal e Djokovic nos últimos 10 anos. Neste período, apenas Andy Murray (US Open-2012 e Wimbledon-2013), Del Potro (US Open-2009), Marat Safin (Open da Austrália-2005) e Gastón Gaudio (Roland Garros-2004) tinham contrariado a lógica nos Grand Slams.

Campeão olímpico em 2008, em Pequim, no torneio de pares em que fez dupla com Federer, Stanislas Wawrinka atinge agora o auge da carreira, coroado com a subida do oitavo para o terceiro lugar do ranking ATP e o inédito estatuto de melhor tenista da Suíça.
Com o triunfo na Austrália, o campeão do Portugal Open do ano passado arrecadou 1,6 milhões de euros de prize-money, quase 25% da verba que tinha acumulado em 12 anos no circuito profissional.

Sobre Eusébio

por A-24, em 05.01.14
A chegada a Portugal, a afirmação no Benfica e no futebol mundial, as peripécias de uma carreira ímpar.


Humilde, mas sem falsas modéstias. Quando Eusébio chegou à “metrópole” e ao Benfica campeão europeu em 1961, sabia o que valia. “Não me interessa se eles são campeões europeus, vou entrar nesta equipa.” Ele era um jovem moçambicano acabado de chegar de Lourenço Marques e já metia medo aos consagrados Águas, Augusto e Coluna, os “senhores”, como os novatos da equipa lhes chamavam. “Comentávamos entre nós, quem é que vai sair? Porque o Eusébio era um jogador de excepção”, diz José Augusto. Alguém saiu e ele, Eusébio da Silva Ferreira, entrou na equipa do Benfica para se tornar uma lenda do futebol mundial. O melhor jogador português de todos os tempos que brilhou numa altura em que o futebol era diferente. Como Amália, o seu nome é sinónimo dele próprio. Não existirá mais nenhum Eusébio.

Eusébio, o “King”, Eusébio, o Pantera Negra, Eusébio, a Pérola Negra. Ele só não gostava muito que lhe chamassem Pantera Negra por causa dos Black Panthers, o partido activista negro dos EUA. Preferia que lhe chamassem King, o Rei. Foi em Wembley, esse mítico estádio que iria marcar sua carreira, que Eusébio passou a ser pantera. Foi na sua segunda internacionalização pela selecção portuguesa. Dos onze, apenas um jogador tinha nascido em Portugal continental (Cavém, algarvio) e um nos Açores (Mário Lino). Havia um jogador brasileiro (Lúcio), todos os outros, incluindo o seleccionador (Fernando Peyroteo), eram africanos.


O jogo era de qualificação para o Mundial e a Inglaterra acabaria por ganhar (2-0). Portugal mandou quatro bolas ao poste, duas delas foram remates de Eusébio. Foi o seleccionador inglês Walter Winterbottom que avisou o jogador que estava encarregado de o marcar: “Tem cuidado com o Pantera Negra” – mais tarde, seria um jornalista inglês, Desmond Hackett, a cunhar esse nome no “Daily Express” após a final de Amesterdão, com o Real Madrid.

O jogo de Wembley foi a 25 de Outubro de 1961. Menos de um ano antes, em Dezembro de 1960 (15 ou 17, consoante as versões), chegava à metrópole proveniente de Lourenço Marques “o disputadíssimo Eusébio”, como escrevia o jornal “A Bola” de 17 de Dezembro. “Faço qualquer um dos postos do ataque menos o de avançado centro”, contou ao jornalista de “A Bola”, Cruz dos Santos, que era o único jornalista à sua espera no Aeroporto da Portela. “Chegou com um ar muito tímido. Fui com um sobretudo quentinho que tinha comprado em Edimburgo uns meses antes e o Eusébio apareceu-me com uma roupinha muito de Verão, uma gravatinha, com um ar muito modesto”, recorda o jornalista. É acsua primeira fotografia na metrópole: Eusébio de fato e gravata, com Cruz dos Santos ao lado, a tirar notas num bloco. Eusébio embarcara em Lourenço Marques com nome de mulher: Ruth Malosso.

Tinha 18 anos, fama de prodígio, pronto para conquistar o mundo. Um mundo que seria dele pouco depois. Basta dizer um número: 546, os golos que marcou pela selecção portuguesa e ao serviço dos clubes por que passou. Pelo Benfica, foram 473, em 440 jogos oficiais. Mais números: sete vezes o melhor marcador do campeonato português, três vezes o melhor marcador da Taça dos Campeões. Cometeu a proeza de marcar 32 golos em 17 jogos consecutivos, tendo ainda conseguido marcar seis golos no mesmo jogo em três ocasiões. O guarda-redes que mais golos seus sofreu foi Américo, do FC Porto (17).

Dos craques do passado, talvez seja Eusébio aquele que melhor se adaptaria ao futebol de qualquer época, mesmo ao mais calculista e táctico do nosso presente, menos atacante e ingénuo do que no tempo de Eusébio. O seu poder físico, potência de remate, técnica e capacidade goleadora fariam dele uma estrela em qualquer equipa de qualquer era. Só no final de carreira, com os joelhos em más condições (só no joelho esquerdo sofreu seis operações) é que saiu de Portugal, onde era património de Estado. Eusébio seria um Cristiano Ronaldo apresentado no Santiago Bernabéu perante dezenas de milhares de adeptos. Eusébio esteve lá em 2009 para apresentar Ronaldo ao Real Madrid, ao lado de Alfredo di Stéfano, que sempre foi o seu grande ídolo. As palavras de Don Alfredo, o argentino feito espanhol, não podiam ser mais verdadeiras. “Isto, serias tu.”

