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A-24

Mário Soares e a comunicação social

por A-24, em 28.11.14
John Wolf in Estado Sentido
Mário Soares não acredita em Portugal. Mário Soares não tem fé nas instituições que ele próprio ajudou a dar à luz. Mário Soares insulta o cidadão comum e o tribunal de instrução criminal - ofende o Estado de Direito e enxovalha a Democracia. Mário Soares serve-se da sua condição para furar as regras de visita ao estabelecimento prisional. E Mário Soares tem medo. Mário Soares apresenta-se amparado por uma enfermeira, mas ainda tem fôlego para ser brejeiro e dar uma péssima imagem de um ex-Presidente da República. José Sócrates faz o que qualquer acusado faz - defende-se, e irá servir-se de todos os argumentos para o fazer. É natural que o faça, mas contradiz-se de um modo flagrante. Se o caso é político, como afirma, não pode ser exclusivamente pessoal - uma perseguição individual. Ou seja, sendo um processo político, diz respeito ao Partido Socialista. Mas há mais. Se José Sócrates considera que as imputações são injustas, está a aceitar a figura de imputação, embora não concorde com o grau da admoestação. Ou seja, a culpabilidade está presente nas suas primeiras linhas de defesa, difundidas pela TSF e o jornal Público. Podemos ter a certeza de que o special one vai usar a sua coragem extraordinária para montar uma PIDS (Polícia Internacional de Defesa do Sócrates). Isto vai dar pano para mangas.

Bruno Alves n'O Insurgente
Ao contrário do Miguel Noronha, não deixo de comentar as declarações de Mário Soares à porta da prisão onde este visitou o preso preventivo José Sócrates. Como seria de esperar, as declarações indignaram uma série de gente, o que se compreende, dado o seu teor inenarrável. Mas o que me indignou – passe o exagero – a mim foi a atitude da comunicação social, que, ao lhe dar atenção e destaque, explora um senhor de idade bastante avançada e – aparentemente, pelo menos – com cada vez maior debilidade, aproveitando-se dessa sua condição e do carácter bombástico das suas declarações para encher a sua programação noticiosa e criar ruído para a continuar a alimentar. Quem leia isto talvez ache que estou a atacar Soares de forma meio irónica e velada, criticando a comunicação social só para usar a oportunidade de chamar “senil” a Soares. Não estou. Acho verdadeiramente impressionantes e condenáveis as imagens de um senhor de quase 90 anos a ver a sua natural debilidade a ser explorada por uns senhores que deviam ter maior responsabilidade (para não falar em consideração pelas pessoas: também eles tiveram ou têm pais e avós que chegaram ou vão chegar aquela idade; também eles terão um dia aquela idade), mas que dão prioridade a terem rastilho para uma polémica que, como bem sabem, aquelas palavras iriam criar.

Pregões

por A-24, em 27.11.14
Aí há uns meses, porque a filha de D. Juan Carlos, a Infanta Cristina, foi indiciada num processo judicial de corrupção e branqueamento de capitais, alguma esquerda portuguesa reclamou, mesmo antes de findo o processo e confirmadas, ou não, as suspeitas que recaiam sobre a princesa, o fim da monarquia espanhola. Agora que recaem sobre um recém ex-primeiro-ministro de Portugal idênticas suspeições, também pretendem o fim da nossa república?


Podemos: o “populismo de esquerda” que emerge em Espanha

por A-24, em 26.11.14
Público


Chama-se Podemos — Yes we can — e foi a sensação das eleições europeias em Espanha. Formado há três meses, com um programa qualificado de “populismo de esquerda”, conquistou 1,2 milhões de votos (9,7%) e elegeu cinco eurodeputados — passa a ser a quarta força política espanhola. Tem um rosto: Pablo Iglesias, 35 anos, intelectual marxista, professor de Ciência Política na Universidade Complutense de Madrid e vedeta da televisão.


