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A-24

Real Madrid vs. Barcelona e o poder de 400 milhões

por A-24, em 06.11.14
Via Malomil

A primeira reacção ao resultado do clássico entre o Real Madrid só pode ser … Olé! As razões para vermos este clássico eram muitas. E entre o melhor ataque e a melhor da Liga Espanhola … a vitória do ataque da capital espanhola foi inequívoca.



Carlo Ancelotti calou os críticos e o mesmo pode dizer … Iker Casillas. Eu diria que o momento-chave do jogo foi a defesa do capitão Casillas de um golo quase certo de Leo Messi que teria dado ao Barcelona o 2-0. Mais do que Ronaldo, que marcou de forma impecável o penálti que deu o primeiro golo ao Real Madrid, o que sobressaiu nesta equipa foi justamente o colectivo e o contributo de outras estrelas como Benzema e James. E talvez o terceiro golo simbolize justamente a articulação de uma equipa que vinha sendo criticada neste início de época por ser «apenas» um conjunto de estrelas galácticas. Será difícil fazer esquecer dois jogadores fabulosos como Xabi Alonso e Di Maria mas Carlo Ancelotti tem com esta vitória o caminho mais facilitado para impor as suas ideias num clube que não tem uma estrutura dirigente e massa associativa fácil.
E do lado catalão? Cláudio Bravo foi finalmente batido e por três vezes, Messi não brilhou e Telmo Zarra continua ainda a ser o recordista dos golos na Liga espanhola e o «tridente» deu… um ar da sua graça. Foi dos pés do uruguaio Luís Suárez que saiu o passe para o golo de Neymar. Há quem diga que o Clássico foi «muito cedo» para um jogador que regressa agora aos relvados. Foi uma opção arriscada e Luis Enrique assumiu-a sem complexos mesmo na conferência de imprensa depois do jogo. Diria que este tridente sul-americano vai dar muito que falar tendo em conta a já evidente parceria entre Messi e Neymar e a extraordinária qualidade de Suárez, um jogador com um «instinto assassino» no que toca a golos. Mas foi a opção pelo meio-campo «da casa» que se revelou desastrosa tendo em conta a exibição apagada de Iniesta-Xavi-Busquets. Foi surpreendente Rakitic ter começado o jogo no banco… Depois da derrota em Paris e agora esta em Madrid há quem comece a questionar a capacidade do Barcelona de ganhar «jogos grandes». Luis Enrique não encontrou ainda o seu Barcelona e está agora mais pressionado para fazê-lo. Será fundamental vencer o PSG no dia 10 de Dezembro e o Atlético de Madrid a 10 de Janeiro em Camp Nou.
Para além do jogo há outro aspecto igualmente extraordinário: o «fenómeno mediático global». Este clássico foi transmitido para mais de 100 países e foi visto por 400 milhões de espectadores. Sim, eu repito: 400 milhões. Como explicar este número? Em primeiro lugar estamos a falar dos dois clubes mais valiososdo futebol mundial. De acordo com a Revista Forbes a instituição desportiva mais valiosa do mundo é o Real Madrid com 3440 milhões de dólares, seguido de perto pelo Barcelona com 3200. Depois temos o Manchester United, o Bayern de Munique e … a equipa de basebol dos New York Yankees.


Esta magnitude financeira do Barcelona e do Real Madrid está evidentemente ligada à popularidade do futebol a nível global mas em particular à mediatização da Liga Espanhola. E o que tem o futebol espanhol de tão especial? Penso que para respondermos a esta pergunta temos de olhar para os ingredientes de uma rivalidade a vários níveis e também para o sucesso do Barcelona na formação de talentos espanhóise a sua afirmação enquanto potência europeia.
A rivalidade desportiva entre o Barcelona e o Real Madrid é um espelho das tensões políticas e da história da própria Espanha. Hoje em dia, a questão da independência catalã está na ordem do dia como atesta a controvérsia à volta do referendo, agora inviabilizado pelo Tribunal Constitucional e transformado em consulta popular, do próximo dia 9 de Novembro. Para percebermos melhor o contexto desta questão temos que recuar no tempo. A Catalunha tem uma história multisecular enquanto entidade política e cultural tendo sido absorvida no século XV através do casamento de Fernando de Aragão com Isabel de Castela. A forte tradição de autonomia política e, paralelamente, a manutenção de uma identidade cultural e linguística própria fizeram da Catalunha uma dor de cabeça para os vários reis espanhóis. Foi justamente a uma das suas revoltas que os portugueses devem, em grande parte, a restauração da sua independência em 1640. A esta forte identidade histórica temos que juntar o período franquista para podermos compreender o impacto da rivalidade entre os dois grandes clubes espanhóis.