Os primeiros anos

Eusébio da Silva Ferreira nasceu a 25 de Janeiro de 1942, o quarto filho de Laurindo António da Silva Ferreira, um angolano branco que trabalhava nos caminhos-de-ferro de Moçambique, e Elisa Anissabeni, uma mulher moçambicana. Foi na Mafalala, bairro pobre na periferia de Lourenço Marques (actual Maputo) que Eusébio começou a dar uns pontapés em bolas de trapos sem ligar muito à escola. “A minha mãe não gostava nada que eu andasse enfronhado no futebol, apertava comigo, que me importasse com a escola e me deixasse dos pontapés na bola, mas eu não sei explicar, havia qualquer coisa que me puxava, sentia um frenesim no corpo que só se satisfazia com bola e mais bola. O resultado disto era uns puxões de orelhas bem grandes e, uma vez por outra, umas sovas que não eram brincadeira nenhuma”, recordava Eusébio numa entrevista ao jornal “A Bola”.

No bairro onde viveram o poeta Craveirinha e os antigos presidentes de Moçambique Joaquim Chissano e Samora Machel, Eusébio ganhava os berlindes aos amigos apostando que conseguia dar X toques seguidos numa bola. Entre os jogos de futebol na rua e a presença intermitente na sala de aula, Eusébio sofreu uma tragédia precoce. Aos oito anos, ficava órfão de pai, vítima de tétano. “Segundo a minha mãe, o meu pai era muito bom jogador de futebol”, disse numa entrevista. Ficava Dona Elisa, os quatro rapazes (Jaime, Alberto, Adelino e Eusébio) e uma rapariga (Lucília). Num segundo casamento, Elisa teria mais três filhos (Gilberto, Inocência e Fernando).

Foi na Mafalala que conheceu a sua primeira equipa, “os Brasileiros”, “um clube de pés-descalços” em que os jogadores adoptavam nomes dos craques brasileiros. Eusébio era Pelé, ano e meio mais velho que o moçambicano. Em 1958, Eusébio tinha 16 e Pelé 17 quando o Brasil foi campeão mundial na Suécia, a equipa que também tinha Didi, Zagallo e Garrincha. Todos tinham as suas contrapartes no FC Os Brasileiros.

Mas onde Eusébio queria jogar era no Desportivo de Lourenço Marques, filial do Benfica, clube do qual o pai era adepto. No Desportivo não o aceitaram porque era “franzino, pequenino” – Eusébio contou que esse treinador foi, depois, despedido. Também no Ferroviário o recusaram. O mesmo erro não cometeu o Sporting de Lourenço Marques, filial moçambicana do Sporting Clube de Portugal, que ficou com ele de imediato, depois de ter ido fazer testes com um grupo de rapazes do bairro. Mas Eusébio impôs uma condição: ou ficam todos, ou não fica nenhum. Ficaram todos.

O Sporting Laurentino insistia, mas Eusébio resistia porque aquele não era o seu clube, nem o do seu pai, apesar das insistências de Hilário da Conceição, seu vizinho na Mafalala e futuro defesa-esquerdo do Sporting e da selecção portuguesa – Hilário, dois anos mais velho que Eusébio, foi o primeiro jogador negro a jogar no Sporting de Lourenço Marques e iria para Lisboa primeiro que o “Pantera Negra”. Eusébio acabou por ir contrariado para os “leões” de Lourenço Marques. “Ninguém do meu bairro gostava do Sporting. Porque era um clube da elite, um clube da polícia, que não gostava de pessoas de cor”, contou mais tarde. Começou nos juniores, passou rapidamente para os seniores e estreou-se contra o “seu” Desportivo. Não queria jogar, mas jogou. Marcou três golos e chorou. Tinha 17 anos. O Sporting foi campeão regional com 30 remates certeiros de Eusébio, a quem o clube tinha arranjado um emprego como arquivador numa empresa que fabrica peças para automóveis.

Eusébio era um fenómeno na colónia e, na metrópole, já se ouvia falar dele. Portugal era o sonho dos jogadores nas colónias portuguesas em África e Eusébio não era excepção. E era um sonho muito possível. África era um grande fornecedor de jogadores para os clubes e selecção portuguesa. Os pretendentes eram muitos. Sporting, Benfica, Belenenses e FC Porto queriam Eusébio. Guttman já tinha ouvido falar dele, através de um brasileiro que o tinha visto jogar em Lourenço Marques. Os clubes começaram a movimentar-se, mas foi o Benfica quem chegou lá primeiro. Ofereceu 110 contos a D. Elisa, que deu a sua palavra de que o filho iria jogar no Benfica de Lisboa.

O Sporting terá oferecido mais depois, mas palavra dada era sagrada e a mãe de Eusébio não voltou atrás. Para além do mais, o Sporting queria Eusébio à experiência. “Eu já estava no Sporting e o presidente, sabendo que eu era muito amigo do Eusébio, chamou-me para lhe pedir para vir fazer testes. Ele respondeu, ‘Estás a ver o Seminário [peruano que jogou no Sporting entre 1959 e 1961, conhecido como o “expresso de Lima”]? Eu dou-lhe avanço a marcar golos. Querem experimentar o quê?”, recorda Hilário.