O seu sucesso assentou na mobilização do que resta do movimento dos “indignados” do 15-M (15 de Maio de 2011) e, sobretudo, na penetração no eleitorado socialista. Propõe-se “transformar a indignação em mudança política”. Mas Iglesias visa mais alto. Quer o voto daquela “gente humilde que historicamente depositou a sua confiança no PSOE e se sente muito decepcionada porque há uma distância enorme entre o que o PSOE propõe e o que depois faz”. Quer “reinventar a democracia e criar um processo constituinte”. Estas eleições confirmaram o desgaste dos grandes partidos, o PP e o PSOE, assim como o fim anunciado do bipartidarismo. É nesta brecha que Iglesias aposta.

Um ar populista
Dias antes da votação, interrogava-se no El País o politólogo José Ignacio Torreblanca: “Podemos é um partido populista?” Deixava a resposta em aberto. Sublinhava a ambiguidade do projecto. “Por um lado, Pablo Iglesias pede nada menos do que a derrogação do Tratado de Lisboa [de 2007], a saída do euro, a suspensão do pagamento da dívida (default), a nacionalização da banca e de quase todos os sectores estratégicos da economia. (...) Mas, ao derrogar o Tratado de Lisboa, não ficaria em vigor o Tratado de Maastricht, que é precisamente o que criou o euro? E a saída do euro? Suporia o regresso a uma peseta desvalorizada?”
Lendo o programa eleitoral do Podemos, “não aparece a palavra euro uma única vez”, nem se analisam as alternativas e as consequências sobre os espanhóis. “Qual é o verdadeiro programa? O do Podemos ou o de Pablo Iglesias? Qual deles é o populista?” Torreblanca pedia uma clarificação.
Numa entrevista na véspera da votação, Iglesias “arredondou” a resposta: “A recuperação da soberania na política monetária — que é o que propomos — implica a formulação de uma estratégia com outros países do Sul da Europa, que estão numa situação similar [à nossa]. O que é claro é que este euro não nos serve.” Saída do euro? “É um cenário de ficção política.” O que interessa é a reestruturação da dívida.”
A campanha eleitoral passou ao lado do euro e concentrou-se noutros temas: denúncia da corrupção e da “casta” política, crescimento, emprego, reestruturação da dívida pública “ilegítima”, fim dos despejos de casas, proibição de deslocalizações para fora da Europa. “O debate não é entre esquerda e direita mas entre a casta política e os cidadãos”, proclamava Iglesias. Outro tema foi o ataque cerrado a Merkel: “Não podemos ser uma colónia da Alemanha”; ou “os alemães querem fazer de nós os seus criados.
Falando numa “política do futuro”, Iglesias evocava também a Revolução Francesa: “A Europa é governada por absolutistas, e nós vamos ser os seussans-cullottes.”

“El Gato al agua”
Pablo Iglesias não tem este nome por acaso: é uma homenagem ao Pablo Iglesias fundador do PSOE, em 1879. Militou nas Juventudes Comunistas entre os 14 e os 21 anos. Passou depois pelos movimentos alternativos e antiglobalização. Estudou o movimento zapatista. Doutorou-se em Direito e Ciência Política na Complutense.
Lançou-se numa carreira mediática, primeiro em canais de baixa audiência, onde foi comentador, apresentador, entrevistador. Procurava novas formas de comunicação política, disse ao El País. As grandes estações de televisão começaram a sentir-se atraídas pelas opiniões dos que participavam nessas tertúlias — os programas de debate político na Espanha.
“A chave das tertúlias — explica Iglesias ao El Confidencial — é que são os espaços mais poderosos de combate político. É mais importante o que se discute nas tertúlias do que o que se debate no Parlamento. A maioria das pessoas forma a sua opinião a partir do que ouve na televisão. (...) E a crise politizou muito a sociedade.
Sintetiza o El Mundo: “O 25 de Abril de 2013 foi o dia em que começou a mudar a política espanhola sem que ninguém desse conta.” Nessa noite, Iglesias foi convidado como “tertuliano” no programa ‘El Gato al agua’ da televisão (conservadora) Intereconomia. Bastou uma aparição para que todos os canais se batessem por o ter o “tertuliano rojo” nos seus debates. Treze meses depois, converte-se na grande revelação eleitoral e faz uma “entrada triunfal na esfera do poder”.