Franco não foi diferente de outros ditadores e considerou o futebol fundamental para o triunfo do seu regime quer interna quer externamente, um tema ao qual voltarei mais tarde. Do ponto de vista interno associou o projecto de centralização política a um clube da capital: o Real Madrid. Ao longo dos anos promoveu de forma consistente este clube como exemplo do que a sua Espanha deveria ser em detrimento de outros como, por exemplo, os bascos do Athletic e os catalães do Barcelona. Esta abordagem reflectia a opressão intransigente dos vários símbolos regionais e a supremacia do castelhano enquanto língua. O sucesso do Real Madrid a nível externo com a conquista das cinco primeiras Taças dos Clubes Campeões Europeus (que em 1992/93 deu origem à Liga dos Campões) deu a Franco uma ajuda importante no combate à marginalização política do seu regime. Esta foi a equipa do fabuloso Di Stéfano e de jogadores não menos fabulosos que Puskás.
No entanto, ao trazer o futebol para o domínio da política Franco acabou por reforçar justamente o papel de clubes como o Barcelona enquanto símbolos. Dito de outra forma o Barcelona passou realmente a ser «mais do que um clube»: representante da Catalunha e da resistência à ditadura.


Com a morte de Franco uma das questões mais complexas da democracia espanhola foi como lidar com a questão regional. Na tentativa de agradar a todos a Constituição de 1978 acabou por consagrar a existência da nação espanhola e de «nacionalidades». Nas décadas seguintes a Catalunha manteve o seu desenvolvimento económico ao mesmo tempo que reforçou as suas tradições e a língua catalã. A Catalunha é uma região rica em Espanha e ao mesmo tempo orgulhosa da sua história. Se tivesse que escolher os melhores símbolos desta dupla condição optaria pela organização dos Jogos Olímpicos em 1992 e FC Barcelona.

É neste contexto que o sucesso do Barcelona é particularmente relevante. Em primeiro lugar a nível europeu com a conquista da sua primeira «Liga dos Campões» em 1991/1992 sob a liderança de Johan Cruyff, em 2005/2006 com Frank Rijkaard e as duas de Guardiola em 2008/2009 e 2010/2011. Paralelamente, o Real Madrid depois de 32 anos de jejum desde 1966 conquistou o «Olimpo» em 1997/1998 e depois em 1999/2000, 2001/2002 e no último ano a sua Décima. Ao longo destes tempos a rivalidade foi subindo de tom. Ainda me lembro como se fosse hoje do barulho ensurdecedor ao som de pesetero com que Luís Figo foi recebido em Barcelona enquanto jogador do … Real Madrid.
Mas foi a equipa do Barcelona a coluna vertebral da selecção espanhola que nos deu seis anos de futebol de outro mundo e que se sagrou campeã da Europa em 2008 e 2012 e Campeã do Mundo em 2010 na Africa do Sul. Não quero reduzir a aposta estratégica da Federação Espanhola na formação de jovens e a sua ligação aos clubes ao Barcelona mas, sem dúvida, que nesta matéria La Masia é a rainha das academias. São muitos os jogadores espanhóis que de lá saíram e (continuam a sair): Cesc Fabregas, Pedro Rodriguez, Victor Valdes, Gerard Pique, Sergio Busquets, Carles Puyol e, em especial, Andrés Iniesta e Xavi Hernandez. Estes dois médios entraram respectivamente aos 12 e aos 10 anos na academia do Barcelona. Deste modo, a aposta na formação de talentos espanhóis pelo Barcelona beneficiou e muito a selecção espanhola e foi uma peça importante na popularidade do futebol espanhol e da sua liga.
Há ainda um factor final à rivalidade entre o Real Madrid e o Barcelona: a «luta» entre Cristiano Ronaldo e Lionel Messi. O percurso de ambos foi diferente. O argentino Leo Messi é um produto La Masia onde chegou aos 13 anos enquanto Cristiano Ronaldo chegou a Madrid em 2009. O percurso notável do número 7 madridista e o numero 10 culétornou-os símbolos do Real Madrid e Barcelona e ingredientes cruciais para a rivalidade mais mediática do mundo.

Raquel Vaz-Pinto