Tavares de Melo, talhante e representante do Benfica em Lourenço Marques, coordenou toda a operação. Depois de garantido o acordo de Eusébio e de D. Elisa, o objectivo era colocar o jogador na capital o mais depressa possível e sem que os adversários soubessem. Fez Eusébio embarcar com nome de mulher e terá feito chegar um telegrama ao Sporting lisboeta comunicando que o jovem jogador iria de barco para a capital. Por isso é que, quando Eusébio aterrou às 23h30 no aeroporto de Lisboa, apenas estavam lá representantes do Benfica (e o jornalista de “A Bola”) à espera dele. Do lado “leonino” falou-se de rapto, Eusébio sempre negou esta tese: “Eu só assinei contrato com o Benfica. Só quando aterrei aqui é que se começaram a inventar raptos. O contrato com o Benfica até dizia que, se não me adaptasse em Lisboa, o clube podia recuperar o dinheiro.”

A chegada ao Benfica

Quando Eusébio, menor de idade, chegou a Lisboa, o Benfica já estava nos quartos-de-final da Taça dos Campeões Europeus. “Não gosto de jogar a avançado-centro”, foram as suas primeiras palavras, depois de uma viagem de “Portugal para Portugal”, como escrevia o jornal “A Bola” de 17 de Dezembro de 1960. Foi directo para a Calçada do Tojal, em Benfica, para viver no Lar do Jogador, onde estavam alojados os futebolistas “encarnados” que eram solteiros e que tinha hora de recolher obrigatório para os seus hóspedes. José Torres, dois anos mais velho, foi o seu anfitrião, eles que, pouco depois, fariam uma dupla temível no ataque do Benfica e da selecção nacional.

Mas Eusébio ainda não podia jogar, apesar de impressionar nos treinos. Bela Guttman, o treinador, chamou-lhe o “menino de oiro” da primeira vez que o viu. O processo de transferência de “Ruth” ainda não tinha acabado. Eusébio tinha contrato assinado com o Benfica, mas ainda não tinha a carta de desobrigação que teria de ser passada pelo Sporting de Lourenço Marques, ainda empenhado na ida do jogador para os “leões” de Lisboa. A batalha jurídica é longa. Os lados esgrimem argumentos e o tempo vai passando, sem que haja uma decisão definitiva. Na Taça dos Campeões, o Benfica ultrapassa o Aarhus, da Dinamarca, e o Rapid de Viena, da Áustria, e com Eusébio sempre integrado na comitiva.

A final será contra o Barcelona, em Berna, a 31 de Maio. O Benfica manda Eusébio para um hotel em Lagos, para o esconder dos jornalistas e de outros pretendentes. A 12 de Maio, cinco meses depois de sair de Moçambique, o desfecho: Eusébio já é jogador do Benfica, que paga por ele 400 contos, mas não poderá defrontar a formação catalã devido aos regulamentos da União Europeia de Futebol (UEFA).

Ele não irá à Suíça, mas vai estar no jogo de despedida do Benfica antes da final, na Luz, frente ao Atlético, um futuro titular numa equipa quase só de reservas. A 23 de Maio, primeiro jogo pelo Benfica, primeiros golos, três, tal como a sua estreia pelo Sporting de Lourenço Marques. Minutos 11, 76 e 80, o do meio o primeiro penálti que marcou. Os benfiquistas estavam lá para ver o “disputadíssimo”. “Quando entrei e se me deparou uma multidão que gritava o meu nome, num testemunho de confiança que nunca esqueci, fiquei tonto. Ninguém imagina como estava nervoso”, contou Eusébio na sua biografia.

A equipa seguiu para Berna e conquistou o primeiro dos seus dois títulos europeus, com uma vitória por 3-2 sobre o Barcelona. Eusébio ficou em Lisboa e, no dia seguinte à final europeia, fazia a sua estreia oficial pelo Benfica, na segunda mão dos oitavos-de-final da Taça de Portugal no Campo dos Arcos, frente ao Vitória de Setúbal. Eusébio seria titular e marcaria o único golo “encarnado” nesse jogo que os sadinos venceriam por 4-1, anulando a desvantagem de 3-1. Nessa época, ainda houve tempo para se estrear no campeonato, na Luz frente ao Belenenses, ao lado dos senhores José Augusto e Coluna. Eusébio marca o segundo de uma goleada por 4-0 e ganha o direito a ser campeão.

O que Eusébio perdeu nesses primeiros meses foi largamente compensado na década e meia seguintes. Com Eusébio na equipa, o Benfica foi 11 vezes campeão em 15 anos. O moçambicano foi sete vezes o melhor marcador do campeonato português, duas vezes o melhor goleador da Europa. Conquistou mais cinco Taças de Portugal e um título de campeão europeu de clubes. Ao todo, foram 17 títulos pelo Benfica: 11 campeonatos, cinco taças de Portugal e a Taça dos Campeões. Foi ainda o primeiro português a ser considerado o melhor jogador da Europa, em 1965. Depois dele, só Figo, em 2000, e Cristiano Ronaldo, em 2008.