“Leninismo digital”
“Tanto a ascensão de Marine Le Pen em França como a surpresa espanhola do Podemos são sintomas do mesmo descontentamento”, anota o jornalista e escritor Juan Soto Ivars. “E partilham muito mais do que a ambos agradaria.”
Enric Juliana, do La Vanguardia, faz uma análise irónica do fenómeno: “Um intelectual marxista que saltou dos livros para o plasma, infiltrando-se nas tertúlias mais ruidosas com a astúcia de um bochevique do soviete de Petrogrado”.
“Enquanto a Esquerda Unida permanece nas mãos da velha guarda comunista (...) o círculo de leitores de Slavoj Zizek [filósofo marxista esloveno) idealizava o partido de novo tipo. O Partido da indignação. O partido da raiva social. O Podemos é leninismo digital.”
“Deixaram perplexo o PSOE e deram uma alegria ao PP”. Confessou ao La Vanguardia um alto dirigente popular: “Tivemos sorte por o Podemos ter capitalizado boa parte do voto de protesto; sem o Podemos, o PSOE podia ter-nos ganho as eleições.”

José Sócrates, uma luzinha que se apaga

por A-24, em 26.11.14
«Não sejamos ingénuos: um ex-primeiro ministro que é detido para interrogatório à noite, à porta de um aeroporto, por agentes destacados num automóvel à paisana, é um político previamente condenado ao ostracismo. Há feridas na imagem que são irreparáveis para quem depende da confiança dos eleitores. Por muito que José Sócrates não seja acusado de coisa nenhuma, ainda que seja capaz de explicar em público quais são as suspeitas que sobre ele impendem e como ele as esvaziou perante a Justiça, o que lhe aconteceu nas últimas horas é um golpe fundo na sua credibilidade política e um tiro mortal no seu polémico legado. Não, o problema não está na diligência judicial em si mesma – nenhum cidadão inocente está livre de ser suspeito e de ser detido e interrogado. O problema é que a detenção de José Sócrates é o epílogo de uma longa série de relações perigosas com casos que, muitas vezes, ficaram longe do esclarecimento total. A necessidade de, um dia, ter de se explicar na Justiça estava escrita nas estrelas.
Da sua casa no centro de Lisboa às assinaturas em obras para efeitos de licenças municipais, do Freeport ao estranho caso da licenciatura ou às escutas no processo Face Oculta, José Sócrates sempre teve à sua volta a auréola do homem público a agir nas margens da legalidade. Até ao dia de ontem, ele e os seus defensores sempre puderam argumentar, com razão, que em causa estavam invenções que a Justiça se encarregara de negar, que era vítima da perseguição da imprensa ou do ódio de muitos dos que tiveram de se confrontar com a sua personalidade dura e teimosa. Ontem, esta construção desfez-se e deu consistência a todas as dúvidas e suspeitas que se foram levantando nos últimos anos. Mesmo que os casos anteriores tenham ficado encerrados pelo arquivamento preliminar ou pelo despacho burocrático de altas figuras como a do ex-presidente do Supremo Tribunal de Justiça, que mandou destruir as escutas do caso Face Oculta, Sócrates e a lei têm finalmente uma oportunidade de pôr tudo em pratos limpos.»