Em 1961/62, a sua primeira época “a sério”, Eusébio ainda não está entre os cinco mais utilizados por Bela Guttman, mas já é o melhor marcador, com 29 golos em 31 jogos, mais do que o consagrado José Águas (26). O Benfica não seria campeão (terceiro lugar, atrás de Sporting e Benfica), mas esta seria uma época histórica, a do Benfica bicampeão europeu, na final de Amesterdão, frente ao Real Madrid. Eusébio enfrentava o seu ídolo de infância, Alfredo di Stéfano. Na primeira das quatro finais que haveria de jogar na sua carreira, Eusébio marcou dois golos (os dois últimos e decisivos) naquele triunfo emocionante por 5-3, em que o Benfica chegou a estar a perder por 2-0 e 3-2.

O jovem moçambicano de 20 anos “destruía” a lenda hispano-argentina “merengue”, 16 anos mais velha, mas manteve a deferência para “don” Alfredo, como mantinha para os seus companheiros de equipa mais velhos. “Tinha dito ao senhor Coluna para pedir ao senhor Alfredo do Stéfano para me dar a camisola. E consegui. Ele sabia lá quem era o Eusébio! Quando ganhámos, fui a correr para junto dele. Ele deu-me a camisola e ficou com a minha. Nessa altura roubaram-me o fio da minha mãe, os calções, mas consegui guardar a camisola nas cuecas. Apareço numa fotografia com uma mão à frente: estou a defender a camisola.”

O Mundial de Inglaterra

Eusébio precisou apenas de nove golos em cinco jogos pelo Benfica para se estrear na selecção portuguesa, por quem haveria de disputar 64 jogos (41 golos). O adversário era o fraco Luxembrugo e estava em causa a qualificação para o Mundial de 1962, no Chile. Peyroteo, antigo avançado do Sporting e membro dos famosos “cinco violinos”, estreava-se como seleccionador. A equipa era totalmente de Lisboa, um jogador do Belenenses, cinco do Sporting e cinco do Benfica, Eusébio era um deles.

A 8 de Outubro de 1961, um domingo, no Estádio Municipal do Luxemburgo, o herói foi outro. Adolphe Schmit, médio que nunca foi mais alto na sua carreira do que a segunda divisão francesa, marcou os três primeiros golos do jogo em 57 minutos. Portugal só reage aos 83’, com o primeiro golo de Eusébio ao serviço da selecção nacional, mas a selecção do Grão-ducado repõe as diferenças no minuto seguinte. Yaúca, o único do Belenenses, fixou o resultado em 4-2. A derrota humilhante e inesperada afastou a selecção portuguesa do Mundial e o jogo seguinte, em Wembley, frente à Inglaterra (o tal em que Eusébio passou a ser o “pantera negra”), seria para cumprir calendário.

Três anos e meio depois, Portugal iniciava nova campanha para o Mundial de futebol, que seria em Inglaterra. Eusébio marcou sete golos na qualificação, um deles deu uma vitória surpreendente e dramática em Bratislava frente à poderosa Checoslováquia, vice-campeã mundial. Pela primeira vez a selecção portuguesa chegava à fase final de uma grande competição internacional. Comandados por Manuel da Luz Afonso e Otto Glória, os portugueses iam a Inglaterra com algum crédito. E com Eusébio, considerado no ano anterior como o melhor jogador europeu.

Eusébio ficou com o número 13 e a campanha com um triunfo em Old Trafford, o estádio do Manchester United, sobre a Hungria por 3-1, o único jogo do Mundial em que Eusébio não marcou qualquer golo. Depois, foi a história que bem se conhece. De novo em Old Trafford, Eusébio marcou o golo do meio no triunfo sobre a Bulgária. Seguia-se o Brasil de Pelé, no Goodison Park em Liverpool. Pelé ficou a zeros, Eusébio marcou dois e subiu ao trono de rei do Mundial. Portugal derrotava o campeão vigente e avançava para os quartos-de-final.

O jogo seria em Middlesbrough, o adversário seria a Coreia do Norte, uma equipa que também estava a ser uma sensação, depois de ter deixado a Itália de fora. Os "baixinhos com as caras iguais" (o mais alto tinha 1,75m), como disse um dia José Augusto, um dos membros da equipa portuguesa, começaram por surpreender os "Magriços" de forma bastante afirmativa, colocando-se a vencer por 3-0. Mas Portugal tinha Eusébio, que, quase sozinho, destruiu os asiáticos, marcando quatro golos na partida dos quartos-de-final que terminaria em 5-3 para Portugal.

O golo que concretizou a reviravolta, o do 4-3, ainda hoje é mostrado nas escolas do Ajax de Amesterdão, aquela cavalgada de Eusébio desde o meio-campo até à área norte-coreana, onde só foi parado em penálti. “A bola está meio metro à frente dos meus pés. Parece que tenho cola. E eu aumento a velocidade, meto as mudanças. Dei 17, 18 toques desde que o Coluna me entrega a bola. Sofro uma pancada à entrada da área, mas continuo, porque nunca fui de me atirar para o chão. Só que, depois, chega outro que me dá uma sarrafada... Penálti!”, foi como Eusébio descreveu o lance em entrevista ao “Expresso”.

Na sua primeira presença em Mundiais (seria a única até ao México 86), Portugal já estava entre as quatro melhores. Seguia-se a anfitriã Inglaterra. O jogo era para ser em Liverpool, de novo no estádio do Everton, mas, com o acordo da Federação Portuguesa de Futebol, mudou-se para Wembley e foi a selecção portuguesa que teve de mudar de base. Segundo contou Eusébio, a federação não era obrigada a aceitar a mudança, mas deu o consentimento a troco de compensação monetária. Mais uma viagem depois do duro jogo com a Coreia e as pernas dos portugueses já não estavam tão frescas para evitar o desaire por 2-1.