É discutível que tenha havido necessidade de deter José Sócrates no aeroporto (em tese, João Soares tem razão ao dizer que se tratou de uma “tentativa de humilhação”), é censurável que essa detenção tenha sido previamente comunicada à imprensa, mas em processos desta sensibilidade há sempre erros e melhores opções que acabaram por não ser tomadas. De resto, nós não sabemos que avaliações os magistrados fizeram à consistência e gravidade dos indícios de corrupção ou de branqueamento de capitais. Desconhecemos se recearam o perigo de fuga. E nem nos passa pela cabeça até que ponto consideraram a possibilidade de contactos entre os arguidos como uma fonte de contaminação do processo. Conhecendo o que se conhece, o que está em curso é apenas uma diligência normal, um interrogatório que, se agrava as suspeitas que sempre pairaram na imprensa ou em muitos círculos políticos e judiciais, está longe de poder servir para se acusar ou ainda menos condenar José Sócrates do que quer que seja.

Há ainda assim quem queira ver nesta diligência judicial uma cabala política montada pelo sistema judicial. A personalidade de Sócrates reúne todas as condições para que a irracionalidade prospere neste debate. O ex-primeiro ministro é uma daquelas personalidades vincadas que uns veneram e outros tantos detestam com a mesma veemência. Não há meio-termo. Os seus fervorosos apoiantes tenderão ver nesta história apenas mais um golpe desferido num actor político que foi golpeado desde que surgiu na corrida pelo PS - Edite Estrela insinuava ontem que em causa estava apenas uma tentativa de fazer esquecer o escândalo dos vistos gold. Os que o odeiam verão na sua detenção para interrogatório a confirmação do seu juízo e, aconteça o que acontecer, José Sócrates estará para eles condenado ad eternum.

Nenhuma das hostes tem razão, embora nesta fase do processo o maior perigo venha daqueles que, sem conhecerem os factos em profundidade, tendem a condenar José Sócrates apenas com a escassa luz da sua emoção. Mas vale a pena notar que muitas das palavras críticas ou suspeitosas que ontem se dirigiram aos magistrados representam uma contradição com o que o clamor nacional que nos últimos anos se fez ouvir contra uma Justiça incapaz de julgar os poderosos. Não é por aí que se vai a lado algum. A maioria dos portugueses que assiste perplexa ao soçobrar moral do regime deve certamente preferir uma Justiça que ousa e revela segurança sobre si mesmo do que uma Justiça complexada, burocrática e temerosa dos poderes instituídos. Como então se suspeitou, há um antes e um depois da sentença do caso Face Oculta.

Enroladas nas teias que teceu sobre si próprio, ou que deixou tecer nas suas relações profissionais e de patrocínio político, as suspeitas sobre Sócrates marcam o fim de uma era. Os anos 10 do século XXI acabam com um desastre financeiro e com a hecatombe política do seu mais emblemático governante. Os estilhaços do que está a acontecer vão abalar duramente um PS apostado em conciliar o que se veio a tornar inconciliável: um passado, um Governo e um nome contaminados pela suspeição e um presente e um futuro que têm de ser diferentes. A parte do PS que, por generosidade sentimento de justiça ou inocência, acreditava na recuperação de Sócrates como um activo político percebeu agora que a sua memória não está apenas associada ao ajustamento financeiro; está igualmente a ser alvo de um ajustamento ético pela via judicial.

Dizer que José Sócrates está para todo o sempre perdido para a política é ainda assim um absurdo que transporta implícita a sua culpa e a sua condenação. Não é assim. Ele não é por ora acusado de nada e pode sair do interrogatório completamente ilibado. Mas é difícil acreditar que nos próximos anos ele possa ser reabilitado para o que quer que seja. Uma detenção num aeroporto feita à noite e a sua passagem pela prisão por horas que seja criaram um poderoso anátema que vai levar anos a superar. O simples facto de haver um juiz capaz de decretar a detenção de um ex-primeiro ministro deixará sempre no ar a existência de fortes indícios de que algo correu mal na sua relação com a lei. Sócrates, que outrora organizava conferências de imprensa para se defender dos ataques da imprensa, é hoje um político sem futuro próximo, um activo tóxico que retira credibilidade a uma parte significativa do actual PS e dá razão póstuma a António José Seguro. Depois do escândalo com os visto gold e da perda de um dos seus melhores ministros, Pedro Passos Coelho não podia esperar melhor.

Sócrates nos Jornais de hoje

por A-24, em 23.11.14










Monopólio circense

por A-24, em 18.11.14
Vítor Cunha in Blasfémias


Portugal não precisa de um Syriza ou Podemos enquanto tiver o Partido Socialista na oposição. A parte que interessa nesses partidos-zeitgeist é dizer larachas com unicórnios para uma população descontente e saudosista de uma miséria comunista que nunca viveu e uma arrogância de generation gap tardio quando os meses sem sol inviabilizam a esplanada marítima. Uma espécie de Aum Shinrikyo sem acesso a gás sarin, só à TV, em competição com As Tardes da Júlia e a terceira telenovela da noite, a Dentro de Ti Vejo um Mar de Bílis. Em Portugal, o PS faz essa função sozinho, esvaziando até o bicéfalo Bloco de ambições nas áreas pós-modernistas e altamente fracturantes, tais como o aborto de transexuais ou a eutanásia de católicos.
Tudo muda quando chegam ao poder. É o “pântano”, o “choque fiscal”, o “choque tecnológico”, a 10ª revisão da sustentabilidade por mais 200 anos da Segurança Social feita a menos de 4 anos da anterior revisão de sustentabilidade que garantiria 500 anos… Mas, tirando um ou outro saloio que acredita mais na divindade de si próprio que nas larachas proferidas, lá regressam os mercenários do voto ao mainstream social-democrata falido no preciso momento em que chegam à gamela, enquanto der, enquanto chegar, enquanto não rebentar outra vez e adeusinho, “adoro-vos a todos” mas tenho mesmo que partir naquela estrada onde um dia cheguei a sorrir, rumo ao comentário político er… independente.
O Bloco tem uma intenção de voto que ronda os 4,5%, o Podemos espanhol uns 25%. O que isto demonstra é uma maturidade século XXI do eleitorado português: dispensam novos palhaços quando os velhos pantomineiros chegam perfeitamente para o efeito pretendido.

Miguel Macedo demitiu-se - e vão ter pena dele

por A-24, em 17.11.14
PEDRO SANTOS GUERREIRO

Afinal ainda há ministros que se demitem. Afinal ainda há consequências políticas. Afinal um escândalo de Estado ainda é um escândalo do governo. A demissão de Miguel Macedo só não era óbvia porque Passos Coelho segura todos os seus ministros. Provavelmente, para se segurar a si.
A decisão de Miguel Macedo de abandonar o governo embaraça Paula Teixeira da Cruz e Nuno Crato por não terem feito o mesmo. E deixa Passos não só fragilizado pela crise governativa mas mais sozinho: Macedo era um dos ministros mais populares do governo na exata medida em que era um dos mais discretos - e dos melhores; e era um esteio político imprescindível de Passos Coelho. Do trio indefetível Passos-Relvas-Macedo, dois caíram. Mas voltemos ao escândalo.
O escândalo é a Operação Labirinto, que já levou à detenção e interrogatório de 11 suspeitos, que terão criado uma rede de corrupção na aprovação dos chamados "vistos gold". Entre esses suspeitos estão altos quadros do Estado. Pela primeira vez um chefe de uma polícia foi detido. Mas o problema de Miguel Macedo não era só esse. Nem era só um. Eram pelo menos quatro.
Há pelo menos quatro pessoas no centro deste escândalo que têm relação com Miguel Macedo, ou foram nomeadas por ele ou sócios dele (é aliás notável como tantos políticos têm empresas de consultoria de empresas e de imobiliário, mas essa é matéria para outras análises). O SEF e o INR estão sob pressão, o SIS e a PJ estão em tensão. E portanto Miguel Macedo demite-se para "defender a autoridade de Estado".
Esta posição de Miguel Macedo serve-lhe de biombo reputacional, o que se percebe. Não sendo suspeito de nada, também não será doravante investigado por nada. Além disso, quem se demite nestas condições tende a ser percebido como honrado, numa pré-absolvição. É como se uma demissão por razões políticas fosse uma imolação pessoal por danos causados por terceiros.
Acontece que este caso não é bem assim. A criação de "vistos gold" foi uma decisão política, teve implementação política e tem controlo político. Estes vistos são um negócio, em que o Estado vende direitos de cidadania no espaço europeu a quem pague pelo menos meio milhão de euros, em que agentes imobiliários vendem casas e outros agentes angariam clientes, em que políticos como Paulo Portas ou dirigentes como Miguel Frasquilho promovem no estrangeiro abundantemente para "atrair investimento" que na prática é compra de casas caras.
As suspeitas que hoje existem e as informações já recolhidas por jornalistas mostram uma súcia que envolve quadros do Estado e à volta do Estado, com negócios intermediados por agentes e advogados, funcionários a receber dinheiro por debaixo da mesa, comissões e facilitações. Não é coisa pouca. E mesmo que tudo isso se tenha passado sem intervenção de um ministro, passou-se debaixo das barbas que ele não tem. A responsabilidade política existe, sim. Se um governo falha criando negócios vulneráveis à corrupção, ela própria participada por pessoas do Estado e próximas da política, está a prestar serviços de incompetência que aproveitam a alguém em detrimento da sociedade.
O ministro é inocente e fez bem em demitir-se. Mas apenas abriu a porta da rua por onde mais algumas pessoas vão ter de passar. Andamos empanturrados com tantos escândalos. Mas não acostumados a eles.