“A nossa federação vendeu-se e pronto”, acusou Eusébio, que marcou, de penálti, o golo português. Sem poder discutir o título, os “Magriços” ganharam o jogo de consolação para o terceiro lugar, contra a URSS, por 2-1. Um golo de Eusébio, que foi o melhor marcador do torneio, com nove golos. Duas imagens ficaram deste Mundial de 66: Eusébio a ir buscar a bola à baliza coreana, um gesto simbólico para a reviravolta que acabaria por acontecer; Eusébio a chorar após a derrota com a Inglaterra, quando já nada havia a fazer.

Património de Estado

Eusébio foi grande num tempo em que o futebol era diferente. Em que o futebol português era diferente. Em tudo. Nas rivalidades, nos hábitos, nos comportamentos. “Às segundas-feiras juntávamo-nos todos – do Sporting, do Benfica, do Belenenses -, almoçávamos frango assado no Bonjardim e depois íamos ao cinema. E andávamos sempre de metro ou de eléctrico, porque era mais barato. As pessoas paravam na rua só para nos verem juntos. Para tirar a carta tive de pedir autorização à minha mãe: ´Mas você vai tirar a carta porquê? Não há aí machimbombo [autocarro]’?”

Cinco anos depois de chegar a Portugal, Eusébio casou-se com a sua namorada, Flora (conheceram-se dois anos antes), em 1965, no evento que a revista “Flama” (que fez capa com Flora vestida de noiva) descreveu como “O remate final é o amor”. Tiveram duas filhas, por esta ordem, Sandra e Carla, respectivamente em 1966 e 1968. Foram fazendo vida em Lisboa, apesar das muitas propostas que Eusébio ia recebendo de grandes clubes. Mas o regime não o deixava sair. Salazar considerava-o património de Estado e isso, como o próprio o admitiu várias vezes mais tarde, impediu-o de ganhar muito dinheiro.

Eusébio fez o seu último jogo pelo Benfica a 29 de Março de 1975. Foi no Estádio da Luz, frente ao Oriental, vitória por 4-0, nenhum dos golos marcados por Eusébio. O último de “encarnado” marcara-o uma semana antes, no Bonfim, ao Vitória de Setúbal. Nessa época, Eusébio fez apenas 13 jogos (dois golos), entre o campeonato e a Taça das Taças, a sua pior época desde a primeira, a de 1960/61 (dois jogos), menos de um terço dos jogos oficiais do Benfica.

Já depois da revolução de 25 de Abril de 1974, o clube “encarnado” deixou-o sair e Eusébio juntou-se a uma das maiores colecções de craques da história do futebol, a North-American Soccer League (NASL), todos eles seduzidos pelos dólares norte-americanos. Pelé, Franz Beckenbauer, George Best, Johan Cruijff, Carlos Alberto, Teo?lo Cubillas, Gordon Banks, Gerd Muller, Carlos Alberto, Graeme Souness. Eusébio não foi o único português nos EUA. Acompanhou-o Simões, a quem sempre chamou o seu “irmão branco”. No país onde o futebol não é “football”, mas sim “soccer”, a NASL conseguiu impor, por alguns anos, o futebol como desporto de massas, assente no princípio de que grandes estrelas dão grandes espectáculos e que grandes espectáculos (isto é especialmente verdade na América) atraem sempre muito público.

Eusébio era, de facto, uma estrela global, mas não foi desta que conseguiu jogar na mesma equipa de Pelé. Foram, novamente, adversários, como tinha acontecido em outras ocasiões. Pelé ficou no Cosmos de Nova Iorque, Eusébio foi para Boston, onde havia (e há) uma grande comunidade portuguesa. “Os grandes jogadores não podiam jogar na mesma equipa, era para ter ido para o Cosmos, mas fui para Boston. Com o mesmo contrato e a ganhar muito bem. Tinha casa, motorista. Até nos davam guarda-costas”, contou.

Em 1975, nos Minutemen, onde estavam muitos portugueses para além dele (Simões, Jorge Calado, Fernando Nélson e Manaca), Eusébio fez sete jogos e marcou dois golos – o jogo de estreia foi contra o Cosmos de Pelé. Bem melhor foi o ano de 1976, ao serviço dos Toronto Metro-Croatia, em que Eusébio marcou 13 golos e conduziu a formação canadiana ao título da NASL. Na passagem pelo continente americano, Eusébio esteve ainda no Monterrey, do México, nos Las Vegas Quicksilvers e nos New Jersey Americans.

Nos intervalos da aventura americana, Eusébio regressava a Portugal, não para descansar, mas para manter a forma e ganhar mais alguns escudos. Foi assim que jogou no Beira-Mar os seus últimos minutos e marcou os seus últimos golos na primeira divisão portuguesa e foi assim que andou pela segunda divisão a fazer carrinhos pelo União de Tomar, o seu último clube em Portugal. Eram contratos de curta duração. Eusébio e Simões, os irmãos, jogaram juntos até ao fim. Eusébio ainda teve a hipótese de jogar no Sporting, por convite de João Rocha, antes de ir para Aveiro.