António Costa não é de esquerda

por A-24, em 15.11.14
Rui Ramos

Em Portugal, já não há direita e esquerda, mas só governo e oposição, isto é, os que têm de se reger pelo dinheiro que há, e os que podem fingir que não tem de ser assim.
António Costa revelou a sua Agenda para a Década, e foi uma alegria entre o jornalismo de esquerda. Aplausos, simpatia, adesão. Sinceramente, não percebo. É verdade: a Agenda condena muitas vezes a “austeridade”. Mas Manuela Ferreira Leite e Bagão Félix também. O texto de Costa não é um texto de esquerda. É um texto de oposição. Não pode, por isso, ser lido separadamente do Orçamento da Câmara de Lisboa. E o que está aí? Impostos, cortes, privatizações – a austeridade que a Agenda condena. É então Costa de direita quando está à varanda do município? Não. Não há um Costa de esquerda e um Costa de direita. Há um Costa na oposição e um Costa no governo (municipal).
Isto é o PS, dirão alguns. Não, não é o PS. Ou não é só o PS. São todos os partidos. O PCP também é uma coisa no parlamento, e outra na Câmara de Loures, onde Bernardino Soares poupa e corta. Mas o próprio PSD também foi outra coisa na oposição ao último governo socialista, durante o desfile dos PECs entre 2010 e 2011: rejeitava então a “austeridade” (a não ser para as “gorduras” do Estado) e acreditava no “crescimento” como verdadeira solução. Porque o PSD era, há três anos, um partido de esquerda? Não, porque o PSD estava na oposição, sem os constrangimentos do governo.
Lembremos a evolução dos impostos directos per capita nos últimos dez anos: 1094 euros em 2001; 1096 em 2005; 1425 em 2011; 1665 em 2013 (recorde). Lembremos a progressão da despesa social: 4,8 mil milhões de euros em 2001; 8,6 em 2005; 11,2 em 2011; 13,8 em 2013 (outro recorde). Onde está o “neo-liberalismo”, que, a crer na oposição, já “destruiu” o Estado social? Onde estão, na escalada consistente de despesas e de impostos durante quinze anos, as mudanças para a esquerda ou as viragens para a direita, que tanto entusiasmam ou afligem os editorialistas da nação? Os números não têm cores partidárias.
O governo do país está apertado numa prensa implacável, de que uma das peças é a falta de dinheiro, e outra os défices do Estado social. Nenhuma declaração de fé ideológica, só por si, chegará para aliviar a pressão. Contra a falta de dinheiro, nem o comunismo funcionou: em 1989, o muro de Berlim também caiu porque a Alemanha comunista estava à beira da insolvência e prestes a impor uma austeridade que, segundo os seus economistas, iria reduzir o nível de vida entre 25% a 30%. Contra a ascensão da “despesa social”, nem a lendária Margaret Thatcher foi totalmente efectiva: durante os seus governos, a despesa pública no Reino Unido subiu, em média, 1,1% ao ano — e só a grande expansão económica permitiu que diminuísse em termos do PIB. Não vale a pena esperar que alguém em Portugal invente o que ninguém inventou. Os nossos comunistas não são melhores do que os alemães de leste, nem os nosso liberais mais finos do que os ingleses. A falta de dinheiro traduz a falta de crédito de uma economia que não cresce e de uma sociedade a envelhecer. Os desequilíbrios do Estado social não são facilmente corrigíveis, quando, como o Dr. Medina Carreira observava há dias, 80% dos pensionistas recebem 1000 euros ou menos por mês, o que quer dizer que quaisquer reduções seriam imediatamente ressentidas.
Não estou a dizer que esquerda e direita desapareceram. Continuam a existir como polos filosóficos ou referências sentimentais. Mas a crise tirou-lhes relevância política. Sim, António Costa deve ser de esquerda. Depois de mais de trinta anos no Partido Socialista, não pode ser outra coisa. Mas esquerda e direita só fazem politicamente sentido quando há margem para opções, isto é, quando o risco de bancarrota ou de ruptura social não é suficientemente forte para obrigar liberais a aumentar impostos ou socialistas a vender património público (chamando-lhe, é verdade, “activos não estratégicos”).
No Portugal de hoje, já não há direita e esquerda, mas apenas governo e oposição, ou seja: de um lado, aqueles que, no governo, têm de se reger pelo dinheiro e pela despesa que há; e do outro, os que, na oposição, podem fingir que não tem de ser assim.

Depois de Obama vem o quê?

por A-24, em 12.11.14
Rui Ramos

A ascensão e queda de Obama é um aviso de que carisma e inteligência, mesmo à frente da maior potência, não bastam para dar ao planeta a sensação de controle e direcção.
E pronto, a era de Barack Obama parece ter chegado ao fim. Não vale a pena esperar mais: era só isto que havia para ver. Hoje, é difícil recordar a onda de credulidade que o levou à presidência. Bush era, então, o único problema do cosmos. Barack Obama, que antes mesmo de fazer fosse o que fosse já tinha um Nobel da Paz, ia mudar tudo: reconciliar o mundo com o poder americano, pôr os partidos de acordo, aproximar os grupos étnicos nos EUA. Ao fim de seis anos, nada é como previsto. Nunca se falou tanto das fracturas raciais na América, nunca a polarização política foi tão forte, e nunca, desde 1989, a primazia americana no mundo foi tão contestada. No Iraque, Obama teve de voltar à guerra, invocando aliás a autorização dada a Bush. Afinal, Bush não era o único problema, e portanto Obama não pôde ser a solução.
Mesmo antes de conhecidos os resultados, já alguém lembrava que os votantes brancos do sexo masculino, sempre os mais imunes ao obamismo, constituem geralmente uma percentagem maior do eleitorado em eleições intercalares: mas resta explicar porque é que os outros não apareceram. Obama é hoje um dos mais impopulares presidentes americanos de sempre. Os candidatos democratas tentaram distanciar-se dele, e os candidatos republicanos procuraram fazer destas eleições um referendo ao presidente.
De certa maneira, a presidência de Obama tem sido a negação dos pressupostos da sua eleição. Eleito por organizações de base, assentes nas redes sociais, revelou-se um chefe de Estado remoto, pomposo e autoritário, sem paciência para negociar compromissos e atreito a abusar do poder executivo, como fizera Bush. Promovido pela ideia do “sim, podemos”, pouco mais fez do que correr atrás de crises, sem direcção nem esperança.
O que vem a seguir? Não é claro o que será a agenda da nova maioria republicana. A sua força no senado não é suficiente para contornar a obstrução da minoria democrata ou vetos presidenciais. Bastar-lhes-á minar Obama e preparar a rotação no governo em 2016? Tentarão provar que são capazes de consensos transversais? Limitar-se-ão a sabotar o acordo com o Irão? A verdade é que os partidos americanos não são iguais aos europeus e o que a América elegeu foram umas dezenas de empresários políticos locais, cada um com os seus compromissos e ambições. Ninguém sabe com toda a certeza o que podem fazer.
Criou-se o hábito de conceber a história política do século XX em termos de grandes ciclos: o do “consenso social democrata”, da década de 1930 à década de 1970, e depois, o do “consenso liberal”, desde então. Todos esses ciclos foram iniciados por uma eleição: a de Roosevelt em 1932, no meio da Grande Depressão, e a de Reagan em 1980, no meio da Grande Inflação. O problema destes eventos eleitorais americanos é que nos últimos anos insistimos em submetê-los à astrologia política, a ver se revelam o próximo ciclo.
Em 2004, quando Bush foi reeleito, muitos republicanos decidiram que o novo século ia ser conservador. Nos quatro anos seguintes, os republicanos perderam a maioria no congresso (2006) e a presidência (2008). Em 2008, veio Obama, no meio de uma Grande Recessão, e os democratas decretaram logo o fim do “liberalismo económico”. A ilusão durou dois anos. Em 2010, um movimento anda mais libertário tirou-lhes a maioria na Câmara dos Representantes. Mas em 2012, nada disso chegou para remover Obama da Casa Branca. Da mesma maneira, a vitória republicana de ontem não é necessariamente o bilhete para a presidência em 2016, e muito menos para uma nova era conservadora. Pode apenas querer dizer, como alguns já argumentaram, que o Partido Republicanoestá a tornar-se mais regional (legislativo) do que nacional (presidencial).