No Beira-Mar, Eusébio teve o seu último contacto com o principal escalão do futebol português. Não com a camisola encarnada do Benfica, mas com o equipamento amarelo e negro da equipa aveirense. Pagavam-lhe 50 contos por mês. Dois momentos são importantes nesta breve passagem por Aveiro. Quando defrontou o rival Sporting e o seu clube do coração, o Benfica. Foi contra os “leões” que marcou, a 6 de Março de 1977, o seu último golo na primeira divisão, confirmando o Sporting (a par do Belenenses) como a maior “vítima” dos seus remates certeiros, 24.

Dois meses antes, tinha defrontado as “camisolas berrantes”, como lhes chamava Luís Piçarra na canção que serve como hino das “águias”. Tal como acontecera 20 anos antes em Lourenço Marques, Eusébio tinha de jogar contra si próprio. A 5 de Janeiro de 1977, Eusébio-Benfica, no Estádio Mário Duarte, em Aveiro, a contar para a 12.ª jornada do campeonato. Eusébio não iria ser profissional. “Já tinha avisado o treinador do Beira-Mar, o Manuel de Oliveira, que não ia rematar à baliza. Quinze minutos antes do jogo, fui ao balneário do Benfica e avisei para que não se preocupassem, pois não ia marcar golos. [No jogo] não rematei, não marquei faltas nem grandes penalidades. Andava lá no campo só a passar a bola aos outros.”

Com o jogo empatado 2-2, o Beira-Mar beneficia de um livre à entrada da área que seria mesmo ao jeito de Eusébio. Mas o “Pantera Negra” recusou-se a marcar. Palavra a António Sousa, futuro do FC Porto e do Sporting e internacional português, então um jovem a dar os primeiros passos no Beira-Mar. “O sentimento dele era enorme e jogar contra a equipa do coração e da vida foi marcante para ele. Porventura o mal-estar dele em relação ao próprio jogo era porque ele gostava de ganhar. O facto de o Eusébio não marcar um livre e dizer para eu marcar é sinónimo disso.” Sousa atirou por cima e o jogo acabou empatado.

Depois do Beira-Mar e de mais uma temporada nos EUA, Eusébio foi para o União de Tomar, da segunda divisão. Estreou-se com a camisola vermelha e negra do União a 1 de Dezembro de 1977, frente ao Estoril. Em 12 jogos disputados pelo clube ribatejano, marcou três golos, mas, nesta fase, ele já não era um avançado. Andava mais pelo meio-campo, tal como António Simões. “O nosso estilo era diferente. Já não tínhamos pernas para lá ir, ficávamos mais no meio-campo. Mas o Eusébio, nos livres era igual”, recorda Simões. Em Tomar, até carrinhos fazia.

De Tomar para Buffalo. Buffalo é relevante na vida de Eusébio? É e não é. Em toda a sua carreira é apenas uma nota de rodapé, mas é nesta cidade do estado de Nova Iorque que o irá cumprir os seus últimos jogos. A camisola dos Buffalo Stallions, equipa da Liga indoor norte-americana, será a sua última. Fica o registo do rendimento de Eusébio, veterano avançado de 38 anos e com os joelhos em mau estado, em 1979-80, a sua última época: cinco jogos e um golo.

Quando deixou de ser jogador, Eusébio nunca quis ser treinador principal. Foi ficando pelo Benfica, como adjunto, para ensinar uns truques a diferentes gerações de futebolistas. Por exemplo, como marcar golos estando atrás da baliza, um truque que tinha começado numa aposta com Fernando Riera. Eusébio apostou um fato com o treinador chileno em como conseguia marcar três golos em dez tentativas. O desfecho foi o mesmo das vezes em que apostava berlindes com os outros miúdos da Mafalala. Ganhou.

A lenda foi-se mantendo intacta. “King” em todo o mundo. Ninguém melhor para servir de embaixador do Benfica e de Portugal. Mas o homem passou um mau bocado nos últimos anos de vida, uma decadência natural da idade mas acelerada por alguns excessos. Os seus últimos tempos foram uma constante de alertas médicos e idas para o hospital, que sempre terminavam com um sorriso e a garantia de que tudo estava bem.

Quando fez 70 anos, numa festa com centenas de convidados, Eusébio já era um homem debilitado, de poucas palavras. Mas fazia questão de acompanhar a selecção para todo o lado e estava lá, no Euro 2012, para ver a sua contraparte do século XXI, Cristiano Ronaldo, conduzir a equipa portuguesa até às meias-finais – ao contrário de Ronaldo, Eusébio nunca foi capitão, apenas desempenhou essa função episodicamente. Eusébio sentiu-se mal após o jogo com os checos e já não estava na Ucrânia quando a selecção portuguesa foi eliminada pela Espanha nas meias-finais.


Ele era o homem que todos os guarda-redes temiam, mas também era aquele que cumprimentava os guarda-redes que defendiam os seus remates que pareciam indefensáveis. Ele era o homem que gostava de jazz e de caril de marisco, que almoçava quase diariamente no seu restaurante preferido desde que chegou a Lisboa em 1960, a Adega da Tia Matilde. Foi objecto de uma banda desenhada, de músicas com o seu nome no título e no refrão, de uma longa-metragem, de inúmeras homenagens e distinções, sempre nas listas dos melhores de sempre. Essa é uma equipa onde nunca será suplente.
in Público

Um campeonato mais verde... ou estarão as uvas demasiado verdes?