É a economia, como gostava de dizer Clinton? Na América, o défice baixou, o desemprego diminuiu, o preço dos combustíveis desceu – mas nada disso dissipou a grande insegurança gerada pela crise de 2008. É tentador culpar os líderes políticos por esta incerteza. Mas a verdade é que o mundo está a passar por uma das maiores transformações de sempre, com o envelhecimento do Ocidente e a ascensão económica da China. Ninguém sabe ao certo como vai ser daqui a uns anos, e as velhas ideologias do século XIX de que ainda vivemos não ajudam a ver mais longe.

A ascensão e queda de Obama é um aviso de que carisma e inteligência, mesmo à frente da maior potência, não bastam para dar ao planeta a sensação de controle e direcção. O mundo está a mudar tanto, que uma eleição já não muda o mundo.

Um comediante que tenta ser ministro?

por A-24, em 10.11.14
Fernando Sobral

«Dentro de António Pires de Lima, acredita-se, há um político sério que se procura libertar. Entretanto, temos um comediante que tenta ser ministro. Nada que admire neste Portugal que oscila entre ser um "reality show" deprimente e uma "stand-up comedy" patrocinada pelo Governo. (...)
Pires de Lima
Sabe-se que um político do século XXI não precisa de dizer coisas importantes. Pode até alterar a história a seu favor, confundindo Michael Phelps com Catherine Deneuve. Mas é isso que torna ainda mais brilhante a prestação de Pires de Lima no Parlamento. Ele conseguiu criar a verdadeira sociedade do espectáculo, que os Situacionistas tentaram em vão impor na França de 1968. Transformou a economia numa "stand-up comedy". Depois disso a análise política séria sobre a economia tornou-se uma piada de café. Em que alguém conta piadas para se rir sozinho.
Pires de Lima abriu as portas de par em par para que gerir a economia em Portugal se torne uma galhofa. No fundo, ele, depois da sua prestação no Parlamento, mostrou que deseja ser aliviado das suas responsabilidades governamentais. Para se dedicar à comédia, a sua vocação há muito reprimida.»