por A-24, em 23.12.13
Passado quase meio campeonato, o Sporting é um dos líderes, isto a uma jornada dos mais directos rivais se defrontarem. A campanha leonina tem sido motivo das mais variadas análises de quem faz, passe o pleonasmo, da análise profissão, e tem motivado diversas conjecturas e discussões filosóficas, ou até metereológicas, nomeadamente por muitos comentadores desportivos que se mostram preocupados com a falta de chuva neste Outono. A última descoberta da temporada é a falta de qualidade do nosso campeonato, que serve de cabal explicação para o facto de uma equipa que terminou o ano passado em sétimo, e partia para este ano como claro outsider, na melhor das hipóteses, ombrear com os maiores orçamentos da Liga. Ou seja, o primeiro lugar do Sporting, segundo várias explicações, é a prova deste fenómeno, pois numa Liga de elevada qualidade e competitividade, os leões jamais teriam argumentos para tal posição. Em relação a esta questão, há dois pontos que parecem indiscutíveis: primeiro, o nosso campeonato É fraco; segundo, é incrível como certas pessoas só o perceberam quando os Williams e Adriens dão cartas em relação às contratações milionárias. 
Quanto à qualidade e competitividade, não há muito a discutir... cada vez há menos equipas competitivas, cada vez há menos emblemas a apresentar futebol de qualidade. Longe vão os tempos em que ir a Faro, Setúbal ou Guimarães eram autênticos suplícios para os candidatos ao título. Fruto da crise, do desinvestimento, seja do que for, o facto é que os clubes de segundo plano não só não conseguem atrair nomes sonantes (Mladenov, Yekini, por exemplo, eram internacionais em selecções de alto nível), como ainda veem sair elementos para grandes potências desportivas, como o Chipre ou a Roménia. Isto para não falar nas questões de salários em atraso, que prejudicam o desempenho dos jogadores, e que invariavelmente aparecem mais mês menos mês. Os jogos são jogados, há muito, a um ritmo deprimente, com alguns intérpretes a fazerem os espectadores questionarem o porquê de não terem seguido uma carreira de futebolista, os árbitros pouco fazem para que os jogos tenham um mais tempo útil e até apreciam que se jogue a passo de caracol, muitos conjuntos pouco mais fazem do que juntarem os seus homens de modo a reduzir o espaço de jogo e apostarem em lances de bola parada, e os treinadores parecem contentes quando as suas equipas perfazem 90 minutos de um jogo "sério", mesmo que durante esse período não tenham feito o guardião adversário sujar os calções. 
O nosso campeonato é muito, muito fraco, joga-se pouco (em compensação, fala-se muito) e mal, e os espectáculos são na maioria tão apelativos quanto o Branca de Neve, versão João César Monteiro. E esta análise, com a qual nem todos concordarão, leva ao segundo ponto... porquê os jornalistas e analistas apenas "hoje" chegaram a tal conclusão? É que este tem sido o caminho seguido pelo nosso futebol (apenas o Braga tem sido uma excepção, elevando a sua qualidade global) desde há alguns anos para cá. O ano passado, Porto e Benfica passearam, um Paços com um futebol rudimentar ficou em terceiro, e o pior Sporting de que há memória ainda conseguiu lutar por um lugar europeu até ao fim, e essa temporada foi apenas o corolário de uma estrada há muito trilhada, com destino à mediocridade. Porém, sempre nos venderam um campeonato de fino recorte, o quinto melhor da Europa, com "grandes" jogos, executantes notáveis e "competentes" equipas, arrumadinhas e bem orientadas, o que contrasta com a actualidade, em que tudo é questionado, da qualidade das equipas e treinadores, às habilitações dos jogadores que entram em campo, até às arbitragens que não defendem o espectáculo. Esta disparidade de opiniões, entre os tempos em que Benfica e Porto discutiam o título sozinhos e a dois, e estes em que o Sporting se intromete com propriedade na luta, só pode significar uma de duas coisas: ou a qualidade da Liga caiu a pique subitamente, ou então as uvas podem mesmo estar demasiado verdes.
via Visão de Mercado

Tóquio voltará a ser palco dos Jogos Olímpicos, 56 anos depois

por A-24, em 09.09.13
Depois de Madrid ter sido eliminada à primeira volta, a cidade nipónica superou Istambul no desempate. Jogos Olímpicos vão regressar a Tóquio, depois da edição de 1964.

A cidade de Tóquio vai acolher os Jogos Olímpicos de 2020, depois de ter superado Madrid e Istambul na votação do Comité Olímpico Internacional (COI), que decorreu em Buenos Aires.
Depois de Madrid, que divida o favoritismo com Tóquio, ter sido eliminada logo à primeira volta, a cidade nipónica superou Istambul em 24 votos (60-36) e vai acolher os Jogos Olímpicos pela primeira vez desde a edição de 1964, sucedendo ao Rio de Janeiro.
Tóquio, que apresentou a sua quinta candidatura e que há quatro anos tinha perdido para Madrid na primeira volta das votações, também tinha ganho a corrida para as Olimpíadas de 1940, mas a mesma foi retirada devido à II Guerra Mundial, com os Jogos a serem posteriormente cancelados.
Com um orçamento de 6,5 mil milhões de euros, dos quais 3,8 mil milhões serão destinados à construção de 20 das 35 estruturas olímpicas, a candidatura de Tóquio assegura que os problemas com a central nuclear de Fukushima - apontados como o ponto fraco do projeto - foram superados e que "não há risco de poluição, nem contaminação de água ou comida". DN

Vitória com que nem a União Soviética sonhava

por A-24, em 22.07.13
As Universíadas de 2013, realizadas na cidade russa de Kazan, terminam hoje com uma estrondosa e nunca vista vitória dos desportistas da Rússia. Foram tantas as medalhas ganhas pela Rússia que fazem inveja às vitórias soviéticas nas competições internacionais.
Os atletas russos ganharam 292 (!) medalhas: 155 de ouro, 75 de prata e 62 de bronze. O segundo lugar foi para a China com 77 (!) medalhas: 26 de ouro, 29 de prata e 22 de bronze. Os Estados Unidos ficaram apenas em 7º lugar com 40 medalhas: 11 de ouro, 14 de prata e 15 de bronze.

Porém, eu não sou levando a afirmar que esses resultados representam o verdadeiro estado nem do desporto universitário, nem do desporto internacional.

Pelo contrário, eles mostraram que os organizadores da prova estudantil não pouparam esforços para tentar provar os “grandes êxitos do desporto russo”, imitando a União Soviética na utilização do desporto como arma na “guerra fria”.
Para isso, Moscovo recorreu a cerca de 50 medalhados em Jogos Olímpicos e meia centena de “mestres eméritos do desporto da Rússia” para cilindrar os adversários.
Claro que, do ponto de vista da lei, a Rússia cumpriu as normas das Universíadas, acredito que todos os membros da sua equipa ainda sejam estudantes, mas, moralmente, duvido que tenha tomado a melhor das decisões. 
Claro que, para consumo interno, esta vitória está a ser explorada até à exaustão, sendo apresentada como fruto do “patriotismo” e da preocupação das autoridades russas com o desporto.
Porém, a realidade é bem diferente e os resultados das Universíadas estão longe de refletir o verdadeiro estado do desporto russo.
Há muito que competições desportivas como Universíadas, Jogos Olímpicos, etc. se transformaram em meio de luta política a nível mundial, com o emprego de meios tão sujos como o doping. Por isso, não liguei a televisão para ver qualquer competição das Universíadas de 2013 e as bancadas dos estádios não pareciam muito cheias.
Os russos gastaram milhões para vencer, os chineses fazem o mesmo, norte-americanos também... Mas, desta vez, acho que Moscovo exagerou.

José Milhazes

Froome vence Tour de France

por A-24, em 22.07.13
Com os vencedores de todas as classificações da Volta a França já definidos desde a véspera, na 21.ª e última etapa, um dia de consagração para o camisola amarela Chris Froome, só faltava saber quem seria o mais rápido na meta situada nos Campos Elísios. E a novidade foi o triunfo não ter ido para Mark Cavendish, que tinha vencido sempre que participou na derradeira etapa da prova, nos últimos quatro anos. Marcel Kittel voltou a ser melhor e coroou-se o novo rei dos sprints do Tour, uma vez que o sucesso deste domingo foi o quarto do alemão nesta edição.

O homem da Argos-Shimano cumpriu os os últimos 133,5km do tour, entre Versalhes e Paris, em 3h06m14s, superiorizando-se na linha de chegada a André Greipel (Lotto-Belisol) e Cavendish (Omega Pharma-Quick Step), segundo e terceiro, respectivamente.
Não houve trocas de posições entre os primeiros da geral, mas a vantagem final de Froome para os concorrentes mais próximos foi encurtada em 43 segundos, pois o britânico preferiu cortar a meta em ritmo de passeio e abraçado aos restantes colegas da Sky. Assim, a margem final para Nairo Quintana (Movistar) foi de 4m20s, para Joaquim Rodríguez (Katusha) de 5m04s, para Alberto Contador (Saxo-Tinkoff) de 6m27s e para Roman Kreuziger (Saxo-Tinkoff) de 7m27s.
Rui Costa e Sérgio Paulinho chegaram a 10 segundos do vencedor da etapa. O corredor da Movistar foi um dos destaques da prova, ao vencer duas etapas, e terminou no 27.º lugar da geral, a 54m34s de Froome. Quanto a Paulinho, classificou-se em 136.º, a 3h38m58, tendo direito a subir ao pódio devido ao triunfo da Saxo-Tinkoff na classificação colectiva.
Publico

Português vence "corrida mais dura do mundo"

por A-24, em 20.07.13
Boas Notícias

O atleta português Carlos Sá sagrou-se campeão da ultramaratona Badwater, nos Estados Unidos. Trata-se de uma corrida considerada a "mais dura do mundo", que se estende por um percurso de 135 milhas (cerca de 217 quilómetros) entre a baía de Badwater e o monte de Whitney.
De acordo com a Lusa, o atleta de Barcelos dividiu a liderança da prova até à passagem das 90 milhas, mas depois acabou por se isolar na frente da corrida, conseguindo fazer uma gestão do esforço na subida final da competição.
Esta prova, disputada na zona do Vale da Morte, na Califórnia, teve início na baía de Badwater, a uma distância de 86 metros abaixo do nível do mar, e terminou no mone Whitney, a 4.421 metros de altitude, locais que correspondem aos pontos mais baixo e mais alto do território norte-americano, respetivamente.
O atleta de 39 anos já tinha batido este ano o recorde do Mundo com a subida ao Monte Aconcágua, na Argentina, o ponto mais alto da América e de todo o Hemisfério Sul, com 6.962 metros de altitude, e tinha conquistado o sétimo lugar na Maratona das Areias.